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domingo, junho 22, 2008

Serão os Òrìṣà (Orixá) elementos da natureza ?

Existe um conceito generalizado que associa òrìṣà (orixá) a elementos da natureza e depois de me debruçar sobre esse assunto analisando referência teológicas e mais ainda textos de odù eu tenho uma opinião completamente divergente e gostaria de apresentar aqui. Na minha conclusão isso é um sincretismo europeu, ou seja, uma forma de expressar um conceito de outras visões religiosas, as quais inclusive eu já tive muito contato, com a religião africana.

Então veja, Ṣàngó (Xango) é um eborá, um òrìṣà (orixá) divinizado e não um dos òrìṣà (orixá) originais assim, como ele poderia ser o fogo ou o trovão, que é um elemento que existe desde o início dos tempos. O vento é ọya, mas ela também é divinizada, assim, o vento já existia antes dela ela não pode ser o vento,uma força da natureza. Ọ̀ṣun (Oxun) é uma irúnmalẹ̀ (irunmalé) um òrìṣà (orixá) original da criação e poderia sim estar ligada com a água ou ser agua, como a gente mesmo diz, mas Ọ̀ṣàlá (Oxalá) é o ar, por que? ele pode ser o firmamento ou o alá que cobre a todo o mundo, mas, de novo acho que é uma visão muito onírica dos òrìṣà (orixá), um sincretismo com religiões européias como a bruxaria tradicional, wicca, ocultismo, etc...

Assim, essa ligação de uma divindade com os elementos da natureza existe em algumas tradições religiosas, muitas delas politeístas puras de fato, mas não acho que seja consistente e repetitiva na religião africana. A mim me parece mais uma forma de sincretizar a religião africana com formas politeístas ou animistas com as quais a religião africana foi forçosamente comparada. Assim, de novo, como sempre eu digo é o sincretismo que de novo nos prejudica e enfraquece, só que as pessoas acham isso bonito e romântico e resolvem repetir a adotar.

É tipo assim se as religiões que foram classificadas como pagãs na europa tem como deuses as forças da natureza então como o a religião africana é pagã tem que ser o mesmo. Mas não necessariamente assim.

Por esta razão, dizer que os òrìṣà (orixá) são as forças da natureza como eu canso de ouvir é o mesmo que dizer que Ṣàngó (Xango) é São Jerônimo, Ọya é Santa Barbara, Ògún é São jorge. É o mesmo que ouvir babalorixá explicando a vida e a reencarnação usando a doutrina espírita.

Eu não parei muito tempo para aprofundar isso, até porque estou longe de ter esse tempo ou ter a competência para isso, mas acho que no caso da religião africana giramos em torno da energia vital, o àṣẹ (axé), aquilo que permeia tudo, que nos dá força, que nos movimenta, que nos traz saúde, prosperidade, etc. De novo nesse caso um conceito bastante amplo e com muitas facetas para designar uma só coisa, bem típico dos conceitos poderosos e profundos dessa religião mas muito pouco elaborado.

No caso do àṣẹ (axé) um dos aspectos importantes é a afinidade entre a energia de àṣẹ (axé) com as divindades e com odù. Existem combinações que fazem bem para o àṣẹ (axé), o amplificam, o diminuem ou o prejudicam. Assim tudo tem àṣẹ (axé) porque tudo tem energia e/ou vida. Assim òrìṣà (orixá) usam a energia de odù para atuarem e tanto podemos acreditar que qualquer òrìṣà (orixá) pode usar a energia de qualquer odù como também existe uma ligação mais forte entre determinados odù e òrìṣà (orixá), eu não sei a resposta mas sou mais pela primeira. Existe elementos da natureza que estão dentro do domínio de determinadas divindades e assim elas se manfestam junto com eles, mas tudo o que eu vi me mostra que não existe voo solo, e assim muitas divindades se manifestam em um mesmo fenômeno ou força. As oferendas contêm materiais que são do domínio de diferentes òrìṣà (orixá) e serão transformados em axé, mas existem muitos materiais comuns a vários ou muitos. As folhas certamente são um tipo especial de material porque é vida e contêm àṣẹ (axé) vivo assim existe uma ligação mais intima e fundamental. Mas montar essa matriz não é algo simples porque eu vejo sempre muitas superposições e complementaridades.

Essa ligação, com àṣẹ (axé), elementos, odu, òrìṣà (orixá), ori e nós é o que é importante. É o que nos fortalece ou nos enfraquece, mas isso acaba ficando prejudicado ou esquecido e as pessoas se lembram de ficar ligando òrìṣà (orixá) com elementos de natureza que não nos interessa. Pelo menos eu não consigo ver o sentido ou importância dessa ligação, exceto por uma curiosidade inconsistente que dá certo para algumas coisa e errado, acho que é somente um esforço sincrético uma deformação no nosso conhecimento. De novo, eu estou dizendo isso não só porque eu acho isso ou tenho antipatia por isso, mas, porque de fato eu não consigo encontrar essa ligação em nenhum texto de odù ou mito. Assim, sempre em muitas histórias existe a ligação de odù e òrìṣà (orixá) com um monte de elementos naturais, mas, e dos quatro elementos eu não vejo.

