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domingo, junho 22, 2008

Serão os Òrìṣà (Orixá) elementos da natureza ?

Serão os Orixá (Òrìṣà) elementos da natureza ?



NÃO! ELES NÃO SÃO!!
Este texto é um pouco extenso, mas, trata de um assunto importante que principia o entendimento desta religião. Apesar de extenso ele tem muita informação, da forma como foi estruturado, quando mais você ler mais você vai saber sobre o assunto, mas em qualquer ponto que parar você já vai ter entendido a minha posição.
A motivação de eu escrever sobre este assunto é que existe um conceito generalizado que associa os òrìṣà (orixá) a elementos da natureza no sentido literal (e não figurado) de forma que cada òrìṣà (orixá) é dito ser um elemento da natureza.
Esta, é uma bobagem que está sendo repetida milhares de vezes e que com isso acabou virando uma verdade para muitos, principalmente aqui nas tradições da diáspora. Estou aqui dando minha contribuição para acabar com isso, porque, depois de me debruçar sobre esse assunto, analisando referências teológicas e, mais ainda, versos de Odù, eu tenho uma opinião completamente divergente e gostaria de apresentar aqui.
Assim principiando, pessoas quando questionadas sobre a religião ou mesmo sobre òrìṣà (orixá) iniciam afirmando que o Candomblé é uma religião ligada da natureza e que os òrìṣà (orixá) são a própria natureza ou, elementos grandioso desta natureza, como água, terra, pedra, fogo, trovão, vento, etc….
Isto está errado. De fato não são muitas pessoas que conhecem bem a religião e essa tem sido a saída mais fácil para as pessoas responderem aquilo que não sabem. Não precisa fazer muito esforço, vai ser muito fácil encontrar este ideário em livros ruins e na internet em textos copiados e mal produzidos.
Assim, repetindo o posicionamento deste texto, pessoas descrevem para outras que os òrìṣà (orixá) são os elementos da natureza, mas, isso é um engano. Esta é minha posição e vou explicar aqui neste texto.
A minha conclusão após avaliar esta situação é que este erro ocorre por diversos fatores. O principal é que é fruto de um sincretismo religioso, equivocado, entre religiões que não guardam semelhança. É uma forma equivocada de compara ou tornar equivalentes diferentes religiões feito por pessoas levianas. Por fim, e mais importante ainda, é uma parte do grande processo que houve, inclusive entre os ditos estudiosos, de desprezar a religião Yorùbá e em função da dificuldade ou do preconceito para entendê-la de fato.
Podemos encontrar e ter que aceitar uma posição, por exemplo de que os òrìṣà (orixá) seriam ancestres, pessoas que foram divinizadas e desta forma pais da nação Yorùbá. Podemos também entender que mesmo em vida eram pessoas poderosas dotadas de forte poder mágico e que os permita manipular alguns elementos primários da natureza, mas, jamais podemos confundir os òrìṣà (orixá) com elementos da natureza.
Alguns podem neste momento questionar: Por que estou eu aqui querendo questionar isso? Minha resposta é simples, para que se possa de fato entender o que é esta religião e entender a sua proposta para tornar melhor a vida das pessoas.
Eu não tenho dúvida que entendendo o cosmo Yorùbá esta compreensão fica muito mais simples, assim como ficaria muito mais simples eu falar sobre esse assunto, mas, não podemos transformar este assunto em uma novela, de maneira que o Cosmo Yorùbá fica para outra oportunidade.
Mas, é importante entenderem que na religião Yorùbá existe uma divindade suprema, que esta acima de tudo e de quem vem toda a criação e manutenção dos seres viventes, ela é Olodumarê, o deus Yorùbá. Abaixo dele existe todo um mundo espiritual com divindades de diversos tipos e hierarquias. Um tipo muito especial e que nos interessa são os òrìṣà (orixá). Estas divindades têm como objetivo nos ajudar em nossa vida no mundo natural.
Nossa ligação com os òrìṣà (orixá) é muito íntima e todos temos na formação do nosso corpo físico um pedaço de um òrìṣà (orixá) que se torna então o nosso òrìṣà (orixá) e um dos nossos protetores. Temos, todos, um protetor principal que é uma divindade pessoal, que aqui no Candomblé chamamos de Ori. De fato, como muitas palavras Yorùbá, Ori. serve para muitos significados, mas, entendamos que um dos significados é de uma divindade pessoal e nossa protetora maior.
Em relação aos òrìṣà (orixá) existem 2 tipos principais. Existem os que são os òrìṣà (orixá) da criação, que já existiam antes do mundo natural ser criado por Olodumarê (da Gênese). Existem também os òrìṣà (orixá) filho, ou eborá, que surgiram depois e que normalmente são seres humanos divinizados. Sim, é muito importante entender isso. O ser humano por suas obras e importância para sociedade pode ser divinizado e se transformar em um òrìṣà (orixá), com mesmo status dos òrìṣà (orixá) da criação.
Ao se transformar em òrìṣà (orixá) ele irá também fazer parte do corpo das pessoas que nascem no mundo natural.
Aqui temos mais um conceito para entender, os Yorùbá entendem que existe um mundo espiritual que é um reflexo no mundo natural. As pessoas vivem no mundo espiritual e ciclicamente nascem (encarnam) no mundo natural. Ao nascer aqui elas necessitam de um corpo, esse corpo é produzido por um òrìṣà (orixá) e recebe elementos que vai individualizá-lo tornando cada indivíduo único.
Nesse processo de individualização o òrìṣà (orixá) fará parte. Assim, nosso espírito vive no mundo espiritual de forma independente de òrìṣà (orixá), mas, quando nascemos aqui no mundo natural um deles fará parte íntima de nossa existência e de nossa proteção para que possamos viver e atingir os nossos objetivos para essa vida.
Esses elementos que são agregados ao nosso corpo físico (orixá, Odù, Ori, alma, caráter e ancestralidade) nos transformam na pessoa que somos.
Nesta concepção errada que fazem de òrìṣà (orixá), Xangô virou o fogo e o trovão. Oyá virou o vento e o raio. Óxun virou a água. Os demais não sei bem o que viraram, essa criatividade sem pé nem cabeça para mais ou menos por ai. Mas a correspondência que esses malucos fazem de òrìṣà (orixá) e elemento da natureza é falha e confusa por si só.
Então veja, quem entende alguma coisa de òrìṣà (orixá), sabe que Ṣàngó (Xango) é um eborá, um òrìṣà (orixá) divinizado e não um dos òrìṣà (orixá) originais assim. Como ele poderia ser o fogo, o trovão ou um vulcão, que são elementos que existem desde o início dos tempos? O vento é ọya (óia) ? Mas ela também é divinizada, assim, o vento já existia antes dela ela, e ela não poderia ser o vento, uma força da natureza. Na Nigéria a sua história esta associada com um Rio. Ọ̀Ṣun (Oxun) é uma irúnmalẹ̀ (irunmalé) um òrìṣà (orixá) original da criação e poderia sim estar ligada com a água, mas ser a água? Jamais, ele está na realidade intimamente ligada com outras qualidades. Por fim, sem exaurir o estoque de bobagens, as pessoas dizem que Ọ̀Ṣàlá (Oxalá) é o ar, por que?
Nunca encontrei isso nos versos de Odu. Não existe nenhum lugar em versos que eu tenha lido, e já li muitos que faça uma mínima correlação disso.
Isso mais parece uma brincadeira de ligar coisas da coluna da direita com a da esquerda, assim coloque os òrìṣà (orixá) que você conhece na esquerda e os elementos da natureza que você conhece na direita, ligue agora um com o outro. Provavelmente vão faltar coisas de um lado e de outro ou mais de um estará ligado a mesma coisa. O que estou dizendo em palavras bem simples é, isso é uma bobagem.
Uma outra forma de ver òrìṣà (orixá) é através de uma divisão no qual existe 401 orixás da direita, que são forças boas e 201 da esquerda que seriam forças malévolas. O que significa essa frase? Vamos em partes. Primeiro entender Yorùbá não é apenas pegar um dicionário e traduzir. Existem muitas expressões e situações que fazem parte do povo e da cultura e que não se traduz, se explica.
Yorùbás não tem aritmética, números são substantivos. Para eles 200 não significa o número 200. O número 200 nesta frase significa o mesmo que “muita coisa” isso porque 200 é uma quantidade muito grande de coisas para se ter ou contar. Os Yorùbá não estão dizendo que existem 200 òrìṣà (orixá), eles estão dizendo que são muitos.
O número 400 quer dizer que existem muito mais divindades do bem do que do mal. Dessa forma, repetindo eles querem dizer que existem muitas “da esquerda” e muito mais ainda “da direita”.
E o número 1? O que significa? Ele quer dizer que esta quantidade não é precisa e que sempre está aumentando, sempre pode ter mais um, pelo processo de divinização.
Feita essa introdução vou ao ponto de dizer que na religião Yorùbá não existe um “Panteão” de deuses. Não é igual à religião grega que existem uma quantidade e qualidade específica de deuses com finalidades definidas. A quantidade de òrìṣà (orixá) varia e mais, é indefinida. O número é indeterminado pela simples razão que não faz a menor diferença a quantidade ou quais são.
Não existe esta definição usada aqui no Brasil de seriam 16. Por algum motivo histórico qualquer se estabeleceu que seriam 16, o que não é verdade, e que eles seriam fixos, todas as pessoas estariam relacionadas a um desses 16.
Isso não é uma verdade nesta religião! Não existe esta regra ou dogma.
Eu sempre tento separar muito bem o que seja a religião Yorùbá e o Candomblé, respeitando que nossa tradição pode ter tomado rumos distintos na sua prática e formato, mas, existe uma teogonia e teologia básica e dogmas que devem ser respeitados, senão isso não é uma religião é uma coisa qualquer.
Não existe no modelo religioso Yorùbá uma predefinição de quem são ou quantos são os òrìṣà (orixá). Podem ser mais ou menos, cada região que defina.
O Verger, que não era antropólogo e sim um fotógrafo francês rico fez um grande trabalho para nós quando mostrou o que havia na África de fato e jogou por terra um monte de literatura ruim. Ele estudou e documentou muita coisa mas não quer dizer que tivesse a maior propriedade de tratar de todos os temas. Ele disse que a religião Yorùbá era um politeísmo. Estava errado. Ele poderia ter usados várias classificações, essa, sem dúvida, era muito ruim e ajudou essa questão de panteão.
Pesquisadores observaram que o modelo adotada na região Yorùbá era mais próximo do que se pode chamar de um “monoteísmo justaposto”. Luis Nicolau Parés no seu ótimo livro “A formação do Candomblé”, coloca que “baseado na análise de Orikis dos òrìṣà (orixá) e dos versos de Ifá, Mckenzie concluiu que, fora o caso de Xango, Obatalá e a tríade de Ifá (Esu-Orunmila-olodumare), os cultos de òrìṣà (orixá) não apresentam quase nenhuma alusão verbal a outras divindades, sugerindo um relativo separatismo entre eles e a ausência de um panteão fixo ou estabelecido”.
Bingo!
Assim cada região ou aldeia praticamente tratava do culto de apenas 1 divindade, isso caracterizava um modelo quase de monoteísmos justapostos no qual vários “monoteísmos” se sucediam à medida que se caminhava pela geografia. Esta e uma explicação complexa e não definitiva, mas, serve para mostrar o tipo de prática que se encontrava lá.
Mckenzie foi muito preciso na sua observação, bem como na de que era Ifá quem trazia em seu corpo e prática a teogonia e teologia que dava estrutura à religião. O culto diário, a prática das pessoas era de fato a prática da religião de òrìṣà (orixá) e o modelo Yorùbá não se estruturava como montamos a nossa diáspora.
Quando buscamos outros autores sérios como Baba Tundelawal podemos ver que apesar de diferenças nas práticas regionais, nos nomes e na forma a estrutura religiosa Yorùbá se espalhava igualmente por toda a região Yorùbá. Cultos mudavam de nome, òrìṣà (orixá) trocavam de nome mas o espírito da coisa, a finalidade era a mesma e havia o Ifá unindo tudo isso.
Luiz Marins, pesquisador brasileiro fez sua tese classificando a religião de Orixaísmo evitando assim enquadrar a religião Yorùbá em uma das denominações existentes. Eu mesmo já abordei esse tema antes de ver essa definição de Mckenzie, fiquei feliz em ver que minhas observações e ilações não eram únicas e também divergentes do Verger e de outros que se somam chamando a religião de politeísta, considero que essa é a pior definição. Não cheguei ao ponto do Luiz Marins mas coloquei minha visão.
O processo de agregação de òrìṣà (orixá) foi tardio, foi feito pela diáspora e retornou para a origem. Aqui no Brasil certamente houve uma grande influência do Jeje para esse modelo. O Jeje diferente do modelo Yorùbá possuía um panteão, ou melhor alguns panteões. Esses panteões se combinavam, uniam e incluíam divindades de fora. Uma casa combinavam muitos Voduns. Ortodoxia nunca foi o forte no Jeje mesmo na África.
Na verdade era um modelo religioso bem menos consistente, mais disperso e mais primitivo do que o modelo Yorùbá. O modelo Yorùbá foi importado no início do século XVIII e enxertou a religião deles com Ifá, com a divindade suprema e com egungun, tudo isso ausente da religião jeje e estabelecida tardiamente como parte do modelo.
Aqui no Brasil o modelo Jeje só se manteve porque ficou à sombrada teogonia e do modelo litúrgico Yorùbá, dificilmente iria ter uma relevância maior sozinho.
A junção e agregação de várias divindades foi fruto da diáspora e da convivência com o Jeje que tinha uma abordagem completamente anárquica para tratar essa questão de divindades.
Na teogonia Yorùbá, quem traz a tríade Olodumarê-orunmila-esu é Ifá. É através dele que essa tríade passa a ser conhecida. No âmbito da vida das pessoas o que você via lá eram òrìṣà (orixá). Para se entender o modelo religioso tem que se olhar o conjunto, iniciando com a visão de Ifá que é quem estrutura o cosmo e a religião e buscando os cultos como de orixá e egungun, além de manifestações adicionais como Gelede e Ajé com aspectos colaterais.
Esta visão de conjunto monta o entendimento da religião, mas, se você analisa apenas o dia a dia das pessoas e comunidade, como Verger o fez poderia entender que é um politeísmo. Mas essa é a apenas uma visão fragmentada do todo, Verger nunca viu o conjunto como uma religião.
Dessa forma o modelo Yorùbá não tem panteão e não suporta de forma alguma a designação de òrìṣà (orixá) como elementos da natureza. O agrupamento dos òrìṣà (orixá) em um mesmo espaço foi um fenômeno da diáspora e da formação da nossa tradição religiosa, o Candomblé.
Essa é uma visão muito onírica dos òrìṣà (orixá), um sincretismo com a religião greco-romana e com religiões europeias, como a bruxaria tradicional, wicca, etc….
O preconceito é a raiz disso tudo. As pessoas não esperavam encontrar uma religião complexa junto a um povo simples, como os Yòrúbas, assim, elas avaliaram superficialmente a religião e fizeram associações dela com outras que eles conheciam.
Essa ligação de uma divindade com os elementos da natureza existe em algumas tradições religiosas, muitas delas politeístas puras de fato, que não é o caso da religião Yorùbá. A mim parece mais uma forma de sincretizar a religião africana com formas politeístas e animistas seja por preguiça ou preconceito.
Por esta razão, dizer que os òrìṣà (orixá) são as forças da natureza como eu canso de ouvir é o mesmo que dizer que Ṣàngó (Xango) é São Jerônimo, Ọya é Santa Barbara, Ògún é São jorge. É o mesmo que ouvir babalorixá explicando a vida e a reencarnação usando a doutrina espírita.
Além desta explicação inicial que já pode ser suficiente para muitas pessoas vamos aprofundar a análise desta questão dividindo o assunto em partes e explicando cada uma delas.
Primeiro vamos falar sobre a responsabilidade do sincretismo nesse processo. Depois vamos tratar da influência do entendimento incorreto da cosmogonia da religião. Vamos comentar um pouco sobre o problema gerado por estudos ruins feitos por antropólogos e estudiosos e, por fim, vamos falar um pouco do cosmo Yorùbá para situar o entendimento de todos no modelo que eu considero adequado.
Como sempre lembro que tudo o que é escrito aqui representa a minha opinião, representa a minha análise sobre o que eu estudei e vivencio e estou muito longe de me considerar o dono da verdade ou mesmo infalível.
A ORIGEM DOS ORIXÁ (òrìṣà) SEGUNDA A RELIGIÃO YORUBA
Eu vou fazer uma abordagem tradicional e bem direta sem rodeios e nem invenções. Minha referência são os versos do Odù oxétuwa.
Esta religião tem um corpo literário que não é muito conhecido aqui no Brasil e no Candomblé. O conhecimento religioso esta registrado em versos que são divididos em 16 capítulos. Cada capítulo corresponde a um Odù. Assim são 16 Odù e cada Odù tem um conjunto variável de histórias contadas em versos. Podemos dizer que cada Odù pode ter até 16 histórias, em versos e tamanhos diferentes que podem ir de poucas linhas até páginas.
