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terça-feira, janeiro 28, 2020

O Cosmo Yoruba - pt 3 - A gênese yoruba

A gênese yorùbá

Eu estava decidido a não falar sobre a gênese Yorùbá neste trabalho. Na minha opinião é apenas uma história e pouco ou nada contribuiu para entender a religião. Esse assunto fica mais no campo da necessidade de existir um mito religioso que explique a criação do mundo, principalmente porque este é o primeiro livro da bíblia cristã. Assim todo mundo também tem que ter o seu “Gênesis”.

Os Yorùbá tem sua gênese. A gênese Yorùbá se inicia no momento em que Olódùmarè decide criar o Àiyé, o mundo natural, e para isso designa as suas divindades para esta tarefa.

“….o Àiyé existia e era uma enorme massa de água e matéria pantanosa, nada vivia neste lugar”.

O que levou Olódùmarè a criar o Àiyé ninguém sabe, apenas é dito que ele teve a motivação de fazê-lo e colocou em execução.

Existem várias histórias sobre a criação do mundo, foi aqui colocar apenas algumas delas, como eu já disse não acho essas histórias relevantes.

Olódùmarè chamou Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá), uma das mais importantes divindades Yorùbá, à sua presença e o encarregou da tarefa, dando para ele os materiais que ia necessitar.
O Àiyé já existia mas era uma imensidão de água.

Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) recebeu uma bolsa de terra solta (alguns dizem que foi uma concha de caramujo), uma galinha de 5 dedos e um pombo.

Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) foi para o limite entre o Órun (ọ̀run) e Àiyé e jogou a terra do saco sobre a água. Logo a seguir mandou a galinha de 5 dedos e o pombo que imediatamente começaram o seu trabalho de espalhar a terra por todo o Àiyé.

Isto foi feito até que uma grande porção da água fora coberta pela terra. Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá), então, voltou a Olódùmarè dizendo que já tinha concluído o seu trabalho.

Olódùmarè enviou o camaleão, que é um animal conhecido por ser muito cuidado e delicado na forma como se move e encontra caminhos. O camaleão nesta primeira visita relatou que apesar de uma grande porção de terra já estar espalhada e uma superfície razoável estar coberta, que a terra ainda não era seca e segura o bastante para ser habitada.

Algum tempo depois foi feita uma segunda visita e o camaleão constatou que a área de terra era grande o bastante e já estava seca o bastante para ser usada.

O lugar sagrado por onde foi iniciado o trabalho de espalhar a terra pelo mundo foi chamado de Ifé (Ìfẹ̀), palavra que significa, aquilo que é amplo. De acordo com a tradição Yorùbá neste lugar foi fundada a cidade de Ile ifé (Ilé-Ifẹ́) , a cidade sagrada Yorùbá, o lugar onde o mundo começou e o lar de todos os habitantes.

Ainda hoje quando um estrangeiro chega em Ile ifé (Ilé-Ifẹ́) na Nigéria ele pode ser recebido com a saudação “bem-vindo de volta a sua casa”, porque todos os seres humanos foram criados e iniciaram a população da terra a partir de Ile ifé (Ilé-Ifẹ́).

Olódùmarè colocou na nova terra a árvore do dendezeiro (Igi ọ̀pẹ) que daria sombra, bebida, óleo e nozes para comer. Outras árvores também foram plantadas para serem utilitárias para os novos habitantes. A Galinha e o pombo que foram usados para espalhar a terra deveriam agora espalhar as árvores que dariam subsistência aos futuros habitantes.
Os primeiros habitantes da terra teriam a água vinda do coco, uma palmeira, para matarem sua sede. Contudo essa água não se mostrou suficiente e Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) apelou para Olódùmarè por uma solução. Olódùmarè criou então a chuva que passou a cair sobre toda a terra.

Após isso Olódùmarè necessitava habitar o Àiyé e para isso os habitantes do Órun (ọ̀run) teriam que ter um corpo para poderem viver no novo mundo. Mais uma vez Olódùmarè pediu que Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) ficasse encarregado de confeccionar o corpo das pessoas, a partir de barro.

“... Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) foi designado também para um outro trabalho especial. Ele seria o criador dos corpos dos homens para o futuro. Não é claro pela tradição oral quando esse trabalho foi iniciado, contudo, ele aceitou a tarefa.
Sua atribuição foi desde então moldar o físico dos homens a partir da terra da própria terra, do seu barro.
Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) se tornou o escultor divino, mas, o direito de dar vida aos corpos criados era reservado exclusivamente a Olódùmarè.
A instrução dada a Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) era que ele deveria preparar os corpos e deixá-los em uma sala preparada por Olódùmarè e deixar o lugar. Olódùmarè iria para lá e daria o sopro da vida para cada pessoa, completando a criação do homem.
Ao dar o sopro da vida Olódùmarè reserva para ele e somente ele, a capacidade de criar a vida e transmitir o seu axé (aṣẹ́) para cada ser humano. Cada ser humano recebe assim a partícula de vida vinda de Olódùmarè, seu axé (aṣẹ́) e suas virtudes divinas pessoais.
A história conta, ainda, que Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) ficou com inveja de Olódùmarè e queria ele mesmo ser quem dava vida às pessoas.
Ele preparou um plano para espionar Olódùmarè. Uma vez completada a forma que ele devia dar aos habitantes do àiyé, ele se escondeu em um canto esperando a chegada de Olódùmarè. Olódùmarè, contudo, percebeu isso e colocou Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) em sono profundo. Quando acordou o trabalho já estava feito. Desde então Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) se contentou com a parte do trabalho que lhe cabe.

Este texto for retirado do livro “Olodumarê – God in Yorùbá belief” de Abolaji Idowu.
Junto com essa história alguns comentários são pertinentes antes de continuarmos. O primeiro diz respeito a prerrogativa que Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) tem de fazer as formas humanas como ele quer. O nascimento de albinos, corcundas e alijados fazem parte de sua prerrogativa. Assim ele define cores marcas, etc... Alguns mitos sugerem que ele seja um beberrão e que quando bebe faz essas formas não normais.

Esse é um mito vulgar, mas, como toda metáfora serve apenas para indicar que esses desvios que ocorrem são feitos pelo próprio Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) e que ele pode fazê-lo. Os Yorùbá designam como pertencentes a Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) as pessoas que assim nascem.

Outra diz respeito ao envolvimento da divindade da morte Ikú, que é masculina. Quando Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) foi criar as formas do àiyé ele solicitou que pegasse o barro para isso, conforme instrução de Olódùmarè que os corpos fossem feitos da terra do próprio àiyé. Vários emissários foram enviados mas quando chegavam no àiyé, a terra chorava dizendo que não fosse tirado nenhuma parte dela.

Aquilo comovia todos os enviados e ninguém pode trazer a terra para fazer o barro. Ikú se prontificou a ir e pegou terra necessária, prometendo devolver o que fora tirado. Dessa maneira cabe a Ikú, a morte, devolver a terra o corpo de todas as pessoas restaurando assim o que Ikú tira para estes corpos serem feitos. O costume Yorùbá é que os corpos sejam enterrados diretamente na terra para que a terra possa pegar de volta o que lhe foi tirado.

Este é o que chamo de um mito estrutural que, através de uma história cria uma visão metafórica que explica os fatos e fenômenos do àiyé. Existem muitos mitos e versos desta natureza, com a finalidade de estruturar a metáfora da religião sobre a vida.
Sobre a história da gênese existe uma variação muito conhecida e usada aqui no Candomblé. Nesta versão Odùduwà, uma outra divindade, assume a criação do mundo.
Nesse mito Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) muito arrogante não se prepara para a tarefa. Já Odùduwà, consulta Ifá e faz um Ebó (Ẹbọ) preparatório.

No meio do caminho Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá), Exú (Èṣù) faz ele ficar com sede e Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) fura com seu cajado o troco do dendezeiro, de onde sai uma bebida, o vinho de palma, com o qual ele não só mata sua sede como se embebeda desmaiando ao pé da palmeira e não mais acordando.

Odùduwà então volta e relata a Olódùmarè o que ocorreu. Esse então dá para ele a bolsa da criação e pede que ele oduduwa crie o mundo. O resto do mito é igual mas com Odùduwà no lugar de Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá).

Como prêmio de consolação Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) fica com a criação do corpo das pessoas.
Mas, quem foi Odùduwà?

Neste assunto o mito religioso se mistura com o mito histórico. Odùduwà foi um histórico e poderoso líder do povo Yorùbá. Ele migrou de sua terra original, provavelmente no Egito e se estabeleceu nas terras Yorùbá, em Ile-Ìfẹ̀. Ele se estabeleceu em Ìfẹ̀ com seus seguidores e estabeleceu uma proeminente dinastia Yorùbá.