A ORIGEM DO SINCRETISMO

Conforme mencionei anteriormente não existe nada que eu tenha lido ou ouvido que remeta a ligação de òrìṣà (orixá) como sendo elementos da natureza. Vou me explicar adiante, mas, minha opinião que isso se trata apenas de sincretismo que foi feito com boa o má intenção, não importa uma vez que ambos são perniciosos, com tradições pagans da Europa e Itália onde o panteão dos deuses dessas tradições era associado com este tipo de elemento.

Conforme já comentei antes a igreja católica criou uma denominação genérica e sem nenhum significado absoluta para qualquer outra religião que não fosse Abraamica, ou seja, que tivesse origem em Abraão patriarca que gerou as correntes do Judaismo, cristianismo e islamismo. Todas essas 3 tem o mesmo Deus e a mesma origem. Os Judeus não reconhecem ninguém, os cristão reconhecem a parte formal do Judaismo que é o antigo testamento e os mulçumanos os mais recentes, século VII, reconhecem as anteriores, inclusive Jesus, mas não a trindade católica.

Para os Cristão que dominaram o mundo à força da espada o que não era católico era Pagão, eles só não tiveram coragem de chamar os Judeus de Pagãos, mas criaram o termo herético, para aqueles que divergissem da interpretação teológica oficial de Roma... Assim pagão, não tem significado religioso, é tudo o que não e católico, essa é uma definição clássica vão encontrar em qualquer lugar.

Os abraamicos consideravam o seu Deus o único e defenestravam qualquer outro tipo de manifestação religiosa. A partir do século XV a igreja católica baniu toda as praticas que mostrassem similaridades com simpatias, encantamentos e feitiços. A igreja medieval era totalmente esotérica, mas para se afastar disso eles baniram completamente essas
práticas, de modo a poderem a partir do século XV dominar os seus fiéis através do temor ao mal, ao diabo e a perseguição ao pecado. Assim estudiosos do aspecto do Mal na religião correlacionam o surgimento da força do diabo com a necessidade de um controle mais rigoroso da sociedade pela forma política uma vez que esse temor e domínio não existiam anteriormente. Igualmente isso coincidiu com os papas-generais, guerreiros que literalmente com a espada não mão construiram Roma e a Igreja que conhecemos hoje. O próprio celibato, que não havia dizem que foi devido a igreja passar a ter posses. Eles não queriam se envolver em disputas judiciais com esposas de padres, bispos e papas. Enfim a força da reforma, de Lutero e Calvino, obrigaram a igreja a mudar sua posição e adotar políticas mais ativas.

No centro de tudo isso ficaram as religiões de fato politeístas que tinham uma interpretação diferente da divindade e dos seus poderes. As correntes celtas e bruxaria tradicional viam a terra como centro de tudo assim a natureza era o sagrado e seus poderes eram invocados através de nomes que os traduziam. Os politeísmos clássicos não tinham a idéia de uma divindade superior o poder era compartilhado e uma coisa influenciava a outra. A vida era mais simples e mais lúdica. esse mesmo tipo de religião ocorria em Roma e também na grécia. Assim duas coisas co-existiam, o politeísmo no qual o poder sobre a natureza era exercido por multiplas fontes e um grande número de deuses que traduziam esses poderes que eram a natureza em si. O uso da palavra Panteão esta assim associado não somente a um número grande de deuses mas também ao politeísmo. Essas religiões passaram a ser então a tradução da palavra paganismo e essa palavra apesar de não significar originalmente.

A expansão européia para a Africa expôs os europeus sufocados por séculos de opressão religiosa a um novo conjunto de culturas e também de religião. Os métodos científicos estavam longe de terem sido os mais corretos e éticos, assim como os primeiros a irem para a Africa estava longe de serem os cultos e eruditos e sim os comerciantes e militares.

A interpretação e análise do que eles encontraram foi assim um misto de simplificação e sincretismo. Acredito que longe deles se preocuparem em entender de fato as culturas locais, a sua idéia de superioridade tornava todo o resto menos importante. Dessa maneira aliado a incapacidade deles em se comunicarem livremente com os nativos devido a lingua a religião encontrada na Africa por similaridade foi associada ao que já encontravam no paganismo Europeu. Não houve uma preocupação de de fato se entender o que se encontrava.

A religião Africana por sua vez não é simples. Esta e estava longe de ter uma perfeita uniformidade ou mesmo estar pronta a se adaptar aos padrões classificatórios europeus. Assim entre 2 opções básicas monoteísmo e politeísmo, foi considerada politeísta em vista da quantidade de Deuses encontrados. E desta forma sendo politeísta e considerando a natureza cheia de espíritos, tinha que ser Pagam.

Mais recentemente esta questão tem sido revisitada e novas classificações tem sido criadas para se classificar culturas e religiões mais complexas, mas, para o povo comum pode ser que isso nunca chegue assim, a cultura dominante no mundo ocidental é a Abraamica e assim, ou você é monoteísta ou politeísta.

