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sexta-feira, abril 19, 2013

Teologia Yorùbá

O Cosmo Yoruba - Parte 4




A cultura oral

Para justificar essas afirmações que faço, transcrevo a seguir 2 trechos do corpo literário de Ifá. O primeiro é parte do mito da criação a gênese Yorùbá no qual Olódùmarè cria o mundo e dá para os orixá (Òrìṣà) a missão de criar o mundo físico e torná-lo habitável pelos seres vivos.

Para os que não sabem, a religião é baseada em uma cultura oral que foi de alguma forma preservada entre das dezenas de gerações e recentemente (seculo XIX e XX) documentada de forma a ser preservada. Cultura oral significa que o conhecimento era passado de pessoa a pessoa, de forma oral, e guardado na memória das pessoas. O povo Yorùbá perdeu um degrau importante em sua evolução, que foi a falta de um sistema de escrita.

Este processo oral possibilita que coisas sejam esquecidas (perdidas) ou que variações, intencionais ou não, surjam em histórias e mitos.

Não existe mito registrado que explique a origem de tudo. Em algum momento, Olódùmarè decidiu criar o Àiyé, mas, a existência perene dele, Olódùmarè mesmo e do próprio Órun (ọ̀run) não são referenciados. Contudo devemos lembrar que religião não é história e qualquer tentativa de estruturar a existência de tudo através dela é inútil.

 
Religião é uma referência de fé na existência humana baseado em valores humanos elevados e voltada para formar pessoas melhores. Todo o modelo religioso é um modelo metafísico e suas histórias são metáforas da existência real, voltadas para transmitir para as pessoas o que se espera delas.Dentro deste contexto de cultura oral, a qual teve tardiamente documentada em escritos o seu conhecimento e tradições, temos que ser cuidadosos com o que ouvimos e lemos. O cuidado deve-se à facilidade neste ambiente de nos depararmos com histórias inventadas (que não fazem parte da tradição histórica); histórias que foram modificadas intencionalmente ou casualmente; histórias de contexto restrito a uma região.
 
Em função disso temos que, sempre que possível, validar a história ou informação usando fontes distintas. As vezes não é possível obter duas fontes autenticamente distintas que registram ou transmitem a mesma história em diferentes versões. Nesse caso temos que usar o bom senso para avaliar se aquela história esta no formato adequado e dentro do contexto de outras que se conhece.
 
Discutir as fontes de informação, ou melhor, questioná-las tem sido uma diversão recorrente de novos autores que acham que eles são os confiáveis e tornam os anteriores não confiáveis. Apesar dessa crítica ter sido útil em um momento, principalmente em função da qualidade de alguns dos primeiros autores, mais recentemente tem sido apenas um trabalho de autoafirmação e destruição, que serve apenas aos críticas no sentido de estabelecer suas teses como verdadeiras.
 
Eu já perdi a conta de livros sobre a religião Yorùbá nos quais o autor começa com a mesma historinha de que os anteriores não compreendiam o que os nativos falavam. Começou a perder a graça quando eles passaram a falar deles mesmos, nativos, usando os mesmos argumentos.
 
A documentação escrita da cultura, história e religião Yorùbá é bem recente, data do século 19. Os primeiros autores se enquadravam nas seguintes categorias: exploradores e viajantes; missionários cristãos e antropologistas.
 
Nas 2 primeiras categorias os relatos muitas vezes incluíam ilações que transmitiam um desconhecimento do povo e cultura. Muitos casos eram apenas preconceito. No segundo grupo havia comumente o preconceito e a sua motivação profissional de desvalorizar a cultura do povo, principalmente a religião, para impor a sua.
 
Por fim o terceiro grupo nem sempre presou pela ética e probidade científica, assim, apesar de sua maior capacidade de descrever o que viam, muitas associações eram inadequadas e falta de aprofundamento com o povo que avaliavam produziu desvios. Pierre Verger se dedicou bastante ao trabalho de mapear os autores e obras de modo a desconstruir uma imagem negativa do povo e da religião.
 
Esses esclarecimentos são necessários para que entendam em um aspecto a forma como as teses sobre este assunto serão colocadas neste texto. Junto com afirmações, tenho também que mostrar alguma evidência de fontes confiáveis.
 
Em outro aspecto, quem lê sobre esta religião deve ficar atento ao fato de que muita gente escreve ou transcreve material ruim e pouco confiável, invenções que o bom senso mostram que não tem credibilidade ou que são apenas a visão de uma fonte única. Eu mesmo tenho o cuidado de não usar algumas fontes que até me são simpáticas, mas que não pude validar aquele entendimento.

Enfim essa tradição oral acabou gerando alguns problemas para a religião. Ao ler esse texto você deve esquecer um pouco as diversas versões e histórias qie já lei ou ouviu sobre a mesma coisa. Faz de conta que é a primeira vez. O volume de coisa inventada e errada é muito grande.



A SEGUIR:  A GÊNESE YORUBA...  (antes do feriado...)