Segundo Idowu, Odùduwà se estabeleceu em um lugar onde já existia um líder local chamado Ọrẹ̀lúéré. Odùduwà se estabeleceu sem prestar qualquer respeito a ele e Ọrẹ̀lúéré preparou um ardil. Ele envenenou um dos filhos de Odùduwà e este teve que chamar Ọrẹ̀lúéré para ajudá-lo, porque Ọrẹ̀lúéré era tido como um excelente médico.
Odùduwà teve que se submeter temporariamente a Ọrẹ̀lúéré para ver seu filho curado e se colocou também sob a proteção de Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) que era a divindade do local. Os recursos de Odùduwà eram muito superiores, mas, seu estabelecimento não foi feito sem uma fraca oposição dos que já habitavam lá.

A sociedade ògboní foi provavelmente instituída neste período, como uma oposição a Odùduwà, pelas pessoas que já habitam aquelas terras, para poderem preservar seus valores e costumes.

Mas Odùduwà se tornou muito grande e conquistou a terra de Ọrẹ̀lúéré e muitas terras em volta. Quando morreu passou a ser cultuado como um ancestre e depois uma divindade. O nome Odùduwà não pertencia ao homem e sim uma divindade cujo culto foi trazido por ele.
O conflito entre Ọrẹ̀lúéré e Odùduwà, virou o conflito entre Odùduwà e Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá), sendo que o primeiro venceu o segundo e se tornou o governante e dono da terra. Com o passar das gerações a história deste conflito se transformou em um mito religioso no qual Odùduwà se torna o criador do mundo. O mito original Yorùbá ficou assim modificado para acomodar questões políticas e históricas.

Segundo Idowu, essa segunda versão não é a gênese original. Surgiu pela necessidade de acomodar a figura de Odùduwà, que se tornou orixá (Òrìṣà) e patrono na nação em Ilé Ìfẹ̀.
Na raiz desta história está o fato de Odùduwà ser cultuado como uma divindade masculina ou feminina dependendo da região Yorùbá onde se esteja. Quando masculina a referência é ao homem, o conquistador e patrono da nação. Quando feminina a divindade trazida por essas pessoas.

Existe a necessidade de mencionar que de fato Odùduwà (também chamado Oòduà) é algumas vezes citado omo “mãe” e venerado como mãe terra em algumas partes da terra yorùbá, especialmente entre o poco de Ègbádò e Kétu. Alguns acadêmicos sugerem que o aspecto masculino de Odùduwà seria um desenvolvimento tardio, refletindo a tentativa de uma nova dinastia legitimar sua hegemonia, substituindo uma divindade pré-existente.
Tudo o que diz respeito a história yorùbá é muito confuso.

No livro “Orun Aiye” de José Beniste existe uma descrição muito boa, bem mais extensa que esta que dei, sobre a história desses 2 mitos. O livro em português deve ser lido por aqueles que querem entender a religião e não vou transcrever aqui nenhum trecho. Não há necessidade. O meu objetivo era explicar a base da gênese Yorùbá e não tenho como deixar de explicar os 2 mitos conflitantes.

Verger e a Cabaça

No caso do Candomblé essa distinção pouco importa, Odùduwà não é tratado como uma divindade do dia a dia. Existe e é conhecido apenas na referência teológica. Os Lukumi cubanos tratam Odùduwà como uma divindade comum, mas o faz de uma forma errada, baseada em erros bibliográficos, conforme Verger explicou.

No Candomblé existe um conhecido mito, contado e repetido por muitos o qual o mundo seria uma grande cabaça na qual Odùduwà ficaria na parte debaixo e Oxalá na parte de cima. Essa representação daria a ambos o domínio de partes diferentes do mundo assim como estabeleceria uma dualidade de existência entre ambos. Também traria uma ideia de equilíbrio e, por fim, estabelece que Oxalá seria do gênero masculino e Odùduwà do gênero feminino.

Esse mito é bem comum e conhecido, mas, é uma grande bobagem. É um exemplo clássico de que a ignorância faz sombra na sabedoria e que as pessoas dessa religião nunca passam da primeira página quando leem algo, se é que leem, apesar de serem muitos espontâneas para falar mal de quem busca conhecimento.

Para esclarecer isso basta a recorrer a um texto muito antigo de Verger chamado “Etnografia religiosa e probidade científica”  publicado na revista Religião e Sociedade, n.8 em 1982.