Em função disso a religião africana ganhou o cunho de paganismo e seus Deuses são forças da natureza. Entretanto não existe nada que de valor a isso. Apesar de a america do norte exercer forte influência nos aspectos de usos e costumes e algumas facetas culturais, o esoterismo e as nossas tradições não cristãs são oriundas da europa. Assim o kardecismo é francês e criou toda uma visão espiritual confundindo o próprio Candomblé que não tem nenhuma relação com esse.

O esoterismo europeu é fortemente influenciado pelos cultos ditos pagãos, como os celtas, stregheria e com o renascimento da bruxaria na forma da Wicca. Outro aspecto são a irmandades gnósticas como roza-cruzes, thelema e por ai vai. Tudo isso exerce forte influência sobre a nossa sociedade no aspecto esotérico e em função da deficiente formação religiosa dentro do Candomblé fez com que, na minha visão, esses conceito de força da natureza se estabelecesse dentro do próprio Candomblé. Os que não gostam de eu dizer que a formação religiosa do Candomblé é deficiente devem observar que o acesso a mitos ou poemas de Ifa é restrito ou inexistente. O hábito de discutir teologia no Candomblé não existe, você não consegue juntar 3 babalòrìṣà (babalorixá) sem que seja para eles rasgarem seda entre eles, poucos estão dispostos a colocar em questão o que sabem ou o que pensam, exceto se for uma cátedra onde ele fala e outros ouvem. Assim podemos ter um grupo de especialistas espalhados por casas mas um legião de outros que pouco acesso tiveram ou tem e mesmo assim abrem-se casas como se nunca viu. É claro que essas pessoas tem que se virar com algo ou com o que tem. É neste campo que essas concepções florescem, assim como o que mais existe é pai de santo que responde perguntas usando os conceitos do kardecismo-espirita, afinal eles vão dizer o que? Que não sabem?

É claro que a vertente conhecimento não é o forte do Candomblé. A vertente forte é a devocional, a fé. Para isso você não precisa saber o que é, você sente o que é e você também acredita porque sente e vê. A resposta mais comum para quando se pergunta uma coisa do tipo o que é o Candomblé ou o que é o òrìṣà (orixá) ou qualquer coisa de aspecto mais teológico será algo que começa com "eu amo meu òrìṣà (orixá)..." e por ai vai uma torrente de expressões de sentimento e fé. Isso reflete o que ela sabem, e elas sabem o que sentem.

Esse é o jeito pelo qual esse tipo de sincretismo é aceito e prolifera. Assim como os africanos fizeram no passado com os antropólogos, as pessoas sabem o que é, elas sentem o que é, e se esta definição, de elemento da natureza satisfaz o inquisidor, que o seja. Isso não impede entretanto que em espaços ou oportunidades como essa a gente possa visitar ou revisitar questões como essa, ou a reencarnação ou o conceito de nascimento e destino, as proibições, etc... evitando assim que da nossa própria boca saia coisas como o Karma.

É claro que saber ou não o que parece certo não faz uma pessoa fazer melhor um santo do que outro. àṣẹ (axé) e roncó é outra coisa, mas, não tem nada demais a gente poder tratar dos assuntos com outra base.

POLITEISMO e MONOTEISMO

A gente pode voltar a essa discussão depois, mas, esta é uma discussão um pouco complicada porque é muito poluída por preconceitos.

Em termos de definição para uma religião ser politeísta não importa a quantidade de divindade e sim a qualidade delas e de sua relação. Em uma religião politeísta não existe uma divindade superior as demais, todas tem o mesmo poder e não existe assim uma força reguladora do conjunto.

O Candomblé, como outras, não é politeísta porque existe uma relação bem cara de hierarquia entre Olódùmarè e as demais divindades. Assim possuir divindades, originais ou divinizadas não transforma uma religião em politeísta, senão, o catolicismo com seus santos e sua trindade também o seriam, mas ninguém ousa fazer isso.

Em função de preconceito, conforme eu já me expliquei anteiormente, as religiões abraamicas tem esse interesse histórico em diminuir e marginalizar as demais religiões, conforme eu disse todas denominadas pagãs. Assim eles de forma ignorante simplificam essa discussão a um modelo muito simplista do que é ou não monoteísta ou politeísta baseado no modelo de referência deles, que está longe de ser consistente e conceitualmente correto. Assim o preconceito domina essa a conversa toda a ponto de as pessoas que não gostam da abordagem cristã procuram sem saber porque dizer que não fazem parte de uma religião monoteísta, como se isso fosse um problema ou solução. As cristã que querem dar prosseguimento ao preconceito histórico contra as outras correntes religiosas chamam as demais de politeísta como se isso fosse correto ou mesmo uma ofensa. A maior parte do ignorantes assim prefere aceitar duas definições carregadas de preconceito e ignorância que é chamar a sua religiao de seita e dizer que é politeísta.

