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domingo, junho 07, 2009

O que é um ẹbọ (ebó)?

O termo ẹbọ (ebó) tem pelo menos 2 significados. O primeiro quando é usado para denominar um processo de limpeza, chamado também de sacudimento por muitos. O segundo quando é usado genericamente para o ato de fazer uma oferenda e as vezes para a oferenda em si, não importando se esta oferenda é uma comida ou sangue, mas a expressão original - ẹbọ (ebó) – deveria significar as oferendas que requerem sangue. Atualmente é usada para nomear uma oferenda em geral.

O ẹbọ (ebó) é uma oferenda a ser feita para os ancestrais ou òrìṣà (Orixá) em agradecimento por bênção recebidas ou na intenção de resolver problemas ou obstáculos, abrir portas e oportunidades. Os itens normalmente se compõe de itens comestíveis como frutas frescas, Água, bebidas destiladas, mel e azeite. Além disso o ẹbọ (ebó) pode conter outros itens como dinheiro, roupas, búzios e ervas. Alguns tipos de ẹbọ (ebó) são colocados dentro de casa e outros devem ser colocados no tempo.

ẹbọ (ebó), é uma oferta ritual, é um forte elemento e o motivo final do processo de consulta ao oráculo. Ele tem uma função central no processo de consulta. O ritual de oferta consiste de uma liturgia elaborada com objetivo de apresentar uma comida e bebida através dos quais o homem manipulará e usará para intermediar com as divindades em seu próprio benefício. O relacionamento entre os seres humanos e as divindades é expressado e obtido através da execução de rituais e liturgias, e isso ocorre em qualquer religião sendo essa, a ritualização, a base da necessidade e existência das religiões uma vez que a sua razão é a ligação entre o homem e o divino. Os rituais e liturgias conectam o mundo físico ao mundo espiritual de forma a trazer harmonia e equilíbrio para o nosso dia a dia. A realização das liturgia e rituais através do ẹbọ (ebó) re-ordena e corrige o relacionamento entre a divindade e o homem trazendo o equilíbrio que se deseja. Segundo Abímbọ́lá (1994:106):

Todo conflito no cosmo Yorùbá pode ser eventualmente resolvido através do uso do ẹbọ (ebó). O sacrifício é a rama que traz a solução e tranquilidade ao universo e que ordena os problemas do dia a dia.

Quatro coisas são importantes para a eficácia de um ẹbọ (ebó). A primeira é o correto uso de cada elemento ritual que é especificado para o odù que foi revelado na consulta ao oráculo. Segundo, isto tem que ter objetivo e propósitos reais e sinceros. Terceiro, tem que ser espiritualmente tratado por sacerdotes. Quarto, existe a necessidade de existir uma integração entre o sacerdote, o consulente e as forças espirituais que serão movimentadas para se obter o resultado desejado. Mais ainda, quando este relacionamento é próximo, as ervas, se forem necessárias, irão curar de fato.

Algumas vezes o ẹbọ (ebó) não virá na forma de uma oferenda física, mas sim através de regras de comportamento e proibições. Por exemplo, não frequentando alguns lugares, não consumindo determinado tipo de alimento, não fazendo determinado tipo de tarefa ou comportamento, adotando uma rotina de rezas, etc..

Uma parte muito importante de um ẹbọ (ebó) é se determinar a quantidade de tempo que ele vai ficar exposto e o local onde será colocado depois. Alguns Odú podem permitir colocar seu ẹbọ (ebó) em uma lixeira, mas normalmente algum lugar da natureza poderá ser a melhor escolha. Esta definição é parte do processo do oráculo.

Mas em relação a seu significado o mais importante é entender que o ẹbọ (ebó) é mais do que um conjunto de itens físicos. Ele é parte de um sistema de forças e energia que é movimentado no momento em que se inicia a consulta à Ifá, quando olódùmarè se utilizará de ọ̀rúnmìlà e de seus ministros, os òrìṣà (Orixá) e ancestrais, para poder mudar ou corrigir uma determinada situação, e neste processo, èṣù é o elemento transportador de energia, ou àṣẹ. Assim todo o conjunto espiritual que compõe os fundamentos da religião se movimentam através de uma simples consulta a Ifá, ou seja, um jogo de búzios.

Não podemos entender o significado de um ẹbọ (ebó) se não compreendermos este sistema metafísico que está envolvido e suas diversas engrenagens. O oráculo diagnostica e nos remedia através de odù que recebemos no ọpọ́n. O odù serve para nos indicar o que existe em torno de nós, como uma mensagem, e também para nos trazer a energia bruta que será manipulada para resolver o problema. O odù é assim como se fosse uma célula tronco que através do olhador, das rezas e encantamento e do ẹbọ (ebó) será manipulado para se resolver o problema do consulente.