O texto parece ter sido feito exclusivamente para criticar Juana Elbein, autora do livro “Os Nagô e a Morte” que teve como mérito criar uma estrutura geral de amarração de elementos na religião, estabeleceu interpretação e análises próprias e enriqueceu o papel de do Orixá Exú na religião. Para Verger isso foi uma afronta. Ele não aceitou uma outra pessoa, acadêmica, escrevendo sobre os Yorùbá e muito menos trazendo informações diferentes da dele.

Acredito que nessa briga todos tivessem um pouco de razão. Talvez Juana tenha sido criativa demais na sua interpretação e análise tendo avançado muito na criação de conceitos, como também, Verger, se mordido de vaidade, mas essa briga não é o tema.
O tema é que na primeira parte do seu texto, Verger faz uma análise muito boa da origem de distorções que ocorreram sobre a religião Yorùbá.

Verger cita que a primeira referência de informações sobre os Yorùbá veio de Ajayi um nativo que foi rebatizado com o nome de Samuel Crowther, ele era nascido em Oyo e foi capturado e vendido como escravo quando tinha 11 anos. Ele foi liberto por ingleses no navio e como milhares de outros africanos levados para Serra Leoa.

Serra Leoa, como alguns devem saber foi o país ou região que recebeu todos os escravos que os ingleses libertavam quando encontravam os navios negreiros.

Virou missionário protestante, educando em Londres, voltou para a áfrica e publicou a primeira bíblia em Yoruba. Publicou um vocabulário yorùbá que continha nome de deuses. Em função de sua pouca idade e conhecimento da sua religião ele trocou o gênero de orixás, chamando de deusas o que os yorùbá chamavam de deuses.

Não houve intenção de dolo no trabalho de Crowther, Verger cita-o com uma das pessoas confiáveis, mas ele cometeu erros e isso é atribuído a ele citar coisas sobre as quais tinha vivida mas que o tempo pode tê-lo confundido.

A seguir TJ bowen, outro missionário, passou 6 anos nas terras Yoruba e publicou um dicionário, com mais informações sobre orixás. Verger atribuía essa pessoa, informações precisas e o cita como uma fonte digna de confiança.

Mais tarde o abade Pierre Bouche, outro missionário, passou 9 anos na África e publicou material que repetia os antecessores com algumas variações.

A confusão começa com o padre Noel Baudin, que esteve na Africa em terras não yorùbá, usou o livro de Crowther para publicar um dicionário e um livro sobre os Yoruba, povo e região que ele não conheceu de fato. Pior ele desprezava o povo e sua cultura, Ele nunca teve interesse em preservar ou documentar nada. Soma-se o zelo missionário, a falta de ética  e a necessidade de se promover como um especialista em Africa.
por exemplo

“Os feiticeiros (Baudin, 1884b:86) são seres desprezíveis, mentirosos, preguiçosos, hipócritas, impudicos e refinados ladrões. Geralmente têm um aspecto sujo, vestimentas ridículas e esfarrapadas, e os que molham as mão em sangue humano têm um ar bestial, feroz e repugnante... Quanto aos deuses e deusas, com suas ridículas lendas, os grandes feiticeiros não acreditam neles... Os ídolos (ib: 89) modelados sobre o tipo mais feio de negro de lábios grossos, de nariz chato e de queixo retraído, são verdadeiras imagens de velhos macacos”.

Este era o estilo de Baudin 

A referência a Oduduá aparece pela primeira vez por Crowther. Vou transcrever texto do Verger porque é bem claro:

O autor indica em rubricas separadas, por um lado, que “Oduá ou Oduduá (Crowther, op.cit.: 207) é uma deusa de Ifé, tida como a suprema deusa do mundo” e acrescenta que “o céu e a terra são duas grandes cabaças (ele queria dizer meias cabaças, igbá), que, uma vez fechadas (ou mais precisamente, colocadas uma sobre a outra, formando um recipiente fechado), não podem ser abertas (separadas)”. Afirma ainda que havia “uma alusão à aparente concavidade do céu, que parece tocar a terra no horizonte”. Por outro lado, indica que “Obatalá (é) a grande deusa iorubá, a artesã do corpo da matriz” (ib.: 228). Ao mesmo tempo, Orixalá é indicado como sendo "a grande deusa Obatalá" (ib.: 223).
Assim, fica claro como Verger cita a confusão de crowther sobre o gênero dos deuses, assim como surge aqui a referência ao mundo na forma de uma cabaça, mas em nenhum momento Crowther, por mais confuso que fosse coloca Oxalá e Odùduwà dentro dela.
Bowen, o que escreveu depois um outro dicionário Yoruba, adiciona mais informações a isso:

“Oduduá é o universo, está localizado em Ifé” e “Obatalá é tido como o primeiro, a maior coisa já criada. Outros, entretanto, afirmam que ele não é nada mais do que um antigo rei iorubá. Sua mulher é Iyangba, a mãe que recebe, representada acariciando uma criança”.
Verger adiciona dizendo que Iya Ngba é, na verdade, uma referência a Iyami osoronga, a grande feiticeira dos Yoruba. O Abade Bouche adiciona confusão a isso fazendo uma relação da iya ngba com a virgem maria....

A confusão se inicia mais ainda com o Pe. Baudin, que sem saber nada dos Yoruba, junta Iya ngba com Odùduwà, transformando as 2 divindades em uma só. E mais junta Oxalá nisso e coloca os 2 dentro da cabaça do mundo descrita por Crowther.

No original de Veger:

... para completar essa embrulhada, intromete ousadamente Obatalá (Orixalá) no meio das duas meias cabaças descritas por Crowther, as quais viram uma cabaça única, munida de uma tampa. Completa esse "sutil ponto de vista" com uma estranha lenda (Baudin, 1884 b: 89) onde "Obatalá e Oduduá" estavam no princípio estreitamente apertados e como que encerrados numa grande cabaça - Obatalá no alto, sob a tampa, e Oduduá embaixo, afundados nas águas, envolvidos em profundas trevas, com a noite, o medo e a fome correndo em todas as direções... Oduduá ficou feia e cega em consequência de uma briga doméstica na qual Obatalá lhe arrancou os olhos para obrigá-la a ficar quieta.
Assim essa bobagem que existe no candomblé colocando Odùduwà como feminina e oxalá como masculino e dentro de uma cabaça, é uma idiotice originada de uma pessoa que não sabia sobre o que estava escrevendo, pior só tinha interesse em desinformar.
Pessoas aqui no Brasil e autores usaram os livros dessas pessoas para transmitirem isso como verdades. As pessoas aqui compraram essas histórias gerando distorções sobre a religião e pior se fundamentando em bobagem e mentiras.
Assim uma sucessão de pessoas que não conheciam o assunto que escreviam e que foram repetindo e também usando criatividade sobre o que liam gerou uma massa de desinformação sobre a religião Yoruba, que no nosso tema gira em torno do mito da Cabaça. Quem aqui não conhece essa figura da cabaça?
Baudin fez ainda mais confusão gerando uma dualidade inexistente entre Oxalá e Odùduwà e transformando Odùduwà em um orixá do gênero feminino.

Assim essas são 2 tolices que são repetidas por Babalorixás e Iyalorixá por muitos anos, o mito da cabaça e Odùduwà sendo Feminino. Verger desde 1982 já havia corrigido isso. É impressionante como as pessoas gostam de citar Verger sem nem ao menos ter lido.

É possível que parte da raiva de Verger sobre Juana foi justamente ela ter seguido esse mesmo caminho, interpretando informações ruins, copiando coisas erradas e pior gerando interpretações e análises por sua conta.

O texto original de Verger deve ser lido, tem muito mais informações do que eu transcrevi aqui.

A Sorte do Candomblé é que não fazemos o Orixá Odùduwà, senão o nível de besteira seria enorme. Azar dos Lukumi cubanos, que não só compraram as mesmas histórias como ainda fazem Odùduwà como Orixá e ainda, atribuem a ela a cor negra e outras coisas sinistras.

Este sim é um assunto que mereceria uma análise, porque como pode uma tradição de diáspora se apoiar em uma besteira inventada e criar Orixá e pior LITURGIA a partir disso.
Verger explica onde surgiu a ligação errada de Odùduwà com a cor negra, na verdade uma invenção ridícula, mas, não é o tema aqui, os Lukumi que se preocupem com isso.
Outras versões da Gênese

Existe uma outra versão da Gênese que esta descrita como Osamaro Ibie. Nesta versão todos os orixá (Òrìṣà) são enviados para criar o mundo mas o único que tem sucesso na tarefa é Órunmila (Ọ̀rúnmìlà).