Para os cristãos, seita é uma coisa menor um pedaço da religião verdadeira, e isto está correto uma vez que o termo nasceu do judaísmo onde as seitas são tradições que divergem da interpretação tradicional das suas escrituras e politeísmo remete ao velho testamento, quando os próprios judeus adoravam Deuses zoomórficos, na forma de animais como o carneiro. Isso para eles era um episódio negro e assim poiteísmo é um pejorativo.

Pessoas que pertencem a uma outra religião devem primeiro se informar para poderem primeiro entenderem a si mesmo e também poderem discutir com elementos de outras religiões, ao invés de aceitarem tacitamente rótulos inadequados, seja pelo aspecto que é um uso inadequado de conhecimento seja porque a finalidade é de fato ofender. Assim temos uma dupla ignorância.

AS SEMPRE CONTROVERSAS FONTES DE INFORMAÇÃO

Os antropólogos que estudaram a Africa ao longo do século passado e talvez o anterior se preocupavam muito mais com o aspecto da sociedade. Eles não tinham formação ou a formulação religiosa como um fim, mas entendiam que não poderiam falar sobre o povo sem falar sobre a religião uma vez que uma coisa permeava a outra. É como hoje em dia a gente estudar um pais mulçumano. As dificuldades de comunicação e a preocupação dos africanos estudados em agradar aqueles que os pagavam levaram a respostas e interpretações equivocadas. Assim os próprios yorubas foram em parte responsáveis pela visão que se criou da religião deles.

Posteriormente na medida em que africanos foram sendo educados na europa e tiveram acesso as ciências humanas e sociais bem como ao que foi feito sobre eles, eles voltaram a africa para fazer os seus próprios estudos. Idowu em seu livro "African Traditional Religion" fescreve 3 fases nos estudos sobre os africanos. A primeira a da ignorância a segunda onde quem escreve já passa a respeitar que existe uma diferença cultural e que existe de fato uma cultura não conhecida mas comparável a deles no lado "nativo" e a terceira onde finalmente entram em cena os escritores africanos.

É claro que em vista da enorme fragmentação que existe na base de conhecimento sobre a religião africana existe muito pouco consenso. Existem muitas verdades, existem mentiras que de tanto serem repetidas viram verdades e é claro existe a competição pela autoria do conhecimento. Da mesma forma todos querem que sua verdade seja a certa. Assim existe um grupo de autores teológicos que são muito questionados devido a sua origem cristã. São pessoas que se formaram padres e voltarem ao Continente para escrever sob sua religião natural.

Sobre eles temos que fazer algumas considerações. Primeiro julgar todos eles devido a sua origem como sem credibilidade é apenas preconceito. Mesmo aqui no Brasil, pessoas de origem pobre somente tinham no passado uma forma de estudar que era em colégios religiosos e até mesmo seguindo a carreira religiosa. O acesso a educação de qualidade era praticamente impossível. Da mesma forma eu considero que muitos africanos passaram pelo mesmo. A sua educação somente foi possível ao se transformarem em pastores, quando tiveram a oportunidade de até mesmo se transformarem em acadêmicos. Dessa forma é muito comum que uma pessoa para se dedicar a estudar uma religião sob o aspecto teológico tenha passado por uma educação cristã, mas isso não significa que o que eles escreva esteja comprometido ou não tenha valor.

O método de se fazer isso e o conteúdo revelam a intenção. Se não for assim temos que considerar que todas as obras de antropólogos são inválidas ou questionáveis uma vez que somente se fizermos uma investigação detalhada da vida pessoal dele poderemos desvendar suas intenções. Eu acho impossível ser assim e prefiro me ater ao conteúdo em si. Isso esta longe de ser um comodismo, ou simplificação ou ingenuidade, mas, temos que sair do outro lado e para isso eu preto atenção ao conteúdo e é claro à comparação do conteúdo. Em relação aos escritores estarem escrevendo repetindo os anteriores, ou seja, um escreve uma coisa e os seguintes re-escrevem o que este fez de forma que estamos tratando do mesmo conteúdo original equivocado e não da confirmação do conhecimento através de fontes diferentes, eu lembro que isso é uma pratica de todo mundo. Todos usam a bibliografia como referência para não terem que refazer estudos e se alguém repete algo é porque concorda com aquela abordagem.

Assim, se formos considerar isso um equívoco temos então que jogar tudo o que existe fora. No caso da cultura africana estamos diante de uma impossibilidade de re-estudo
em vista de que, a cultura original deles foi destruída pelo escravagismo, por eles não terem lingua escrita, pela morte dos que sabiam, etc.. Assim em determinados momentos a única forma é crer nos registro que foram feitos porque refazê-los é impossível.

Assim mesmo essa questão bem simples, como, o que é o òrìṣà (orixá) que todo mundo deveria saber ou dizer se reverte ainda hoje de polêmica. É claro que qualquer um que seja de uma casa de Candomble sabe o que é um òrìṣà (orixá), porque ele o vê nascer, ele o sente, e ai esta manifestado o aspecto sentimental e devocional, essa é a parte fácil. O que nos é difícil é discutir questões filosóficas e teológicas com nós mesmo e com outros e isso nos leva a sempre ficar isolados ou discutindo e rebatendo as mesmas coisas, que são o malefício, o sacrifício, etc..., questões menores porque não se discute o que é comum nas religiões que é a fé e o significado disso na nossa vida.