Isso é o corpo literário de Ifá (Ifá didivination poetry ou Ifá LiLiterary corpus). Esses versos contêm as informações sobre a religião. Tudo o que se diz da religião deve ter referência em um verso e Odù.
Como eu disse para vocês algumas palavras em Yorùbá tem vários significados. Este, o de serem os capítulos do corpo literário de Ifá é um dos significados para Odù.
O grande problema Yorùbá era que eles não tinham língua escrita. Foram os europeus que criaram uma representação escrita para o muito simples e por isso complicado idioma tonal Yorùbá. Por esta razão o corpo literário de Ifá era guardado por pessoas, Babalawo que dedicavam sua vida a decorar esses versos. Somente no século XX é que houve um intenso trabalho voltado para registrar esse corpo poético em gravações e em registro escrito, para evitar que se perdesse, mas, em função da colonização e escravagismo, muito já se perdeu.
A referência que usarei para explicar porque os Orixá não são elementos da natureza porque não tem esta função é um verso do Odù Oxétuwa. Eu não vou registrar aqui o texto, é bem extenso mas está no blog no link a seguir.
LINK
Eu recomendo que seja lido, ele contêm inúmeros conceitos e fundamentos importantes. Este texto foi extraído originalmente do livro Os Nago e a Morte, mas, existe em outras obras de autores diferentes, incluindo o Nigeriano Wande Abimbola. Essa é uma versão que está no Blog é completa com inserções de outras versões que eu li.
Dessa maneira, este texto é confiável.
A história narrada se temporiza após a gênese. O mundo já estava criado e sendo populado por Olódùmarè, a alta divindade suprema Yorùbá. Em outra oportunidade abordamos a Gênese segundo a religião Yorùbá.
Neste Odù fica claro que Olódùmarè criou o mundo, populou-o com os homens e enviou os òrìṣà (orixá) para poderem ajudar os homens na sua vida, na superação das dificuldades.
Eram 16 e havia somente uma mulher entre eles, Óxun, que representa o poder feminino original.
Desta forma, se os òrìṣà (orixá) foram enviados para suportar os homens de calamidades naturais, os Ajogun, não poderiam eles mesmos serem os próprios elementos da natureza, conforme a visão das religiões pagãs europeias.
Este Odù estabelece uma distinção muito clara entre as divindades de Olódùmarè, suas funções e a natureza, desvinculando um de outro.
Na religião Yorùbá as divindades são chamadas de Irunmole. Um subgrupo dos Irunmole são os òrìṣà (orixá). Os òrìṣà (orixá) estão ligados a nós, mas, existem divindade, Irunmoles que não estão ligados a nós.
Dentro do grupo dos òrìṣà (orixá), existe ainda a divisão deles em 2 tipos de orixás. O primeiro grupo são os orixás originais, divindades da criação, que já existiam na Gênese e faziam parte do grupo de 16 que foi enviado por Olódùmarè. O outro grupo são os ancestres divinizados, pessoas, homens, que ganharam muita importância e relevância junto ao povo de foram divinizados, se transformaram em Orixás.
É importante entender que as pessoas humanas, homens e mulheres podem ser divinizados e se transformarem em òrìṣà (orixá). Por essa razão as pessoas fazem parte de um grupo privilegiado no cosmo Yorùbá, como vocês vão ver quando eu explicar isso.
Assim, vamos fazer uma revisão do que eu disse até o momento. No texto do Odù Oxétuwa, que vocês DEVEM ler, está claro que Olódùmarè enviou os òrìṣà (orixá) para suportar a vida humana na terra, devido às muitas dificuldades que as pessoas iam encontrar aqui. Esta abordagem, documentada em versos de Odù completamente confiáveis, desvincula completamente os òrìṣà (orixá) de serem elementos da natureza, porque o mundo já estava criado e eles foram enviados depois, junto com a humanidade.
Além disso o conjunto de divindade Yorùbá não é formado por um grupo fixo, pré-determinado e cada um com funções específicas. Existiram os primeiros 16 que foram enviados para criar o mundo, mas, existem muito mais Irunmoles do que esses 16. Os òrìṣà (orixá) representam um subconjunto dos Irunmole e eles são vinculados a nos suportar.
O conjunto de òrìṣà (orixá) não é finito. Ele pode ser composto por divindades originais mas, também, por humanos que devido a sua relevância se divinizam e se tornam òrìṣà (orixá).
Tomemos por exemplo as divindades femininas que tiveram uma origem comum somente em um Orixá, Óxun, a única que estava na criação. Oya que muitos consideram como sendo o vento não poderia o sê-lo porque ela é claramente um ancestre divinizado, e o vento já existia antes dela. Antes de Oya ser divinizada junto com Xangô o vento da existe a milhares de anos e nunca prescindiu de Oya que era apenas uma mulher.
Oya (Ọya), bem como todas as divindades femininas são cultuadas e associadas com o elemento água. Assim Óya esta ligada ao Rio Ògún e Óxun ao rio com seu nome, Yemanja, outra divindade bem conhecida, também está ligada a um rio, Olokun ao mar, as ajé são as que possuíam os 7 rios da terra na sua criação, Iyewa também a água e até Nana que nem é Yorùbá esta ligada a água. Observe então que existe uma tendência dos Yorùbá associarem divindades femininas a rios, não necessariamente a água.
O elemento água, especialmente esta ligado a Oxun, é o único elemento que sozinho pode gerar e sustentar a vida e está associado sempre a existência de vida. Tudo isso tem origem em Oxun.
Se a água é um Orixá, qual ele será? Não a água não é um orixá.
Ṣàngó (Xango) é dito ser o fogo, mas a real ligação dele com o fogo foi a capacidade que adquiriu de manipulá-lo, o que também foi feito por Ọya segundo um mito conhecido por todos no Candomblé. Ṣàngó (Xango) também está associado com trovões e raios, sim, mas por manipulá-los porque ele é considerado a justiça de Olódùmarè, ou a sua ira, e joga os raios contra pessoas que de tão ruim que foram não merecem mais viver. Igualmente após a sua morte o mito diz que ele jogou raios contra as pessoas que diziam que ele tinha se enforcado.
No mito da criação, a terra foi criada por Olódùmarè e só havia a água. Ele deu a bolsa da existência contendo os elementos que seriam plantados e depois espalhado para formar a terra. Depois de tudo criado, conforme o Odù oxetuwa os òrìṣà (orixá) foram enviados para suportar a vida ensinando os homens a se relacionar com o divino.
Os elementos, a terra, a vegetação, foram trazidos do Órun pelos Orixás da criação.
Assim sendo o que ocorre é que os òrìṣà (orixá) como representantes ou intermediários de Olódùmarè e os homens passaram a ter poderes sobre determinados elementos da natureza, que eles trouxeram, que vão desde a água a doenças, mas, isso na sua forma controlada e organizada e não na sua forma violenta.
Uma coisa é ter controle sobre uma coisa na sua forma suave outra é ser ou ter controle total. Assim por mais que se faça uma oferenda um furacão, um tsunami, um terremoto e uma seca não poderão ser evitados. Essa é uma manifestação descontrolada da força da natureza, os òrìṣà (orixá) ajudará os homens a se prevenir ou superar as consequências disso.
Isto está descrito no texto do Odu Oxétuwa e coloca um ponto final nesta relação.
A ORIGEM DO PROBLEMA NO SINCRETISMO RELIGIOSO
Uma das principais fontes para essa interpretação é o sempre danoso sincretismo religioso. É assim, as pessoas não querem pensar, não querem estudar, não querem entender, então simplificam comparando com alguma coisa que conhecem.
Este capítulo aqui é um pouco extenso e denso em informações, mas, é muito importante para entenderem de onde veio alguns preconceitos sobre a religião Yorùbá.
Podem acreditar que, não existe nada que eu tenha lido ou ouvido, de autentico da religião, e quando digo isso me refiro a versos de Ifá, que remeta a ligação de òrìṣà (orixá) como sendo um elemento da natureza.
Vou me explicar adiante quando falar diretamente sobre isso, mas uma das origens disso, sem dúvida é o sincretismo, mal feito, com as tradições pagans da Europa, em geral, incluindo a Grécia, religiões politeístas, na qual o panteão dos deuses dessas tradições era associado com comportamento, especialidades e elementos. A própria palavra “panteão” que, hoje em dia, é ainda largamente usada para o caso Yorùbá é uma palavra que se aplica a religiões politeísticas, o que não é o caso da religião Yorùbá.
Estas religiões, de fato politeístas, tinham uma característica comum que era a de dedicar cada um dos seus deuses a uma especialidade. Isto era necessário porque os deuses representavam o mundo que viviam e não uma divindade transcendente. Nas tradições politeístas, não existe uma divindade maior que origina ou controla o todo com poder superior às demais, cada divindade ou deus tinha que ser responsável por um aspecto do universo. Assim a unidade era, na verdade, formada pelo conjunto de todos.
Essas religiões ou cultos criavam uma divinização que representava o mundo em que viviam. De uma maneira bem lúdica, o mundo era o divino e assim cada coisa dele em vez de ter uma ordenação natural ou científica era regido pela vontade de um deus. Este modelo onírico substituía a ciência na explicação dos fatos que nos cercavam e requeria bastante trabalho das pessoas no culto a muitas divindades para terem uma vida tranquila. Você tinha que agradar a um exército de deuses para evitar problemas, uma vez que você não tinha um protetor próprio nem uma hierarquia, qualquer deus, uma força da natureza poderia interferir no ambiente, inclusive contrariando outro.
Isso fazia da vida das pessoas uma coisa muito trabalhosa, ainda mais porque a natureza era bastante imprevisível. Dessam forma poderia sempre haver um deus-natureza insatisfeito ou ofendido com qualquer coisa e trazendo prejuízos a você ou a sua comunidade. Não é a toa que esse modelo foi facilmente superado pelo modelo das religiões atuais, com um divino unificado e transcendente.
O poder dos deus-natureza era dividido e não havia preponderância de uma divindade sobre a outra, exatamente como na natureza, onde uma força conflita com outra. Uma poderia fazer ou desfazer o que outra fez e o homem devia prestar algum tributo a todas se quisesse ter paz na sua vida. O modelo também não integrava o homem ao divino.
Este é o modo da natureza, as forças se equilibram pela harmonia ou pelo conflito. Claro que a existência de cada deus estava associado a necessidade de alguém controlar alguma coisa e por isso a necessidade de muitos deuses. O sentido da palavra panteão, que é usado incorretamente para a religião Yorùbá, é este, esta vasto conjunto de deuses controladores da ordem.
Este modelo de religião, politeísta, bastante ancestral e lúdico, é bastante ultrapassado no contexto da civilização humana, tanto que foi abandonado sendo trocado não por uma religião em especial mas por muitas outras que ofereceram um modelo muito mais humanista, centrado na figura do homem.
O modelo politeísta é superficialmente conhecido por todos. As pessoas de fato não entendem as suas implicações. Conhecem suas histórias e narrativas mas não se aprofundam de fato na questão da relação divino-homem. Por esta razão não compreendem porque ele não se aplica religião Yorùbá.
Existe também a simplificação que as pessoas fazem sobre o conhecimento. O mundo é complexo, são muitas forças atuando, pensamentos diferentes, filosofias conflitantes ou complementares. Entender o meio que vivemos, sejam as pessoas ou a sociedade é bastante complexo. Contudo as pessoas fingem que são inteligentes e buscam simplificações para que possam se passar como cultas.
A maior parte das pessoas só consegue lidar com conceitos binários ou ternários e dessa forma fazem uma similaridade estúpida de uma religião com outras baseadas em 2 ou 3 características. Infelizmente as coisas são mais complexas que isso e é muito reduzido a quantidade de pessoas que consegue trabalhar com modelos conceituais e filosóficos.
Classificar a religião Yorùbá dentro deste modelo, politeísta, somente porque existem muitas divindade (e não apenas uma) e entender que essas divindades são forças da natureza porque a religião é exercida na natureza, é desprezar a sua complexidade e atualidade.
Claro que algumas coisas, além da ignorância e da preguiça mental aceleraram esse sincretismo da religião Yorùbá com as antigas correntes politeístas. Na África eles observavam o povo colocando oferendas em pedras, árvores ou em rios e conduzindo ritos em rios, morros e florestas. Então, a conclusão de muitos foi bastante óbvia, esses africanos cultuam pedras e rios..... As divindades que eram homenageadas ficaram então associadas com aqueles elementos ou como se fossem os deuses-natureza.
Poucos se deram ao trabalho de fato de entender porque aquilo era feito e qual o significado daquilo. Somem nisso o desprezo por uma sociedade tribal e a impossibilidade de entender uma língua estranha. Junte isso ainda ao uso de métodos e ética científica inadequada e teremos como resultado o que foi feito. Simples e ao mesmo tempo bastante estúpido. Isso levou os europeus a taxarem as religiões de animistas e de politeístas.
Mas, estamos no século XXI e não mais no século XIX.
Como eu tenho repetido é uma forma de preconceito com o povo e a sociedade africana, desprezando a sua capacidade de gerar uma religião equivalente às demais ocidentais e orientais. O modelo politeísta dos deuses-forças-da-natureza, não se aplica a religião Yorùbá.
OS CATÓLICOS E O PAGANISMO
Uma das coisas que complicou bastante o entendimento das pessoas a cerca das religiões foi a hegemonia do modelo cristão no ocidente, com a extinção de outras religiões, não pela supremacia de um modelo teológico mais confortável para as pessoas e sim pela perseguição da espada.
Para tornar as coisas mais complicadas, como parte deste processo e emburrecimento, a igreja católica criou uma denominação genérica e sem nenhum significado real, de PAGÃO, para qualquer outra religião que não fosse Abraâmica, ou seja, que tivesse origem em Abraão o patriarca que gerou as correntes do Judaísmo, cristianismo e islamismo. Estas 3 religiões competem pela posse do mesmo deus e tem a mesma origem. Os Judeus não reconhecem mais ninguém, afinal eles é que são os escolhidos. Os cristãos, que nasceram judeus, reconhecem uma das partes do judaísmo que é o antigo testamento e por fim, os muçulmanos, os mais recentes, século VII, reconhecem tudo das anteriores, inclusive Jesus, mas não a trindade católica.
Dessa maneira ao longos dos últimos séculos, eles tem se matado e a outros inocentes, sempre em nome do mesmo deus sanguinolento, Jeová.
Para os Cristão, que dominaram o mundo à força da espada, aliás como também o fizeram os judeus no seu tempo, o que não era católico era Pagão. Eles só não tiveram coragem de chamar os Judeus de Pagãos, mas criaram o termo herético, para aqueles que divergissem da interpretação teológica oficial de Roma... Assim, pagão, não tem significado religioso, significa tudo o que não e católico.
Os abraâmicos consideram o seu deus, Jeová, o único, e defenestram qualquer outro tipo de manifestação religiosa. A partir do século XV a igreja católica baniu toda as praticas que mostrassem similaridades com simpatias, encantamentos e feitiços. A igreja medieval era totalmente esotérica, mas para se afastar disso eles baniram completamente essas práticas, de modo a poderem a partir do século XV dominar os seus fiéis através do temor ao mal, ao diabo e a perseguição ao pecado.
Estudiosos do aspecto do Mal na religião correlacionam o surgimento da força do diabo com a necessidade de um controle mais rigoroso da sociedade pela forma política, uma vez que, esse temor (ao diabo) e domínio (o pecado), não existiam anteriormente. Igualmente isso coincidiu com os papas generais, guerreiros que literalmente com a espada na mão construíram a Igreja que conhecemos hoje.
O próprio celibato, que não havia, dizem, foi devido a igreja passar a ter posses. Eles não queriam se envolver em disputas judiciais com esposas de padres, bispos e papas. Enfim, a força da reforma, de Lutero e Calvino, obrigou a igreja a mudar sua posição e adotar políticas mais ativas e restritivas ao seu clero.
No centro de todo este conflito ficaram outras religiões, politeístas ou não, que tinham uma interpretação diferente da divindade e dos seus poderes e de outras que não eram politeístas, mas, não eram abraâmicas. Essas religiões, todas em um mesmo saco, passaram a ser então a tradução da palavra paganismo.
A igreja, usando o princípio, que já expliquei, da estupidez humana, simplificou bastante a forma de entender as religiões. O que não era monoteísta era politeísta, e mais, somente estes 2 modelos se aplicam a uma religião. Além disso, como as religiões não são iguais e apresentam variações sutis no seu divino, basicamente as únicas religiões monoteístas existentes são as abraâmicas, as três que tem origem no mesmo deus. Neste critério de classificação todas as demais são politeístas, pagans e por isso mesmo atrasadas.
