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terça-feira, setembro 15, 2015

Ifá, Candomblé e Umbanda



A diferença entre eles


A Umbanda



Este texto inicia pela Umbanda porque ela, sem dúvida ainda é a manifestação mais importante e disseminada na sociedade brasileira. Ela sofre muitos problemas de autoestima e é necessário desconstruir algumas certezas e pensamentos antes de comparar ela com as outras 2.


Matriz religiosa

Em primeiro lugar, não posso deixar de fazer uma qualificação religiosa. Ifá e Candomblé fazem parte da mesma religião. Se referem a mesma teogonia, a mesma cosmogonia e a mesma teologia. São cultos diferentes da mesma religião, mas, se dedicam a dar maior importância a aspectos distintos, entretanto, tem muita coisa em comum, claro, afinal são parte da mesma religião.

E que religião é essa? Não tem um nome específico. È chamada de religião Yorùbá, ou religião tradicional Yorùbá. Ela teve origem junto ao povo Yorùbá, que é uma região da África que hoje não tem um país separado, ela ocupa parte do Benin e parte da Nigéria. Lembro que fronteiras civis estabelecidas pelos europeus quando ocuparam a África, não tem relação direta com as fronteiras étnicas e tribais.

Esta religião foi trazida para o novo mundo (Américas) em função da diáspora negra.

A Umbanda é outra religião. Não tem nada em comum com o Candomblé e muito menos com Ifá. Eu fiz um longo texto sobre a Umbanda neste site que explica isso, e vou reeditá-lo, mas o que importa aqui é que se trata de outra religião. O crescimento da Umbanda a partir do Rio de Janeiro (teve origem em Niterói) acabou com os cultos de macumba bantu que haviam no Rio de Janeiro, o baixo-espiritismo, que eram muito ruins em todos os aspectos. Eles acabaram posteriormente se transformaram em Umbandas, agregando a eles a estética afro. A estética afro na Umbanda, com tambores foi tardia e não é uma generalização.

A Umbanda iniciou sem ligação com as práticas africanas dos Bantu, essa estética foi incorporada a ela tardiamente e podem existir até hoje casas que não as adotem. Foi uma adoção seletiva e sem vínculo com teologia. Isso fez com que as pessoas pensassem que a Umbanda era afro-brasileira - Não é.

Encontramos de forma consistente uma ligação da Umbanda com a religião católica em relação a teologia, isso é inequívoco e com traços do Kardecismo. Esses traços não tornam a Umbanda uma continuação do Kardecismo, pelo contrário, o Kardecismo em sua literatura recusa a Umbanda, basta ler com atenção os livros de Kardec para perceber que a prática que a Umbanda faz é condenada com veemência por Alan Kardec. Qualquer tolerância ou ligação de um com o outro é apenas por iniciativa humana, se você se focar na obra de Kardec a Umbanda é inaceitável.

A Umbanda não é espiritismo, é Umbanda mesmo.

O uso da teologia católica é bem comum na Umbanda. Como eu citei a Umbanda se adapta facilmente a muitas religiões, como a teologia católica é muito conhecida e por isso mesmo a mais facilmente adotada. |Muitos podem achar estranho essa flexibilidade da prática da Umbanda se adaptar a mais de uma religião, contudo a essência da Umbanda é a assistência às pessoas, a chamada caridade e não a educação religiosa.

Como o espírito criador da Umbanda explicou quando lhe perguntaram o que era a Umbanda, ele resumiu bem “A Umbanda são os espíritos em terra fazendo caridade”. A frase é de uma grande simplicidade mas resume bem o objetivo da Umbanda.

Umbanda x africanos

Assim, revisando, além de minha informação inicial de que a Umbanda é apenas brasileira e não afro-brasileira, baseando isso na história da própria Umbanda, eu expliquei que não existem elementos reais que liguem a Umbanda a uma origem afro-brasileira. A única coisa que traz isso foi que, como eu já citei, casas e pessoas que no Rio de janeiro da primeira metade do século passada praticavam a tal macumba carioca e o baixo-espiritismo e acabaram tendo que se transformar em “umbanda”.