A ORIGEM DOS òrìṣà (orixá)

Eu vou fazer uma abordagem tradicional e minha referência é o texto do
Odù oxetuwa. Para não se ter dúvida eu carreguei o texto desse odù existe um texto neste Blog com o mesmo

Eu recomendo que seja lido ele contêm inúmeros conceitos e fundamentos importantes. Este texto foi extraído originalmente do livro Os Nago e a Morte, mas existe em outras obras, contudo essa é um versão completa com inserções de outras versões que eu li.

Neste odù fica claro que Olódùmarè criou o mundo, populou-o com os homens e enviou os òrìṣà (orixá) para poderem ajudar os homens na sua vida, na superação das dificuldades. Eram 16 e havia somente uma mulher entre eles Ọ̀ṣun (Oxun), que representa assim o poder feminino original. Desta forma se os òrìṣà (orixá) foram enviados para suportar os homens inclusive de calamidades naturais não poderiam eles serem os próprios elementos da natureza, conforme a visão das religiões pagãs européias. Este odù estebelece uma distinção entre as divindades de Olódùmarè, suas funções e a natureza.

Tomemos por exemplo as divindades femininas que tiveram uma origem comum em Ọ̀ṣun (Oxun). Como eu já disse antes, Oya que muitos consideram o vento não poderia o sê-lo porque ela foi claramente um ancestre divinizado, e o vento já existia antes dela. Ọya bem como todas as divindades femininas são cultuadas e associadas com o elemento agua. Assim Oya esta ligada a Rio ògùn, òxun ao rio com seu nome, Yemanja a rio e lagos e inclusive mar, Olokun ao mar, as ajé são as que possuiam os 7 rios da terra na sua criação, iyewa e até nana que nem é yoruba. O elemento agua que é de Ọ̀ṣun (Oxun), mas que também é o único elemento que sozinho pode gerar e sustentar a vida e esta associado sempre a existência de vida. Tudo isso tem origem em Ọ̀ṣun (Oxun). Ṣàngó (Xango) é dito ser o fogo, mas a real ligação dele com o fogo foi a capacidade que adquiriu de manipulá-lo, o que também foi feito por Ọya segundo o mito. Ṣàngó (Xango) esta associado com trovões e raios, sim mas por manipulá-los porque ele é considerado a justiça de Olódùmarè ou a sua ira e joga os raios contra pessoas que de tão ruim que foram não merecem mais viver. Igualmente após a sua morte o mito diz que ele jogou raios contra as pessoas que diziam que ele tinha se enforcado.


No mito da criação que todos conhecem a terra foi criada por Olódùmarè e só havia a agua. Ele deu a bolsa da existência contendo os elementos que seria plantados e depois espalhado para formar a terra. Depois de tudo criado, conforme o odù oxetuwa os òrìṣà (orixá) foram enviados para suportar a vida ensinando os homens a se relacionar com o divino.

Assim sendo o que ocorre é que os òrìṣà (orixá) como representantes ou intermediários de Olódùmarè e os homens possuem poderes sobre determinados elementos da natureza que vão desde a agua a doenças, mas, isso na sua forma controlada e organizada e não na sua forma violenta. Uma coisa é ter controle sobre ou é ser ou ter controle total. Assim por mais que se faça uma oferenda um furacão, um tsunami, um terremoto e uma seca não poderão ser evitados. Essa é uma manifestação descontrolada da força da natureza, os òrìṣà (orixá) ajudará os homens a se prevenir ou superar as consequências disso.

O COSMO YORUBA

Os òrìṣà (orixá) são parte de um conjunto de divindades e não todo ele. Nós que os cultuamos acabamos nos concentrando neles mas não podemos ignorar todo o resto. Devemos nos lembrar que uma religião explica o mundo que vivemos através de uma estrutura metafísica e composta de elementos religiosos. É o contraponto da ciência para a qual tudo tem uma explicação determinística e pode ser sintetizado em equações e previsibilidade. Em um mundo onde não havia ciência a religião é quem explica ao homem o sentido de sua existência e também tudo o de bom e ruim que lhe acontece. Se o seu apoio o mundo é algo sem sentido ou senso, de forma que as pessoas para conseguirem viver tem que se apoiar em uma ou outra.

No Cosmo Yoruba como em outras religiões temos um sistema metafísico que suporta toda a existência, assim as primeiras forças que se destacam são Olódùmarè e Èṣù (Exu). Olódùmarè é o criador de tudo, fonte da existencia, designador dos destinos e quem julga nossa vida. Èṣù (Exu) representa mais de uma coisa. A primeira é o axé. Èṣù (Exu) é considerado o axé em si, o movimento a força que põe a vida em ação. Além disso ele é o policial de Olódùmarè e da religião, é uma força neutra acima do bem e do mal que se encarrega de verificar que tudo seja feito certo e que o àṣẹ (axé) das oferendas façam o seu efeito. Também pune com o destino não evitado aqueles que falham no cumprimento de sua obrigação. Ele não é a favor ou contra ninguém.

