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quarta-feira, maio 21, 2014

O que você precisa saber sobre consultas a Ifá

(Parte 4/5)

A escolha de ebós e oferendas


Após o Babalawo ter determinado o tipo e origem do estado do odù, ele parte para definir o ebó. Esta definição pode variar entre tradições, escolas e ramas, mas basicamente passa por determinar primeiro os elementos que serão necessários no ebó de ifá e se além disso será necessária alguma oferenda para uma ou mais divindades que se apresentarem para te ajudar. 

O ebó de ifá é feito em cima do opon ifá, o tabuleiro de ifá e é um processo composto de muitas rezas. A quantidade de elementos é bem menor do que comparado com o que se faz no candomblé e sua preparação bem mais simples.


As oferendas para divindades são convertidas em axé para você, orixá não come, quem come é seu corpo. Mas existe também o caso onde a oferenda é usada para aplacar ou afastar ajoguns ou ajés. Essas oferendas podem ser comidas votivas ou animais. Não existe regra, cada caso é um caso.


O grande problema nesta fase é o exagero. As pessoas pecam pelo excesso, assim, em vez de oferecerem pouco ou o mínimo necessário, iniciam oferecendo muito e fazendo questão de incluir animais. Não existe erro se a oferta é feita e o oráculo aprova. Contudo poderia também ter aceitado muito menos.


As coisas que alertei no assunto anterior, sobre os estados de Ire ou Osogbo e a forma de ver isso, interpretar isso e explicar isso ao cliente repercute aqui. Sem dúvida serão os "graves" casos de osogbo de determinarão muitos ebós e com muitas coisas. Por isso que expliquei a questão da orientação do Odù,
O que esta envolvido em grandes oferendas é sempre a mesma coisa, o vil metal, o dinheiro. Custa mais em material e custa mais na remuneração pelo serviço de executar aquilo. Quanto mais pessoas envolvidas, mais dinheiro. Ifá é diferente do candomblé neste aspecto. No candomblé as pessoas trabalham para a casa de forma que sempre a casa é quem recebe. Em Ifá no modelo cubano, não tem essa de casa e egbé. Cada um que vai la recebe para isso.


Eu digo que você deve fazer o que o oráculo indica, nem mais nem menos. Entretanto, dosar o que vai ser oferecido para aprovação é que são elas. Como eu alertei antes, toda vez que tem dinheiro envolvido você deve ficar atento. Isso, o dinheiro, muda tudo.


Na hora de determinar o ebó eu penso que sempre se começa com o pouco. Gradativamente se adiciona e uso de animais somente em último caso. Não que eu seja desses preocupado com animais, não sou, minha preocupação é com o consulente.


Não faça ebó como falta de opção. Faça se quiser e se confia na pessoa. Você pode desistir a qualquer momento.


A minha recomendação mais importante e valiosa é esta: se um ebó deu certo não adianta voltar lá pedindo um reforço. Não adianta fazer mais ebós ou fazer ebós maiores e mais complexos. Você não ganhará mais por isso. O ebó funciona na medida certa do que tem quer ser. Também traz o resultado certo que tem que trazer. Seria muito fácil se fosse assim, quanto mais ebó mais resultados, todo babalawo e babalorixá seria rico.
 


Uso de estórias na interpretação


A coisa mais importante em Ifá são as histórias dos odu. Elas são que tem as mensagens para o consulente. A consulta será tão boa e precisa quanto o babalawo se dedicar explorar e entender as estórias.

Você poderá encontrar Babalawos que não se preocupam com as estórias. Isso ocorre porque nos tratados cubanos existem 2 tipos de informação. Existem uma série de pré – interpretações associadas a cada odu. Muitas pessoas se preocupam apenas em aprender isso fazendo que a consulta com elas fique muito objetiva. Os odus saem e elas já saem dizendo o que é o problema e, com suas respostas elas vão ajustando a interpretação delas. Como o ebó já foi tirado ela só precisa equalizar com você uma situação que você concorde, ai acabou.


Esse formato é igual ao dos babalorixás de candomblé. Eles fazem consultas com búzios de 15 minutos.


Mas ifá não é assim, ou melhor, não deve ser assim.


Você deve ouvir as estórias e interpretá-las junto com o Babalawo associando as estórias a sua vida. As boas histórias deixam lições importantes para você. Acima de tudo o próprio consulente é quem analisa se aquela estória se encaixa na vida dele. O Babalawo, através da visão do consulente sobre a estória consegue captar o que aflige aquela pessoa, quais são seus temores e os valores que ela tem.