Esse conflito entre a Umbanda que se formava e esses macumbeiros Bantu (que faziam um trabalho da pior espécie) foi o grande conflito ou tema que dominou o segundo congresso de Umbanda no Rio de Janeiro. O Congresso acabou com um acordo de pacificação no meio para chamar todo mundo de Umbanda e não usar mais as expressões “umbanda pura” ou “umbanda branca” para distinguir as casas que não seguiam essa linha Bantu.

Absorver o grupo o baixo-espiritismo bantu foi um mal necessário, foi ótimo acabar com esse tipo de prática, mas trazer eles para a Umbanda foi complicado, eles trouxeram muita coisa ruim junto, incluindo os “sem trabalho” e “sem instrução” que vivem de feitiços e enganações. O grupo étnico Bantu, apesar de numeroso na África não tem e não teve nada a adicionar a sociedade ocidental. No processo da diáspora negra, eles foram os primeiros a vir mas foram literalmente esquecidos. Eram considerados pouco inteligentes, pouco hábeis, baixa evolução social e cultural e com a chegada dos Yorùbá foram totalmente superados.

Os Bantu acabaram deixando de lado a sua fraca cultura e absorveram a dos Yorùbá. Os Bantu é o grupo que mais pode ser associado e animismo e fetichismo. Mais uma vez, lamento às pessoas que se aborrecem com esses comentários, mas, eu não invento nada. O grupo Bantu despertou pouco ou nenhum interesse de antropólogos e pesquisadores, simplesmente porque tem pouco adicionar.

Lembro também que o primeiro congresso de Umbanda definiu que a origem da Umbanda não era africana, de forma que não existe nenhum sentido em classificar a Umbanda como uma religião afro-brasileira. Isso já foi alvo de polêmica e acusações de preconceito, a mim pareceu inicialmente preconceito, mas, quando eu fui obtendo mais informações sobre o contexto histórico e social eu entendi. A África que eles não queriam se relacionar como origem é a África Bantu, eles não tinham a menor ideia do que era o Candomblé e o grupo Yorùbá.

O que ocorreu posteriormente foi o contrário, o grupo Yorùbá passou a influenciar a prática da Umbanda. São duas correntes muitos fortes, uma é a Umbanda que tem uma força incrível e a outra o grupo Yorùbá que em todo lugar que foi se tornou preponderante e principal. Pode até ser a junção da Umbanda e da tradição do grupo Yorùbá resulte em uma coisa boa.

Para entender a Umbanda, o mais importante é entender a história da Umbanda, entendendo a história a gente compreende o que era e como chegou ao que é hoje.

Nesta altura muitos devem estar se perguntando: qual o objetivo dessa avaliação Umbanda x africanismo? Simples, é importante para quem se interessa pela Umbanda ou quer entender ela, que em primeiro lugar entenda o que ela é. Isso passa também por entender o que ela não é, a Umbanda é uma religião brasileira, não é uma religião afro-brasileira.

Alguns podem se decepcionar outros ficar mais tranquilos, existe reação e gosto para tudo. O importante é entender os fatos e a verdade.

A Umbanda é a Umbanda. Ela não é o espiritismo Kardecista e muito menos tem vínculo com ele. Ela não é afro-brasileira. Tenho certeza que essas 2 afirmações causam o mesmo espanto. Para entender isso melhor leia o texto sobre Umbanda nesse BLOG.

Assim se você se interessar ou procurar a Umbanda, não entenda-a através desses 2 rótulos. Esses rótulos fazem mal a Umbanda. Por que? Simples, as pessoas que acham que ela tem relação com o espiritismo Kardecista vão se assustar com as diferenças e podem não entender. As pessoas que acham que ela é relacionada com o Candomblé vão se decepcionar com as diferenças. Em ambos os casos vão esperar uma coisa e encontrar outra, a decepção é certa.

O Supernatural – Os Guias

O processo de “incorporação de espíritos”, que caracteriza a Umbanda, não é africano, e muito menos espírita, é algo que ocorre de vários aspectos e formas em todo o mundo. Além disso, como todos devem saber a Umbanda é centrada na figura do Caboclo, o índio brasileiro, em muitos lugares eles são os personagens principais e os “donos” das casas. Esses caboclos não são personagens africanos.

