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sábado, agosto 01, 2020

Entendendo a religião Yoruba - Pt. 30 - Olódùmarè dá o poder aos Orixá (Òrìṣà) e constrói o equilíbrio do poder do axé (àṣẹ)

ANTERIOR: As controversas fontes de informação

O que são os Orixá?

Olódùmarè dá o poder aos Orixá (Òrìṣà) e constrói o equilíbrio do poder do axé (àṣẹ)


O entendimento da divindade orixá (Òrìṣà) deve, de fato, iniciar com o entendimento de qual foi a atribuição que Olódùmarè dá a estas divindades. Lembro, como já citei no início, que o nome geral para divindades Yorùbá é inrumolé (Irúnmọlẹ̀). A denominação orixá (Òrìṣà) é destinada a um tipo especial de inrumolé (Irúnmọlẹ̀), o tipo que Olódùmarè destinou a nos suportar no Àiyé.

Eu fiz essa afirmação quando falei da natureza dos orixá (Òrìṣà), dizendo que esta era a razão de não podermos associar orixá (Òrìṣà) com elementos da natureza e isso foi baseado no que eu vou explicar aqui. Não é uma opinião minha, é o resultado do que está em versos de Ifá.

Neste capítulo, a seguir, teremos a transcrição do Odù Ọ̀ṣẹ́-Otùwá como está registrado no livro Os Nagô e a Morte. Somente está transcrita aqui a versão em português.

Outros versos são adicionados, na sequência, de modo que, não se trata de um texto somente sobre o Odù Ọ̀ṣẹ́-Otùwá e sim um texto que aborda a missão e o poder os orixá (Òrìṣà) no contexto da religião e na sua relação com os seres humanos.

Muito mais do que os versos frios eu adicionei meus comentários e análises.

Este texto que estou publicando, não fala somente de um Odù e seu significado, ele fala do equilíbrio estabelecido por Olódùmarè para a vida no Àiyé. O que está aqui documentado, é extremamente importante nesta religião, é o modelo de equilíbrio entre o poder de Olódùmarè, dos orixá (Òrìṣà), de Ifá e de Exú (Èṣù).

A qualidade do conteúdo foi verificada. Encontrei esse mesmo texto, com algumas pequenas variações em outros livros de outros autores de diferentes nacionalidades de maneira que o texto não é inventado.

O objetivo de transcrever o texto aqui com comentários é devido a importância do seu conteúdo para entendermos uma das bases desta religião que é nossa relação com deus e os orixá (Òrìṣà). Existem informações importantes e sua análise e entendimento contribuem muito para a compreensão do universo que estamos lidando, de maneira que, deve ser considerado de leitura e conhecimento obrigatório.

Mas notem que o sentido não é aumentar a sopa de letras e palavras em Yorùbá. O objetivo é que as pessoas entendam a religião que está em volta e acima de toda a prática do dia a dia.

Para que compreendam o significado de um orixá (Òrìṣà) na nossa vida é necessário entender esses versos. Informo que a divisão em partes é minha e é apenas para facilitar as explicações.

O significado de Oxé-otua  (Ọ̀ṣẹ́-Otùwá)


Esses são os versos que, eu, considero do tipo estrutural, trazem informações sobre a base da religião e tem pouco aplicabilidade em consultas comuns. Os versos de Oxéotua (Ọ̀ṣẹ́-Otùwá), um Odù filho (não faz parte dos Méjì) traz muita coisa e por isso ele é considerado o décimo sétimo Odù, em termos de importância.

Eu dividi essa análise dos versos em partes. O verso é muito extenso e serve para diversas finalidades, assim temos que entender cada contexto.

A primeira coisa que ele nos mostra é que Olódùmarè deu para os orixá (Òrìṣà) a capacidade de serem seus ministros no mundo físico, no Àiyé, eles o representariam e seriam os seus ministros, ou seja, teriam seus poderes para fazer isso.

Fica claro que, o mundo foi criado por Olódùmarè e aos orixá (Òrìṣà), coube a missão de cuidar da vida humana no Àiyé. Os versos são muito específicos em deixar claro o papel dos orixá (Òrìṣà) junto a vida humana. Eles não receberam outra missão que não fosse essa.
Olódùmarè dá a eles as instruções para estabelecerem o cultos às divindades que serão usadas pela humanidade para recorrer dos seus problemas.

Na parte 2, o verso explica que a humanidade deve recorrer às divindades de Olódùmarè para resolver seus problemas, explica a importância dos ancestrais nisso (Eégún), como protetores dos vivos, por serem parte de sua linhagem, família e o papel de Ifá nesse processo.