A terceira força é Ọ̀rúnmìlà (Orunmila) porque é o mensageiro de Olódùmarè e dos òrìṣà (orixá). É Ọ̀rúnmìlà (Orunmila) que estabelece a comunicação entre o divino e o físico.

Depois temos outros grupos mais conectados:

  • Ori

  • os ancestrais, a base de toda essa religião e que representam a sequencia da vida na terra.

  • Os òrìṣà (orixá)

  • Os espiritos

  • Ajé que são um elemento regulador da existencia evitando que tudo seja bem demais ou ruim demais. De fato um espírito que pode ser utilizado para o bem ou para o mal representando assim a ação dos homens.

  • os ajogun que são as coisas ruins (a morte, a guerra, a perda, a
    doença, a paralisia, a feitiçaria, as maldições, os problemas...

Conforme comentei em outras ocasiões os yoruba acreditam que tudo que é grande ou significativo é um espírito, assim uma montanha tem um espírito em si, uma arvore, como o iroko é um espirito, um grande lago tem um espirito nele, o vento tem vários espiritos (nenhum é oya...) esta é a forma como os yoruba explicavam o mundo onde viviam, assim os espíritos estão presentes em tudo e torna o mundo um elemento vivo. Este tipo de divindade é o que pode gerar essa relação com os elementos da natureza, mas observe, não são òrìṣà (orixá), são espiritos, e são associados com tudo como uma forma de os yoruba traduzirem as reações do mundo que os envolve.

Por uma questão de hábito ou correlação podiam até mesmo receber oferendas, uma vez que os òrìṣà (orixá) os recebiam, mas não me recordo de ter lido uma só linha de odù onde um desses espíritos recebesse algo Os odù nos relacionam com os òrìṣà (orixá) e na proteção contra os ajogun e ajé. Assim conforme meu entendimento esses espíritos não são parte do culto principal da religião, fazem parte do entendimento do mundo por um povo agrário e sem ciência, mas estão longe de representarem um panteão de Deuses.

Àjẹ́ (Ajé) é uma parte chave nesse quebra-cabeça. Sua existência explica a ação do mal ou do bem na sua forma mais direta. É o mal de uma pessoa contra outra e elas, conforme todos os odù onde aparecem passam por cima dos òrìṣà (orixá) e desta forma de sua proteção explicando porque mesmo uma pessoa devota e portadora do àṣẹ (axé) do seu òrìṣà (orixá) será afetado pela ação da Àjẹ́ (Ajé) que são provocadas por outros serem humanos. A imagem que se tem de Èṣù (Exu) aqui no Candomblé em parte deveria ser creditada a Àjẹ́ (Ajé). A ação dos guias de Umbanda e da Macumba que podem fazer o bem ou o mal de acordo como são usados, para nós no Candomblé tem que ser explicado pela ação da Àjẹ́ (Ajé) que é desta forma uma força neutra. Para entender ajé eu recomendo ler, com calma, Verger.

Os ajogun representam as piores forças da natureza ou a consequencia delas na sua forma mais bruta. São apaziguados com oferendas e desta forma através de Èṣù (Exu) e também são forças superiores a proteção dos òrìṣà (orixá).

Os òrìṣà (orixá) são divindades criadas e enviadas por Olódùmarè. Definir o que é um òrìṣà (orixá) seria como definir o que é um anjo. No nosso caso òrìṣà (orixá) representa a representação de Olódùmarè na terra e os òrìṣà (orixá) possuem forças e propriedades designadas por esse. Eles se dividem em 2 grupos, os primordiais criados por Olódùmarè e os ancestres divinizados. Aos òrìṣà (orixá) cabe a assistência e proteção aos homens e conforme mito também conhecido, quando houve a separação do orun e do aiye eles não mais puderam transitar entre os 2 mundos livremente. Para isso teriam que contar com uma pessoa o elegun que seria preparado para ser essa ponte. Assim sem elegun não temos òrìṣà (orixá) de forma que onde não existem homens não existira a divindade.

Assim os òrìṣà (orixá) sendo eles primordiais ou não são manifestações reais do divino, eles se fazem presente junto de nós e são representados nos mitos e odù atuando como pessoas, sugeitos as mesmas coisas que qualquer um se sujeita. Devemos lembrar que essas estórias são metáforas e não expressão da realidade. É através delas que entendemos como nos comportar, que exemplos seguir, as consequencias de atos ruins, etc..

Ori e òrìṣà (orixá) representam a presença do divino em nossas vidas, nos orientado e protegendo, não sendo superiores a forças maiores do mundo que nos cerca, mas, sendo de uma forma muito vísivel para nós o exemplo de como devemos ser. Os òrìṣà (orixá) são a manifestação humana do divino, a mais próxima e a mais palpável que nos faz sentir protegidos, ouvidos e assistido por Olódùmarè. Eles são parte de nosso ori, assim junto com ori que é a principal divindade que nos assiste, junto com nossos ancestres que fazem parte do ori, todos temos um orixá que nos acompanha no nosso elemento mais fundamental, nosso ori.