No ponto de vista católico, Pagão é sinônimo de ruim, atrasado, politeísta e monoteísta é sinônimo de bom, de puro, de elevado.
Essa simplificação teológica foi ótima. Se encaixou nos objetivos políticos do papado e na estupidez das pessoas.
O REFLEXO DISSO NO BRASIL E NO CANDOMBLÉ
Em função deste contexto a religião africana, no geral, e no nosso caso o Candomblé, ganhou o cunho de paganismo e seus Deuses, tipicamente ancestres na sua origem, viraram forças da natureza.
Entretanto, não existe nada que de valor a isso. No caso do Brasil, para piorar, o kardecismo francês criou toda uma visão espiritual própria que posteriormente a Umbanda se ligou a ela. Como a Umbanda erroneamente (tão errada como usa nomes de santos para seus guias ela usa nome de Orixás do Candomblé. Ambos sem nenhuma relação) se ligou a Orixás, essa mistura confundiu mais ainda as pessoas.
Assim, o Candomblé virou pagão e politeísta. A Umbanda que é uma religião brasileira e não tem vínculo nenhum com a religião Yorùbá, virou parte da tal matriz africana e misturou o kardecismo na sua bagunça teológica. Por fim o Candomblé passou a ser tratado pelas próprias Iyalorixás como uma seita enquanto elas passavam a pertencer a irmandades católicas, a religião verdadeira.
O mal entendimento do Candomblé passou por essa associação histórica de coisas malucas, e, também, por pessoas como Nina Rodrigues que nada sabiam de Candomblé e que passaram a escrever como se tivessem alguma autoridade sobre o assunto. Tudo isso acabou colocando as religiões não cristãs, no Brasil, em um mesmo saco, furado, de ideologia espírita.
Em função da lastimável e miserável formação religiosa dentro do Candomblé, estes conceitos de força da natureza, espiritismo e seita, se estabeleceram dentro do próprio Candomblé. Os Babalorixá e Iyalorixás, apesar de terem a propriedade para falar, mas, sem qualquer capacitação passaram a repetir esses conceitos que lhes eram impingidos pela sociedade culta.
Os que não gostam de ver eu dizer que a formação religiosa do Candomblé é deficiente devem observar que o acesso a mitos ou poemas de Ifa é restrito ou inexistente. O hábito de discutir teologia no Candomblé não existe. Você não consegue juntar 3 babalòrìṣà (babalorixá) sem que seja para eles rasgarem seda entre eles ou brigarem entre si. Poucos estão dispostos a colocar em questão o que sabem ou o que pensam, exceto se for uma cátedra onde ele fala e outros ouvem.
Essas pessoas normalmente não são preparadas para, falar em público, discutir suas teses, dirigir pessoas, lidar com desafios verbais e até mesmo orientar o aprendizado de pessoas. São muitas vezes pessoas muito boas, agradáveis e com conhecimento das suas liturgias.
Existe uma dificuldade na formação de sucessores. Pior, as pessoas não se preparam e se capacitam para ter uma casa. Existe uma legião de pessoas com pouco ou nenhum acesso a conhecimento que mesmo assim, sem legitimidade ou capacidade abrem casas e passam a ser autointitular de sacerdotes e representantes da religião.
É claro que essas pessoas, sem terem aprendidos com os seus mais velhos, tem que se virar com algo ou com o que tem. É neste campo que essas concepções idiotas florescem. O que mais vemos é pai de santo, metido a besta, que responde perguntas usando os conceitos do kardecismo-espirita. Mas, afinal, eles vão dizer o que? Que não sabem?
É claro que a vertente conhecimento não é o forte do Candomblé. A vertente forte é a devocional, a fé. Para isso você não precisa saber o que é, você sente o que é e você também acredita porque sente e vê. A resposta mais comum para quando se pergunta uma coisa do tipo o que é o Candomblé ou o que é o òrìṣà (orixá) ou qualquer coisa de aspecto mais teológico será algo que começa com “eu amo meu òrìṣà (orixá)...” e por ai vai uma torrente de expressões de sentimento e fé. Isso reflete o que ela sabem, e elas sabem o que sentem.
Esse é o jeito pelo qual esse tipo de sincretismo é aceito e prolifera. Assim como os africanos fizeram no passado com os antropólogos, as pessoas sabem o que é, elas sentem o que é, e se esta definição, de elemento da natureza satisfaz o inquisidor, que o seja. Isso não impede entretanto que em espaços ou oportunidades como essa a gente possa visitar ou revisitar questões como essa, ou a reencarnação ou o conceito de nascimento e destino, as proibições, etc... evitando assim que da nossa própria boca saia coisas como o Karma.
É claro que saber ou não o que parece certo não faz uma pessoa fazer melhor um santo do que outro. àṣẹ (axé) e roncó é outra coisa, mas, não tem nada demais a gente poder tratar dos assuntos com outra base.
A questão do POLITEÍSMO e do MONOTEÍSMO
Em termos de definição para uma religião ser politeísta, segundo Paul Tillich (systematic Thelogy, Vol. I):
Politeísmo é um conceito qualitativo e não quantitativo. Não é uma crença em uma pluralidade de divindades e sim a falta de uma instância unificadora e transcendente é que determina a sua característica.
Não importa a quantidade de divindades e sim a qualidade delas e de sua relação. Em uma religião politeísta não existe uma divindade superior as demais, todas tem o mesmo poder e não existe assim uma força reguladora do conjunto.
O Candomblé, como muitas outras, não é politeísta porque existe uma relação bem clara de hierarquia entre Olódùmarè e as demais divindades. Assim, possuir divindades, originais ou divinizadas não transforma uma religião em politeísta, senão, o catolicismo com seus santos e sua trindade também o seriam, mas ninguém ousa fazer isso.
Em função de preconceito, conforme eu já me expliquei anteriormente, as religiões abraâmicas tem esse interesse histórico em diminuir e marginalizar as demais religiões. Como eu já expliquei e estou apenas lembrando, todas as religiões que não são cristãs, são denominadas pagãs. Assim, eles, de forma ignorante, simplificam essa discussão a um modelo muito singelo. Tudo ou é monoteísta ou é politeísta, baseado no modelo de referência deles. Se é igual ao modelo deles, é monoteísta. Se é diferente então é politeísta. É o binário burro.
O maior problema ao tratar do assunto religião na sociedade é que o preconceito domina essa a conversa toda a ponto de as pessoas que não gostam da abordagem cristã, elas mesmas, sem saber o que dizem, afirmam que não fazem parte de uma religião monoteísta.
Claro, porque o modelo de escolha que é imposto deixa pouca margem para discutir. As religiões cristãs querem apenas dar prosseguimento ao preconceito histórico contra as outras correntes religiosas e chamam todas as demais de politeístas.
Isso não é correto. Mas também não é uma ofensa como essas pessoas querem afirmar. Sim, na visão delas, uma religião "boa" é a monoteísta. O politeísta não é colocado como um atributo e sim um defeito.
Mas existe um outro aspecto também tão ruim quanto esse. A maior parte das pessoas, ignorantes no assunto, prefere aceitar sua religião ser chamada de seita e dizer que é politeísta. Duas coisas menores na visão dos cristãos.
Para os cristãos, seita é uma coisa menor um pedaço da religião verdadeira, e isto está correto uma vez que o termo nasceu do judaísmo onde as seitas são tradições que divergem da interpretação tradicional das suas escrituras.
Politeísmo remete ao velho testamento, quando os próprios judeus adoravam deuses zoomórficos, na forma de animais como o carneiro. Isso, para eles, era um episódio negro e assim politeísmo é um pejorativo.
As pessoas do Candomblé devem entender que ao aceitarem serem chamados de seita ou de politeísta pelos cristãos não estão apenas sendo classificados erradamente. Estão sendo ofendidos e diminuídos.
O Candomblé e a religião africana não são politeístas. São Henoteístas, mas, isso não importa. O que estou dizendo aqui é que entender religiões é coisa complexa, mas, o que é feito hoje em dia com essa dualismo monoteísmo-politeísmo que foi imposto pelos cristãos é apenas preconceito. Não existe respeito ou inteligência nesta discussão. As pessoas não sabem o que estão falando e isso também não interessa.
As religiões abraâmicas são as únicas monoteístas e nem por isso são melhores do que outras religiões. Existem muitas formas de classificar uma religião, politeísta é apenas uma delas e se aplica a um grupo muito restrito.
As pessoas foram induzidas a achar que uma religião é monoteísta (boa) ou politeísta (ruim, atrasada). Isso serve a objetivos políticos e a sua estupidez. Assim toda a vez que alguém pergunta se a religião africana, ou qualquer outra, é monoteísta ou politeísta, isso significa que:
  • essa pessoa é idiota
  • ela já sabe a resposta
  • o objetivo é de praticar o puro preconceito
Eu recomendo responder a essa pergunta dizendo que é monoteísta, que tem um deus maior chamado Olodumare que tem divindades auxiliares que podem ser equivalentes a anjos, arcanjos, e santos. Assim se ter anjo é politeísmo então a deles também é.
Claro que isso é uma grande imprecisão, mas, a pergunta não é honesta e esta resposta vai deixar o interlocutor perdido sem saber o que falar à seguir. Vamos combater fogo com fogo.
Pessoas que pertencem a uma outra religião devem primeiro se informar para poderem primeiro entenderem a si mesmo e também poderem discutir com elementos de outras religiões, ao invés de aceitarem tacitamente rótulos inadequados, seja pelo aspecto que é um uso inadequado de conhecimento seja porque a finalidade é de fato ofender. Assim temos uma dupla ignorância.
AS SEMPRE CONTROVERSAS FONTES DE INFORMAÇÃO RELIGIOSA
Os antropólogos que estudaram a África ao longo do século passado e talvez no anterior, não ajudaram muito. Eles em seus estudos se preocupavam muito mais com a sociedade do que com a religião. Eles não tinham a formulação religiosa como um fim, mas, entendiam que não poderiam falar sobre o povo sem falar sobre a religião uma vez que uma coisa permeava a outra.
É como hoje em dia a gente estudar um país muçulmano. Não dá para falar da sociedade sem falar da religião. Contudo as enormes dificuldades de comunicação e a preocupação dos africanos estudados em agradar aqueles que os pagavam levaram a respostas e interpretações equivocadas. Os próprios Yorubas foram em parte responsáveis pela visão errada que se criou da religião deles.
Posteriormente na medida em que africanos foram sendo educados na Europa e tiveram acesso as ciências humanas e sociais e ao que foi escrito sobre eles, eles voltaram a Africa para fazer os seus próprios estudos. Idowu em seu livro "African Traditional Religion" descreve que houve 3 fases nos estudos sobre os africanos.
A primeira, a da ignorância, a segunda, onde quem escreve já passa a respeitar que existe uma diferença cultural e que existe de fato uma cultura não conhecida mas comparável a deles no lado "nativo" e, a terceira, onde finalmente entram em cena os escritores africanos.
Hoje em dia melhorou muito, mas, ainda temos pessoas se referenciando em obras antigas e bastante distorcidas. É importante que se entenda que nem tudo o que esta escrito em um livro tem valor e nem todo mundo que escreve sobre algo sabe o que esta falando. Tomem cuidado com autores que repetem o erro de outros.
Verger foi muito perspicaz quando percebeu isso e escreveu sobre esse processo. Ele verificou uma sequencia de autores que se repetem e em muitos casos que repetem coisas ruins. Fez um bom artigo sobre o assunto, chamado Etnografia religiosa Yorùbá e probidade científica, no qual ele cita erros grosseiros que foram repetidos, um deles que compromete seriamente a tradição Lukumi e também aproveita para criticar Juana Elbein e seu livro os Nago e a Morte. Vale a pena ser lido.
Não gosto dessa crítica a Juana, acho que a resposta dela a Verger foi muito boa, mas tirando essa fogueira de vaidades o artigo do Verger ilustra muito bem isso o que estou explicando aqui.
Eu mesmo, buscando referência sobre um assunto, o sistema de crenças Yorùbá encontrei pelos menos 3 autores diferente que para um mesmo assunto repetem as mesmas palavras. Incrível! Um primeiro se deu ao trabalho de escrever sobre o tema, Parrinder se não me engano, nem o fez de forma brilhante e outros apenas o copiaram.
Tomem cuidado aqui no Brasil com autores que podem estar repetindo bobagens. Nina Rodrigues que durante algum tempo foi uma referencia em Candomblé só escreveu lixo por exemplo. Mas, é comum pessoas engordarem suas páginas com conteúdo de outros.
FINALIZANDO
Para quem chegou até aqui, como eu disse e repeti várias vezes a religião é composta de elementos muito importantes, alguns intangíveis como o iwa pele e o nosso destino, outros lembrados mais indiretamente atualmente que é a ancestralidade. Este ultimo se perde um pouco devido a que nem todos de uma mesma família seguem a religião e uma casa de santo esta longe de representar uma família espiritual, mas, mesmo que a gente não se lembre a ancestralidade é uma das bases da nossa vida.
A religião que a gente adota é complexa em parte porque existem de fato conceitos pouco claros, na origem, ou que se tornaram complexo devido a junção aqui no Brasil de várias correntes religiosas e regionais distintas.
Infelizmente só recentemente surge um esforço de teologizar a religião e mesmo este esbarra na polêmica e no preconceito. Outras correntes religiosas, as cristãs contam com linhas filosóficas que procuram aprofundar as questões teológicas e sua interpretação. Infelizmente esta religião aqui não contou com isso na Africa e no novo mundo esbarra em uma babel pior ainda.
Eu acho que não cabe discutir liturgias, mas, não podemos em função disso nos abster de discutir todo o resto independente de sabermos ou não as respostas.
... sem querer ser chato, mas enfatizando, assim, na formo que eu vejo o cosmo yoruba, baseado em textos de odù que eu consegui ler até hoje, em mitos que eu li ou ouvi ao longo de anos, o òrìṣà (orixá) não faz parte da ordenação das forças naturais do mundo em que vivemos. Este ordenamento é atribuído a Olódùmarè que como o deus distante (ou tornado distante) faz com que a natureza e o mundo funcione.
Os òrìṣà (orixá) conforme aparecem nas histórias e explicitamente no odù óxéotuwa e Ogbe Meji, são os braços e mãos de Olódùmarè no aiye. Sofrem aqui com os mesmos fonomenos naturais que sofremos e não demonstram nunca controlar a natureza.
Eles primariamente são a sua ligação do divino com nós, para nos ajudar e proteger. Nosso ori é feito com nosso òrìṣà (orixá). Os òrìṣà (orixá) surgem em todas as histórias representando papéis comuns como se fossem pessoas comuns, com as mesmas perfeições e imperfeições que temos de modo a que possamos nos espelhar e entender o conhecimento que passam.
São também a instância direta, junto com o ori e a ancestralidade, que recorremos para resolver nossos problemas, ligados ao nosso sucesso na nossa vida como a necessidade de termos saúde, de termos família, mulher, filhos, oportunidades, trabalho, dinheiro e podermos com nossa prosperidade darmos seguinto a nossa vida e atingir o destino que estabelecemos antes de iniciar essa nova encarnação.
Como braços e mãos de Olódùmarè os òrìṣà (orixá), conforme eu comentei no início disso tudo, alguns deles tem algum controle sobre elementos da natureza. Mas como elementos podemos considerar um todo, de vegetais, minerais, doenças, até fenômenos da natureza, e estes sao usados não de uma forma reguladora, mas como instrumentos de sua necessidade e ação em exercer a sua missão junto a nós.
Eu não consigo ver um òrìṣà (orixá) sem o mesmo estar relacionado com nossa vida, ficando longe do significado que tem os deuses naturais das tradições europeias e greco-romanas (não tenho conhecimento suficiente para citar outras).
O entendimento da metafísica desse cosmo deve passar pela lembrança que temos vários entidades e espiritos além dos òrìṣà (orixá). Este conjunto está longe de ser perfeito e complementar, existem coisas que parecem redundantes ou que não são complemente racionais, mas, como sabemos é um povo muito simples, agrário e que não teve unidade, continuidade e pensamento filosófico próprio para poder explorar e documentar cada faceta da rica cultura e religião.
Por todos os argumentos que longamente descrevi a introdução desta visão de Orixá elemento da natureza não se adapta a religião Yoruba. Foi colocada por estrangeiros. A Religião Yoruba tem poucos elementos ligando a religião e a natureza. Sol, lua e estrelas nem fazem parte de mitos.
A religião é complexa, mas, o povo é bem mais simples. Os estranhos é que tem preguiça de aprender, preferem inventar.