Juntando as partes 1 e 2, fica evidente a ligação dos orixá (Òrìṣà) com a humanidade, a existência de um está ligada a existência de outro. Não faz sentido supor que orixá (Òrìṣà) sejam forças da natureza porque não foi esse o papel que Olódùmarè deu para eles, a presença de orixá (Òrìṣà) no Àiyé está diretamente ligada com a vida humana e o compromisso de Olódùmarè para que tenhamos sucesso nela.

Mostra também que uma vez criado o mundo ele tem suas próprias forças e que eles fazem parte do Àiyé e, mesmo prejudicando as pessoas, não existe o que Olódùmarè vá fazer para que essas forças deixem de existir ou de atuar, as forças, bem ou mal, fazem parte do mundo criado e o que Olódùmarè faz, então, é enviar os orixá (Òrìṣà) para tutelar a humanidade, ensinando a ela como lidar com o supernatural, as forças divinas que podem auxiliar as pessoas na sua vida.

Na parte 3, o texto descreve o papel de Óxun (Ọ̀ṣun) no ritual e que estava restrito a preparação, com isso Óxun (Ọ̀ṣun) inicia a sua ação de usar o poder de Odù ou Iyami para desfazer tudo o que eles faziam.

Esse poder é legado de Olódùmarè, como está descrito do Odù Ofun Méjì, quando Odù recebe o poder absoluto do axé (àṣẹ) de Olódùmarè. É esse poder que se manifesta aqui, sobre o poder dos ministros do próprio Olódùmarè, os orixá (Òrìṣà).

A parte 4 caracteriza pela demonstração da essência do oráculo, no momento em que eles, os próprios orixá (Òrìṣà), não tem explicação sobre o que fazem, Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) indica que eles devem procurar o oráculo. Essa é a essência do processo de consulta oracular. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) é eleito então o intermediário para tratar com Olódùmarè.

Observe que isso mostra a não onipresença e onisciência de Olódùmarè bem como mostra que, mesmo para eles, Olódùmarè é distante.

Na parte 5, Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) se encontra com Olódùmarè, no momento em que Exú (Èṣù) estava reportando a Olódùmarè o que ocorria no Àiyé. Mais uma vez reforço minha posição de que Olódùmarè não é nem onisciente e nem onipresente e os intermediários com eles são Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) e Exú (Èṣù).

Isto estabelece o que é dito como a tríade de Ifá: Olódùmarè, Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) e Exú (Èṣù). Esses personagens, na mitologia da religião yorùbá, estão ligados a Ifá e em Ifá sempre aparecem juntos. Na mitologia da religião, ligada ao culto de orixá (Òrìṣà), essa tríade não aparece e é Ifá, então, quem a traz.

Na parte 6, é mostrada a reação de Óxun (Ọ̀ṣun) com a personalidade que tanto caracteriza o seu arquétipo, o rancor. Óxun (Ọ̀ṣun) que tinha o poder feminino supremo de Odù, dado por Olódùmarè podia desfazer tudo o que era feito pelos demais.

Não só ela era quem preparava as oferendas, como também era através dela que as coisas funcionavam de fato, Olódùmarè disse que nada tinha a adicionar, os elementos já estavam no Àiyé e cabia a eles se ajustarem. Como citei essa situação liga esse verso ao verso de Ofun Méjì.

O poder feminino e sua importância nasce aqui, nesses eventos, o entendimento dos versos de Ofun Méjì é fundamental, mas é em Oxéotua (Ọ̀ṣẹ́-Otùwá) que essas coisas se fecham.

Apesar de as ações serem feitas pelos orixá (Òrìṣà) masculinos, o axé (àṣẹ) reside no poder feminino. O surgimento disso, repito, está em Ofun Méjì e aqui, neste verso, está registrado as consequências. O que nos é ensinado é que o supernatural é um equilíbrio de forças e sem o poder feminino as coisas não se sucedem. O poder masculino é o da ação, da execução, as coisas são feitas pelos orixá (Òrìṣà), mas é o poder feminino a origem do poder do axé (àṣẹ).

Óxun (Ọ̀ṣun) de forma alguma se dispõe a participar das liturgias masculinas, isso não era o seu papel, a ação era o poder masculino, mas, para resolver a situação ela, sozinha, gera uma criança, um filho, do sexo masculino, combinando o seu poder com o dos demais orixá (Òrìṣà)..

Ela os ameaçou que, se ela gerasse uma criança do sexo feminino, o mundo acabaria.

