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segunda-feira, abril 08, 2013

Teologia Yorùbá

O Cosmo Yoruba - Parte 2

O modelo teogônico


Para falarmos de uma religião iniciamos no topo da pirâmide. E neste topo esta Olódùmarè a divindade suprema Yorùbá. Esta divindade exerce a supremacia sobre todo o cosmo Yorùbá. Ela criou o cosmo, tudo dela se originou e ela controla o funcionamento das coisas naturais.

Essas afirmações que faço são fartamente documentadas em mitos e versos de Ifá, alguns deles serão transcritos aqui.

Todas as demais divindades se originam de Olódùmarè, sendo emanações do seu poder. Elas recebem de Olódùmarè o seu poder divino, seu axé (aṣẹ́). Não existe divindade que compartilhe com Olódùmarè o seu poder e supremacia.

Não existe na religião Yorùbá um verso ou mito (vamos entender mais à frente a importância deste tipo de referência) que descreva Olódùmarè criando os orixá (Òrìṣà) e as demais divindades. A gênese descreve a criação do Àiyé, o Órun (ọ̀run) fica à margem dessa gênese. O domínio de Olódùmarè sobre o Órun (ọ̀run) e a criação deste por ele é uma ilação baseada nas características do poder supremo de Olódùmarè.

Esta estrutura inicialmente descrita já coloca a religião Yorùbá distante da classificação de uma religião politeísta. Ela não é politeísta.

Em termos de definição, para uma religião ser politeísta, segundo Paul Tillich (Systematic Theology, Vol. I):

Politeísmo é um conceito qualitativo e não quantitativo. Não é uma crença em uma pluralidade de divindades e sim a falta de uma instância unificadora e transcendente é que determina a sua característica.

Não importa a quantidade de divindades e sim a qualidade delas e de sua relação. Em uma religião politeísta não existe uma divindade superior as demais, todas tem o mesmo poder e não existe assim uma força reguladora do conjunto.

A religião Yorùbá, assim como muitas outras religiões, não é politeísta porque existe uma relação bem clara de hierarquia entre Olódùmarè e as demais divindades. Possuir muitas divindades, originais ou divinizadas não transforma uma religião em politeísta, senão, o catolicismo com seus santos e sua trindade divina também seriam, mas ninguém ousa dizer isso.

A religião Yorùbá é Henoteísta. Esta classificação cobre as religiões que creem em muitas divindades mas somente uma delas é a divindade suprema. Esta classificação é apenas um detalhe, visto que esta definição, Henoteísta, é bastante flexível para que, dependendo dos olhos de quem avalia, até mesmo religiões consideradas politeístas poderiam de alguma forma também serem Henoteísta.

Assim, o nome da classificação não interessa. Duas coisas importam. A primeira coisa importante é saber que existe uma divindade suprema e que a hierarquia dela sobre as demais esta muito acima da força ou do respeito ou da liderança, trata-se de gênese e poder. A qualidade desta relação é que nos permite classificar como uma religião não Politeísta.

Discutir o que leva ou levou as pessoas a classificar esta religião de politeísta não passa apenas por uma questão técnica como estou resumindo até aqui. Existem causas mais profundas.

Uma das coisas que complicou bastante o entendimento das pessoas a cerca das religiões foi a hegemonia do modelo cristão no ocidente, com a extinção de outras religiões, não pela supremacia de um modelo teológico mais confortável para as pessoas e sim pela perseguição da espada.

Para tornar as coisas mais complicadas, como parte deste processo e emburrecimento, a igreja católica criou uma denominação genérica e sem nenhum significado real, de PAGÃO, para qualquer outra religião que não fosse Abraâmica, ou seja, que tivesse origem em Abraão o patriarca que gerou as correntes do Judaísmo, cristianismo e islamismo.

Estas 3 religiões competem pela posse do mesmo deus e tem a mesma origem. Os Judeus não reconhecem mais ninguém, afinal eles é que são os escolhidos. Os cristãos, que nasceram judeus, reconhecem uma das partes do judaísmo que é o antigo testamento e por fim, os muçulmanos, os mais recentes, século VII, reconhecem tudo das anteriores, inclusive Jesus, mas não a trindade católica.