Este é inclusive um dos motivos que se indica não manipular odù se não se tiver o conhecimento necessário. Pode-se estar trazendo para perto de sí uma energia bruta não lapidada que pode influenciar a pessoa, sua casa e família de forma negativa se não for adequadamente conduzida e transformada. Se fosse simples não haveria necessidade de todo o conhecimento, todas as cerimônias de iniciação e todo o tempo de aprendizado no qual o olhador se alinha com as forças metafísicas e super-naturais que vão ajudá-lo no seu trabalho. Eu considero que não é apenas teoria ou cerimônias de iniciação, é necessário prática para que as engrenagens metafísicas de alinhem e se adaptem à pessoa.

O conceito básico do uso do ẹbọ (ebó) é que temos um desequilibrio de energia e isto está afetando a nossa vida, assim precisamos corrigir o aṣẹ́ (axé) do consulente e isto é feito através do odù que recebemos e da energia que está contida em cada elemento do ẹbọ (ebó). Olódumàrè quando criou cada elemento na terra colocou nele um espírito ou uma energia metafísica que da a ele um propriedade especial. As folhas são elementos poderosos na acumulação dessas propriedades e por isso extremamentes importantes ao uso que damos. Esta energia está então contida em cada elemento existente no aiyé e será extraída e manipulada através de um “operador” qualificado. Este operador empresta a esse processo o seu próprio aṣẹ́ (axé) que funcionando como uma “quintessência” irá retirar a energia própria de cada elemento do ẹbọ (ebó).

Seria muito simples se qualquer pessoa pudesse pegar um elemento “expremê-lo” e tirar dele a sua propriedade divina, como se tira o suco de uma fruta. As vezes isso pode ser assim e algumas pessoas tem o aṣẹ́ (axé) necessário para fazer isso e, por essa razão, é que algumas coisas funcionam quando feitos por uma pessoa e por outra não. O que eu penso é que esta propriedade divina, ou natural de cada elemento, não é um aṣẹ́ (axé) ainda no sentido que aṣẹ́ (axé) é a energia em movimento. Quem tem o aṣẹ́ (axé) somos nós seres vivos e o nosso aṣẹ́ (axé) é necessário para retirar a propriedade de cada material. É claro que as plantas estão vivas e por isso mesmo tem aṣẹ́ (axé), isso é o que faz delas um componente tão importante e por isso que qualquer pessoa pode usar com bons resultados as ervas para fazer banhos. Independente do aṣẹ́ (axé) dessa própria pessoa as folhas quando usadas frescas tem o seu próprio aṣẹ́ (axé) que é assim transmitido para quem recebe o banho.

A liturgia de quinar as ervas com cânticos e encantamentos e feitos pelo próprio sacerdote é uma processo litúrgico mais forte porque diretamente está havendo manipulação, transferência e amplificação do aṣẹ́ (axé) do sacerdote através das folhas, que se soma ao aṣẹ́ (axé) das ervas fazendo fluir e acumular no banho de ervas preparado e encantado uma “bateria” viva de aṣẹ́ (axé).

O uso de elementos preparados, manipulados e cozidos é uma outra variação e, através desse processo alquímico, estamos manipulando, transformando, amplificando e canalizando as propriedades de todos os elementos envolvidos para o fim que desejamos. Mas, nesse caso de elementos preparados, as suas propriedades são estáticas, como um alimento comum. A “virtude” existe neles, mas será o aṣẹ́ (axé) do sacerdote que irá colocar isso em movimento retirando deles essa propriedade e fazendo-a funcionar na forma de energia dinâmica, ou seja aṣẹ́ (axé).

Neste momento estamos também colocando em movimento uma aṣẹ́ (axé) muito mais importante que é o das divindades, os òrìṣà (Orixá), que assistem o sacerdote e que irão se utilizar da propriedades desse elementos que estarão preparados para o uso através do seu aṣẹ́ (axé). Aqui então entramos na área onde devemos entender as especializações das divindades. Cada òriṣà tem afinidades com elementos e locais que faze parte do aiyé. O sacerdote deve conhecer essas afinidades para que possa se utilizar disso.

Desta forma ao usarmos o aṣẹ́ (axé) de uma divindade temos que conhecer os elementos que fazem parte de sua afinidade e a forma de serem preparados para a amplificação ou mesmo abertura de suas propriedades. A natureza e todo o aiyé é um repositório de energias metafísicas e o sacerdote deve, com um garimpeiro ou como um lavrador, procurar os locais onde ela aflora e se manifesta ou também cultivar locais onde estas energias se concentrarão. Um terreiro ou casa de santo é um local que é então preparado para acumular ou fazer aflorar a energia do aiyé e dos òrìṣà (Orixá). Dessa forma muitos ẹbọ (ebó) serão feitos na própria casa de santo. Em outros casos o sacerdote vai procurar o seu local de afloramento, circulação ou acumulação na própria natureza. Não se pode por exemplo ter a energia de uma praia dentro do terreiro, ou de uma estrada ou de uma encruzilhada, ou do alto de uma montanha, etc. .