A parte 7 mostra que os orixá (Òrìṣà) todos tem que trabalhar com o poder que Olódùmarè lhes deu para que fosse gerada uma criança masculina, dessa forma o sexo da criança é determinado pela ação do homem, como o é no mundo real.

A parte 8 mostra o surgimento da cerimônia, de Ifá, de determinar o Odù de nascimento da criança que nasce, com a caraterização do axé (àṣẹ) que trouxe ao mundo.

A reunião do poder masculino e feminino, após 7 dias gerou Oxé-otua  (Ọ̀ṣẹ́-Otùwá), caracterizando assim o tempo padrão adotado pelos yorùbá que é necessário para liturgias. Igualmente somente quando os poderes masculinos e femininos se reúnem com o necessário respeito é que as coisas passam a funcionar no supernatural.

A  própria Oxun (Ọ̀ṣun)  deu a essa criança  urn  nome nesse dia.
Disse ela:   "Oxo (Oṣó)  a gerou"  (significando que  a criança era filho do  poder mágico);
porque ela mesma era uma Ajé (àjẹ́)
e a criança que ela gerou e um filho homem.
Disse  ela:   "Akin Oxo (Akin  Oṣò )",
( Akin Oxo  :  poderoso mago; homem bravo dotado de um grande poder sobrenatural)
eis o que  a criança  será!


Na parte 9, mais uma vez se manifesta a confirmação do caráter não onisciente de Olódùmarè e também se confirma que os orixás não são elementos da natureza e muito menos regem a natureza. O Àiyé é controlado unicamente pelo poder de Olódùmarè e a missão dos orixá (Òrìṣà) é ser o ministro de Olódùmarè, os representantes dele para cuidar dos seres humanos.

Sobreveio uma seca na terra.
Tudo estava seco!
Não havia orvalho!
Fazia três anos que tinha chovido pela última vez.
O mundo entrou em decadência.
Foi então que eles voltaram a consultar Ifá,
Ifá àjàlàiyé”.
Quando Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) consultou Ifá àjàlàiyé disse que deveriam fazer uma oferenda, um sacrifício, e preparar a oferenda de maneira que chegasse a  Olódúmarè,
para que  Olódúmarè pudesse ter piedade da terra
e se ocupasse dela para eles.
Por que  Olódúmarè não se ocupava mais da terra.
Se isso continuasse a destruição seria inevitável;
era iminente.
Somente se pudessem fazer a oferenda,
Olódúmarè teria sempre misericórdia deles.
Ele se lembraria deles e zelaria pelo mundo.


Esta é uma afirmação que eu sempre faço e repito porque esse modelo de divindades telúricas é um erro enorme.

Se os orixá (Òrìṣà) fossem a natureza, fossem as forças da natureza eles teriam o controle sobre a natureza e a terra e esta situação descrita não ocorreria. Mas não são, eles não são a natureza e não a controlam.

Esta é uma parte importante que mostra os orixá (Òrìṣà) fazendo uma oferenda para Olódùmarè e independente de sua importância, ele não tinha acesso ao órun (Ọ̀run) para entregar ela a Olódùmarè.

Mas, observem aqui uma mudança, em vez de serem mencionados orixá (Òrìṣà) os personagens são Odù, como se Odù fossem divindades.

Os versos yorùbá não tem nenhum compromisso com coerência linear e cronológica, são metáforas e jamais podem ser entendidos como histórias literais.

Dessa forma meu entendimento é que o ebó (Ẹbọ) de oferenda foi feito através dos principais Odù méjì sem nenhum sucesso e não que os Odù sejam personagens, que nesta história são os orixá (Òrìṣà) e Órunmila (Ọ̀rúnmìlà).

Existe uma citação interessante que quero destacar:

Jogaram Ifá para Akin Oxo (Akin  Oṣò ) o filho de Eninarè (aquela-que-foi -colocada-na-senda-do-bem, referindo-se a Oxun (Ọ̀ṣun))

Na parte 10, oxétua se encarrega da missão de levar o ebó (Ẹbọ) e como em toda história de sucesso procura Ifá para se orientar. Observem que isso é uma constante nos ensinamentos, para ter sucesso em oferendas e tarefas religiosas Ifá, um oráculo sempre deve ser consultado.

Surge aqui mais um personagem padrão em várias histórias deste mesmo estilo. O enviado encontra no seu caminho com uma velha mendiga. Esta é uma figura permanente em casos importantes.