Eu faço sempre um comentário, que não é no sentido pejorativo, de que a Umbanda é muito “teatral” no que diz respeito a seus guias, incorporações, formas de se vestirem e falarem. Isso é muito característico em algumas casas sendo que outras buscam uma linha mais natural, eliminando isso. Não vejo problema em nada disso, ser mais um menos teatral, é uma opção da casa, pessoalmente prefiro um trabalho mais limpo e menos teatral, que valorize mais o conteúdo do que as aparências, os guias devem se valorizar pelo que falam e não como se vestem e portam.

Essa questão de formato e teatralidade não deve assustar as pessoas ou mesmo impressionar, são questões humanas. As pessoas devem prestar atenção é no conteúdo, significado e utilidade do que eles falam e não como se apresentam. Isso não é uma regra da Umbanda e cada casa tem seu padrão.

A Umbanda tem um amplo conjunto de guias. Esse conjunto não tem limite, pode crescer ou diminuir e os guias podem ser vistos, entendidos e agrupados de formas distintas. A Umbanda tem uma conceito de linhas e falanges que é bem flexível, houveram algumas iniciativas de estabelecer um padrão e uma codificação mas não foi amplamente aceite. Foi parcialmente aceite e amplamente customizada.

Nesse conjunto de guias, apenas um deles de fato faz referência a origem africana, que são os pretos velhos, contudo, observem, não são africanos, são pessoas que nasceram no Brasil e viveram aqui, não lembro em muitos anos de Umbanda de ter conhecido algum preto velho que fosse “africano”. Apesar deste tipo de guia remeter a uma memória africana, quando falam eles apenas se referenciam a sua vida no Brasil, isso é absoluto, não existe África na Umbanda. Além disso existem inúmeros outros tipos de guias e nenhum deles tem qualquer vínculo.

Também encontramos na Umbanda os ditos “orixás” que seriam associados aos ORIXAS originais africanos, presentes no Candomblé. Essa é uma associação teatral. Esses orixás na Umbanda não tem nenhuma similaridade com os do Candomblé. São diferentes em tudo, inclusive na incorporação, são essências totalmente distintas. Eu vejo essa associação como uma infelicidade, não era necessária e tira a identidade da Umbanda, mas, sem dúvida, ela existe de fato. A maior parte dos participantes não tem a menor ideia do que são os Orixás ou o Candomblé.

Os guias da Umbanda não são nem santos da igreja católica e nem Orixás do Candomblé. Essa associação é estética e sincrética e não deve ser levada a sério. Existem pessoas que juram que os guias de Umbanda são os tais santos da igreja católica assim como outros juram que são os orixás do Candomblé. Esses 2 grupos estão igualmente errados, são igualmente ignorantes e não podem ser levados a sério.


As pessoas que entendem de Umbanda mesmo sabem e explicam que esses guias chamados de “orixá” são na verdade CABOCLOS. São um tipo de caboclo de um nível hierárquico superior, mas, são caboclos, se comportam como caboclos, falam e dançam como caboclos.

O que vamos encontrar na Umbanda, como explicado, são espíritos, chamados de guias que incorporam em médiuns para que, manifestados desta forma, conversem com os frequentadores dando lhes orientação psicológica e se comprometendo a resolver alguns problemas que essas pessoas tenham e venham trazer a eles. O contato dos frequentadores com os guias é direto.



A prática da Umbanda

Após falar longamente sobre o que não é a Umbanda finalmente vamos falar do que é a Umbanda.

O guia na Umbanda é o núcleo de tudo. Ele é o sentido de toda a prática. As pessoas vão na Umbanda para conversar com guias, esses guias trazem as informações e orientações que as pessoas buscam. São eles que se comprometem em socorrer as pessoas. Quando se vai a uma Umbanda vai-se para conversar com os guias. A qualidade ou utilidade de uma casa de Umbanda é diretamente ligada a qualidade dos guias que trabalham nela.