domingo, abril 27, 2008

Eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) é Ifá?

Uma questão que sempre tenho observado ser bastante polêmica nos dias de hoje é sobre se o eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) é Ifá. O que esta no núcleo dessa questão, junto com vários aspectos colaterais e acessórios é se ele representa uma comunicação de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) entre o aìyé e o orun (ọ̀run). Sim, na minha opinião o eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) pode ser Ifá e pode trazer as mensagens de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) através de Odù.

Essa discussão, creio eu ficou mais intensa nos últimos anos devido ao estabelecimento do culto de Ifá no Brasil e com o surgimento dos primeiros Babaláwo brasileiros que, mais do que se preocupar em fazer dinheiro vendendo obrigações, estão inseridos na cultura da religião e participam de fóruns e grupos de discussão virtuais.

Como muitas questões práticas, essa simples afirmação, de que eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) é Ifá, envolve alguma complexidade porque o mundo real é complexo na sua composição e é essa complexidade que alimenta essa polêmica porque muitas vezes estamos falando de coisas distintas e nem todos tem o mesmo entendimento básico da questão que está sendo tratada. Não tenho a pretensão de esgotar o assunto, mas vou dar minha opinião de forma ampla.

A questão do culto às divindades

Em primeiro lugar, temos a questão do culto especializado ao oráculo, que é novo no nosso ambiente cultural e que deu uma nova dimensão a essa discussão. Ifá é um culto diferente do Candomblé. É um culto especializado e orientado a uma divindade, Orunmila (Ọ̀rúnmìlà), o elerii (ẹlẹ́rií) ìpin, testemunho dos destino de todos nós. Os sacerdotes de Ifá se dedicam a ser os mensageiros de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà), que por sua vez é o mensageiro dos orixa (òrìṣà) e de Olódùmarè, o Deus supremo dos Yorùbá. No que pese ser impossível praticar a religião sem que todos os orixa (òrìṣà) estejam envolvidos os sacerdotes de Ifá se dedicam exclusivamente a uma única divindade Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e tudo deles gira e torno dele. Ifá é Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e é também o nome do oráculo através do qual Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) fala conosco.

No Brasil, não tivemos o culto da Ifá. Esse foi um culto que não veio e não foi trazido posteriormente, como acabou ocorrendo com o culto de eegún. Temos assim muito bem estabelecido, com qualidade, o culto de orixa (òrìṣà), através do Candomblé das nações (nago, ketu, jeje, ijexá, hansa, mina, tapa e muitas outras) e temos o culto de eegún, com casas exclusivas para um e para o outro.

O Candomblé é um tradição religiosa baseada em uma matriz teológica africana. Ele contudo não reflete exatamente o que existe na África porque é uma tradição originada através da diáspora negra. Esse processo, a diáspora criou mais do que uma tradição religiosa, no nosso caso o Candomblé, mas também o lukumi em Cuba e o Voodoo no Haiti. Todas essas tradições desenvolveram conceitos próprios e até práticas. Não acho que mudaram nada mas, na ausência de acesso ao dogma original,seja por questões de distância ou de língua, tiveram que se vira com o que tinham e sabiam. Além disso o sincretismo influenciou diferentemente cada uma dessas tradições.

Uma tradição é um movimento muito comum em qualquer religião. Não se trata de uma degradação, pelo contrário, é uma especialização, uma melhoria, um formato que atualiza e adiciona riqueza cultural. Quando a criatividade é demasiada isso gera de fato uma nova religião ou uma prática que se distancia demais da matriz teológica original para que possamos chamá-la de tradição, assim, é sempre necessário um certo dogmatismo e fundamentalismo porque senão a religião se perde e acaba ocorrendo um processo igual ao da Umbanda, que não significa nada em termos religiosos.

Dentro dessa sua diferenciação o Candomblé reformatou o culto aos orixa (òrìṣà) em bases que eram as possíveis e também as necessárias para a nossa terra. E, um desses aspectos, foi a centralização do culto a todas as divindades em uma só casa, sob um único teto, além da qualidade multifuncional do sacerdote religioso, o Babalórìṣà.

O conhecimento que tenho do formato Africano, através de uma poucas fontes escritas ou orais, era de que o culto na África tinha uma certa especialização. Assim eram templos dedicados a uma divindade, o culto a uma divindade concentrado em vilas e até mesmo regiões e os sacerdotes especializados no culto de sua divindade. Um modelo muito diferente do nosso. O objetivo não é fazer comparações qualitativas até porque, o Candomblé é uma tradição muito bem sucedida e completa, preservando cultos que foram perdidos pelos africanos e com liturgias, orações e cantos muito mais completos que a tradição Lukumi (cubana), por exemplo.

Temos sim um problema interno de continuidade da tradição em vista da baixa qualidade da transmissão do conhecimento, da abertura por pessoas incapazes de novas casas, e do lixo que representa o sincretismo, mas, isso é assunto para outro dia. Entretanto isso são problemas cotidianos.