Nesse encontro ele deve demonstrar respeito e caridade e em troca disso recebe orientações finais e decisivas sobre o que fazer para ter sucesso no seu trabalho. Recomendo a todos cuidado com isso.

Em algumas histórias é Exú (Èṣù) que aparece transmorfado em um personagem deste tipo, mas a anciã velha em mendiga, na minha visão é sempre Iya Nla, a mãe ancestral, Odú, que recebeu o poder máximo de Olódùmarè, o seu axé (àṣẹ), e que tudo por fazer para ajudar ou atrapalhar.

Na parte 11, Oxétua parte para seu trabalho, e se junta a Exú (Èṣù) e esse é um encontro importante, porque a tarefa de levar havia sido dada a Oxétua e não a Exú (Èṣù), mas oxétua vem procurar a companhia de Exú (Èṣù) para a viagem.

Exú (Èṣù) confirma a Oxétua que ele teria sucesso naquele dia, assim como ocorreu.
Esta parte mostra Exú (Èṣù) com um personagem importante em todo o processo uma vez que oxétuwa valorizou seu trabalho e ficou claro que foi Exú (Èṣù) que abriu o caminho de Oxétuwa para o órun (Ọ̀run).

Esta parte final é um exemplo para todos da necessidade de humildade e da compreensão do papel de cada divindade, principalmente de Exú (Èṣù) e da atenção que temos que ter em como usar o supernatural.

Sim, esse é uma das maiores mensagens destes versos. Para que o uso das energias do supernatural funcionem existe um “protocolo” a ser seguido e isso deve ser aprendido e seguido. Não seguir o protocolo faz com que as coisas não funcionem.

Cada divindade ou inrumolé (Irúnmọlẹ̀) representa um elo nessa cadeia e o uso disso não é aleatório ou amador. É necessário conhecimento e é isso que se obtêm na religião.

As pessoas acham que na vida basta você acreditar em deus do seu jeito e que as religiões são desnecessárias e sem utilidade, criadoras de regras, dogmas e imposições.

É verdade, religiões fazem isso mesmo, trazem consigo, regras, dogmas, valores, ética e moral. Isso é uma das coisas que uma religião oferece às pessoas, formação para serem pessoas melhores.

Mas, além disso as religiões trazem instruções de como fazer uso das energias do supernatural.

As mesmas pessoas que pensam que podem ter um deus só para elas, com suas próprias regras e que faz com que elas estejam sempre certas e sejam perfeitas, também acham que podem usar o supernatural do seu jeito.

Não podem, não conseguem e se iludem. Se enganam como seres humanos que se acham acima de ensinamentos e como pessoas que superestimam sua capacidade de entender e usar o supernatural.

Estes versos de Oxétuwa além de nos mostrarem que devemos ser humildes e solidários nos orientam que existem regras para se obter as coisas. Ensinar isso é o que os orixá (Òrìṣà) nos fazem e o oráculo de Ifá é o instrumento para o sucesso no que fazemos.

A primeira coisa a destacar é a lembrança da necessidade de que pessoalmente nós termos que envolver Ifá antes de qualquer atividade ou trabalho religioso. Isso está presente em todos os versos de Ifá (ẹsẹ) mostrando que o sucesso só ocorre se a pessoa se prepara para o que vai fazer de acordo com o que Ifá lhe instrui. Ifá existe para instruir os homens no bom cumprimento de suas atividades espirituais e de seus sacrifícios.

Foi assim, por exemplo, no mito da criação com mundo com Oxalá (Òṣàlá) que aceitou a tarefa de Olódùmarè para executar mas não se preparou para ela sendo superado por Oduduwa, que antes te tomar essa tarefa procurou um Bàbáláwo para se orientar.

Dessa maneira nessa religião se alguém quer sucesso em algo deve primeiro procurar o oráculo. Deve ter a humildade de procurar orientação. O ego não ajuda e a vaidade é inimiga do resultado. Fazer as coisas por intuição ou receita não resolve. O que resolve é buscar a ajuda divina através do oráculo e seguir as indicações que lhe são dadas.

O divino, através do oráculo e dos Orixá (Òrìṣà) existe para suportar nossa existência. O oráculo é o instrumento para essa comunicação, do divino com o homem, do Orun (Ọ̀run) com o Àiyé e não a adivinhação. Pelo mito os Òrìṣà (Orixá) foram enviados por Olódùmarè para ajudar os homens na sua vida na terra. Como vivermos e superarmos as adversidades com a ajuda dos espíritos do Orun (Ọ̀run).

