Pesquisar este blog

sábado, maio 17, 2014

O que você precisa saber sobre consultas a Ifá

(Parte 3/5)


A questão de ire e osogbo


Este texto não tem objetivo de explicar sobre o conteúdo da consulta e sim fazer recomendações e explicações gerais para quem vai a uma consulta. Mas, mesmo com este sentido não dá para não comentar sobre o estado do odù, devido a alta significância disso na relação de consumo cliente – babalawo. 

Após o Babalawo determinar o odù principal ele deve determinar se ele veio trazendo ire ou osogbo / ibi. 


Muitos se referem a esta parte do processo sendo como determinar se ele está positivo ou negativo. Minha visão disso é diferente e vou explicar a seguir. Esta diferença de entendimento, que estou propondo agora, é significativa como um fator importante que afeta a relação consulente-Babalawo. 

Como já ocorre no candomblé e com outros videntes, o jogo é apenas a porta de entrada para outros negócios. Vocês nunca devem perder esta perspectiva de negócio que está envolvida porque isso é, de fato, o que determina o resultado de muitos jogos. Entender isso facilita o entendimento do comportamento associado às pessoas nesta atividade oracular.

Não é a expectativa do olhador que o atende (seja ele Babalawo ou outro) que a relação entre vocês se conclua com a consulta ao oráculo. Quem vai a um oráculo é porque tem problemas, não vai ali para bater papo, e o olhador é acima de tudo um profissional para resolver problemas através do supernatural. Para a muitos Babalawos, o que ele faz não é um sacerdócio, bom, também é um sacerdócio (da forma como ele gostaria de se ver), mas sem nenhuma dúvida é uma profissão, ou também um negócio. 


O valor da consulta sempre leva em consideração o valor de mercado dela,mas não é com isso que o Babalawo se mantêm. O mais relevante é a perspectiva de fazer novos negócios, de ebós a iniciações, após a consulta (como resultado dela). Isso é igual ao valor do jornal em uma banca de jornal. O valor que a gente paga não deve cobrir o custo do papel. O que permite o jornal ser impresso e circular são os anúncios que ele contém. Também como a TV que é de graça para nós, mas mantida pelos anunciantes. 


A gente vê na praça videntes que dizem que a consulta dele tem um valor mínimo, incentivando assim as pessoas a procurá-lo. De fato, a consulta tem mesmo um valor baixo, na verdade o trabalho de venda dele será sobre o psicológico do consulente em função do que ele vai ver no jogo (sendo criativo ou não). Ele vai trabalhar as ambições e medos do consulente, independente dos problemas (e gravidade) que eles tenha de fato. Afirmo que essas pessoas são boas no que fazem, isto é, induzir as pessoas a gastarem dinheiro em trabalhos com eles e muitas vezes são também muito boas na sua vidência.

Outras inovam, dizem que o valor da consulta já inclui o trabalho posterior. Isso é só marketing. Tomem cuidado.


Com o Babalawo não é diferente. 


Como eu disse toda consulta a Ifá leva a um ebó, claro, existem os casos que pode não ser necessário, mas o normal é ter mesmo e prefiro me dirigir a regra e não a exceção. A questão de ter o ebó é parte da estrutura do oráculo e é perfeitamente normal e esperado.
Devemos, em primeiro lugar, considerar que a consulta a Ifá já é um ebó. Esta é uma grande diferença entre ifá e outros oráculos.


A origem disto está na teologia explicada no inicio deste texto. Orunmilá é o eleri ipin, o testemunho do nosso destino. Vamos a Ifá para recorrer a Olodumare através de Orumilá, quando precisamos de uma orientação em nossa vida para poder cumprir o nosso destino (ou objetivo de vida). Olodumare responde através de um odù. O odù não é apenas um sinal ou desenho, os sinais o representam, mas, uma consulta feita com um Babalawo, traz o odù como a energia que Olodumare envia para nos ajudar. O odù é o axé de Olodumare que desde o momento da consulta através de Orumilá, Exu e principalmente dos orixá se manifestará na nossa vida.


O trabalho do Babalawo é ser o intermediário disso e posteriormente, através do ebó conduzir e manipular este axé para que ele se manifeste em sua plenitude na vida de vocês e não seja perdido. O Babalawo é um intermediário desta operação assim como o são os orixás que se apresentarão para ajudar a pessoa.


Quando Olodumare criou o aiye ele sabia que a vida teria interesses mas também dificuldades causadas pelos ajogun e ajé. Ele também sabe que o processo de nascimento pode ter falhas desde a escolha do Ori até a concepção física. Para que as pessoas pudessem superar tudo isso ele criou ifá. Ifá contém a palavra de Olodumare através dos seus versos e também os signos através das marcas de odù. Essas coisas transmitem o axé do Olodumare para as pessoas, as palavras de ifá rezadas a partir dos versos Invocam ou transportam o axé de Olodumare.


Desta maneira a própria consulta já é um ebó. Por isso é importante o uso de ikin e por isso o Babalawo deve rezar o odu que sai na consulta.


Toda esta explicação teológica é para dizer que não concordo com a visão ou forma de explicar, não importa, que as pessoas usam, inclusive as que se dizem Babalawo, de que um odù traz uma negatividade e por isso o ebó é necessário, sem o que a pessoa ficaria com a negatividade com ela.


Essa visão sempre existiu no candomblé, com os babalorixás tocando o terror com os odu, dizendo que tal odu era terrível, o outro provocava isso ou aquilo, levando às pessoas a crerem que eles, os odù, eram uma coisa ruim que agarrava em você e você tinha que se livrar dela.