Dessa maneira, exceto pelo caso do culto eegúngun, que é separado do Candomblé e especializado neste tipo de espírito, a convivência com cultos especializados a divindades não é o nosso padrão de compreensão do universo liturgico no Candomblé.

Entretanto essa é uma realidade a encarar, compreender e aceitar uma vez que esse culto era e sempre foi muito distinto do culto aos orixa (òrìṣà). Em Cuba onde existe uma tradição da disáspora, o Lukumi, e Ifá eles são muito distintos. Existe uma certa mistura de rituais porque muitos Babaláwo foram Obariate e da mesma forma como acontece aqui com o povo que vem da Umbanda lá também ocorre e eles compartilham a mesma visão sincrética dos orixa (òrìṣà). Mas são casas separadas e cultos separados.

Desta feita eu quero registrar que estamos lidando com a mesma religião, os mesmos dogmas, divindades e princípios. Existe uma especialização de sacerdote, em Ifá os sacerdotes de especializam na divindade Ifá, ou Orunmila (Ọ̀rúnmìlà), e no Candomblé os sacerdotes cuidam de trabalham com todas as divindades.

O oráculo tem que estar presente em qualquer pratica dessa religião e se em Ifá um babalawo tem iniciação e aprendizado o mesmo acontece no Candomblé. Um sacerdote para poder ter o oráculo ele é iniciado no orixa (Òrìṣà) e recebe o jogo ritualmente. Depois passa anos praticando, aprendendo e desenvolvendo.

O culto a Orunmila (Ọ̀rúnmìlà)

No Candomblé eu posso dizer que, como outros irunmale (irúnmalẹ̀), Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é uma figura distante pouco conhecida pelas massas, é uma figura “cult”. Faz parte daquele enredo “secreto” que domina a mesquinharia do conhecimento. As pessoas associam o oráculo a Exu (Èṣù) e a Oxun (Ọ̀ṣun) mas a Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é coisa para entendidos.

Apesar de Orí ser um nome conhecido, e o Borí a cerimônia mais executadas, e talvez populares, do Candomblé eu não vejo com clareza as pessoas entendendo de fato o papel de Orí na sua vida ou mesmo o sentido de um Bọrí (Bori). Eu acho que isso se soma aquelas coisas repetidas por imitação ao infinito e digo isso porque apesar de todo mundo conhecer a palavra e o significado o sentido de Orí na vida das pessoas é substituído pelo orixa (òrìṣà). Essa situação já é muito boa porque entre os Lukumi (Cuba) a maior parte não tem nem idéia do que é Orí e como se cultua. O Candomblé é um culto centrado nos orixa (òrìṣà), isso tenho certeza de que todos concordam, o que aliás é muito bom.

Mas Ifá não o é, e nesse caso Orí assume uma outra proporção e por isso eu tive que iniciar este segmento citando-o. É claro que eu posso estar sendo aqui otimista ou fundamentalista demais, entretanto não dá para falar nisso de forma diferente. Não, antes que concluam isso, Ifá não é um culto a Orí. Ifá é um culto dedicado a Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) uma divindade cujo propósito de existência é ser o mensageiro entre o aiyé e o orun (ọ̀run).

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) entre os irunmale (irúnmalẹ̀) é considerado o deus da sabedoria, ou o orixa (òrìṣà) da sabedoria já que aplicar “deus” para os irunmale (irúnmalẹ̀) ou orixa (òrìṣà) tem levado a devaneios sobre a natureza dessa religião. Dois nomes pode ser aplicados a esse irunmale (irúnmalẹ̀), o de Ifá ou de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà). Simplificando essa parte, o nome Ifá é aplicado ao sistema oracular e ao irunmale (irúnmalẹ̀), a divindade e o nome Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) somente é aplicado à divindade. Nos versos do Odù surge um outro complicador porque nas histórias se diz que Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) consultou Ifá ou Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) consultou os Babaláwo, mas, ignorem isso, é apenas figura de expressão.

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é uma das mais importantes divindades da religião Yoruba. Sua atuação esta centrada no oráculo e nos ẹbọ corretivos e sua atuação junto às demais divindades e seres humanos gira em torno da transmissão de sabedoria e da humildade. O fato de não ser um orixa (òrìṣà) guerreiro talvez também explique a pouco popularidade no Candomblé já que os orixa (òrìṣà) tradicionais sempre tem que carregar uma arma branca na mão e são representados como musculosos e lindas beldades. Essas descrições jamais seriam adequadas para Orunmila (Ọ̀rúnmìlà).

Através de sua grande sabedoria, conhecimento e compreensão Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) coordena a atuação dos irunmale (irúnmalẹ̀) da religião Yoruba. Ele funciona como um intermediário entre os demais irunmale (irúnmalẹ̀) e as pessoas e entre as pessoas e seus ancestrais. Assim ele é a boca dos orixa (òrìṣà) que fala através do seu oráculo, o oráculo de Ifá.

Mas a fala de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) não é uma coisa simples e direta como estamos acostumados nos oráculos que usamos no dia a dia ou mesmo através dos guias de Umbanda. Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) fala através de sinais e de histórias. Suas histórias são metáforas, parábolas e meias verdades que devem ser interpretadas.

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) fala sempre através de um Odù. Existem 256 Odù e os sacerdotes de Ifá dedicam a sua vida a aprender a entender as mensagens de orunmilá através desses Odù, a aprender os versos de Ifá, poemas, os ésé, que contem através de metáforas os ensinamentos e mensagens para os consulentes. Além disso devem aprender a como fazer as rezas, os ébó, as folhas e até sacrifícios que permitirão ao odù atuar na vida das pessoas.

Assim, não se pode falar de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e de Ifá sem considerar que tudo isso gira em torno de Odù. Não sei se todos entendem o que é um Odù porque sem entender o que é um odù não se entende Ifá, mas volto nisso adiante.

Entre nós, no Brasil, Ifá é sinônimo de Oráculo e muita gente usa assim indistintamente sem as vezes entender a origem dessa palavra.

No culto de Ifá um Babaláwo se dedica consultar o oráculo para as pessoas e a fazer as ações decorrentes para poder corrigir o problema que Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) viu na vida da pessoa, não necessariamente o que a pessoas estava buscando lá. Quando a gente entre nessa área na qual um Babaláwo ou um Babalórìṣà, atende alguém e faz aquilo o que a pessoa quer ou que resolve o que a pessoa foi buscar estamos na área da feitiçaria e não da religião.

Uma babaláwo não é uma pessoa para fazer santo nos outros ou cuidar de orixa (òrìṣà) dos outros, para isso existem os Babalórìṣà. Um babaláwo trabalha através de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) com rezas, elementos simples e muito através de Exu (Èṣù) e Osanyin (Ọ̀sányìn). Mas basicamente a vida de uma Babaláwo é consultar o oráculo.

Contudo existe uma coisa comum entre Ifá e Candomblé que é a teogonia a base da religião, que é a mesma. Ser um culto especializado em uma divindade não muda o contexto religioso que ele está situado. Para qualquer um estamos tratando da mesma matriz religiosa e nessa matriz o papel de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é reconhecido da mesma forma.

Na nossa teologia, antes de nossos espíritos virem para o aiyé, no orun (ọ̀run) nós nos ajoelhamos perante Olódùmarè para junto a ele pedirmos o nosso destino, que alguns preferem chamar de objetivo de vida. Nesse momento nós escolhemos o que queremos viver nessa vida, o que queremos realizar e qual o nosso objetivo ao nascer no aiyé. Olódùmarè pode concordar com o que pedimos ou não, ou pode ainda definir para nós outros objetivos de vida. Essa conversa é uma das coisas mais importantes para nós e dela poderá depender por exemplo qual será o nosso odù de nascimento, porque ele faz parte do nosso Orí e vai ser definido para nos ajudar na vida que vamos ter aqui no aiye. O nosso orixa (òrìṣà) também poderá ser definido nesse momento e também será escolhido de forma a nos ajudar com nosso objetivo de vida.

Nesse ponto cabe uma dúvida porque o odù com certeza depende de nosso destino escolhido e atribuído, mas o orixa (òrìṣà) não tenho certeza. Eu gosto da visão de que o orixa (òrìṣà) não tem restrições no seu poder e qualquer orixa (òrìṣà) que tenhamos vai nos ajudar igualmente. No meu íntimo essa idéia de especialização funcional de orixa (òrìṣà), como as pessoas gostam e chegam a dizer que profissão uma pessoa de tal orixa (òrìṣà) deveria ter, é uma idéia meio cartesiana muito simplificadora e racionalista. Assim não tem minha simpatia.

Uma outra opção é a que nascemos com algum orixa (òrìṣà) de nossa família, de Pai, mãe ou avós, assim uma mesma linhagem teriam filhos com orixa (òrìṣà) similares e claro sempre se casa com uma pessoa de fora da família e novas opções de orixa (òrìṣà) podem ser incluídas.

Mas o importante é que como eu sempre disse, nós aqui no aiyé somos a coisa mais importante de Olódùmarè. Esse mundo espiritual, os orixa (òrìṣà) existem para nos ajudar a viver e não para nos escravizar ou atrapalhar.

Essa nossa conversa com Olódùmarè tem apenas 1 testemunho: Orunmila (Ọ̀rúnmìlà). Assim ele é o único que pode saber o nosso destino. Algumas outras divindades podem fazer parte, uma delas é ajala, outra é onibode, oporteiro do orun (ọ̀run). Antes de descermos para o aiyé perante Onibode nós falamos o nosso destino e quando pretendemos retornar.

Mas para nós aqui Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é o ẹlẹ́rií (elerii) ìpin, testemunho dos destino de todos nós e o mensageiro divino aquele que traz as mensagens de Olódùmarè e de todos os orixa (òrìṣà). Quando em nossa vida temos uma dificuldade que não conseguimos resolver, e isto está nos impedindo de seguir em frente, naqueles momentos em que não sabemos mais o que fazer, devemos recorrera a Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) consultando o oráculo de Ifá. Essa consulta é ao mesmo tempo um pedido de socorro e Orunmila (Ọ̀rúnmìlà), o ẹlẹ́rií (elerii) ìpin vai responder de forma a corrigir nossa vida para que possamos seguir com nosso destino.

Essa visão é o sentido religioso que eu conheço para o oráculo dentro de uma religião e esta visão é a mesma para o culto de Ifá ou dos orixa (òrìṣà). Dessa maneira não existem 2 testemunhos, só existe um testemunho, e ele é Orunmila (Ọ̀rúnmìlà), e existe para qualquer pessoa. Assim seja no culto de Ifá ou de orixa (òrìṣà) você tem que lidar com a mesma divindade, com Orunmila (Ọ̀rúnmìlà)

quer você do destino e não 2, se vamos a um oráculo de eerindinlogun para corrigirmos o nosso destino e vamos ter uma resposta para isso, quem está respondendo é Orunmila (Ọ̀rúnmìlà). Não pode ser Oxala (Òṣàlá) ou Xango (Ṣàngó) ou Oxun (Ọ̀ṣun) ou qualquer outro porque somente Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é o testemunho de nosso destino.

O que é Odù

Odù é a base da comunicação de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà), e como muitas palavras em yoruba ela é usada para várias coisas. Odù são marcas gráficas, assinaturas, que representam um símbolo. A este símbolo estão associadas histórias e versos que formam a famosa e tão pouco conhecida literatura de Ifá, poemas de Ifá, que eram transmitidos oralmente, mas que hoje já encontramos escritos. Esse conjunto não é completo, muita coisa se perdeu, ou uniforme cada escola de Ifá tem o seu que pode ter variações em relação a outras. É interpretação dessas histórias que podem estar na forma de mitos ou de poemas é que vem o significado de um Odù. A mensagem que um odù traz para nossa vida esta contida nas histórias que são associadas a ele.

Odù também é uma energia divina que vem de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) para nós em resposta à consulta ao oráculo. Assim além de ser um símbolo gráfico, além de conter através de suas histórias significados para nossa vida um Odù também é a resposta a nossa aflição. Essa energia primária vem através do oráculo e será utilizada pelo Babaláwo junto com os orixa (òrìṣà) para nos ajudar.

Odù não é um caminho e nem significa caminho. A palavra Yoruba significa com recipiente grande para conter algo dentro, como uma cabaça.

Em termos quantitativos são 256 Odù. Existe uma matemática nesses números. São 16 figuras diferentes, feitas com a combinação de traços duplos ou simples. Como cada odù é formado pela combinação de 2 figuras, então teremos 16 x 16 = 256 odù. Nessas 256 figuras diferentes, aquelas onde o mesmo símbolo aparece repetido, são chamados dos Odù Méjì, ou principais. Esses Odù são ordenados de acordo com uma ordem arbitrária definida e Ifá que seria a ordem nos quais esses odù chegaram ao mundo. Existe ainda uma maior relevância para os 4 primeiros Odù. Os Odù que não são os Méjì são chamados de Omo (Ọmọ) Odù ou Odù filhos.

Toda a comunicação entre Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e nós através dos Babaláwo é feita usando Odù.

O oráculo em Ifá

Em Ifá, a consulta ao oráculo é feito usando uma corrente com metades de semente chamada opele (ọ̀pẹ̀lẹ̀) ou com os caroços de dendezeiros chamados de ikin, esses são os instrumentos básicos de um Babaláwo. O processo da consultar é assim:

Usa-se o opele (ọ̀pẹ̀lẹ̀) ou os ikins para formar o desenho de odù, um dos 256 Odù, que é uma figura formada por 2 pernas. Cada uma das pernas é um dos 16 odù principais. Essa é a anatomia de um odù, uma formação gráfica composta por 2 partes, ou 2 pernas (ou patas com dizem os cubanos). Essa figura é traçada da direita para a esquerda assim se lê o nome do Odù da direita antes do da esquerda.