Assim entendemos que onde existem pessoas existem Orixá (Òrìṣà) e esses existem onde existem pessoas. Os Orixá (Òrìṣà) foram a dádiva que Olódùmarè deu para nossas vidas e para nossa assistência. Eles não são a natureza, eles são enviados de Olódùmarè especificamente para nos ajudar.

Olódùmarè mandou os Orixá (Òrìṣà) para nos livrar do mal que existe sobre a terra e nos ensinar a como cultuar a nossa religião. Orumilá (Ọ̀rúnmìlà)  é assim aquele que interage com Olódùmarè pelos Orixá (òrìṣà) e pelos homens, junto com Exu (Èṣù), é quem tem acesso à Olódùmarè.

Mas os versos deixam claro que o objetivo do culto não é o divino e sim o próprio homem. Os Orixá (Òrìṣà)  não existem para ser adorados e sim para dar vida ao homem. O criador protege a sua criatura. Não pode evitar os problemas e males que existem no mundo e na natureza que tem sua vida própria mas coloca seus ministros para suportar os homens.

O poder feminino tem que estar presente em qualquer trabalho de axé (àṣẹ) e dando importância a uma das bases da religião, que é o equilíbrio, somente com o equilíbrio entre o poder masculino e o feminino é que as coisas se realizam. Quando Oxun (Ọ̀ṣun) decidiu atrapalhar as ações não mais deram resultado.

Ajé (Àjẹ́) ganha assim uma importância maior do que se imagina. Ajé (Àjẹ́) é poder na face da terra, no mundo que vivemos, no Àiyé. Elas acima de todos tem a capacidade de fazer as coisas darem errado ou certo, e é um poder manipulável para o bem ou para o mal.

Não podemos dessa maneira jamais desprezar a participação das Ajé (Àjẹ́) em tudo o que fazemos no Àiyé, para o bem ou para o mal, através de Óxun (Ọ̀ṣun) sua líder.
Existe um outro verso, importantíssimo, de outro Odù, Osa Meji (Ọ̀sá Méjì), no qual Olódùmarè dá a Odú um enorme poder, mais do que o de todos mas que ela não deveria abusar desse poder.

Mas quem é Odú? Nesse verso surge essa inrumolé (Irúnmọlẹ̀) mitológica que não deve ser confundida com Odù, a energia de Olódùmarè e que é a base de Ifá.

A grafia é similar, mas, o significado é diferente, aliás como muitas palavras em yorùbá. Odú é uma personagem feminina, mítica, que surge em Ifá e praticamente está contida neste culto. Ela é ignorada pelos demais cultos e não me recordo de ver menção a ela no Candomblé.

Odú é um personagem feminino fundamental e nesse ponto, a mim se confunde com as divindades Óxun (Ọ̀ṣun) e Ìyá Nlá. Na mitologia yorùbá vemos referência a essas 3 divindades separadamente, para mim, lendo os versos, eu entendo que são uma só ou muito próximas para serem diferentes. Lembro que os yorùbá usam nomes diferentes para a mesma coisa, assim, Olódùmarè, tem diversos nomes, os estrangeiros até acharam que eram vários deuses antes de entenderem que eram diversos nomes para a mesma coisa.

O que me faz ligar uma na outra é a descrição do poder de Óxun (Ọ̀ṣun) que foi feito no Odù Oxéotuwa, onde ela tem o poder máximo de desfazer tudo o que os demais Òrìṣà (Orixá) faziam. Além disso em outros versos Óxun (Ọ̀ṣun) é considerada a líder as ajé (Àjẹ́) e nesse verso a seguir, de Osá Méjì, Odú também é especificada como a líder das ajé (Àjẹ́).

Para mim, essa fusão entre Óxun (Ọ̀ṣun) e Odù diz respeito a característica de figura feminina fundamental, mas, nos versos existe uma divisão, e veremos destinos e histórias diferentes associadas com Óxun (Ọ̀ṣun) e com Odú.

Dessa forma pessoa a compreensão para que nem tudo tem explicações finais nesta religião e, assim, temos uma nova personagem, Odú, feminina, um inrumolé (Irúnmọlẹ̀) dos primórdios que recebe o poder máximo de Olódùmarè.

Existe também a referência a outra Òrìṣà (Orixá) Òbàrisà que vêm a ser o próprio oxalá.

...Ela retorna e vai queixar-se a Olódumarè: “Os dois primeiros receberam o poder da guerra e o da criação, e ela, Odú, nada recebeu dessa partilha”. Olódumarè diz-lhe: "Tu serás, lyá  won (wọn), mãe deles, por toda a eternidade; sustentarás o mundo''. Confere-lhe o poder de eye (ẹyẹ), o pássaro; dá-lhe a cabaça de eleye (ẹlẹyẹ), dona do pássaro.

