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quinta-feira, janeiro 31, 2013

A questão das trocas entre o ọ̀run (órun) e o àiyé

Parte 2 de 2

A troca de favores usando o Órun (ọ̀run) e o Àiyé
Chegamos, por fim, a talvez uma das questões mais primárias disso tudo que é o contínuo processo de troca entre o ọ̀run (órun) e o àiyé, que domina o dia a dia das pessoas.
Esclarecendo a todos o Órun (ọ̀run) é o espaço supernatural e o àiyé é o espaço natural. O Órun (ọ̀run) é o lugar onde habitam os espíritos e o àiyé é basicamente o mundo terreno. A troca significa que no àiyé as pessoas procuram através de liturgias e oferendas oferecer coisas esperando receber em troca disso favores dos espíritos do Órun (ọ̀run).
É como os católicos que fazem promessas para obter favores em troca de penitências (aqui uma relação de sofrimento, no qual o Órun (ọ̀run) católico exige que a pessoa sofra e se puna para atendê-la?) ou os neo-pentecostais com sua doutrina de teologia da prosperidade, na qual deus “em pessoa” vai atender a tudo o que eles pedem, inclusive as maldades que pedem colocando nomes e fotos das pessoas dentro da bíblia.
As trocas, então, não são uma exclusividade de nenhuma religião e sim na natureza humana.
No Candomblé, este mecanismo domina tanto, a visão da pessoa que se associa a uma casa, como também a forma como a sociedade vê as casas e isso é muito ruim. É no mínimo curiosa a a mentalidade que se constrói de que os espíritos e divindades no Órun (ọ̀run) estão ali, ávidos por receberem ebós e rapidamente, a troco de umas bolas de farinha ajudar as pessoas no àiyé.
Sem dúvida a visão do mundo de cada religião é distinta e isso direciona a forma como as pessoas vivem. Se você pega uma religião encarnacionista e cármica como o budismo e kardecismo, por exemplo, que pregam que viver é um sofrimento e você nasce, na realidade, fazendo um “curso” de sofrimento para não mais renascer, esta pessoa vai pautar sua vida justamente seguindo esta sina, de “viver” essas dificuldade para que elas não apareçam mais e também sendo forçosamente caridosos para acumular pontos positivos nessa vida.
Eu acho que o budismo deve fazer um bom trabalho nas pessoas, buscando o melhor delas, apesar de eu não gostar da filosofia como um todo. Mas o Kardecismo não tem filosofia do budismo e se caracteriza pela orientação à caridade, na maior parte das vezes não sincera, como uma obrigação de vida. Contudo, o que eu quero dizer aqui, mais uma vez, e enfaticamente, é que a pratica sincera de uma religião direciona a forma como as pessoas vivem e como encaram a sua existência.
A religião Yorùbá tem como característica dizer para as pessoas que elas nascem para ser felizes e elas devem viver felizes. Ela também reconhece que o mundo tem muitas dificuldades e coloca o divino, através de orixá (Òrìṣà) e outros espíritos disponíveis para ajudar as pessoas a vencer os obstáculos que as impedem se ser felizes.
Desta maneira o Candomblé tem esta veia assistencialista na sua estrutura. Mas o objetivo disso não é no que isto se transformou na prática. A religião quer as pessoas felizes e ela suporta isso através do equilíbrio e reposição de axé (aṣẹ́), que é a forma como a religião entende que você obtêm as condições para ter condições para resolver seus problemas. A religião entende que a pessoa deve ter energia, uma boa cabeça para tomar boas decisões, um bom caráter, ética e sorte na vida. Mas acima de tudo a religião diz que a pessoa deve ter boas pernas, porque sem boas pernas você não realiza nada.
A visão dela é muito direta, nós temos que resolver nossos problemas, o preguiçoso não vai ter nada na vida. Não adianta você se sentar e esperar que as coisas ocorram, se você quiser realizar alguma coisa faça algo por vocês. Se quiser ter dinheiro, trabalhe, se quiser comer, plante, se quiser resolver problemas e conflitos busque a solução. Não existe incentivo para a preguiça, para a leniência e para a pessoa resolver seus problemas com trocas e feitiços.
Existe uma frase muito boa que diz que seu orixá (Òrìṣà) não vai impedir que você chore suas lágrimas, mas, vai estar junto de você para enxugá-las. As trocas entre o Órun (ọ̀run) e o Àiyé existem, sempre com este sentido de dar a você as melhores condições para realizar, trabalhar, ter saúde, ter determinação e também para eliminar dificuldade ou negatividades que não lhe pertencem.
Se você passa anos plantando e regando um problema, você vai colher o seu problema. O que saiu da sua mão é seu, usufrua dele. Não adianta esperar ajuda divina para uma coisa que você mesmo criou para você. Mas, existem situações que não nos pertencem, existem problemas que não procuramos, existem negatividade que nos são direcionadas por outras pessoas por sentimentos que não fomos responsáveis diretos e nem por nossas ações.
