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quarta-feira, abril 15, 2020

Entendendo a religião Yoruba - Pt. 13 - O Aiye - A magia como parte da religião

A magia como parte da religião



Magia é transformação; Transformação é magia; Toda magia é mudança; Toda a mudança é magia. (Scott Cunningham)


As soluções de magia, através do axé (aṣẹ́) são possíveis, mas, não são o foco da religião, são um efeito colateral da manipulação do axé (aṣẹ́).


Magia é um processo natural de se lidar e trabalhar com elementos e energias naturais. Podemos considerar que uma magia é realizada quando efetuamos uma modificação de qualquer condição no mundo através de um ritual. Isto não é nada mais do que você focar o seu desejo na intenção de alguém ou alguma coisa e mobilizar o supernatural para isso.


Essa religião acredita em magia como um poder inerente de todos nós, como uma capacidade dos orixá (Òrìṣà) e um instrumento legítimo de uso. É algo que Olódùmarè nos deu e devemos usar para ter uma vida melhor.


Não existe nada de engraçado e pequeno nisso. Pequeno é quem não acredita em magia, quem acha que o mundo é apenas o natural e que a razão e física dirigem o mundo. Essas sim são pessoas pequenas ante a grandiosidade do mundo criado por Olódùmarè. Não entenderam onde vivem.


O uso da magia é um processo legítimo de nos socorrer em nossas necessidades. Ela é feita através da manipulação do axé (aṣẹ́) e do poder dos orixá (Òrìṣà). Lembro a todos que esta religião estabelece que vivemos no àiyé porque queremos. A gente vive para ser feliz e não para sofrer. O divino nos assiste nessa caminhada de vida nos ajudando a ser felizes. A magia é parte disso.


Através do processo de aquisição e manipulação do axé (aṣẹ́) podemos obter resultados que modifiquem a realidade. Isso é feito para o nosso bem. As liturgias além de buscarem o equilíbrio da pessoa também buscam sua felicidade. A felicidade é o objetivo final os demais são meios e insumos para isso. Neste sentido restaurar a capacidade do indivíduo viver e autonomamente é uma prioridade e também o uso da magia como forma de remover obstáculos e situações negativas.


A ética da religião e dos orixá (Òrìṣà) determinam o que pode ou não ser resolvido por magia. Existem coisas que nos mesmos plantamos e trouxemos para a nossa vida. Essas coisas vamos ter bastante trabalho para nos livrar porque boas ou más elas nos pertencem. Passamos anos criando aquela situação ou aquele problema e depois queremos que umas bolas de farinha resolvam? - “Nem a pau”


Outros problemas ou situações não nos pertencem, foram trazidas por outras pessoas ou por situações normais da vida. Essas serão mais facilmente resolvidas pela Magia.


Atentem que desde tempo muito antigos a magia sempre esteve presente na civilização humana. Magia não significa malefício. O Malefício é quando você traz o mal ou o prejuízo de outra pessoa. Na Inglaterra pre-inquisição, antes do século XV, a magia era uma prática corrente e visava a saúde das pessoas e o seu bem. Nunca foi um crime. O crime residia no malefício causado a outras pessoas. As feiticeiras poderiam ser processadas e presas por causa do malefício causado pela sua magia.


No caso da religião Yorùbá temos a mesma coisa. Temos o processo visando o bem, mas, podemos ter pessoas que usam dos mesmos elementos e instrumentos para causar o mal a outros ou fazer atalhos na vida das pessoas que os pedem causando para isso problema para outros. Essa é a prática que é usada pelas pessoas que transformam em comércio a sua religião.


O malefício não é objetivo ou parte desta religião. Se ele ocorre é por desvio de ética de quem se propõe a fazê-lo e o desvio existe em quem faz e em quem pede, de forma igual. Os dois são pessoas ruins.


A energia nuclear, por exemplo, pode ser usada para o bem, gerando perenemente energia para alimentar cidades, mas, também pode ser usado como elemento destrutivo. Assim foi com outros elementos como a pólvora, nitroglicerina, combustíveis, etc..

Tudo o que aprendi nesta religião foi para ser uma pessoa melhor. As bençãos que ganhamos são por merecimento e temos aquilo que trabalhamos e a que fomos destinados. Rezamos para ter ajuda em realizar as coisas para as quais nos esforçamos, sem atalhos.


Um desvio negativo ocorre quando o crente ou sacerdote passam a ver isso como a única coisa que fazem dentro da religião. Sem dúvida a prática destas pessoas deverá, sim, ser considerada fetichista e animista. Sempre será assim quando a pessoa não se ligar aos elementos de mais alta ordem e ficarem apenas com só elementos menores.


Nesse caso podemos esquecer a prática da religião e considerarmos que existe ali apenas a comum, corriqueira e baixa feitiçaria. As casas de Candomblé abrem suas portas para ajudar pessoas que não sejam membros no sentido de obterem dessa atividade uma fonte de renda e subsistência para suas atividades e membros. Mas o que ela deve oferecer é a ajuda, o bem, a saúde e a recuperação da esperança na vida.


Em princípio uma casa de orixá (Òrìṣà) deve se focar nos seus membros e no bem deles. Os membros devem sustentar a casa e mantê-la funcionando e a casa deve presar pelo bem dos seus membros. Em alguma escala e alguns casos a abertura da casa para não seguidores é necessária, mas, isso não deve ser a regra.


Nos dias de hoje as pessoas têm acesso à educação e formação e normalmente terão um emprego para mantê-las sem que a religião seja a sua única fonte de receita. Pessoas que se dizem Babalorixá e não tenham sido capazes de ter uma profissão para mantê-las e a casa que construíram devem ser vistas com muito cuidado, porque podem apenas ter uma fachada de religião para sustentar os seus feitiços.


O caso do Bàbáláwo é bem distinto. Eles não são do culto de orixá (Òrìṣà) e seu objetivo a atender às pessoas comuns.




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