Olódùmarè pergunta-lhe como ele utilizará os pássaros e sua força. Odú responde-lhe que  matará aquelas que não a escutarem; dará dinheiro e filhos àquelas que lhe pedirem mas se, em  seguida, as pessoas se mostrarem impertinentes com ela, retomará suas dádivas.

Olódùmarè diz-lhe: “Está bem, mas utiliza com calma o poder que te dei”. Se ela o utilizasse  com violência, ele o retomaria e repete: “Tu serás iyá won, a mãe de todos os homens; elas deverão prevenir-te, a ti Odú, de tudo aquilo que quiserem fazer”. Olódùmarè deu o poder às mulheres; o homem sozinho nada poderá fazer na ausência das mulheres.

Naquela época Odú entra nos recantos mais secretos do culto de Eégún, de Orò e de diversos  Orixá (Òrìṣà) .

Ahl Àgbà, a antiga, exagerou, ela se recusa a fazer as oferendas prescritas por ifá, não ouve seus conselhos, no sentido de agir com calma e prudência.

Òbàrisà vem e diz: Ei! É a ele que Olódùmarè havia confiado o mundo; essa mulher enérgica  veio tirá-lo de suas mãos. Ela vai aos lugares secretos de Eégún, Oro e dos outros òrisà, onde ele, Òbàrisà, não ousar entrar.

Òbàrisà vai consultar Ọ̀rúnmìlà (ifá) e faz oferenda de caracóis e de um chicote que lhe é indicado. Ọ̀rúnmìlà diz-lhe que o mundo se tornará seu, mas ele deve ser paciente. “A mulher irá  exagerar, ela se tornará tua criada, Òbàrisà, ela virá submeter-se a ti. ”

Naquele tempo Odú tinha o poder; toda coisa que ela dizia se realizava. Ela diz a Òbàrisà  que os dois, ela e ele, devem morar juntos, no mesmo lugar.

Òbàrisà faz naquele lugar o culto de sua cabeça com o caracol. Bebe a água do caracol, contida em sua concha e oferece-a a Odú, Comem juntos a carne do caracol. O humor de Odú se  acalma. Declara que jamais comeu algo tão bom.

Òbàrisà diz a Odú que não lhe escondeu nenhum de seus segredos, mas que ela, por seu  lado, lhe escondeu o segredo de seu poder. Odú mostra a Òbàrisà o segredo da roupa de Eégún. Juntos adoram Eégún. Odú reveste a roupa, mas fala com voz normal. Não sabe falar com a voz  rouca dos ará òrun, a gente do além, os mortos. Regressam à casa. Òbàrisà volta sozinho ao lugar  de adoração, modifica a roupa de Eégún, veste-a, pega o chicote de sua oferenda. Sai com a roupa  na rua e fala com a voz rouca de Eégún.

Todo mundo sente medo, a própria Odú fica assustada, mas reconhece a roupa e, assim, sabe  que Òbàrisà está dentro. Envia seu pássaro empoleirar-se nos ombros de Eégún. Tudo aquilo que  Eégún diz age pelo poder do pássaro.

Vamos em parte olhar esses versos importantes.

O poder que foi dado a Odú, Ìyá Nlá, é imenso porque ele é o poder que estava no Àiyé, no mundo que vivemos.

"Tu serás, lyá  won (wọn), mãe deles, por toda a eternidade; sustentarás o mundo''. Confere-lhe o poder de eye (ẹyẹ), o pássaro; dá-lhe a cabaça de eleye (ẹlẹyẹ), dona do pássaro.

O verso é mais incisivo ainda em relação ao poder feminino:

“Tu serás iyá won, a mãe de todos os homens; elas deverão prevenir-te, a ti Odú, de tudo aquilo que quiserem fazer”. Olódùmarè deu o poder às mulheres; o homem sozinho nada poderá fazer na ausência das mulheres.

Ajé (Àjẹ́) não é um inrumolé (Irúnmọlẹ̀) mas carrega o poder que Olódùmarè conferiu a Odú. Ajé (Àjẹ́) é apenas a intermediária do poder.

