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sexta-feira, outubro 16, 2020

Entendendo a religião Yoruba - Pt. 37 - O mal teológico

 

O supernatural e a abordagem laica

 

As religiões entendem que existe um supernatural e, elas, configuram-no como uma manifestação do divino nos aspectos positivos e do mal nos aspectos negativos. Mas, como eu já disse, o supernatural continua existindo quer você acredite ou não em deus, são forças, energias e espíritos que existem.

A religião coloca uma divindade superior acima disso tudo, tanto de nossa vida como do supernatural, mas nenhuma religião define que o supernatural é exclusividade de deus.

Dessa maneira fora de qualquer religião também haverá aqueles que manipulam o supernatural, são os feiticeiros, videntes e outros místicos. Faço questão de ressaltar isso uma vez que nenhuma religião tem a verdade absoluta ou mesmo tem conhecimento para lidar ou explicar com o supernatural em toda a sua plenitude.

Sempre existiram e sempre existirá o uso do supernatural e de todo o tipo de espíritos e forças por pessoas não ligadas a uma religião ou debaixo da ética de uma religião. Mais ainda, a religião yorùbá não domina todo o supernatural. Existem aspectos, usos, forças e fenômenos que não são conhecidos ou não estão definidos por esta religião. Dessa maneira diferentes religiões ou diferentes práticas laicas (não religiosas) poderão ter conhecimento de aspectos diferentes e desta forma de poderes diferentes.

Aqui no Brasil isso é bem claro quando comparamos a Umbanda e o Candomblé ou, até mesmo, o Candomblé e ifá. Cada um, lida com um supernatural diferente. Existem coisas feitas e trabalhadas na Umbanda que não fazem parte do Candomblé e vice-versa, posso até mesmo afirmar que elas não tem nada em comum em sua prática, que são complementares. O que tem em um não tem no outro e, ainda, a forma como uma faz a outra é totalmente distinta.

Quando consideramos então as práticas esotéricas que estão fora do escopo da Umbanda e Candomblé, mas distinções e exclusividades surgirão.

 

 O mal teológico

 

Este é um tema profundo. Me assusta ter que dedicar apenas algumas dezenas de linhas para tratar disso.

O que é o mal? A dor ou o sofrimento?

E quando o sofrimento que nos é causado, o mal, tem origem em alguma espírito, divindade ou destino, ou seja, quando o sofrimento não é causado por outras pessoas e sim pelo supernatural? Podemos dizer que tem origem em deus? Já que o supernatural é originado por ele?

Por que deus permite que a gente sofra?

O mal no sentido teológico, mais do que a qualquer outra religião, é algo que assombra os católicos e os fez criar explicações mirabolantes em sua teologia para justificá-lo, uma vez que deus, na visão dele é puro amor e nossa vida é única, etc…

Contudo, de forma geral, em se tratando de religião o mal com origem teológica é um fenômeno sempre muito bem analisado para o entendimento do cosmo e do modelo teológico.

A questão é por que deus seria a origem do mal sobre nós? Por que deus permitira que o mal existisse e nós maltratasse?

A dificuldade em responder isso é proporcional à forma como a religião é estruturada e na sua visão do homem em relação a deus. O problema tomou clima de crise quando no cristianismo a figura de deus é retratada como puro amor e perfeição e nós, seres humanos somos sua imagem. Neste modelo como deus pode permitir que demônios existam e estes açoitem a humanidade, sendo responsáveis por nos levar ao mal comportamento e até sofrimento.

No modelo católico até mesmo as desventuras que as pessoas sofrem em sua vida podem ser questionados como mal teológico, afinal temos apenas uma vida para viver e podemos ser condenados a fome, a violência e a uma vida miserável sem ter nada feito para isso além de nascer.

Sem detalhar isso mais, apenas digo que existe uma infindável literatura de teólogos católicos e teses complexas para justificar isso, o mal de origem teológica.

Deixando os cristãos de lado, a questão também existe nas demais religiões. O mundo tem que ser explicado e nossa vida tem que ser aplicada no modelo teológico de existência. Cada religião tem que se explicar.

No caso da Yorùbá o modelo é bem mais simples e sem muitos malabarismos.

A religião Yorùbá escapou de abordagens mais complexas quando define que 1) é reencarnacionista e 2) a vida no Àiyé, no mundo natural, é temporária, é apenas uma aventura e que nosso lar de fato é no órun (Ọ̀run). Dessa forma o mal teológico é uma coisa que existe, nesta religião apenas no Àiyé.

Não temos apenas 1 vida e nossa existência não se resume ao Àiyé, o mundo natural. Não existe, na religião, descrições detalhadas de como é a vida no órun (Ọ̀run), o paraíso cristão, mas, as poucas não apontam para problemas, o pouco que vi mostra que a vida no órun (Ọ̀run) segue o mesmo padrão do Àiyé, mesma estrutura, mas, é um lugar sem problemas e deve ser por essa monotonia que as pessoas decidem vir para o Àiyé.