Depois do mundo criado foi dada a missão de povoar a terra e essa missão foi dada para Olóòkun e Ògún e ambos falham, ficando novamente Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) encarregado de povoar o mundo.

Esse mito tem os mesmos elementos dos anteriores mas colocando Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) como centro dos acontecimentos, isso é bem típico dos yorùbá, que dão importância a divindade que querem dar.

Uma versão também interessante do Benin, situado a leste da terra yorùbá (não é o Dahomey). Vou citar esta versão porque existe uma grande influência entre esses 2 povos, os Yoruba e os Bini.

Em sua gênesis, os Bini acreditam que Òsànóbùa, sua divindade principal, e Anume, sua esposa, tiveram 3 filhos, chamados, Òblẹ́mwẹ̀n, Olóòkun e Òglùwú. O costume Bini estabelece a superioridade de machos sobre as fêmeas e desta forma Olóòkun assumiu uma posição de superioridade em relação a sua irmã Òblẹ́mwẹ̀n. Um dia Òsànóbùa enviou seus 3 filhos com o poder e a missão de criar o mundo. Naquele tempo o mundo era uma imensidão sem fim de água, que tinha apenas uma árvore Ikhinmwin (igual a um Akoko).

No alto desta árvore vivia um pássaro chamado Ọ̀wọ̀nwọ̀n

A cada uma dos filhos foi dado a opção de escolher um presente para ir com eles junto com a canoa que eles deveriam tomar. Os dois mais velhos escolheram a prosperidade e ferramentas de trabalho. O mais novo se preparou para escolher suas ferramente quando o pássaro pediu para ele levar com ele uma conha.

Quando a canoa chegou ao centro das águas, o mais jovem virou a concha e uma quantidade sem fim de areia saiu dela. Dessa maneira a terra começou a se espalhar sobre as águas. Eles ficaram com receio de sair da canoa e mandarem um camaleão examinar se a terra era firme. O lugar onde a terra emergiu foi chamado de Agbon, “o mundo”, um nome que foi trocado para a Agbor, hoje uma cidade a lesta da cidade do Benin.

Òsànóbùa, desceu por uma corrente até o mundo recém-estabelecido e demarcou o mundo. Foi de lá que as pessoas foram enviadas para os 4 cantos do mundo, para cada país e cada geografia. Ele fez então o seu filho mais novo como o responsável por Benin, dono da terra e estabeleceu o seu próprio reino como sendo o mundo espiritual, através das águas onde o céu se encontra com o mundo.

Òsànóbùa, ficou estabelecido em seu palácio no mundo espiritual e para a humanidade é um deus remoto, primariamente preocupado com o mundo espiritual, tendo delegado a seus filhos o cuidado do mundo físico, ou natural. Não existe culto a Òsànóbùa. Òsànóbùa é apelado somente em última instância, quando tudo o mais já falhou. Ele nunca demanda oferendas.

Existe um assentamento para Òsànóbùa, ele é composto apenas de um longo poste ficando em um monte de areia e no alto uma roupa branca que tremula no vento como uma bandeira.

Para Òblẹ́mwẹ̀n foi dado o controle sobre o nascimento e a agricultura, ela é chamada a esposa da terra, mãe de todos os seres humanos e seres vivos. Olóòkun recebeu o poder de doar a prosperidade e Òglùwú o poder da morte. Òsànóbùa então enviou Olóòkun para ser o rei do mar

Como podem observar o mito da criação dos Bini é bastante parecido com o mito Yorùbá da gênese e apesar de existirem variações nos personagens Yorùbá.

2 comentários:

  1. Excelente e esctexto.Interessante, analítico e eslarecedor bábá Marcos, sobretudo quando no início alerta sobre a nescessidade de um/uma gênese alinhado ao mito judaico-cristão da criação humana, como crente e praticante da religião tradicional Yorubá, confesso a V.S.° que também tinha como "pulga atrás da orelha" essa questão. Muito obrigado pelo excelente e elucidativo texto, e mais pela elucidação de importantes fatos sobre a religião que muitas vezes são fontes de inquetação dos adeptos, seja no candomblé brasileiro ou outras ramificações da matriz religiosa africana.
    Mo júbà.
    AṢẸ!

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  2. Grato pelo comentário, ainda tem mais textos sobre o assunto, tive que fazer uma pausa mas vou retomar

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