Pesquisar este blog

quarta-feira, julho 23, 2014

A religião Yoruba no Candomblé

Parte 3

(não deixe de ler as partes anteriores)



2. A composição do candomblé



Lamento pelos textos introdutórios extensos, mas, como disse no primeiro texto, falar de Candomblé dá mais trabalho, é necessário primeiro desconstruir alguns conceitos ou explicar outros. Assim não dá para falar de religião de Orixá no Brasil sem antes explicar o que é o Candomblé.

O Candomblé é a tradição religiosa que representa a religião Yoruba no Brasil. Esta colocação é verdadeira mas não muito precisa, como vocês verão mais adiante, contudo, preciso iniciar esta explicação com algumas simplificações para que o assunto possa ser entendido. O candomblé é mais do que isso e para entendê-lo é necessário falar um pouco mais dele. É importante saber que é impossível falar de candomblé como se fosse uma coisa única. Esse nome, candomblé, abrange várias correntes e divisões.

Candomblé é o nome que recebe o conjunto de tradições religiosas e cultos que se desenvolveram no Brasil (no Nordeste, Norte, Sudeste e Sul) trazidos pelos povos que vieram durante a diáspora negra, originários da África ocidental. Este grande e diversificado conjunto cultural se agrupa, de fato, não em torno de uma religião base, mas sim de 2 religiões, a do, grupo Yoruba, que eu já citei e a do grupo jeje do Dahomey. O candomblé é então formado até hoje por 2 religiões distintas e não somente uma.

Além disso a religião Yoruba se manifesta através de cultos distintos. O principal e mais conhecido culto é o de Orixá. Existe ainda o culto de Egungun e o culto de Ifá, que está somente agora sendo introduzido no Brasil. Ifá não fez parte da nossa história e ainda não se adaptou ao nosso povo. 


Os cultos são subdivisões da religião com especialização litúrgica, cada um desses citados se dedicam a divindades diferentes ou melhor entendendo a objetivos teológicos diferentes. As casas se identificam exclusivamente com um tipo de culto, e este tem formato, liturgias e ritos diferenciados. Não existe possibilidade de uma casa se dedicar a mais de um culto ou raiz religiosa. O culto de Orixá lida com as divindade, o de Egungun com os ancestres falecidos e o de ifá se dedica apenas ao oráculo da religião e se integra aos outros 2, e os complementa.

Não se pode referenciar ao Candomblé como “um” candomblé. Quando alguém fala de candomblé, a primeira coisa que se deve entender é de “qual” candomblé se está falando.

Antigamente, esta diversidade levava as pessoas ao chamarem de candomblé de nações, porque haviam várias nações que eram representadas dentro dele. O conceito de nação é flexível e pode qualificar tanto o grupo religioso principal, como Yoruba e jeje, como também etnias que estabeleceram variações litúrgicas e ainda, reagrupamentos locais que também estabeleceram variações litúrgicas.

A tradição religiosa de candomblé é nomeada no singular apenas por razões históricas, de fato o termo unificado “Candomblé”, cuja origem etimológica não é conhecida, é somente uma simplificação muito grande e que leva as pessoas a suporem uma unidade religiosa que não existe.

O conjunto religioso formado pelo candomblé é de fato difícil para os brasileiros entenderem, mesmo para os seguidores, porque cada seguidor pertence a um microcosmo e não necessariamente conhece o todo, comumente conhece onde ele próprio esta e alguma parte adicional. No contexto brasileiro, além do candomblé, temos a umbanda, o espiritismo, o catimbó, o toré, e sabe-se lá mais quem, que apesar de serem totalmente diferentes, aos olhos do leigo eles podem parecer que são todos uma coisa só ou que tem uma origem única. A verdade como eu mostro é que não tem nada em comum. O leigo certamente olha para esse conjunto, não o entende e chama isso tudo de afro-brasileiro ou de matriz africana, sem saber que, como eu disse, a África é um continente não um país e que neste conjunto encontramos ainda cultos brasileiros e ameríndios. Buscar semelhanças entre eles é insano e idiota.

As pessoas sempre buscam simplificação para superarem a sua preguiça ou ignorância, assim, em vez de entenderem a nossa riqueza cultural e religiosa fazem o pior, inventam algo que não existe usando explicações idiotas. Isso aumenta a confusão. Como um amigo falou, é muito fácil escrever sobre candomblé, você inventa o que quer e tem um monte de gente que ainda acredita. A mídia escrita e televisiva que é formada de 3% de jornalistas que tem neurônios, apenas torna isso pior chamando tudo que não é cristão de afro-brasileiro. Como já repeti inúmeras vezes o catolicismo é afro-brasileiro.

Eu imagino que os cubanos que estão vindo para o Brasil trazer o seu ifá e a reboque o lukumi que é a tradição de orixá deles, tem aumentado a confusão porque inserem um novo elemento neste “caldo”. Primeiro devemos lembrar que eles devem ter uma absurda dificuldade de entender o candomblé. A tradição deles, o lukumi, é unificado e tem inclusive uma regra de formato, todos fazem igual, ou com pequenas variações, afinal cuba é apenas uma pequena ilha. O candomblé é muito maior, rico, complexo e diversificado. Eles podem chegar aqui tentando traçar semelhanças entre o lukumi e o candomblé, mas falham, largamente, em entender uma coisa que está muito além do que eles podem entender.