O final do verso mostra importância que os dois Òrìṣà (Orixá) maiores, Òbàrisà e Odú deram para Eégún e esta passagem é muito importante:

Todo mundo sente medo, a própria Odú fica assustada, mas reconhece a roupa e, assim, sabe  que Òbàrisà está dentro. Envia seu pássaro empoleirar-se nos ombros de Eégún. Tudo aquilo que  Eégún diz age pelo poder do pássaro.

O que é Eégún? Os ancestres, nós mesmos, humanos que vivemos e retornamos ao órun (Ọ̀run) com glória e honra. Eégún não é u ser humano normal, é alguém que viveu sua vida de forma especial e foi lembrado depois da morte e cultuado como ancestre é uma pessoa divinizada, que não se transforma em Òrìṣà (Orixá) mas que permanece em alta conta com Olódùmarè, por sua vida aqui, suas realizações e ganha grande poder. Nesse verso o poder absoluto de Odú.

De fato, quem não sabe deve ficar sabendo que para neutralizar o mal que ajé (Àjẹ́) nos causa devemos fazer isso através de Eégún.

Voltando ao verso de Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá), com o afastamento de Olódùmarè o mundo se descontrola e os Orixá (òrìṣà) ou Odù tem que procurá-lo, distante, mas, acessível por Exu (Èṣù).

Com a criação de Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) esse passa a ser o invocador do poder do Axé (àṣẹ). Não se sobrepõe a Exu (Èṣù) e sim se alia a esse poder e ganha desse o poder se ser o único a invocar Exu (Èṣù).

O papel de Exu (Èṣù) também fica muito claro. Ele não é um Orixá (òrìṣà) comum como muitos entendem, principalmente no Candomblé. Exu (Èṣù) no sistema religioso está em uma linha distinta. Ele é o transportador do Axé (àṣẹ), é o policial de Olódùmarè, como Abimbola sempre o caracteriza, é o mensageiro de Olódùmarè, levando ao conhecimento deste tudo o que ocorre no Àiyé.

Com Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) isso não se modifica. Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) não é Exu (Èṣù)!  Ele é quem ganhou de Exu (Èṣù) o poder de ser o único a invocá-lo. Assim toda a cerimônia que se necessite de Exu (Èṣù) para a comunicação ou para o transporte de Axé (àṣẹ) deve ser iniciar com a súplica a Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) para este poder invocar Exu (Èṣù). Exu (Èṣù) já existia antes de Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá)  continuou a existir depois. Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) foi coberto de honras pelos Odù, que o geraram e também por Exu (Èṣù).

Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) foi criado por Óxun (Ọ̀ṣun) o poder feminino, junto com o Axé (àṣẹ) dos demais Odù, masculinos. Ele é o resultado de todo o Axé (àṣẹ) que Olódùmarè deu para os Odù quando vieram ao mundo, mais o componente feminino.

Outra coisa que esse texto deixa claro é o poder superior e supremo de Olódùmarè sobre o mundo e sobre os Orixá (òrìṣà).Ele não só esta acima como também controla o mundo. Somente divindades especiais têm acesso a ele, Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) teve mas se manteve calado. Exu (Èṣù) tem acesso e fala e ouve.

O mundo era controlado por Olódùmarè. A natureza só funcionava porque Olódùmarè a controla. Foi ele quem conferiu o poder aos Orixá (òrìṣà). Dessa maneira a tese de que essa seria uma religião politeísta é inválida. Religiões politeísta são caracterizadas por deuses em nível de igualdade e que competem entre si, são independentes. Esse Odù não mostra nada disso.

Mostra uma divindade superior e absoluta e outras que agem no mundo como seus braços. Mostra de fato uma divindade distante que recebe informação através de Exu (Èṣù) e nem sempre sabe de tudo o que ocorre no mundo.

Existe um outro verso no qual descreve quando os Orixá (òrìṣà) disseram a Olódùmarè que eles tomariam conta do mundo. Olódùmarè então deixou por conta deles. O que ocorreu foi igualmente o caos, as coisas da natureza pararam de funcionar e eles tiveram que voltar a Olódùmarè. Lamento apenas não poder transcrever aqui esse verso.

Enfim o que Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) sozinho mostra é a supremacia de Olódùmarè sobre os demais Orixá (òrìṣà). Dessa forma caracterizamos 2 coisas importantes com esse verso. A primeira é que essa não e uma religião politeísta porque existe uma divindade superiora. O termo acadêmico mais próximo é o de uma religião Henoteísta. Mas, essa é uma discussão ruim porque sempre é carregada de ignorância e preconceito mas esse texto traz isso a tona.