Esse modelo de nosso lar ser o órun (Ọ̀run) não é diferente do modelo kardecista, não tenho nenhum objetivo de fazer comparações ou dizer que os kardecistas (que não gosto) sejam referência, mas, como estamos falando de modelo metafísico, o muito pouco que entendi do modelo do Kardecismo me parece bem similar e isso vai ao encontro do que eu sempre digo de que as religiões são muito similares. Se investigarmos outras religiões orientais talvez descubramos que seus mundos oníricos também sejam assim.

Voltando ao modelo yorùbá a vida no Àiyé segue então o conceito de equilíbrio que foi descrito quando eu falei de axé (àṣẹ), positivo e negativo, noite e dia, bom e mal, etc… Como está em Ogbè Méjì as trevas acompanham a luz.

Tudo o que existe no Àiyé é criação de deus, de Olódùmarè, mas tudo tem sua função. Os animais compõe, como já expliquei a comunidade animal (Àṣùwàdà Ẹranko) e nós humanos a comunidade humana (Àṣùwàdà Ènìyàn). O termo Ẹranko se refere a vida selvagem de maneira que os animais são governados por necessidades biológicas básicas, subsistência e sobrevivência. Nosso objetivo é o de construir, trazer beleza ao mundo seja fisicamente como, principalmente, pelo comportamento e caráter.

A noção Yorùbá de ser, entende a sua natureza única e que cada criatura tem um propósito. Cada indivíduo tem uma natureza diferente e um destino.

De acordo com os Yorùbá o mundo físico, o Ilé Àiyé, envolve o bem e o mal, ambos são parte do equilíbrio e complementariedade do modelo metafísico que sustenta a vida na terra, no Àiyé. As forças benevolentes são os Òrìṣà (Orixá) e ancestres (ará Ọ̀run) e as forças malevolentes principais são os Ajogun e ainda temos outras menores como as bruxas (ajé (Àjẹ́)). O que diferencia os Ajogun das ajé (Àjẹ́) é o seu contexto. Os Ajogun sempre são malevolentes e as ajé (Àjẹ́) tem um contexto direcionado de atuação, um vetor.

Os Àbíkú, que também vou descrever, está ligado ao mal mas não é uma força malevolente, Àbíkú é um comportamento que leva o mal por um espírito do órun (Ọ̀run), comportamento esse que pode ser revertido. Já os Ajogun e ajé (Àjẹ́) tem sua natureza imutável determinada por seu propósito teológico.

Quando Olódùmarè criou o mundo ele criou um mundo completo, pleno em dificuldades, emoções, sensações, aventura e dificuldades. Como expliquei no início existe uma dualidade e esta religião nos mostra o mundo através destes polos positivo e negativo.

Temos que lembrar, sempre, que a palavra que define essa religião é: equilíbrio.

Para que exista a luz ou para que se note a luz existem as trevas, sem as trevas a luz passaria despercebia. Só vamos saber o que é o bem-estar se soubermos o que é o mal-estar, somente saberemos o que é prazer e sua realização se soubermos o que é a dor e o sofrimento.

Falando de coisas naturais, de física quântica, o universo busca o equilíbrio, as forças positivas e negativas se anulam. Onde existe uma força positiva será atraída outra negativa e s partículas perdem ou ganham energia para se ajustarem. A luz e o calor são baseados nas partículas perdendo energia ou ganhando energia o tempo todo. Sem complicar muito, o mundo natural se move para o equilíbrio e isso, o equilíbrio, também é o principal conceito da religião Yorùbá.

Assim, junto com as divindades do bem, aqui no Àiyé existem também divindades, forças supernaturais, também criadas por Olódùmarè que nos desafiam, nos levam aos nossos extremos e nos fazem darmos o melhor de nós mesmos.

O modelo do cosmo metafísico está no capítulo 3. O diagrama mostra o equilíbrio entre as forças da esquerda, as negativas e as da direita as positivas. Esse é o supernatural, ele é composto pelas duas coisas. No Odù Ogbè Méjì está a explicação para esse modelo. Ogbè é a manifestação da luz, ele reflete toda a energia positiva da criação as bençãos da luz. Mas atrás dele vem a negatividade, ajé (Àjẹ́) e os Ajogun, não existe positividade máxima sem atrair a negatividade máxima. Assim se uma pessoa nasce com as bençãos deste Odù, ela saberá que terá todas as bençãos para atingir as boas coisas da vida, mas terá atrás de si as forças negativas que são atraídas por essa negatividade e deverá a vida toda cuidar disso, de se proteger.