Sem um iniciado o òrìṣà (orixá) não se manifesta no aiye, o sacerdote feito, é a ponte entre o aiye e o orun é a ligação do homem com o divino, não só para aquela pessoa mas para todas que a cercam, assim a feitura e a participação ativa na religião tem um sentido muito maior do que a própria satisfação pessoal. Os elegun são a presença do òrìṣà (orixá) na vida da terra e enquanto existirem elegun, enquanto existirem babalawo o divino estará junto da humanidade na forma dos òrìṣà (orixá).

Se os òrìṣà (orixá) fossem as forças da natureza então eles já estariam aqui e não seria necessária essa ponte qe representa o elegun. Alguém poderia dizer que não que a iniciação é uma preparação da pessoa para podert incorporar um òrìṣà (orixá), mas, eu respondo que o mito não diz isso, diz sim o que eu mencionei.

O pessoal da Umbanda, sempre muito confuso com tudo, e os Lukumi (cubanos) são os primeiros a dizer que os elegun não incorporam um òrìṣà (orixá) porque sendo eles elementos da natureza teriam uma força tremenda e assim uma pessoa, um elegun, não poderia os incorporar. Essa é de fato a visão de quem acredita que os òrìṣà (orixá) são elementos da natureza.

Mas o Candomblé não pensa assim. No Candomblé os elegun de fato incorporam os òrìṣà (orixá), ou sua energia como se queira. Desta feita para seguir com esse entendimento temos que desconsiderar que òrìṣà (orixá) sejam os elementos da natureza e sim divindades que tem o controle sobre alguns elementos.

Assim na concepção que eu tenho, os òrìṣà (orixá) tem estreita ligação com os homens e não são forças desconectadas de nós. O cosmo yoruba não é muito simples mas o òrìṣà (orixá) tem um papel estreito com a raça humana e isso esta no nosso dia a dia e também nos textos de odù. A gente que vive isso todo o dia sabe o que e como é um òrìṣà (orixá). Sabe também o que é a natureza e suas forças sejam boas ou mas e a gente não confunde isso, não?

Então na forma que eu vejo os òrìṣà (orixá) dentro da concepção metafísica da religião são a ligação do divino com o homem, são reais e não concepções abstratas e inatingíveis, mas fazem parte da ordenação divina e representam a ação de forças que são superiores a nós, o divino, na assistência a nossa vida, seja pela nossa saúde, pela nossa prosperidade como pela nossa proteção. Não são absolutos mas são a parte mais significativa para nós no equilíbrio das forças que dominam o nosso mundo e dia a dia.

FINALIZANDO

Para quem chegou até aqui, como eu disse e repeti várias vezes a religião é composta de elementos muito importantes, alguns intangíveis como o iwa pele e o nosso destino, outros lembrados mais indiretamente atualmente que é a ancestralidade que se perde um pouco devido a que nem todos de uma mesma família seguem a religião e uma casa de santo esta longe de representar uma família espiritual, mas, mesmo que a gente não se lembre a ancestralidade é uma das bases da nossa vida.

A religião que a gente adota é complexa em parte porque existem de fato conceitos pouco claros, na origem, ou que se tornaram complexo devido a junção aqui no Brasil de várias correntes religiosas e regionais distintas. Infelizmente só recentemente existe um esforço de teologizar a religião que esbarra na polêmica e no preconceito. Outras correntes religiosas contam com linhas filosóficas que procuram aprofundar as questões e interpretações essa religião aqui não contou com isso na Africa e no novo mundo esbarra em uma babel pior ainda. Eu acho que não cabe discutir determinadas liturgias mas não podemos em função disso nos abster de discutir todo o resto independente de sabermos ou não as resposta.

... sem querer ser chato, mas enfatizando, assim na formo que eu vejo o cosmo yoruba baseado em textos de odù que eu consegui ler até hoje, em mitos que eu li ou ouvi ao longo de anos, o òrìṣà (orixá) não faz parte da ordenação das forças naturais do mundo em que vivemos. Esse ordenamento não é explícito ou atribuído a Olódùmarè que como o
Deus distante (ou tornado distante) faz com que a natureza e o mundo funcione.

Os òrìṣà (orixá) conforme aparecem nas histórias e explicitamente no odù óxéotuwa são os braços e mãos de Olódùmarè no aiye, mas na sua ligação com nós. Assim nosso ori é feito com nosso òrìṣà (orixá). Os òrìṣà (orixá) surgem em todas as histórias representando papéis comuns como se fossem pessoas comuns, com as mesmas perfeições e imperfeições que temos de modo a que possamos nos espelhar e entender o conhecimento que passam. São também a instância direta, junto com o ori e a ancestralidade, que recorremos para resolver nossos problemas, ligados ao nosso sucesso na nossa vida como a necessidade de termos saúde, de termos família, mulher, filhos, oportunidades, trabalho, dinheiro e podermos com nossa prosperidade darmos seguinto a nossa vida e atingir o destino que estabelecemos antes de iniciar essa nova encarnação.