Essas coisas, que não nos pertencem e que não cultivamos, são as coisas que são mais facilmente resolvidas pelo sistema de troca.
Mas, o ser humano é muito obtuso e muito focado em seus objetivos. A maior parte não esta interessada em “viver” sua religiosidade. A vida do praticante do Candomblé é dominada pelo sentido de alia naquela casa ela estará próxima deste processo de troca contínua de bens e favores entre o ọ̀run (órun) e o àiyé com o objetivo de resolver todos os seus problemas materiais.
O supermercado religioso do Candomblé é a tônica principal da compreensão que se estabelece do que seja a religião dos orixá (Òrìṣà) e isso é tão forte que permeia o grupo dos frequentadores e mais, se alastra por toda a sociedade. As casa da religião são rotuladas como casas de trabalho, lugares onde se paga para resolver problemas e, na maioria delas sem muita ética envolvida.
Assim, baseado no fato de que a pessoa é dedicada ao seu orixá (òrìṣà), que vai no seu terreiro para varrer o chão e passar roupa, ela entende que é merecedora de favores do plano divino. Oferendas e ebós são os elementos de troca que buscam dar coisas para que a pessoa receba em troca favores, que vão resolver o seu problema, trazer benefícios e criar atalhos para a sua vida.
A questão do comportamento, do mérito como base para se poder alcançar algo na vida ficam sempre para segundo (ou nenhum) plano. Entende-se que o processo mágico das oferendas ou de obrigações é o mais do que necessário para se obter o que precisa. Entendesse que uma pessoa que faça seu santo vai ter que receber em troca emprego, dinheiro e uma vida melhor. Se isso não foi alcançado é porque o sacerdote que procurou é ruim, seu santo foi mal feito, etc...
O mais incrível é a pessoa entrar para uma religião que ela imagina que as divindade que ela acha tão maravilhosa se vendem por um punhado de grãos para fazer qualquer coisa, ou mesmo, que ficam lá sem ter o que fazer a não ser facilitar a vida das pessoas aqui no àiyé.
O merecimento, ou a falta dele, é sempre lembrado como motivo para justificar o não benefício, geralmente por quem vendeu a liturgia para o favor ser atingido. Nessa hora a pessoa não obteve porque não merecia. Mas nunca lembrado quando o contrário ocorre, quando o benefício é atingido, nesse momento o mérito é de quem fez a liturgia. A medida do sucesso na obtenção de benefícios e prosperidade é a que justifica a permanência de alguém em uma casa. Se as coisas não vão bem elas se vão.
Afirmo que este é um desvio da religião. Ela não existe com essa finalidade e essas almas pobres que assim se situam estão completamente perdidas em relação ao o que é a religião. Não tenho dúvida que esta distorção de visão começou quando as pessoas começaram a comercializar o axé (aṣẹ́). O que deveria ser uma coisa restrita para as pessoas de uma casa passou a estar à venda para quem pudesse pagar.
O sacerdote usando os conhecimentos a que tem acesso se transformou apenas em um feiticeiro, um fazedor duvidoso de favores. Na vida real, como no cinema, toda força mágica tem 2 usos, o do bem e o do mal. A comercialização de ebós e feitiços é apenas um mau uso disso, é o uso do lado ruim.
Um religioso, um sacerdote é uma pessoa do bem. Ele não pode se prestar a anunciar serviços mágicos ao alcance de qualquer pessoa.
Na minha visão uma religião baseada em um sistema de trocas é o caminho certo para o seu fracasso. As pessoas que se envolvem com uma religião como o Candomblé não podem viver com essa perspectiva. Uma religião não pode se focar ou incentivar esse comportamento porque jamais as pessoas vão se encontrar ou entender o que estão fazendo lá.
Mais ainda, a falta de estrutura religiosa que permita a frequência e participação de pessoas não iniciadas em terreiros junto com a contínua pressão para que todos sejam iniciados é uma problema crônico que mais afasta do que aproxima.
O Candomblé não será uma religião se não criar categorias para diversos níveis de envolvimento e iniciação. Quando os terreiros tiverem que conviver harmoniosamente com pessoas que não querem ou que jamais farão o seu orixá (Òrìṣà) eles conseguiram enfim achar um caminho religioso para sia existência. Hoje essa convivência é um estágio intermediário no qual a pessoa é continuamente empurrada ou incentivada a trocar de status de abian para iyawo.
A manutenção de terreiros através de clientelismo religioso é mais um outro mal. Esse processo de troca entre ọ̀run (órun) e aiyé deve acabar e isto ser um bem intrínseco da religião e não explícito. O aspecto da troca esta presente em todas as religiões em maior ou menor grau. Você dedica tempo, fé e recursos e espera do ọ̀run (órun), do sagrado, um retorno para a sua vida. Isso é natural, mas, algumas religiões moldarem isso com sabedoria, como a católica outras transformaram isso na sua bandeira como os evangélicos, mas que junto com a promessa de benefícios traz uma enorme dose de doutrina, dogma, moral e ética.