Os odù são compostos de uma coluna de traços duplos ou simples, no total de 4. Para se ter um odù SEMPRE tem que se ter 2 pernas ou seja as 2 partes dessa figura. Então

II.......I
II.......I
II.......I
II.......I

A figura acima corresponde ao Odù ogbe-oyeku (ogbe-oyeku (ogbè-ọ̀yẹ̀kú)) e esse é o décimo sétimo odù. antes dele estão os odù méjì. São chamados de méjì porque méjì significa (2). O numero 2 é èjì, mas em yoruba quando o numero é colocado depois do substantivo, ou seja quando ele é usado para contar alguma coisa adiciona-se o M na frente. Assim èjì é o número 2 e ogbe èjì é traduzido como 2 ogbe, ou 2 odù ogbe:

I........I
I........I
I........I
I........I

Dessa maneira o odù acima é o ogbè méjì, ou 2 ogbè, porque seria ogbè-ogbè mas não se fala assim, a gente fala ogbè méjì de maneira que ogbè-ogbè e ogbè méjì são a mesma coisa.

Assim, isso é um odù. Um odù sempre tem 2 pernas. SEMPRE, mesmo os méjì, lembrando que como eu já disse dezenas de vezes:

- Não existe ligação entre odù e número.

- Os odù são ordenados através de uma hierarquia, ou ordem de senioridade e essa ordem de senioridade serve para definirmos qual é o mais velho e por conseqüência qual ìbò escolhemos.

O relacionamento de odù com numero não tem nenhum fundamento. Anteriormente eu expliquei isso, isso é apenas fruto de sincretismo com a cultura árabe que foi exportada para a Europa, provavelmente. É um vinculo entre numerologia e Ifá e que não existe motivo ou fundamento. Dessa forma pertence as coisas da Umbanda que adora sincretismo.

Os primeiros 16 odù são os odù meji, indo de ogbe meji até orangun meji. Depois disso é feita uma combinação entre cada odù e os conseguintes, formando de ogbe-oyeku (ogbè-ọ̀yẹ̀kú) até ogbè-òfún e depois indo para oyeku-ogbe (ọ̀yẹ̀kú- ogbè) e na mesma lógica.

Para que eu estou explicando tudo isso? Para reforçar que NÃO existe odù que não tenha 2 pernas ou seja que não seja um dos 256 odù, formado por 2 partes. E repetindo, mesmo os odù meji, os 16 primeiros, que são os usados no merindinlogun tem que ter 2 pernas, porque Odù meji tem 2 pernas, lembram ogbè-ogbè = ogbè méjì.

Em Ifá o resultado de uma consulta a Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é um odù. Um e somente um. Tudo se inicia com determinação desse odù. Com o opele (ọ̀pẹ̀lẹ̀) um processo rápido. Com os ikins mais demorado, mas o resultado é o odù que veio em resposta.

Temos o que se pode chamar de uma segunda parte da consulta que é a qualificação do odù. A seguir como já expliquei, se determina de está em ibi ou ire. Depois o tipo de ibi ou ire. e se for em ibi a origem desse tipo.

Com isso se completa a qualificação do odù que veio em resposta à consulta.

É claro que para ter essas resposta de ire ou ibi, tipo e origem se faz usando o Ibos e outras caidas do opele ou dos ikin para usando a hierarquia se selecionar a mão a ser aberta e o ibo, esse é o processo de Ifá. mas essa sequencia adicional de odùs são apenas para perguntas e seleções.

Assim toda a consulta é feita com apenas 1 odù. O babaláwo tem que interpretar esse odù ou melhor tem que junto com o consulente interpretar o odù e para isso existem os versos que transmitem as mensagens do odù, são varias mensagens em um mesmo odù os mitos/pataki e também os significados daquele odù.

Um odù carrega muita informação e existem, sim, odù adicionais que se usa para complementar o odù principal, mas, não quero confundir nem omitir, entretanto, não existem novas caídas de opele para isso. Esses Odù complementares são obtidos como parte do grafismo do Odù principal, como por exemplo sua sombra ou o Odù formado pela combinação da perna de um com a de outro e por ai vai dependendo da escola do Babaláwo. Entretanto, isso é penas para entender as mensagens, tudo o que vai se fazer esta ligado ao odù que foi obtido na primeira consulta. Assim concluindo aqui, em uma consulta somente um Odù é interpretado. Através dessa interpretação teremos o problema da pessoa e também a indicação dos ẹ́bọ.

O eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) e Ifá

A prática do oráculo no Candomblé tomou mais de um caminho ao longo da nossa história e sofreu influência diversas. A primeira coisa que eu lembro a todos é que Ifá e oráculo são sinônimos no Candomblé e muita gente pode até desconhecer que exista um culto separado destinado a Ifá ou a divindade Orunmila (Ọ̀rúnmìlà). Assim da mesma forma como Ifá e Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) são em certo aspecto sinônimos em Ifá, no Candomblé, Ifá e oráculo são sinônimos, sem que isso seja necessariamente vinculado a Odù. Assim, por muitos anos temos ouvido as pessoas chamarem o seu oráculo de Ifá sem que isso guardasse qualquer vínculo com o Culto de Ifá e com o Oráculo de Ifá. Hoje a gente saber que uso de Odù no oráculo do Candomblé é opcional e não dominado por muitos.

Mas vamos voltar a esse ponto mais adiante, para que a gente chegue em algum lugar vamos examinar primeiro a ligação entre o owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún) e Ifá.

Com simplicidade, sem recorrer a textos de odù, vamos considerar que tudo é um mesma religião. Assim dentro do culto dos orixa (òrìṣà) ou do culto de Ifá estamos tratando da mesma religião. É o mesmo Olódùmarè é o mesmo aiyé é o mesmo orun (ọ̀run) são os mesmos orixa (òrìṣà). A Teogonia é a mesma. E nesse conjunto, como estamos todos falando com as mesmas divindades e acreditando na mesma metafísica, se recorremos a um oráculo para tratar da vida e do destino das pessoas e recebemos respostas sobre isso que nos permitem ajudar e orientar essa pessoa então. é Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) esta se manifestando em nossa vida.

Assim eu não vejo porque Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) não poderia falar através do eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún). Se isso não ocorre nós temos que supor que todo Babalórìṣà é um enganador, o que não é verdade, nem todo Babalórìṣà é um enganador, e que não existe outro testemunho do destino, somente Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) tem essa informação.

Eu lembro que o oráculo do candomblé, o eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) sempre serviu e continuará servindo com louvor a tudo o que é necessário fazer em uma casa de santo. Esse oráculo representa sim uma forma autêntica e verdadeira de diálogo entre nós e o divino, entre nós e os orixa (òrìṣà), entre nós e Orunmila (Ọ̀rúnmìlà). Se não fosse assim tudo seria errado ou sairia errado, e não é isso o que ocorre.

A ligação entre Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e o eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) existe nos versos do Odù Ogbè-Ọ̀sá, conforme transcritos por Wande Abimbola. Houve um tempo que Olódùmàrè convocou todo os 401 orixa (Òrìṣà) para o Órun (Ọ̀run), para para surpresa dos orixa (Òrìṣà) eles encontraram as Ajé (Àjẹ́) no Órun (Ọ̀run) e estas passaram a comer um por um. Mas como Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) havia feito um sacrifício antes de deixar a terra ele foi miraculosamente salvo por Oxun (Ọ̀ṣun) que substituiu Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) por carne fresca de cabrito (que Orunmila havia usado no sacrifício recomendado por Ifá).

Quando eles retornaram a terra eles se tronaram mais próximos do que nunca. Este foi provavelmente o tempo no qual Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) teve Oxun (Ọ̀ṣun) como esposa. Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) então decidiu recompensar Oxun (Ọ̀ṣun) e então ele colocou junto os 16 búzios e ensinou a Oxun (Ọ̀ṣun) como usá-los.

Este mostra como Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e Oxun (Ọ̀ṣun) se tornaram unidos.

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) disse que estava agradecido com o que ela fez por ele.

Foi uma coisa expecional.

Ele se esmerou no que dar a ele em agradecimento.

Esta foi a razão mais importante pela qual Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) criou os owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún.

Ele então colocou-os nas mãos de Oxun (Ọ̀ṣun).

De todos os orixa (Òrìṣà) que usam os owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún.

Não existe nenhum que tenha feito isso antes de Oxun (Ọ̀ṣun).

Esta foi a forma pela qual Ifá foi dado a Oxun (Ọ̀ṣun).

E foi pedido para ela usá-los

Como um outro meio de consutar o oráculo.

Isto foi como Ifá foi usado para recompensar Oxun (Ọ̀ṣun).

Desta forma Oxun (Ọ̀ṣun) também podia chamar Ifá.

Ninguém mais pode saber

porque Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) tomou Oxun (Ọ̀ṣun) como esposa.

Das diversas formas de oráculo

owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún é a mais próxima de Ifá.


Assim de acordo com esse Odù foi Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) que criou o owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún e se Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é Ifá e o conhecimento de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é baseado em Odù e Ifá ele não poderia ter criado algo que não fosse parte do seu próprio conhecimento. Isso muda a versão de um mito popular de que Oxun (Ọ̀ṣun) teria obtido o owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún de Exu (Èṣù) o que de fato teria como consequencia uma não ligação direta com Orunmila (Ọ̀rúnmìlà). Mas esse Odù Ogbè-Ọ̀sá deixa claro que Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é o criador do owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún.

Este Odù também vai mostrar a seguir que o owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún recebeu o seu Àṣẹ do próprio Olódùmàrè:

A cada 16 anos

Olódùmàrè usava chamar os adivinhos da terra para um teste.

Para saber se eles estavam dizendo mentiras para os habitantes da terra.

Ou se eles estava dizendo a verdade

Este teste consistia em chamar Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e outros olhadores da terra

Olódùmàrè diria o que ele ira ver neles.

Quando eles chegaram

Olódùmàrè pediu para eles consultarem o oráculo para ele.

Quando Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) terminou a consulta

Olódùmàrè perguntou: Quem é o próximo?

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) disse que a próxima pessoa vinha a ser sua companheira

O qual era uma mulher

Olódùmàrè então perguntou:

Ela também é uma advinha, uma olhadora?

O qual Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) respondeu, “Sim, isto é verdade”

Olódùmàrè então pediu a ela para consultar o oráculo para ele

Quando Oxun (Ọ̀ṣun) examinou Olódùmàrè,

ela viu tudo em sua mente

Mas ela não disse para ele tudo o que viu

Ela mencionou a essência

Mas ela não disse as raízes do problema assim como faz Ifá

Olódùmàrè então perguntou a Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) o que era aquilo?

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) então explicou a Olódùmàrè

como ele honrou Oxun (Ọ̀ṣun) com o owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún

Olódùmàrè disse, “Esta tudo certo”

Ele disse que mesmo sabendo que ela não lhe contara tudo o que sabia

Ele daria a sua autoridade para ela

Ele adicionou “De hoje para sempre,

até mesmo quando o owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún

não disse tudo detalhadamente

Qualquer um que desacreditar dele

sofrerá as consequencias imediatamente

Isso não precisará esperar até o dia seguinte

Este é o motivo pelo qual as previsões do owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún ocorrem rapidamente

Esta foi a forma como o owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún recebeu o seu Àṣẹ diretamente de Olódùmàrè


A transcrição desse Odù esta no artigo "The Bag of wisdom - osun and the origin of ifá divination" de Wande Abimbola.

Um outro verso contido no odù Okanransode, que foi transmitido pelo Babalawo Ifátóògùn, famoso sacerdote de Ìlobùú, conta a história do saco da sabedoria. Olódùmàrè jogou na terra o saco da sabedoria e pediu a todos os orixa (Òrìṣà) que procurassem por ele. Ele garantiu que o orixa (Òrìṣà) que o encontrasse seria o mais sábio de todos eles. Olódùmàrè mostrou como era o saco para todos os orixa (Òrìṣà) para que eles reconhecessem quando o vissem.Uma vez que Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e Oxun (Ọ̀ṣun) eram íntimos eles decidiram procurar juntos.

Uma pessoa velha amarou um um fio de contas mas ele se abriu

Um sábio amarrou um fio de conta e el ficou frouxo

Somete uma pessoa que apoia suas costas em ikins

irá amarrar um fio de contas que irá durar

Ifa foi consuktado para Orunmila (Ọ̀rúnmìlà)

quando ele e Oxun (Ọ̀ṣun) foram procurar pela sabedoria

Foi Olódùmàrè que chamou as 401 divindades (da direita)

e as 201 divindades (da esquerda)

para se reunierem no Orun (Ọ̀run)

Quando elas chegaram lá

Ele disse que queria dar para elas profunda sabedoria e poder

Ele disse que que qualquer um poderia ver isto

que ele iria dar para o Ori deles

E esta seria a pessoa mais sábida na terra

Ele disse que 19 dias a frente

Ele jogaria o saco da sabedoria na terra

Mas se isso seria na floresta

ou seria no campo

Ou seria no rio

ou seria em uma cidade

ou seria em uma estrada

Ele não diria onde extamente seria

Olódùmàrè mostrou então a todos o saco da sabedoria

Ele disse “É isso”

Olhem bem

E observem bem.

Quando eles chegaram de volta a terra

alguns deles iniciaram a fazer sacrificios

Alguns fizeram remédios

Alguns planejaram a sua propria estratégia

Todos disseram “Essa coisa, serei eu quem vai achar”

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e Oxun (Ọ̀ṣun) costumavam fazer coisas juntos

Eles estavam sempre um na companhia do outro

Ambos adicionaram 2 búzios a 3

e foram consultar Ifá

Eles perguntaram aos babalawo para verificarem sobre ambos

A coisa que os orixa (Òrìṣà) estão procurando poderiam ser ambos eles as pessoas que a encontrariam?”