Como braços e mãos de Olódùmarè os òrìṣà (orixá), conforme eu comentei no início disso tudo, tem controle sobre elementos da natureza, assim eles os usam e controlam na sua forma calma e ordenada. Mas como elementos podemos considerar um todo, de vegetais, minerais, doenças, até fenomenos da natureza, e estes sao usados não de uma forma reguladora, mas como instrumentos de sua necessidade e ação em exercer a sua missão junto a nós.

Eu assim não consigo ver um òrìṣà (orixá) sem o mesmo estar relacionado com nossa vida, ficando assim longe do significado que tem os deuses naturais das tradições européias e greco-romanas (não tenho conhecimento suficiente para citar outras).

Assim o entendimento da metafísica desse cosmo deve passar pela lembrança que temos vários entidades e espiritos além dos òrìṣà (orixá). Este conjunto esta longe de ser perfeito e complementar, existem coisas que parecem redundantes ou que não são complemente racionais, mas, como sabemos é um povo muito simples, agrário e que não teve unidade, continuidade e pensamento filosófico próprio para poder explorar e documentar cada faceta da rica cultura e religião.

Eu concordo com os críticos que podemos, veja, podemos, em algum grau, hoje, estar lidando com conceitos documentados e de alguma forma manipulado por aqueles estrangeiros que os estudaram, é muito difícil encontrar um analista isento, mas, agora é tarde tanto para evitarmos isso como para querermos dizer que existem outras verdades. A verdade sera a soma de todas essas mentiras que sao contadas temos que buscar alguma coerência nisso tudo, contando com isso com as inúmeras fontes, lembrando também para os críticos que qualquer literatura sobre assunto teve origem na tradição oral de forma que apesar de escrita é o reflexo da tradição oral, não sendo assim pior ou menos importante do que essa.

Em relação ao distânciamento que se criou de Olódùmarè a ponto de muitos criticarem sua real existência, eu lembro que, o distanciamento pode ter sido fruto apenas do apego, carinho e amor aos òrìṣà (orixá) de modo que esta relação devocional acabou afastando e deixando distante a presença e culto a Olódùmarè. Igualmente a multiplicação linear do número de òrìṣà (orixá) em cada região, seja pela divinização ou seja somente pelo estabelecimento de qualidades que estivessem mais de acordo com as tradições locais contribuiu para isso.

Hoje estamos muitos centrados no culto ao òrìṣà (orixá) a ponto de eu mesmo ter que reconhecer, contrario a minha vontade, que aqueles que dizem que Candomblé é um culto ou uma seita e não uma religião tem os seus motivos. A centralização de tudo em torno do culto aos òrìṣà (orixá) é uma realidade de forma que é isso o que se ve. A externalização do sincretismo com essa identificação de òrìṣà (orixá) com santos católicos assim como a imensidão de Candombecista que se acha espirita e usa as teses do evangelho kardecista para se explicar é outra. Só falta agora iyawo e babalorixa participar de congresso e reunião espirita. Sugiro que vão vestidos à carater.

É por essa razão que eu sugiro que os críticos de uma teologia mais centrada na existência de uma alta-divindade - Olódùmarè podem não estar certos. Eu considero que a cosmogonia composta de Olódùmarè, Èṣù (Exu), Ọ̀rúnmìlà (Orunmila), ancestrais, orixa, espiritos, aje, ajogun, etc.. quando colocada em uma perpectiva mais ordenada e adequada para dar coerência a tudo o que precisamos. Contudo o sincretismo e influencias externas tornaram isso muito complicado (ou chato) hoje e dia, como por exemplo o próprio verger em seu livro òrìṣà (orixá) citar que as pessoas consideram que ogun, Èṣù (Exu) e oxossi são irmãos e filhos de yemanja. Eu não vou nem me ater a essa coisa de filho e irmão, mas Èṣù (Exu) não pode estar nivelado assim, muito menos ogun, assim, pode me jogar pedra, mais isso não ajuda.

Nesse ponto a falta do pensamento teológico e da escrita, bem como o escravagismo as invasões e introdução do cristianismo e islamismo foram fatores que levaram a isso.

Eu lembro ou informo que o islamismo é uma religião muito forte e simples e adotada por pessoas de todas as classes sociais. Mas ela é composta de uma base escrita, o alcorão que são poemas que foram ditados diretamente pelo arcanjo gabriel a mohamed. São versos.

Complementar a isso existe o registro escrito da tradiçao oral, o hadith e Sana que complementam o alcorão com interpretações e complementos e finalmente a charia é o código de ética. A existência do alcorão faz com que cada crente tenha a NECESSIDADE de aprender a ler para poder ele mesmo, ler, estudar e repetir as palavras do profeta e de Deus. Mais ainda,em todo o mundo os versos do alcorão e suas rezas devem ser ditos em árabes, a lingua original.

Assim o divino e a tradição oral convivem juntos com a literatura e a farta filosofia mulçumana a Falsafa. Como no caso dos Yoruba a religião invade a vida comum, a arte, a dança, a música e a literatura.

Assim, religião e tradição oral não são antagônicos ao registro escrito, pelo contrário lhes dão força.