A estória permite você avaliar sua vida e seu comportamento, suas ações e realizações. Ao se espelhar nos personagens e situações, você tem a oportunidade de fazer uma auto – avaliação. 


A percepção deste conjunto de coisas permite ao Babalawo entender de fato a origem dos problemas do indivíduo. Ajudá-lo a entender a origem é o que permite a essa pessoa corrigir sua vida. As pessoas não conseguem por si só ver essa causa raiz. Elas veem os problemas que tem como uma conspiração da vida e das pessoas ao seu sucesso. Elas buscam no jogo alguém que, então, resolva esses problemas com ela, esses problemas que não são dela e que estão atrapalhando sua felicidade.


O Babalawo de verdade estará em uma consulta sempre de olho nas causas raiz, buscará aquilo que Ifá tem a falar aquela pessoa e que está ligada ao destino dela. Por isso que eu digo que teologia é importante. Orunmilá é o eleri ipin, o testemunho do nosso destino, o que ele tem de relevante a falar para nós esta ligado a isso e é esta característica que personaliza ifá. 


As pessoas vão a Ifá com um problema, mas, na consulta, ifá vai falar o que é importante para você saber. Depois o Babalawo endereça o seu problema, mas, Ifá diz as pessoas aquilo que elas precisam ouvir para serem felizes e realizar o seu objetivo de vida.


O Babalawo que em vez de focar nisso se ocupa com o imediato, não realiza a sua função como representante de Orunmilá. Esse viés de interpretação é objetivo mas não é um bom ifá. Para fazer isso vá a um jogo de búzios ou cartas que eles vão ser até melhores.
 

Babalawos determinando orixá em jogo.


Não tem nada pior, mais idiota e baixo do que babalawo que se mete a, em consulta a Ifá, dizer orixá e coisas de orixá, seja para abiãs como iniciados. Isso é um hábito ruim, sem ética e desprovido de fundamento.


Isso sempre foi feito pelos olhadores de búzios, babalorixás ou não. Nunca prestou para nada, sempre foi motivo de piadas e sempre foi baseado em arquétipos. As poucas vezes que alguém acertava era apenas coincidência. O objetivo disso sempre foi comercial. O olhador busca através disso, da determinação de orixá, de pegadas que permitam a ele prender o interesse do consulente, fazer ele voltar e comprar mais coisas dele. Orixá sempre é um gancho muito bom, as pessoas adoram, igual horóscopo.


A pessoa vai para uma simples consulta de búzios e já sai dali com orixá, qualidade e juntó. É mole? Ninguém com 3 neurônios pode acreditar nisso. Para que a feitura? Para que os ritos de feitura? Quem passa por uma feitura ou participa entende facilmente a bobagem que é essa coisa de orixá em jogo. Falo de feituras de verdade, não essa coisa de 7 dias.


No caso de ifá o que mais encontro é Babalawo que não sabe nada de orixá, dizem que sabe, falam que sabem, acham que sabem, mas acreditam que só porque virou Babalawo se transforma automaticamente em especialista. Especialista de coisa nenhuma. Alguns são pessoas que podem até ter convivido em uma casa de candomblé visto e aprendido alguma coisa ou até bastante, mas, não eram e não serão babalorixás. Não adianta se comportar como um babalorixá frustrado, e como Babalawo querer fazer aquilo que cabe a um babalorixá de direito e com propriedade para lidar com isso.


Outros, nunca foram de candomblé, nunca conviveram em um terreiro. A pessoa entra pela porta lateral de ifá, sem saber nada, é instruído em algumas coisas de lukumi e passa a se achar alguma coisa. Inicialmente eu digo que o lukumi está mais para uma umbanda omoloko melhorada do que para um candomblé, mas isso é apenas minha opinião idiota. Os cubanos não podem responder a isso porque eles não conhecem nem candomblé, nem omoloko e muito menos umbanda. Assim eles nem sabem o que eu estou falando.


Contudo aceito que pessoas antigas de lukumi, cubanos nascidos e feitos nesta tradição conheçam orixá, do jeito deles, mas conhecem. Os ritos lukumi são muito sérios e é uma tradição de orixá com história e esás.


Entretanto, brasileiros que entram com o bonde andando, sem formação e experiência nada sabem de nada. Não se pode comparar um lukumi que cresceu dentro disso e um brasileiro que cai de paraquedas nisso.


Essas pessoas, brasileiros, não conhecem nem o lukumi e muito menos o candomblé, fazem o mesmo que o pessoal de umbanda que vai para o candomblé faz, mistura uma coisa com a outra e sai tocando como se fossem gente de verdade.


Dessa forma cuidado ao darem ouvidos a Babalawos quando se trata de orixá. Não é a praia dele.