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quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Exu no Candomblé
os catiços da Umbanda


Este é um tema bem interessante. Não é nada difícil de ser tratado como muita gente gosta de complicar para não ter que explicar. Sendo Exu uma divindade elementar na religião e todo  Bàbáláwo ou Bàbálòrìxà tem que explicar a sua função com muito poucas palavras. Mas tem que fazer isso sem usar adjetivos em excesso, chavões e expressões feitas.

Dessa maneira, para contribuir com essas pessoas, assim como já fiz aqui na questão de como responder à pergunta idiota sobre sacrifícios de animais, vou escrever alguns textos.

Neste primeiro texto, pós-carnaval, não vamos muito profundos no tema, vamos primeiro falar sobre o que não é verdade.

Tranca-rua, sete encruzilhadas, maria padilha e demais marias NÃO fazem parte do Candomblé.  Estas entidades, não são Exu. Elas, todas, pertencem somente e exclusivamente à Umbanda. Não existe nenhum motivo e nenhuma razão para qualquer pessoa de Candomblé incorporar esses guias e muitos menos ter e fazer assentamentos para eles.

Observem que quando digo que estas entidades não são Exu estou me referindo sob o ponto de vista do Candomblé. O fato de a Umbanda ter se apropriado inadequadamente do nome "Exu" para nomear uma de suas entidades não vai significa que elas sejam de fato Exu.

O sincretismo feito pela Umbanda ao usar o mesmo nome que o Candomblé usa para nomear um Orixá importante, para nomear estas suas entidades, não seguiu qualquer similaridade funcional. O Orixá Exu não tem qualquer paralelo com o Exu de Umbanda.

No Candomblé, o tipo de entidade que mais se aproxima do Exu de Umbanda seria Ajé, porque é uma entidade sem ética que pode tanto fazer o bem como o mal, dependendo da forma como é invocada.

Assim, não dá para falar de Exu no Candomblé sem primeiro limpar o terreno em relação a  2 aspectos.

O primeiro é que existem pessoas ignorantes, desinformadas ou malintencionadas que se dizem do Candomblé, dizem que tem casas de Candomblé e ficam incorporando com Exus e pombo-giras de umbanda, dão consultas ou festas, não importa. Isso é tudo um erro. No Candomblé não existe lugar para essas entidades e eles não são Exu, são uma invenção mal feita da umbanda, são eguns.

Não existe lugar em uma casa de Candomblé para Exu e Pombo-gira.

Entendam, essas entidades se encaixam perfeitamente na Umbanda. Pertencem a Umbanda. Mas, se estamos falando de religião Yoruba e de Candomblé essas entidades não  podem existir. Como eu disse, pessoas ignorantes ou mal-intencionadas estão trazendo elas para o Candomblé e fazendo as pessoas acreditarem que estas entidades fazem parte do Candomblé..

Assim o fato de muita gente estar encontrando casa de Candomblé com Exu de Umbanda trabalhando incorporado pode trazer uma certa confusão, mas, definitivamente esqueçam isso.

O segundo e talvez até pior é o fato de pessoas de Candomblé estarem recebendo assentamentos de Exu de Umbanda substituindo os assentamentos do Orixá Exu e também fazendo oferendas para esses Exus, chamados de catiços, substituindo às oferendas ao Orixá Exu.

Não usarei mais a expressão Exu de Umbanda. Eles são catiços e serão assim nomeados.

Eu digo que esta caso é pior porque no primeiro é a inclusão de um apêndice inadequado, uma invenção, uma entidade externa que passa frequentar casas de se dizem de Candomblé, mas não são, fingindo ser. Mas a sua manifestação nessas casas bastardas se faz como se fosse uma Umbanda mesmo.

No segundo caso existe de verdade um sincretismo litúrgico.

Faz parte de Candomblé o Yawo receba Igbas, assentamentos de seu Orixá, juntó e orixás importantes do seu enredo. além disso existe a necessidade dele também receber um assentamento do Exu que acompanha o seu Orixá. Este é o chamado Bara do seu Orixá.

O sentido disto será explicado em outro texto, neste momento o que temos que entender é que dentro do Candomblé Exu tem muitas denominações, mas, existe um Exu chamado Bara (bárá) que esta viceralmente ligado ao Orixá da pessoa, sendo chamado de Bara do Orixá. Ele representa o aspecto do dinamismo, do movimento e da transmissão do Axé.

O assentamento de Exu Bara, assim como os Igbas dos Orixás da pessoa, intensifica a presença e participação de Exu na vida da pessoa criando um ponto de concentração de energia e de ligação. Um Yawo deve receber em algum momento de sua formação sacerdotal este assentamento do seu Bara.

Não existe regra para ele receber isso. Pode receber na sua iniciação ou pode receber nas obrigações de 1, 3 ou 7 anos. Depende apenas do Babalorixá da pessoa decidir quando isso será feito.

Mas muito Babalorixá e Iyalorixá que tem casa aberta e muitos filhos-de-santo, não recebeu este assentamento e também nem sabe como fazer. Assim, como ele tem que fazer um assentamento de Exu para seus Yawos,  ele acaba fazendo o assentamento de catiços de Umbanda para o Yawo.

Dessa maneira aparecem Yawos com catiços como Tranca-Rua e Maria Padilha assentados  substituindo o assentamento do seu Exu Bara. Essas pessoas chegam a confundir esses catiços como o Exu Bara e até o próprio Orixá Exu.

Isso é ridículo e lamentável.

Então, fechando esta explicação, catiços como Tranca-Rua e Maria Padilha NÃO são assentados como Exu Bara de Orixá. Mais ainda, esses catiços não são escravos de Orixá. Esta expressão, escravo de Orixás, que é usada para enquadrar esses catiços como se fossem parte do Candomblé, NÃO tem nenhuma base. Os catiços não são escravos de orixá e não existe na religião Yoruba e no Candomblé esta expressão e referência. Isso pertence à sempre e somente a Umbanda.

A Umbanda não é uma religião africana é uma religião brasileira.

Assim, se alguém chamar os catiços de Umbanda de escravos do Orixá e dizer que esta é a posição deles dentro do Candomblé, isso é mentira. Isso não existe no Candomblé! Essas pessoas são mal-informadas ou estão usando isso para enganar as pessoas, justificando assim os seus desvios de conduta.

Para poder entender o Orixá Exu do Candomblé, a primeira etapa é esquecer tudo de errado que é falado, todos esses desvios de conduta, todas essas mentiras que são ditas para justificar erros, mal-feitos e ignorância.