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domingo, maio 19, 2013

Teologia Yorùbá

O Cosmo Yoruba - Parte 8

A presença de Olódùmarè 


Olódùmarè, não é nem onisciente nem onipresente. Essas características, apesar de propaladas por muitos autores não aparecem nos versos de Ifá. Alguns autores africanos dão essas qualidades a ele, o que é muito natural de se esperar em um deus  supremo e reflexo do deus abraâmico, mas, não encontrei o que justificasse essa afirmação nos versos de Ifá que já li. De fato vi o contrário. Entendo que muitos desses autores, principalmente os primeiros, tiveram uma formação escolar cristã, a maior parte deles eram reverendos (o que não deprecia suas obras), e o conceito do deus cristão domina um pouco suas mentes.

Sei que essa afirmação vai incomodar muita gente. Inúmeros são os que repetem isso principalmente porque essa afirmação estava contida em obras dos primeiros autores sobre a religião Yoruba, fossem eles europeus ou mesmo africanso, mas, o que eu afirmo é baseado no que eu observei por eu mesmo e não o que eu copiei de outros.

Olódùmarè toma conhecimento e partido das coisas a partir da informação que recebe das divindades que encarrega disso, notadamente Exú (Èṣù) e Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà). Os assuntos são levados a ele.

Apesar disso, Olódùmarè não é um deus distante, como muitos gostam de afirmar. Existe uma densa e consistente teogonia que nos assiste e acompanha nossa vida, como veremos mais adiante. De forma alguma somos desassistidos pelo divino. O que existe é um modelo diferente e que reflete a sociedade tradicional Yorùbá e que cria em torno de nós, de fato, o contrário, uma camada de superproteção.

Essa qualificação, de deus distante foi dada por ocidentais que encontraram um modelo cosmogônico distinto do que eles estão acostumados, visto que, eles, consideram o deus cristão, Jeová, é onipresente, onisciente e rezam diretamente para ele. Essa onipresença e onisciência é uma visão romântica visto que, o cristianismo, por exemplo, não tem nenhum instrumento que demonstre a real preocupação do divino com eles e que os permita interagir com esse divino.

O que eles tem é um modelo passivo no qual você ora e aguarda, acreditando que deus vai agir por você. No modelo cristão o mal, pode interagir diretamente na vida deles, é uma presença constante, mas o divino não tem essa obrigação. Basicamente eles tem que se conformar com a afirmação de que no fim da vida deles, quando morrerem vão encontrar com deus e  ter a sua paz eterna.

A religião Yorùbá pensa diferente, precisamos ser felizes aqui e agora. Olódùmarè se preocupa com isso e coloca ao nosso redor um vasto conjunto de divindade, meios de comunicação e meios de correção de problemas. Assim, Olódùmarè pode ser tudo, menos um deus distante.  Esta teia de proteção vai ficar clara mais à frente.

Os yorubanos, explicam, que assim é a sociedade deles. Existe em todos os níveis uma larga cadeia de hierarquia que funciona e deve ser respeitada. Desta forma, como eles explicam, você quando tem um problema não vai diretamente ao Rei reclamar ou pedir por você.  Você tem uma hierarquia de pessoas a quem recorrer. O Rei assiste sua população através de seus representantes e ministros.

Olódùmarè colocou os orixá (Òrìṣà) para cuidarem de nossa vida no àiyé. Somos protegidos e assistidos por seus ministros, os orixá (Òrìṣà). São eles que cuidam da gente e é usando os orixá (Òrìṣà), Exú (Èṣù)   e Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà)  que Olódùmarè sabe o que ocorre com a gente e passa aos seus ministros o poder para nos ajudar.

Quando os assuntos são levados a Olódùmarè este tem como saber a verdade que esta envolvida em tudo o que é dito e feito. Mesmo não sendo onisciente, Olódùmarè é quem pode saber o que reside em nosso coração, ele sabe exatamente quem somos, o que pensamos e o que queremos.

Entre Olódùmarè e os habitantes do Órun (ọ̀run) e do àiyé existem intermediários. São esses intermediários que, quando necessário trazem os assuntos a Olódùmarè. Todo o nosso relacionamento dentro desta religião é feito através das divindade que representam Olódùmarè.

Este modelo reflete o modelo da  própria sociedade Yorùbá. Quanto mais importante e mais velho, menos pessoas tem acesso e mais esse acesso é feito por intermediários. Assim o modelo do cosmo não é diferente do próprio modelo da sociedade.

Todo o culto religioso às divindades é feito às divindades que Olódùmarè colocou para representá-lo. Nesta e em qualquer religião são cultuadas as divindades a quem podemos recorrer. Nenhum liturgia ou oferenda é feita a Olódùmarè, ele não precisa e nem intercede. Quem intercede são os seus ministros.

Olódùmarè esta sempre presente em nossa lembrança e rezas, sabemos que ele é o poder supremo, mas, nunca o tememos. Olódùmarè e seus ministros são puro amor.
Longe de ser um deus distante, Olódùmarè cria todas as condições para que sejamos felizes nesta vida. O compromisso de Olódùmarè é com a nossa felicidade e com o nosso destino em cada momento de nossa vida.

Olódùmarè é o único responsável por nos dar a vida. É ele quem unicamente tem o poder de dar o sopro da vida à nossa forma humana que é moldada por Orixá nla (Òrìṣà nla). Além disso ele nos da o nosso axé (aṣẹ́) e nossa centelha divina, nossa virtude divina, o pedaço único que Olódùmarè coloca em todos nós.

Não existe a referência que somos feitos sua imagem e semelhança. Quem constrói nossa aparência é Orixá nla (Òrìṣà nla) – Ọ̀ṣàlá. Ele constrói nosso corpo Ajalá constrói nossa cabeça. 



A SEGUIR:  OLODUMARE, O NOME