É o conhecimento desse fundamentos que permite a um bom sacerdote ter os melhores e mais efetivos resultados. Uma pessoa com conhecimento e aṣẹ́ (axé) poderá amplificar as energias da natureza, dos elementos e dos òriṣà, obtendo os resultados mais efetivos. Os locais da natureza, o cuidado do sacerdote na manutenção do sei aṣẹ́ (axé) (pelas suas obrigações, observância de preceitos, afastamentos dos ewọ̀ do seu odù e òrìṣà (Orixá), as horas do dia e dias do mês (em função de horários e fase da lua mais apropriados) e as cantigas e encantamentos serão no seu conjunto e individualmente elementos que amplificarão a energia e por isso mesmo dão mais eficácia ao ẹbọ (ebó).

Não devemos esquecer que o ẹbọ (ebó) assim como qualquer processo litúrgico é um processo de troca e reposição de aṣẹ́ (axé) entre o sacerdote e o consulente. Um sacerdote deve ser um pessoa preparada para fazer essa troca, através de conhecimento, prática e obrigações. Também deve ser uma pessoa que se cuida e tem assim aṣẹ́ (axé) para dar ou aṣẹ́ (axé) bom para trocar.
Um sacerdote que se envolva com feitiçarias, que trabalhe com forças obscuras para atender pedidos sem ética de pessoas inescrupulosas, como ele, jamais vai ter algo bom para dar. Mesmo um sacerdote que se divida entre amarrações, separações e queimações e misericórdias mão pode ter algo de bom para dar. Para fazer os primeiros vai ter sempre junto de si energias e espíritos que precisam mais receber do que dar.

Não se deve ignorar pessoas que nasceram sob um signo ruim que carregam uma energia negativa, os que tem como seu diz mão buruku. Esses sempre vão estar querendo fazer algo para alguém mas nunca vão trazer solução, só mais problemas.
Assim o ẹbọ (ebó) é formado pelo conjunto de tudo isso que citei aqui. Elementos que contém virtudes divinas e mesmo aṣẹ́ (axé), como é o caso das folhas, da energia que está na natureza, do aṣẹ́ (axé) dos òrìṣà (Orixá) e do aṣẹ́ (axé) do próprio sacerdote, que ao longo de toda sua vida acumula não só conhecimento como também acumula aṣẹ́ (axé) para poder ser transmitido para que ele ajuda ou para retirar e ser amplificado pelos elementos que ele manipula.

Não podemos esquecer que em todo este processo o Orí da pessoa foi o elemento ativo de comunicação e como uma divindade pessoal do consulente nada poderá ou ocorreu sem o seu consentimento.

Assim quando a pessoa e seu Orí se sentam no espaço sagrado do olhador de Ifá este irá invocar ọ̀rúnmìlà para que este como o ẹlẹ́rí ìpín, ou testemunho do compromisso entre o consulente e seu orí e olódùmarè, possa analisar a situação que está ocorrendo e avaliar se os problemas fazem parte do destino pessoal daquela pessoa ou não, são parte dos problemas de terra que podem ser eliminados ou amenizados. Neste momento ọ̀rúnmìlà é a boca através da qual falam o Orí, os òrìṣà (Orixá) e ancestrais do consulente e, sem dúvida nenhuma olódùmarè que sempre está presente em nossa vida.

O Odù contém ao mesmo tempo a mensagem e a solução do problema e tudo se faz através de energia e equilíbrio, mas sempre através das mãos das divindades que assistem a vida do consulente. Desta forma os elementos físicos que compõe o ẹbọ (ebó) trazem suas energias individuais e seu àṣẹ. O elementos físico será transmutado em energia que será utilizada como força a ser colocada em movimento por estas divindades para atuar na situação colocada.

Por fim eu gostaria de abordar uma mistificação ligada a ẹbọ (ebó). De nenhuma maneira ao fazermos um ẹbọ (ebó) estamos alimentando divindades ou espíritos. Estamos dando início a uma roda de energia que irá ser movimentada em benefício do próprio consulente, ou seja, estamos dando ignição a uma corrente do bem. Desta maneira tudo o que é colocado em um ẹbọ (ebó) desde a qualidade dos elementos até o carinho que isto é feito irá retornar para nós mesmos.

Uma divindade não necessita de comer, o seu nível de evolução espiritual a coloca em uma condição que elas existem para nos ajudar e não ao contrário, mas, não estamos no ọ̀run e sim no aiyé, desta maneira necessitamos transformar energia. Como todos sabemos energia não se cria do nada, se transforma a partir de uma fonte já existente. Por esta razão é que usamos o ẹbọ (ebó) como uma fonte de energia que será gerada para que o que necessitamos de aṣẹ possa ser obtido.

É ridícula a imagem que passam de que aquela comida vai agradar a algum òrìṣà (Orixá) e que ele assim comendo e bebendo vai se dispor a nos ajudar. É também ridícula a fala de que um espírito não nos ajuda porque não o ajudamos ou o alimentamos. Minha opinião é que este tipo de mistificação é a primeira coisa que deve ser esquecida por alguém que quer aprender algo.