Isso continua em Ifá, após sacar o odù o babalawo deve determinar se ele vem no estado de bênção, ou ire, ou de mal, ibi. Os cubanos não usam a palavra ibi, usam osogbo, que significa que, não é ire. As palavras mudam mas são usadas da mesma forma.


O uso desta interpretação de odù positivo ou negativo visa sempre o mesmo, induzir o consulente a fazer o ebó. Como Babalawo eu digo que você deve fazer o ebó recomendado. O odu e o ebó são uma resposta divina a sua súplica. Não fazer é desperdiçar o axé que Olodumare envia para você a seu pedido, uma vez que, se você vai a Ifá é porque pede ajuda.


Apesar disso eu, como todo mundo, sei que o objetivo do vidente, olhador ou Babalawo é que você faca o ebó. Existe uma transação mercantil em curso entre você e ele, e ele não quer de você apenas o valor da consulta, ele quer muito mais. A consulta é uma porta aberta às oportunidades. Esta é uma sombra que não pode ser ignorada nesse processo.


Em função disso é que o entendimento da orientação do odù é importante, porque esta interpretação é o principal motor das ações direcionadas ao consulente.


Cada um deve avaliar no que acredita, o que eu posso fazer é dar a minha visão. Neste sentido minha interpretação é que um odu sempre é positivo porque ele é axé. O problema já está com você, o odu sempre vem para ajudá-lo. Se você não fizer o ebó vai ter desperdiçado o axé. Também não descarto em alguns casos, principalmente em Ire algum desequilíbrio temporário, porque axé demais também atrapalha.


Na minha visão quando o odù vem em ire ele traz bênçãos para você, axé para impulsionar sua vida, ajudá-lo a melhorar, realizar algo, etc... Quando ele vem em ibi (também chamado de osogbo ou ayewo) ele vem para retirar ou neutralizar um mal que o ronda, uma sombra em você, etc... o axé do odù será usado para zerar sua conta, deixá-lo sem a influência da energia negativa ou da eminência de uma situação desfavorável.


Dessa maneira odù sempre é uma energia boa. Ele pode vir para alavancar sua vida ou para retirar a negatividade que já existe.


Minha visão da religião é sempre positiva. Os orixá estão sempre para nos ajudar, para trazer o bem para nós. Eu não mistifico situações, não vejo orixás exigindo coisas, cobrando coisas ou punindo que não os adora. Vivo bem e sem problemas com essa minha visão. A teoria na prática é a mesma, ou melhor, o rito e a teologia são o mesmo.


Assim eu recomendo que não se assustem com essa questão de ire ou osogbo. Nenhum mal foi jogado sobre suas cabeças. Acreditem no oráculo, sigam as recomendações tenham fé em deus e nos orixá. Mas, vocês não precisam de gente prevendo o fim do mundo. Ajam com prudência e fiquem de olho vivo nas espertezas. Depois da consulta decidam o que querem fazer. Se a pessoa que consultaram não passou confiança ou o ambiente que ele está ou que se cerca não é confortável para vocês, não façam nada. Não aumente o tamanho do seu problema.


Decidam com racionalidade o que querem fazer. Não tomem decisões por medo.

Quando e falar, a seguir, sobre escolha de ebós, vocês vão fechar o entendimento de porque é importante a definição de Ire / osogbo.

O uso de ìbò

A questão de Ìbò é um pouco técnico e mais profundo e não sei se todos vão compreender, mas, é importante comentar.

Uma das coisas que mais torna ifá um oráculo interessante para o consulente é o uso dos ìbò (ibô). Os ibô são objetos que o Babalawo coloca em ambas as mãos do consulente e este os embaralha colocando cada um e uma mão mas escondidos do babalawo, que não deve saber em qual mão está cada Ìbò. O objetivo deles é servir para responder as dezenas perguntas de sim ou não que surgem durante a consulta. 


Um dos objetos significa SIM e o outro significa NÃO. A cada pergunta os objetos são novamente embaralhados. O Babalawo define às cegas qual a mão o consulente deve abrir e, em função do conteúdo da mão, o tipo do ìbò, a pergunta será respondida com SIM ou com NÃO. O que o Babalawo faz é usar os ikins ou opele para, através da ordem de senioridade dos odu determinar que mão deve ser aberta. O ìbò determina a resposta., mas, o Babalawo não sabe a resposta antes da mão ser aberta.


Observem que é um trabalho colaborativa. Ifá diz ao Babalawo qual mão deve ser aberta. Porém foi o consulente que colocou sem a ciência do Babalawo, o ìbò que determina SIM ou NÃO. A resposta é o resultado do trabalho de ambos.


Chamamos isso de interação entre o oráculo e o Orí do consulente. Usando dessa maneira o Babalawo não pode manipular as respostas, mas, acima de tudo o consulente participa do oráculo.


Os tipos de objetos são trocados de acordo com o tipo de pergunta, normalmente o objeto que significa NÃO é o mesmo, o que vai significar o SIM em cada pergunta é que muda. O objetivo do uso disso é fazer com que o oráculo interaja com o Orí com consulente, seu orixá individual e protetor. 


Existem Babalawos que estão deixando de usar isso. Existe uma forma de fazer o processo sem o ibô, que o Babalawo emprega quando esta sozinho ou jogando para ele mesmo. O que noto e que esta simplificação acaba atraindo as pessoas. Veja, já é uma simplificação usar o opele, será uma maior ainda você dispensar o ibô. Claro que as pessoas tem explicações para isso, mas racionalizar é um processo fácil. O complicado é fazer o que deve ser feito.