A perspectiva materialista
Na umbanda e Candomblé isso fica quase apenas na perspectiva materialista. O principal exemplo desse paradigma é a Umbanda. Como já expliquei aqui antes a Umbanda por si só não se caracteriza nenhuma religião. È um processo de possessão voltado em princípio para ajudar outras pessoas mas que deve se basear em alguma doutrina religiosa, qualquer uma porque a pratica da Umbanda exige mediunidade e não uma crença religiosa específica. Assim existem muitas umbandas, cada uma com uma combinação e entre comum apenas a incorporação com espíritos.
Os médiuns e principalmente os frequentadores se fixam sempre na solução de problemas da vida e materiais. A frequencia é determinada por isso e todos os que ali estão querem resolver algo novo toda semana. “Macumba boa é aquela que funciona”. As respostas a pergunta chave geralmente se traduzem em algo do tipo que a pessoa esta ali para elevação espiritual, mas essa resposta não sobrevive a uma segunda pergunta do tipo o que significa para ela essa elevação espiritual, como aquilo se traduzira na vida dela?
Esse problema não é exclusivamente do Candomblé. Esta muito presente também nos neo-pentecostais, contudo, apesar do muito excessos eles conseguem algum equilíbrio entre a realização espiritual e o sentimento de realização material. Tanto que as pessoa migram do Candomblé e Umbanda para eles.
Existe um tipo de pessoa e uma determinada faixa da população que coloca claramente essa questão material na frente da sua religião. Elas na realidade vão estar sempre buscando alguém que resolva os seus problemas e serão uma população migratória entre doutrinas e casas na busca de solução.
O circulo virtuoso
Eu poderia traduzir assim o circulo virtuoso. Uma pessoa que se dedica a essa religião deve encontrar base e orientação para através do contato com esse divino, através de exemplos e através de orientação, atingir um equilíbrio em sua vida na forma como a conduz e na forma como dedica o seu tempo para objetivos de realização. Equilíbrio é a principal palavra que traduz essa religião.
Uma pessoa religiosa é aquela que vive nesse mundo com a fé no divino. Uma fé forte e presente que a faz saber que sua vida existência esta sendo submetida e é controlada por uma força maior do que a dos homens, por uma lei maior do que a dos homens. Assim essa pessoa vive com a convicção de que não esta sozinha nesse mundo, o divino no ọ̀run (órun) esta sempre a zelar por ele. Uma pessoa de fé sabe que o mundo e as coisas são controladas pelo divino e não pela mesquinharia dos homens.
Essa pessoa vai se transformar em uma pessoa melhor para consigo mesma obtendo equilíbrio na forma como vive sua vida e se dedica a seus objetivos com ética e carater. Os seu orixá (òrìṣà) e ori vão buscar não somente ajudá-lo nesse equilíbrio como também ajudá-lo a enfrentar as diversidades de sua vida, amenizando problemas, e tornando-o transparente para seus inimigos. A própria conduta dessa pessoa, equilibrada consigo mesmo vai evitar que ela cria inimigos para sí.
O seu ori vai protegê-lo dos ajogun, os males que estão nesse mundo e que fogem ao nosso controle. A sua boa conduta vai permitir que oportunidades de abram em sua vida, que ele as veja e que consiga se aproveitar delas. Os caminhos dessa pessoa se abrem através do seu mérito como pessoa e através da proteção do divino para aquelas coisas que não forem plantadas por você mesmo.
Você como uma pessoa melhor vai ter condições de ajudar sua família e trazer também para ela esse equilíbrio. Mais pessoas assim serão beneficiadas por sua ação. O benefício para a família é um dos principais objetivos que uma pessoa deve ter em sua vida, seja por mantê-la unida seja por ve-la prosperar.
Uma vez atingido esse estágio você tera condições de ajudar a sociedade que o cerca, tendo assim conhecimento e experiência para transmitir para outras pessoas, ajudando a transformar e melhorar o mundo em que vive.
Uma pessoa religiosa deve ter uma pratica diária dessa religiosidade. A oração é o elemento de ligação entre o aiyé e o ọ̀run (órun). As palavras empregadas e sua repetição é o que o fazem. Uma pessoa deve de Fé deve estar ligada ao ọ̀run (órun) e deve ter em sua vida a pratica da oração.
Além disso a pessoa que vive com Fé deve se lembrar desse divino ao longo do seu dia. Seja quando tem uma dificuldade seja quando algo de bom ocorre com ele porque o mesmo ouvido que serve para ouvir pedidos de proteção e ajuda também server para ouvir agradecimento.
Uma pessoa de Fé deve ter uma pratica religiosa diária e semanal para si que não dependa do sei terreiro para que ela busque através dessa ligação com o ọ̀run (órun) o equilíbrio e o Iwa pele que vão trazer tudo de bom para a sua vida.
Uma pessoa de Fé deve saber como se dirigir a seu orixá (òrìṣà) e Ori e como receber deles as mensagens que precisa para poder viver melhor o seu dia e vida.