Eu acho importante citar isso para caracterizar que os Orixá (òrìṣà) não são elementos da natureza como querem algumas pessoas que se influenciam com as correntes europeias nas quais as divindades politeístas são de fato a própria natureza. Isso é um sincretismos menor que equipara essa religião Yorùbá a outras sem correspondente real. Somos muito prejudicados por esse sincretismo europeu essa associação com religiões lúdicas ou com o panteísmo grego.

Contudo não estamos lidando com uma religião monoteísta. Devemos lembrar que a caracterização de uma religião como monoteísta ou não é um processo preconceituoso feito apenas por uma corrente religiosa predominante, que são as religiões Abraâmicas, Cristãos, Judeus e Islâmicos. Monoteísmo não pode  ser entendido como um termo genérico, e sim como um termos que caracteriza esse conjunto de religiões. Assim monoteístas serão elas praticamente, o resto será alguma coisa diferente.

O importante não é classificar uma religião e sim entendê-la. Quando se entende de fato não vai se dizer que temos um Panteão de deuses, porque esse termo não se aplica pertence unicamente a uma outra religião que é politeísta. Não vamos dizer que nossos deuses são elementos da natureza porque isso não condiz com a realidade, pertence a uma outra religião. É preciso enfim entender o que a religião faz de bem para as pessoas, como as orienta a viver como as ajuda a viver melhor.

Continuando no tema principal, o seguinte texto, também do Odù Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) foi obtido do babaláwo Oyègbadé Ọlátọ̀nà, que é o Òjùgbọ̀nà awo de Òṣogbo.

...Olódùmarè os saudou
e perguntou sobre a décima sétima pessoa
Olódùmarè perguntou para eles “por que
vocês não se consultam com ela?”
Eles responderam, “É porque
ela é a única mulher entre nós”
Olódùmarè disse, “Não isso não pode ser assim!
Oxun (Ọ̀ṣun) é a principal mulher”
Olódùmarè disse,
“Boríborí, é seu babaláwo em Irágberí,
é parte do oráculo de Oxun (Ọ̀ṣun).
Egba (Ẹ̀gbà) seu  babaláwo em Ìlukàn,
é parte do oráculo de Oxun (Ọ̀ṣun).
Èṣe, que È seu babaláwo
em Ìjẹbú Ẹrẹ̀
é parte do oráculo de Oxun (Ọ̀ṣun).
Átomú seu babaláwo na cidade de Ìkìre
é parte do oráculo de Oxun (Ọ̀ṣun)
Estes babaláwo
Eles permitem que uma pessoa faça negócios
eles permitem que uma pessoa tenha ganhos
mas eles não permitem que uma pessoa leve seus ganhos para casa
Olódùmarè disse
“O que vocês eram ignorantes
é o que vocês agora sabem.
Voltem ao mundo
e consultem com Oxun (Ọ̀ṣun)


Nesses versos Olódùmarè deixa claro que nada poderá ocorrer sem Óxun e que seu poder é necessário para os seus pares masculinos. O poder de Óxun (Ọ̀ṣun) é exercido através de seus 4 poderosos mensageiros: Boríborí (vencedor), ẹ̀gbà (paralisia), èxe (ofensas) e atómú (captor capaz e forte). Eles são parte do oráculo de Óxun e vieram com ela no princípio da existência.

O poder de Óxun é materializado nas mulheres através da Ajé, as mais temidas, as mais poderosas e as mais reverenciadas mulheres no culto Yorùbá.

Ajé manifesta o poder no ponto de vista Yorùbá. Elas são misteriosas, difíceis, poderosas, temíveis e onipresentes. Elas mantêm o equilíbrio entre as diversas forças do mundo espiritual e mundano. Foram elas que impediram os Odù de trabalhar e levaram a criação de Oxéotuwa.

É Óxun (Ọ̀ṣun) com seus “babalawo” que podem impedir que tudo o que deveria ocorre ocorra. Ela tem o poder do impedimento.

Muito mais do um orixá (Òrìṣà) primordial é Óxun (Ọ̀ṣun) nesta religião a representação do poder feminino em sua essência, isso a torna individualmente o mais importante orixá (Òrìṣà) da religião.

Este texto que estou publicando, dessa maneira não fala de um Odù, ele fala do equilíbrio estabelecido por Olódùmarè para a vida no Àiyé. O que está aqui documentado é o modelo de equilíbrio entre o poder de Olódùmarè, dos orixá (Òrìṣà), de Ifá e de Exú (Èṣù).

A seguir estão os importantes versos de Oxéotuwa. Ao ler o texto tenham atenção nos meus comentários e pensem no significado maior do que estão lendo. 

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