Os babalawo pediram a Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e Oxun (Ọ̀ṣun) que fizessem um sacrifício

Com os grandes alakas que eles estavam usando

Cada um deles deveria oferecer um cabrito

e um rato domético

Bem como 201 ọ̀kẹ́ cheios de búzios para cada um deles

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) disse a Oxun (Ọ̀ṣun) que eles deveriam fazer o sacrifício

Mas Oxun (Ọ̀ṣun) disse m “por favor, deixe me descançar”

Vá fazer o sacrificio com o seu alaka

Qual a relação disso com o que estamos procurando?

Oxun (Ọ̀ṣun) se recusou a fazer o sacrifício

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) cujo outro nome era Àjànà,

pegou o seu alaka e ofereceu em sacrificio

Ele também usou um rato doméstico e dinheiro para o sacrifício

Eles então procuraram pelo saco da sabedoria mas não acharam

Todos os outros orixa (Òrìṣà) tmbém não encontraram

Eles procuraram em Ẹ̀gá ajá

Ele foram longe até Ẹ̀sà adìẹ

alguns foram ainda até Ìkọ Àwúṣẹ̀

alguns procurara também em Ìdòròmù Àwúṣẹ̀

Onde o dia vira noite

Mas ele não encontraram

Um dia um rato doméstico foi até o alaka que Oxun (Ọ̀ṣun) usava

E fez um buraco no bolso

No dia seguinte eles se consideraram prontos

e procuraram o saco da sabedoria mais uma vez

Então Oxun (Ọ̀ṣun) o encontrou!

Ela exclamou “Han-in este é o saco da sabedoria!”

Ela colocou então no bolso do seu alaka

Ela então foi embora apressada

Como ela estava atravessando florestas mortas e subindo por troncos

repentinamente o saco caiu do seu bolso

pelo buraco que o rato tinha feito

Oxun (Ọ̀ṣun) estava chamando Orunmila (Ọ̀rúnmìlà)

Dizendo “Orunmila (Ọ̀rúnmìlà), cujo outro nome é Àjànà

Venha rápidp, venha rápido

Eu vi o saco da sabedoria

Quando Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) estava indo ele viu o saco da sabedoria no chão

Ele então colocou no bolso do seu próprio Alaka

Quando ele chegou em casa

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) disse: Oxun (Ọ̀ṣun) deixe-me ver o saco

mas Oxun (Ọ̀ṣun) disse que ela jamais mostraria para um homem

Mas se um homem precisasse ver

Ele teria que dar lhe 200 ratos

200 peixes

200 passaros

200 animais

e um monte de dinheiro

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) implorou por muito tempo para ver o saco

mas ela não permitiu

Ele então retornou para a sua própria casa

Quando Oxun (Ọ̀ṣun) tentou pegar o saco no seu bolso

de maneira que ela o visse mais uma vez

Ela colocou a sua mão no bolso

e sua mão entrou dentro do buraco feito no fundo do bolso

Então Oxun (Ọ̀ṣun) foi encontrar Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) na sua casa

Ela começou a implorar a ele

Ela começou a agradar Orunmila (Ọ̀rúnmìlà)

Assim foi então como Oxun (Ọ̀ṣun) foi para a casa de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà)

para viver com ele como marido

De maneira que ele pudesse ensinar para ela um pouco de sabedoria

Nos tempos antigos, quando uma pessoa se casava

Não era obrigatório para a esposa ir para a casa do marido viver com ele

Assim foi como os casais passaram a viver juntos

Quando Oxun (Ọ̀ṣun) tirou o seu alaka

ela colocou àṣẹ na sua boca e disse

daquele dia em diante nenhuma mulher ia vestir um alaka como os homens

Ela então jogou o seu alak no lixo

Depois de muitos pedidos de Oxun (Ọ̀ṣun)

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) pegou um pouco de sabedoria e deu para ela

Este é o eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún)

O qual Oxun (Ọ̀ṣun) faz uso

O saco de sabedoria é Odù Ifá,

os remédios e todas as demais profundas sabedorias do povo Yoruba



Assim vou destacar de forma bem objetiva o que o Odù Okanransode ensina:

  • Oxun (Ọ̀ṣun) foi a primeira a ter acesso a sabedoria de Ifá. Ela encontrou o saco de sabedoria e olhou para ele, assim ela obteve antes de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) a sabedoria de Ifá. Devido a sua teimosia, falta de fé ou preguiça ela perdeu o saco para Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) que assim teve a posse dele por todo o tempo e a sabedoria e poder que Olódùmàrè prometeu. Mas não se pode ignorar o acesso que Oxun (Ọ̀ṣun) teve a Ifá.

  • Oxun (Ọ̀ṣun) foi viver com Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e este lhe deu mais sabedoria de Ifá.

  • Esse odù nos dá também uma excelente explicação de porque somente homens tem acesso pleno a sabedoria de Ifá. Oxun (Ọ̀ṣun) se tivesse acesso teria omitido isso dos homens, Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) observando isso limitou o acesso de Oxun (Ọ̀ṣun) ao conhecimento de Ifá. Essa interpretação deve ser estendida aos homens em geral e as mulheres também, e não especificamente a Oxun (Ọ̀ṣun) e Orunmila (Ọ̀rúnmìlà). Oxun (Ọ̀ṣun) é a essência feminina e um odù é uma metáfora. Assim isso explica o papel de Babalawo e de Apetebi.

  • Outra lição é o mal destino que teve a ambição ou ganância no uso da sabedoria de Ifá. O desejo de Oxun (Ọ̀ṣun) era se enriquecer com essa sabedoria. Isso foi penalisado, assim a sabedoria de Ifá jamais deve ser usada para enriquecer ninguém.

  • Outro aspecto foi o preço a ser pago para se tornar sábio. Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) pagou o preço e se tornou sábio, Oxun (Ọ̀ṣun) não quis pagar e não obteve exito na sua busca. A sabedoria exige sacrifícios de bens.

Apesar disso tudo é inegável o vinculo de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) com Oxun (Ọ̀ṣun) ou seja de Oxun (Ọ̀ṣun) com Ifá. Mesmo depois desse episódio Oxun (Ọ̀ṣun) e Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) ficaram mais próximos.

Unindo os versos de Okanransode com o de Ogbè-Ọ̀sá fica demonstrado e clara e evidente ligação entre Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e o eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún).

Os métodos de consultar Ifá

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) fala através de odù, isso é definitivo. O owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún) também obtem respostas através de Odù. Existem 2 formas. A primeira é a mais clássica que todos conhecem e que usa os 16 odù méjì: ogbè, oyeku (ọ̀yẹ̀kú), ìwòrì, òdí, obara (ọbàrà), okanran (ọkànràn), ìròsùn, owonrin (ọ̀wọ́nrín), ògúndá, osa (ọ̀sá), irete (ìrẹtẹ̀), òtúwà, oturupon (òtúrúpọ̀n), ìka, oxe (ọ̀ṣẹ́), òfún. Aqui no Brasil o método de banbogxe ficou mais conhecido mas hoje em dia existem outros. Pode-se ainda usar o owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún) para ler um dos 256 odù, como os cubanos fazem e ensinam.

Eu vou transcrever abaixo um trecho do artigo "The Bag of wisdom - osun and the origin of ifá divination". O autor do artigo é Wande Abimbola um dos mais eminentes acadêmicos Nigerianos da atualidade que se dedicou a reconstituir a cultura de Ifá na africa. Sendo o autor Nigeriano e ao mesmo tempo 100% comprometido com Ifá, talvez até demais, isso o torna bastante isento, o texto a seguir é uma análise dele sobre a pesquisa e a interpretação dos odù Okanransode e Ogbè-Ọ̀sá que transcrevemos anteriormente:

"Por "Ifá Divination" nós queremos traduzir como Ifá e sistemas correlacionados de oráculo baseados em estórias e símbolos de Odù tais como Dida owo (uso do opele), etite-ale (uso do ikins), eerindinlogun (16 buzios), agbigba (um tipo de opele) e obi. O propósito desse artigo é examinar a íntima relação de Oxun (Ọ̀ṣun) com o oráculo de Ifá de duas formas, através dela mesma e através da instrumentalização de xetuura, seu filho. Nós iremos iniciar com a visão popular que envolve Oxun (Ọ̀ṣun) em Ifá no qual ela obteve o seu conhecimento de Ifá através de seu marido orunmila. Nós examinaremos então a importância de oxetuura para o sacríficio resultante do oráculo. Nas ultimas páginas deste artigo nós iremos então fazer a afirmação de que Oxun (Ọ̀ṣun) tem muito mais relação com Ifá do que os bablawo são capazes de admitir. Eu irei, claro, colocar a hipótese que que todo o sistema de Ifá iniciou a partir de Oxun (Ọ̀ṣun) e ela o deu para orunmila e não o contrário. Eu irei basear minhas afirmações em versos de Ifá. Eu também irei examinar a possibilidade que o eerindinlogun é mais antigo do que dida owo e etite-ale que são desenvolvimentos posteriores do oráculo de Ifá".

Assim, ele não deixa nenhuma dúvida de que o eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) é um sistema que se baseia nas histórias e simbolos de Odù, tanto quanto todos os outros. Isso é uma afirmação básica e não uma hipótese. É claro que como eu disse, precisa-se de fato usar o instrumento, os búzios, e o conteúdo, Odù com suas histórias e símbolos. O simples uso dos búzios não caracteriza um oráculo de odù e essa afirmação é devido as variações que são encontradas principalmente devido a mediunidade dos olhadores.

Como eu já repeti aqui, no Brasil tem vários métodos de jogar buzios. Um dos métodos é o famoso método que bangboxe trouxe para o Brasil, e que trouxe o odù para os buzios. É nesse método que encontramos as 4 caídas, onde aparecem 4 odù. A descrição do método foi feita de forma bem clara pelo Jose Beniste no seu livro O jogo de Búzios, dentro do universo de poucas obras que temos, é uma obra de referência no assunto. Entretanto eu tenho algumas observações sobre o uso desse método para trabalhar com Odù. Contudo, primeiro, eu quero lembrar que as pessoas que usam esse método hoje não guardam o seu formato inicial preservando as histórias associadas a cada odù. Essas histórias hoje estão em 2 fontes mas são todas originas da mesma pessoa, é o material da Iyalorixa Aninha.

O Verger publicou essas histórias, há muito tempo atrás, preservando inclusive o linguajar, mas a Aninha não gostou e ele nunca mais republicou o livro. Depois o Prandi publicou as mesmas histórias tendo como fonte o Agenor que tinha esse habito de dizer que as coisas dos outros eram dele, quando não eram, e era o mesmo material da Aninha já publicado pelo Verger. Depois disso o Beniste publicou essas histórias em uma forma interpretada no seu livro o Jogo de owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún). Ele não publicou as histórias completas e sim uma interpretação do seu significado. Nesse livro cita a fonte de sua pesquisa e a autoria do material original.

Ao todo são 72 histórias. Cada odù até ika tem histórias, 4 ou 5, sendo que ejionile tem 8. Essas histórias foram chamadas de os caminhos dos odù, porque para um mesmo odù elas davam opções diferentes, criando assim caminhos de interpretação para aquele odù. Foi dai que eu acredito que uns gênios, entenderam que odù era caminho, mas, eu acho que eles confundiram as histórias que criavam os caminhos em cada odù com odù ser um caminho. O livro do Prandi-Agenor se chama Caminhos de Odù, porque o conteúdo de é apenas e unicamente as 72 histórias associadas a cada Odù. Então dai para entender que, Odù = caminho foi apenas um passo, de cego, é claro.

Mas observem, que em Ifá a estrutura de interpretação de um odù é a mesma. Só que a gente faz isso para 256 odù e não somente para 16. Também, não se tem todas as histórias de cada odù cada escola ou axé pode ter o seu conjunto e que pode variar em relação a outro. Mas também existem gênios em Ifá São aqueles que dizem que existem 2.046 odù. Não existem. De novo, a mesma genialidade que transformou odù em Caminho pegou as histórias que compoe um odù, que podem ser 16 para cada odù, em novos odù. Coisa de gênio, não? Mas não é. Um odù pode ter interpretações diferentes e as histórias trazem essas possibilidades. Se não fosse assim teríamos que considerar que todos os problemas da humanidade se resumiriam em 256.... rsrsrs

Dessa maneira a grande sacada do oráculo de buzios é fazer um Ifá mais simples ao invés de aprender 256 odù você aprende 16, ao invés de centenas de histórias você se concentraria em aprender 72. Se diz que o eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) seria nesse formato menos detalhado, que daria uma informação incompleta em relação à Ifá. Existe até um texto atribuído ao no Odù ògúndá-ìrẹtẹ̀ falando sobre isso. Mas o mesmo texto diz que a informação é conhecida e não seria apenas dita, possivelmente em função da quantidade menor de Odù.

Mas, no owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún), temos que lembrar que temos muito mais recursos para nos ajudar na interpretação, além dos 16 Odù Méjì. O oráculo nos fala também através da posição que os búzios caem no ọpọ́n, em alguns grafismos que podem fazer e usando o recurso da sub-divisão das caídas nos chamados barracões. Assim a ferramenta de fato oferece muito mais opções do que o opele (ọ̀pẹ̀lẹ̀) e os ikin.

Existem muito pouco literatura sobre métodos de jogos com buzios. Se nós recorrermos a um clássico, o livro do Bascom 16 cowries, lá o método é o Salako tirar apenas um odù, uma única caída. Ele joga uma vez e faz uma correspondência entre buzios abertos e Odù O Odù que sair ele considera como sendo méjì, isto é, ele não faz uma segunda jogada para saber a outra perna. Joga-se uma vez e considera-se que a segunda perna é igual a primeira, formando assim um odù méjì. O livro então documenta inúmeros versos para cada odù criando assim um processo similar ao de Ifá Continua existindo a determinação de ire/ibi e tipo e origem e para isso são feitas caidas adicionais, mas ele sempre considera que é uma caída méjì. Essa é a característica do eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún).