Este é um modelo muito diferente do Candomblé onde o núcleo é a figura do Babalorixá ou Iyalorixá. Os demais membros da comunidade do Candomblé giram em torno dele em funções colaterais. Não se vai em um Candomblé para falar com um Orixá de algum médium, aliás nem existe a palavra médium, são eleguns.

Na Umbanda existe uma descentralização do trabalho e da importância, cada guia pode fazer a diferença, dependendo apenas da experiência do médium, do tempo de prática dele, da dedicação e outros comportamentos positivos. Podemos ter até mesmo guias e médiuns que tenham tanta importância quanto o dirigente da casa.

O dirigente da casa sempre será importante pela sua experiência e conhecimento e seus guias poderão ser sempre muito procurados e lembrados, mas, a prática da Umbanda é descentraliza. A casa estabelece um formato, valores, ética e rumo mas guias poderão evoluir e ganhar importância.

Esse modelo é impensável no Candomblé. Em uma casa de Candomblé, só o dirigente fala, só ele dá ordens, só ele atende pessoas e ele sempre tem a razão em tudo que faz e diz.

Não entendo como um médium com anos de prática na Umbanda e com guias experientes e respeitados jamais vai conseguir se adaptar a uma casa de Candomblé. Não encontro jeito disso acontecer.

Mas a principal questão que todos devem querer saber é, o que as pessoas procuram ou obtêm em uma casa de Umbanda através desses guias?

- Tudo o que você pode obter também no Candomblé e em Ifá.

É isso mesmo.

Veja, a Umbanda é uma religião, de forma que, a visão religiosa do mundo a visão transcendente também é encontrada nela, assim como pode ser encontrada no Candomblé. Os guias têm como objetivo ajudar às pessoas com orientações e também gradativamente mudando a forma de pensar e de reagir. A Umbanda faz mudanças profundas nas pessoas.

O mesmo tipo de orientação que você pode encontrar no oráculo do Candomblé você também vai encontrar através dos guias. Os guias de Umbanda, de Caboclo a Exu não estão ali para fazer trabalhos a troco de dinheiro. Esta é uma visão equivocada.

Na Umbanda, você encontra religião nas palavras dos guias. Na Umbanda você encontra informação, orientação e conselhos nas palavras dos guias. Na Umbanda o oráculo são os guias, eles falam o que você vai encontrar em uma mesa de búzios ou de cartas e te dão a oportunidade de perguntar e entender. Na Umbanda os guias não dizem o que você deve fazer, eles te ajudam a escolher.

Para aquelas pessoas que preferem conversar sobre os problemas, que tem dúvidas amplas que precisam ser esclarecidas, que preferem tratar diretamente dos problemas sem intermediários que ficam interpretando, a Umbanda é a opção.

Os guias estão no centro de tudo.

Tenha certeza de que na Umbanda você poderá contar com ajuda para resolver problemas da mesma forma que encontra no Candomblé ou Ifá.

Na Umbanda você encontra ética e respeito. Você encontra valores elevados. Tudo isso esta a seu alcance basta procurar uma boa casa, assim como no Candomblé e em Ifá. Em nenhuma dessas 3 opções existe garantia de qualidade, você tem que procurar.

Mas a Umbanda tem limitações. Existem informações que somente Ifá pode dar à pessoa. Existem certos tipos de trabalhos e liturgias que também são mais indicados para Candomblé ou Ifá. Quando isso ocorrer, a própria Umbanda te orienta, mas, observem, o mesmo vale para as demais, existem coisas e informações que a Umbanda traz melhor e com mais precisão e elas deveriam te recomendar a ir a uma casa de Umbanda.

Por que ir a Umbanda e não ao Candomblé e a Ifá?

Não é difícil responder, afinal a Umbanda fala a sua língua, lá ninguém fica o tempo todo te confundindo com bobagens e palavras que eles nem mesmo sabem o que significa. A questão é, porque você procura uma religião? Isso fica em primeiro lugar. Você não deve ir a uma religião para comprar soluções. Se você acha que Umbanda é uma casa de trabalhos e de ebós esta indo ao ligar errado, é acima de tudo um lugar de transformação pessoal.