O lukumi pode ser comparado, no máximo a um pequeno pedaço do candomblé, uma nação, ou melhor a uma variação sincrética como foi o Omolokô ou ao Angola de hoje, que mistura religião Yoruba com Bantu, ou como a gente diz, candomblé com umbanda. O que eles fazem é o mesmo que as pessoas de umbanda fazem ao tentar explicar ou entender o candomblé em função do que eles conhecem da sua religião. O resultado é que nem os umbandistas entendem o candomblé e nem os cubanos. Ambos acham que sabem tudo e de fato nada sabem de nada.

Além da questão das nações, que criou inicialmente diversidade, o candomblé foi responsável por um processo de profundo de transformação da própria religião Yoruba, processo este que está sendo absorvido pela própria tradição africana. Na terra Yoruba, a religião e os cultos eram regionalizados e muito mais especializados, sendo agrupados em aldeias, cidades e famílias. Além disso as próprias divindades eram elementos de agregação. Enquanto no Brasil nós tivemos uma especialização em 2 cultos bem distintos e chegando o terceiro agora, na terra Yoruba, o culto também era segmentado por divindade.

No Brasil, a estrutura Yoruba original era impossível de ser refletida. O modelo família, clã, aldeia e região era inviável devido a situação de escravos que as pessoas viviam aqui. O candomblé criou a figura do terreiro como ponto de união e substituição disso tudo, incluindo uma unificação litúrgica, uma vez que, um terreiro inclui, aqui, o culto a todos os orixás. O terreiro substituiu a família, o clã, a aldeia e o templo. A figura do terreiro reconstitui na tradição religiosa da Diáspora os elementos perdidos da sociedade Yoruba e sua constituição, no formato que tomou, foi um pilar importante na religião, mantendo melhor os vínculos teológicos originais do candomblé com a religião Yoruba.

Os lukumi de cuba, não tem o elemento terreiro ou mesmo egbe e isso explica bastante o distanciamento deles e a atitude agressiva que alguns grupos cubanos e de pessoas iniciadas por cubanos, tem tomados em relação a tradição Yoruba. A única explicação que eu encontro para a forma agressiva como cubanos de lukumi ou ifá se dirigem aos nigerianos ou seguidores da tradição Yoruba é, ou a necessidade de se justificarem no mercado religioso (de jogos, ebós e iniciações) ou um problema de autoestima por eles se acharem menores ou diferentes. Reconheço que não sei a causa, apenas posso imaginar.

Lamento os comentários que alguns podem não gostar. Não pretendo comentar nada sobre o Lukumi, Cuba é uma ilha pouco maior que o estado do Rio de Janeiro e com uma população equivalente. É impossível a gente querer comparar a riqueza cultural que temos no Brasil com uma ilha e população tão pequena.

Voltando ao candomblé, os 2 principais grupos religiosos presentes no candomblé são o Yoruba e o Jeje, cada um deles representa uma base religiosa distinta. Elas possuem similaridades, algumas ligações ou coisas em comum mas não são a mesma religião.

As diversas nações formam subdivisões do candomblé e cada uma delas pertencentem exclusivamente a uma dessas 2 religiões. Algumas pessoas podem estar notando, e estranhando, que não menciono o Angola no mesmo nível que o Yoruba ou jeje. Ele não está neste nível. O angola é uma nação de Candomblé, como as demais que serão citadas. O angola pertence ao grupo bantu e este grupo não tem uma base religiosa equivalente aos Yoruba ou Jeje. Eles são similares a umbanda, onde deveriam estar. O que ocorreu foi que, pessoas da bantu copiaram o modelo Yoruba, fizeram adaptações linguísticas e inventaram uma nação para eles, mais especificamente uma nação para uma religião que na áfrica nunca tiveram. Isso não os desmerece como uma tradição religiosa Yoruba. Mas eles são um grupo étnico que adotou a religião Yoruba e criou uma tradição própria para a etnia deles.

Tudo isso em poucas linhas

O Candomblé é uma denominação que cobre várias tradições religiosas, nem todas ligadas à mesma religião base. Algumas são ligadas a religião Yoruba, com as divindades chamadas Orixá e outras a religião do Dahomey com as divindades chamadas Vodun.

Esta diversidade religiosa é nomeada como sendo as nações do candomblé. Contudo, acima da nação esta a religião a qual ela é ligada. A nação personaliza o culto da religião para um determinado grupo de pessoas.

De norte a sul do Brasil existem tradições religiosas diferentes que são genericamente traduzidas como Candomblé, contudo descendem de, pelo menos, uma dessas 2 religiões distintas e trilharam caminhos diferentes na sua formação em termos de afastamento da teologia da religião base, sincretismo com outras correntes religiosas e formatos litúrgicos.

Esse rico contexto religioso que é chamado resumidamente de CANDOMBLÉ mostra a diversidade e profundidade de integração que são possíveis de serem obtidos levando em consideração a própria extensão do nosso território e diversidade do povo brasileiro.

Antes de se discutir candomblé deve se ter o cuidado de se situar de qual candomblé se está falando. Existem diferenças teológicas importantes e qualquer iniciativa de fazer um de-para de orixá e vodum e de ritos é apenas fruto de ignorância.