Aqueles que conhecem a ciência quântica, vão facilmente entender a similaridade de conceitos e visão energética. Na verdade o modelo metafísico do supernatural é facilmente entendido é explicado por esta ciência, a diferença está na forma de explicar isso e, claro, no entendimento dos agentes que movimentam isso.

Os Ajogun são as forças absolutamente negativas, a morte súbita, a dor, a perda, a aflição, a doença e os demais. Eles existem no mundo também, mas, são a minoria. Como expliquei no início as forças do bem são muito mais numerosas do que as forças do mal.

As ajé (Àjẹ́) são o que podemos comparar ao diabo católico. Na verdade a figura do “diabo” existe em muitas religiões. No modelo teológico que é comum a todas as religiões do mundo sempre existe uma divindade que pode ser associado ao “diabo” cristão. A diferença está na forma como cada religião define sua função e utilidade.

São as ajé (Àjẹ́) que devem ser associadas ao mal teológico, representado no cristianismo pelos demônios. Não é a divindade Exú (Èṣù) que deve ser comparada ao diabo, na verdade Exú (Èṣù) tem que ser equiparado a um arcanjo, igual aos Òrìṣà (Òrìṣà (Orixá)), que deus envia ao Àiyé para fazer suas designações.

A compreensão da religião yorùbá é radicalmente diferente dos católicos que colocam divinamente deus em oposição ao demônio e este último, competindo por almas livres, como se essas almas fossem um jogo, nos levando a errar e sem do instrumento do nosso erro. No nosso entendimento, esse conflito e desafio, somente existe aqui, no Àiyé, mas, todos, depois de viver, retornarão ao órun (Ọ̀run), que é nossa casa verdadeira.

Enquanto estamos no Àiyé nos defrontamos com forças menores mas também poderosas para superar. Sem dúvida o Àiyé é uma construção interessante. Da mesma forma que oferece alegrias, prazeres, amor, família e realizações, também oferece o equilíbrio das energias através do oposto, das dificuldades, da pobreza, das doenças e do sofrimento.

No inteligente e complexo modelo metafísico Yorùbá isto é pré-definido como o equilíbrio. Não precisamos inventar nada. Como citei está no Odù Ogbè Méjì.

E termos de supernatural, existem 3 temas que importantes que afetam a sociedade e são explicados pela religião e dessa forma fazem parte da teologia. Não existem explicações naturais para o que vamos abordar.

A primeira força do mal teológico são os Ajogun, espíritos que fazem apenas o mal, eles carregam toda a negatividade primária. Os yorùbá os definem como as forças malignas, os yorùbá transformam as coisas ruins que nos assolam em espíritos, como a fome, a morte, a doença, a doença, a paralisia, a perda, etc… todas essas coisas que nos afetam na vida os yorùbá pré-classificam como sendo originadas por espíritos que causam o mal.

Alguns podem imaginar, por que os yorùbá consideraria essas coisas que parecem naturais como espíritos? Porque a religião endereça esses problemas, dos Ajogun, através de liturgias, sacrifícios e ebós (ẹbọ). Se não forem espíritos e sim forcas da natureza a religião não poderiam fazer nada, porque forças da natureza tem uma energia gigantesca e não haveria ebó (ẹbọ) para dar jeito nisso.

A segunda força é representada por ajé (Àjẹ́), as bruxas, como eu disse, na minha opinião solitária, a personificação do demônio Yorùbá. No modelo metafísico do capítulo 3, elas são consideradas neutras, mas, isso é uma meia verdade. Sem dúvida nenhuma ajé (Àjẹ́) é a manifestação primordial do mal teológico Yorùbá, veremos isso no capítulo dedicado as ajé (Àjẹ́).

A terceira força é representada pelos Àbíkú os espíritos que nascem para morrer e atormentam e fazem sofrer as famílias. Para poder explicar isso será necessária uma mais complexa e interessante abordagem de uma coisa chama egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run). Para um Bàbáláwo entender os mecanismos teológicos envolvidos om egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) é extremamente importante.

Essa classificação de 3 forças é minha, critério meu. Talvez a maior parte dos pesquisadores apenas reconheça duas, os Ajogun e ajé (Àjẹ́), mas, como Bàbáláwo não posso ignorar aquilo o que eu vejo nos versos de Ifá. Sem fazer crítica a pesquisadores, de fato o que se vai ver nos livros mais antigos sobre a religião yorùbá como de Mbiti, Parrinder e Awalule, possivelmente Froebenius, são os Ajogun e Ajé (Àjẹ́). Mas essas pessoas não eram Bàbáláwo e não estavam dentro da prática da religião. Muitos deles claramente se copiaram. Eu tenho que retratar as coisas que eu vejo de fato.

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