Os cubanos tem um processo distinto. Vi fontes diferentes com pequenas variações no processo mas é a mesma coisa. Os cubanos usam os buzios para tirar as 2 pernas do odù. Assim, eles jogam a primeira vez e tiram a perna da direita e jogam de novo e tiram a perna da esquerda. 2 caidas de buzios forma 1 omo odù, da mesma forma como em Ifá

Dessa maneira com o eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) você pode optar por trabalhar com uma configuração mais simples com Odù méjì ou uma mais completa com os 256 Odù. A ferramenta, o instrumento não o limita.

Dito isso tudo eu volto a colocar a afirmação que podemos dizer que Ifá fala também através do eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún). Não existe nenhuma restrição conceitual a isso e apenas a prática pode separa uma coisa da outra. Por esses motivos não existe razão para que pessoas pré-estabeleçam que o eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) não é Ifá. Essa afirmação pura e simples ao meu ver mostra apenas desinformação e ignorância. O que temos que examinar de fato são questões de prática que podem desconectar o uso do eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) de Ifá e faremos um analise disso a seguir.

O oráculo no Candomblé

O Oráculo por excelência do Candomblé é o owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún) , os Búzios, mas a forma de usá-los muda bastante. Como ele é feito majoritariamente pelo Babalórìṣà existe sempre uma enorme componente de mediunidade envolvida. Assim, no mundo real, os Búzios são usados através da vidência do olhador e depois pela chamada fala dos orixa (òrìṣà) que combina caídas de búzios com orixa (òrìṣà).

Historicamente o oráculo através dos owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún) é a ferramenta básica de um sacerdote de orixa (òrìṣà). Os búzios podem indistintamente serem usados por homens e mulheres enquanto que Ifá é um culto predominantemente masculino, com a presença de mulheres em algumas funções específicas. As mulheres não recebem iniciação para trabalhar com os instrumentos principais dos babaláwo o opele (ọ̀pẹ̀lẹ̀) e ikin. Além disso um Babaláwo não tem incorporação de forma que ou uma pessoa é um Babaláwo ou um Babalórìṣà.

O owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún) é então o oráculo majoritário no culto de orixa (òrìṣà) e fontes que eu tive acesso elogiam em larga escala o mesmo. Nós sabemos por nossa prática no Brasil que os Búzios são excelentes como oráculo e esse conceito também existe na África.

O uso desse instrumento, owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún), sofre muitas variações. A gente tem que considerar inicialmente o fator Umbanda. Um enorme contingente de pessoas que são Babalórìṣà no Candomblé já foram Pai de Santo de Umbanda (muitos escondem isso) e lá eles trabalhavam fortemente com vidência, de maneira que essas pessoas tem a clarividência e aurividência muito aflorada. É possível que a totalidade deles não deixe de trabalhar com seus guias de Umbanda mesmo estando no Candomblé. Muitas dessa pessoas na Umbanda, tinham o seu jogo de búzios que não era nada mais do que um simples exercício de mediunidade com os guias intuindo, falando ou trazendo vidência ao Pai de santo dos problemas que o consulente trazia. Essa prática nunca teve qualquer vínculo com Ifá, apesar de muitos chamarem assim o seu oráculo (sem saber o que isso queria dizer de fato).

No Candomblé existe uma baxíssima qualidade de transmissão de conhecimento. Existe uma enorme facilidade em se vender obrigações e nenhum compromisso em continuar ou fazer a formação de uma pessoa seja para ela ser um Babalórìṣà ou simplesmente um sacerdote da casa. As pessoas pagam suas obrigações e anos de submissão para serem depois um Babalórìṣà com sua própria casa, onde ele dê suas ordens (o conceito de comunidade não inexiste, de fato). O oráculo é a porta de entrada de qualquer pessoa no mundo sacro do Candomblé. Tudo é feito a partir do oráculo e tudo é feito com o oráculo. Não pode existir um Babalórìṣà que não tenha um oráculo na mão.

Dessa maneira as pessoas tem que se virar com o que tem e com o que sabem da maneira como puderem, lembrando que nada é de graça. Em função disso temos muita variação de qualidade no oráculo dentro do Candomblé e o principal tipo de oráculo, aqueles que os Babalórìṣà conseguem usar com mais facilidade, é esse baseado apenas em mediunidade. Em grande parte dos casos a quantidade de búzios não se restringe a 16 (como deveria ser), as pessoas usam a peneira ou mesmo o opon e decoram a mesa com uma pilha de guias que mal sobra espaço para se deixar cair os buzios, a ainda, pedras, cristais, conchas, moedas, favas, figas, pirâmides, velas, copos com água, imagens de orixá, imagens de santos, calendário de são Jorge, as vezes dentes de animais e ossos e por ai vai. Isso tudo é decorativo, não tornar o jogo melhor.

Assim os búzios caem mas as informações vêm através da mediunidade. Nesse tipo de uso nem passa pela cabeça de ninguém considerar que se esta trabalhando com Ifá ou com Orunmila (Ọ̀rúnmìlà).

Existe um outro grupo que faz uma variação disso. Considera que usa Odù porque restringe-se a 16 Búzios e dá nome de odù para as caídas. Eles sempre uma associação entre Odù e orixa (òrìṣà) e isso se torna uma informação de primeira linha, sendo que as pessoas disputam por ai saber que orixa (òrìṣà) fala em cada Odù ou caída. Cada odù corresponde um ou mais orixa (òrìṣà) que “falam”. Em função do orixa (òrìṣà) que está falando e do arquétipo do orixa (òrìṣà), no conhecimento popular, aquela caída significa uma coisa. Uma caída com etaogunda, é associada com Ògún e dessa maneira você vai ter problemas com brigas, justiça, etc... Os Olhadores associam então essa correlação de Odù-orixa (òrìṣà) ou simplesmente caída-orixa (òrìṣà) com a sua mediunidade para responder ao consulente.

Neste tipo de uso dos búzios o importante mesmo é o orixa (òrìṣà) que está respondendo. Existem olhadores que chegam a dizer que tal pessoa pertence ao orixa (òrìṣà) que respondeu nas suas caídas ou mesmo no que mais respondeu. Sem nos preocuparmos com aspectos qualitativos, esse tipo de uso dos búzios, mesmo que nomeando o Odù que cai, jamais poderá ser considerado como Ifá assim como a associação de Odù com a quantidade de owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún) aberto, mesmo que use algum padrão estabelecido, também não poderá ser Ifá ou Orunmila (Ọ̀rúnmìlà). A consulta gira sempre em torno de orixa (òrìṣà), e qualquer consideração é feita considerando um ou mais orixa (òrìṣà).

Existem outra pessoas que fazem diferente e se aprofundam mais na questão Odù, mas, observe a mediunidade está sempre presente. Ai entra nessa longa história aqui um outro elemento, o Bernard Mapouil que fez um livro muito interessante sobre oráculo, em francês, e que é um dos pilares para a interpretação de Odù no Candomblé. Existe um mesmo material que é usado por todo mundo que é derivado desse livro dele, que foi feito no Benin e não na Nigéria. Esse livro originou um conjunto de interpretações para cada odù. Assim de Okaran até alaafia, as pessoas decoram as mesmas pré-interpretações dos significados dos odù. É esse material que repetido com pequenas variações por todo mundo.

Como é uma coisa interpretada e mais fácil de ser usada do que interpretar na hora histórias e mitos, Normalmente as pessoas usam as 4 caídas do bangboxe com essas interpretações e ignoram as histórias do banbogxe, que ao meu ver ao longo do tempo, por deficiências de transmissão do método, a necessidade de usar, ou mesmo a forma de usar as histórias e de interpretar o Odù com elas se perdeu. Como também se perdeu o uso dos ìbò para poder interagir com o Orí do consulente.

Esse conjunto de Babalórìṣà associam à sua mediunidade, o oráculo com uma base de Odù mas que também, preponderantemente, inclui a famosa relação de orixa (òrìṣà) com odù que influi na interpretação e determina o que vai ser feito. Além disso entra um novo elemento, a numerologia, também herdada da Umbanda e tem gente que inclusive faz odù só com números, a partir de nome, de data de nascimento, etc... Aliás, não existe essa relação de odù e número, isso foi um sincretismo. Dessa maneira não tem nenhuma utilidade fazer contas com nomes e data de nascimento e querer associar isso à pessoa. Inclusive é muito comum se usar a expressão de se determinar o odù de nascimento através da data de nascimento. Isso é tão verdadeiro como se determinar a o orixa (òrìṣà) da pessoa de acordo com o dia da semana em que ela nasce, ou seja, não existe isso.

Dessa forma, elas dizem que usam o método do banbogxe, ou que jogam por Odù, mas ignoram 3 coisas muito básicas para se usar Odù. Primeiro usam muitos Odù para interpretar, segundo não usam as histórias e terceiro não usam o Orí do consulente para as respostas, não usam os Ìbò. Eu inclusive já ouvi uma pessoa que diz que usa esse método dizer que os caminhos dos odù é você determinar se o ebó vai ser na praia, no mato, na rua, na encruzilhada, etc...

Observem que, como eu disse no início, Ifá não é baseado em orixa (òrìṣà), é baseado em Orunmila (Ọ̀rúnmìlà), em Orí e no nosso destino. Eu considero que tão importante quanto Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é Orí em uma consulta de oráculo. Não existe consulta de Ifá sem que o Orí participe diretamente nas respostas através dos Ìbò. Entretanto essa prática não existe mais no jogo de búzios, se existir é uma minoria, ou talvez raridade. É provável que o consulente nem pegue nos búzios antes de eles serem jogados para ele.

Então, é provável que o método de usar o owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún) tenha se perdido com o tempo devido a deficiência na transmissão de conhecimento que existe no Candomblé e também, temos que reconhecer a falta de fontes de informação e aprendizado. O método e o sentido foi substituído pela vidência e nesse caso não fico somente com a crítica fácil, acho que foi uma forma de dar continuidade a isso em face as dificuldades. O que seria então um método com um tempo menor de estudo ficou gradativamente intuitivo.

Nesses casos, não posso considerar que estejamos trabalhando com odù e que isso seja Ifá, por mais que essas pessoas assim o pensem. Como última observação eu gostaria de lembrar que esses Babalórìṣà tem uma forma de interpretar o oráculo com os seus búzios muito pessoal, assim como pessoal e exclusivo é o conhecimento deles. O que eles sabem é só para eles.

É impossível, você colocar 2 babalorixa interpretando o mesmo jogo, assim como é impossível um Babalórìṣà chamar outro para ajudar ele no oráculo. Cada um só sabe ler o seu e não diz para o outro o que sabe ou o que não sabe.

Em Ifá é diferente, ou usando qualquer oráculo de odù você pode colocar 16 babalawo interpretando o mesmo odù, eles vão falar a mesma coisa e poderão discutir interpretações ou complementar as informações. É muito comum terem sempre 2 babaláwo em uma consulta, um ajudando o outro. Isso é possível porque eles estão tratando da mesma base de conhecimento e do mesmo processo.

Mas esse é o nosso caldo cultural e Ifá vem muito recentemente se adicionando.

Ultimas Palavras

Eu não tenho como objetivo ser panfletário para nenhum lado. Me interessa de fato a verdade, os fatos e os fundamentos. Para poder dar essas explicações colocando a minha opinião sobre esse assunto eu tenho me dedicado a muito tempo a essa questão, sempre buscando novos argumentos e novas formas de ver isso.

Eu considero que owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún) pode ser usado para trabalhar em Ifá, com Orunmila (Ọ̀rúnmìlà), Odù e Orí. Isso pode existir pela teologia e também pela prática. Isso poder ser feito usando somente os Odù Méjì como também com os 256 Odù. Contudo nem todo mundo que usa búzios os faz pelo método de Ifá, aliás, na prática quase ninguém o faz. Para fazer isso é necessária uma outra aprendizagem e isso esbarra no comodismo ou mesmo na dificuldade de buscar esse conhecimento.

Eu tenho razões para supor que o método de Banbogxe era aderente ao método de Ifá e que isso foi perdido, sendo os seus mecanismos substituídos gradualmente pela mediunidade ou por essa coisa sem sentido que é a numerologia.

Hoje em dia temos uma nova opção com o estabelecimento em bases perenes do culto de Ifá no Brasil, mas não tem ajudado a atitude de muita gente de Ifá. Seja os nativos que entram no culto e se acham o próprio Deus, ou no mínimo acima do resto dos mortais, sejam de cubanos que vem com suas bases Ifá-lukumi sejam os africanos que vem, sei lá com que.

Esse é mais um desafio que o Candomblé esta faceando. A sua primazia na posse de um Oráculo esta definitivamente com os dias contados e o culto de Ifá irá de forma definitiva tomar para si, como tem feito, a propriedade de ser o oráculo de Ifá em detrimento a forma oracular pouco estruturada que usa o mesmo nome no Candomblé. Como eu disse ao longo de todo esse texto isso não é uma verdade, o oráculo do Camdonblé tem bases dogmáticas para se impor como um oráculo de Ifá e ser considerado um oráculo mais preciso e eficaz. A comprovação disso é encontrada no versos desses 2 Odù que eu transcrevi e mais no Odù ọ̀ṣẹ́túrá, Ogbè-ògúndá, Ọ̀sá méjì, Ìrẹtẹ̀ méjì e outros que eu pretendo consolidar e apresentar.

O Candomblé tem ainda mais outros desafios: a formatação do Candomblé para ser uma opção religiosa de fato; A integração de pessoas vindas de classes sociais e níveis culturais mais evoluídos; O bloqueio da sua degradação dogmática devido a entrada em massa de pessoas vindas de Umbanda que trazem uma anarquia teológica; a estruturação de uma forma de transmissão de conhecimento que separe o que é teologia de liturgia; a incapacidade das casas de se estruturarem para permanecer com as pessoas depois que eles fazem os seus 7 anos e são obrigadas a se anularem evitando assim a proliferação de casas com pessoas sem condições de as manterem.