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sábado, abril 04, 2020

Entendendo a religião do Candomblé - Pt 11 - O mundo natural, o Àiyé

O mundo natural, o Àiyé


Ayél’ojà; òrun’ilé



O mundo físico é um mercado e o órun (Ọ̀run) é nossa casa, essa frase sumariza a visão para a relação orun-aiye e nossa vida.


A crença é baseada na existência temporal e da alma em um corpo humano que permite a essa alma trocar de dimensão, trocar o mundo supernatural pelo natural.


O corpo é um envelopamento temporário para a alma e permite a ela participar da vida no Àiyé que termina com o desencorpamento da alma, a morte, quando a alma se livra do corpo inútil e desgastado e retorna para casa, o seu lugar permanente.


A morte sob o ponto de vista Yorùbá não é nada trágico, é uma passagem de retorno para o órun (Ọ̀run), uma passagem assim como o renascimento. Uma sociedade cuja religião entende que estamos aqui de passagem não pode transformar a morte em nada mais do que uma partida. Nos versos de Ifá a situação de alguém morrer ou ser condenado a morte como consequência de erros é lugar-comum.


Nesse aspecto é muito importante destacar a participação do culto de Egúngún na sociedade Yorùbá. Os Egúngún representa a alma dos nossos ancestres que retornam do depois-da-vida, do além-vida, para interagir com seus descendentes vivos.


Os Egúngún são os espíritos que se preocupam com a comunidade. Eles aconselham e são usados para a solução de problemas comunitários.


Entre os Yorùbá existe a consciência de que tudo que vive irá eventualmente morrer, de maneira que os Yorùbá aceitam a morte como um preço que pagamos por viver.

Existe um ditado popular que diz que “Não existe nada que viva sem morrer” e ainda “A morte é uma dívida”.


Os Egúngún ajudam os Yorùbá a minimizar o medo da morte, ao lembrar a todos que a alma é eterna e que a vida se renova com um renascimento. Dessa maneira eles podem se concentrar nos seus negócios e em viver.


Vou mais adiante falar sobre a morte no ponto de vista Yorùbá.


O Àiyé é o mundo natural, onde vivemos e o que existe para ser explicado pela religião é o importante conceito do Axé (àṣẹ) que é o elemento de ligação entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé.

Axé (aṣẹ́) é um dos elementos de base desta religião, um dos seus pilares na vida no Àiyé

A religião entende que Olódùmarè quando nos cria coloca uma centelha de seu poder dentro de nós. Axé (aṣẹ́) é a energia que todos temos é a nossa quintessência e tem origem em Olódùmarè. Axé (aṣẹ́) nos liga a Olódùmarè e torna esse a divindade suprema por excelência. 


O axé (aṣẹ́) é dado por Olódùmarè para todas as coisas: As divindades, os ancestrais, os espíritos, humanos, animais, plantas, pedras, rios, palavras ditas em canções, rezas e pragas. Axé (aṣẹ́) é o poder que todos temos, ou mais amplamente, o poder que tudo no àiyé possui.

A definição que o uso da palavra axé (aṣẹ́) recebe dentro da religião é bastante ampla e, no estilo Yorùbá, uma mesma palavra é usada para descrever muita coisa, coisas importante e menos importantes. É um adjetivo muito usado por todas as pessoas no sentido de votos de sucesso e agradecimento. É como se você transmitisse para a pessoa que você fala que ela o axé (aṣẹ́) na forma de agradecimento ou que desejasse que aquela situação tivesse o axé (aṣẹ́) nela, etc... 

Além desse uso coloquial axé (aṣẹ́) é acima de tudo um pilar da religião e é isso que inclusive justifica o seu uso de forma coloquial. As palavras têm axé (aṣẹ́) de forma que desejar axé (aṣẹ́) para alguém é como se você dividisse o seu axé (aṣẹ́) com essa pessoa.

Cada ser no Àiyé, que é o mundo que vivemos, possui uma composição única de axé (aṣẹ́). Axé (aṣẹ́) é uma qualidade, uma virtude, dada por Olódùmarè de maneira que cada elemento do Àiyé tem uma propriedade ou poder distinto. No caso dos humanos entendemos que essa virtude original varia e as pessoas podem ter virtudes, ou capacidades distintas. O axé (aṣẹ́) que recebemos é distinto. 

A palavra “virtude” é usada por mim aqui para descrever esse poder mágico congênito, a propriedade particular ou comum a indivíduos ou materiais. 

Axé (aṣẹ́) é também a força da vida, a energia vital, que nos faz viver. Também é a força que nos faz ter a capacidade de interceder no mundo através de poderes supernaturais. 


Para não complicar vamos resumir que axé (aṣẹ́) como energia ele traduz:

  • A “virtude única” que Olódùmarè nos dá
  • A energia básica que todo ser tem e precisa para viver, a força do nosso corpo.
  • A força que nos dá a capacidade de interceder no mundo através de poderes supernaturais.

Podemos entender que, vendo de outra maneira, que existe uma parte comum e uma parte especial no axé (aṣẹ́). A parte comum é o aspecto de ser uma energia vital presente em todos os seres e que nos dá a vida. Neste ponto, axé (aṣẹ́) é um elemento básico e comum. 


A parte especial é a virtude que recebemos de Olódùmarè a força que temos e a a quintessência que nos permite transmitir isso.

Tudo no àiyé é um ser, não importa se animal, humano, vegetal ou mineral. O que existe tem axé (aṣẹ́). O axé (aṣẹ́) é uma força diferente dos quatro elementos, por isso podemos de chamá-lo de quintessência.



CONTINUAÇÃO: O axé e o conceito de quintessência

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