Dessa maneira ao longos dos últimos séculos, eles tem se matado e a outros inocentes, sempre em nome do mesmo deus sanguinolento, Jeová.

Para os Cristão, que dominaram o mundo à força da espada, aliás como também o fizeram os judeus no seu tempo, o que não era católico era Pagão. Eles só não tiveram coragem de chamar os Judeus de Pagãos, mas criaram o termo herético, para aqueles que divergissem da interpretação teológica oficial de Roma... Assim, pagão, não tem significado religioso, significa tudo o que não e católico.

Os abraâmicos consideram o seu deus, Jeová, o único, e defenestram qualquer outro tipo de manifestação religiosa. A partir do século XV a igreja católica baniu toda as praticas que mostrassem similaridades com simpatias, encantamentos e feitiços. A igreja medieval era totalmente esotérica, mas para se afastar disso eles baniram completamente essas práticas, de modo a poderem a partir do século XV dominar os seus fiéis através do temor ao mal, ao diabo e a perseguição ao pecado.

Estudiosos do aspecto do Mal na religião correlacionam o surgimento da força do diabo com a necessidade de um controle mais rigoroso da sociedade pela forma política, uma vez que, esse temor (ao diabo) e domínio (o pecado), não existiam anteriormente. Igualmente isso coincidiu com os papas generais, guerreiros que literalmente com a espada na mão construíram a Igreja que conhecemos hoje.

O próprio celibato, que não havia, dizem, foi devido a igreja passar a ter posses. Eles não queriam se envolver em disputas judiciais com esposas de padres, bispos e papas. Enfim, a força da reforma, de Lutero e Calvino, obrigou a igreja a mudar sua posição e adotar políticas mais ativas e restritivas ao seu clero.

No centro de todo este conflito ficaram outras religiões, politeístas ou não, que tinham uma interpretação diferente da divindade e dos seus poderes e de outras que não eram politeístas, mas, não eram abraâmicas. Essas religiões, todas em um mesmo saco, passaram a ser então a tradução da palavra paganismo.

Segundo Idowu, em seu livro African Traditional Religion, “... Paganismo, é provavelmente o mais antigo dos nomes adotados para descrever a religião dos então chamados primitivos ou incivilizados povos do mundo. Esta palavra tem origem no Latin – Pagnus – e significa originalmente habitantes de vilas ou homens do campo, uma pessoa que vive fora da comunidade civilizada. Dessa forma, originalmente, a palavra er um termo sociológico, um marco para distinguir entre o iluminado, o civilizado e o sofisticado, de uma via, e o rústico, não sofisticado e bruto por outra.”

Pesquisas em dicionários vão mostrar como comum o significado de não ser cristão, aquilo que não é judeu, católico ou muçulmano. De fato estaremos ligando esses 2 significados, o de não ser cristão com o de ser associado a povos primitivos, rústicos e selvagens.

Teologicamente falando, Pagão é apenas um pejorativo. Não designa nada e não traduz nada. Significa apenas o antônimo de algo bom.

Igualmente classificar todas as demais religiões, que não as abraâmicas de politeístas segue a mesma lógica. Os judeus na sua origem brigavam com sua origem na crença de outros deuses, alguns zoomórficos, herdados de Egípcios e de outros povos. A adoção de Jeová, através de abraão é considerado um ponto de evolução dos Judeus e sua distinção dos demais povos, lembrando que os demais povos, que não eram Judeus, eram tratados como “gentios”.

A igreja, usando o princípio, que já expliquei, da estupidez humana, simplificou bastante a forma de entender as religiões. O que não era monoteísta era politeísta, e mais, somente estes 2 modelos se aplicam a uma religião. Além disso, como as religiões não são iguais e apresentam variações sutis no seu divino, basicamente as únicas religiões monoteístas existentes são as abraâmicas, as três que tem origem no mesmo deus. Neste critério de classificação todas as demais são politeístas, pagans e por isso mesmo atrasadas.

No ponto de vista católico, Pagão é sinônimo de ruim, atrasado, politeísta e monoteísta é sinônimo de bom, de puro, de elevado.

Essa simplificação teológica foi ótima. Se encaixou nos objetivos políticos do papado e na estupidez das pessoas.

Uma questão que pode confundir até mesmo especialistas é a classificação da religião Yorùbá como uma religião Animista.



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