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sábado, maio 29, 2021

A separação do órun (Ọ̀run) e do Àiyé

 

A separação do órun (Ọ̀run) e do Àiyé 

 

A separação dimensional entre órun (Ọ̀run) e Àiyé é bem documentada e caracterizada na teologia da religião. Mais do que apenas dividir os espaços espirituais o culto de Orixá (Òrìṣà) é estruturado para permitir a passagem entre órun (Ọ̀run) e Àiyé para os Orixá (Òrìṣà).

Os mitos dizem que órun (Ọ̀run) e Àiyé eram ligados e que os Orixá (Òrìṣà) podiam ir e vir de acordo com a necessidade, mas, claramente e determinado momento isso foi interrompido para todos, humanos e Orixá (Òrìṣà).

Osamaro Ibie foi bem direto ao posicionar a separação entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé:

...há sempre uma tendência de ver o homem estritamente de uma perspectiva biológica. Um homem e uma mulher acasalam e um filho nasce deles e o novo filho é visto como uma entidade independente, já vimos que no início da habitação terrestre, os seres humanos viajavam para este mundo sob a liderança de um ou de outro das divindades, veremos nos próximos capítulos que a estada de um homem no mundo é apenas uma continuação de suas atividades no céu, já vimos que antes que o homem viesse a viver no mundo, os habitantes do céu continuaram viajando seus pés de e para a terra, completaram suas atribuições na terra, e voltaram para o céu, foi Èşu quem bloqueou a passagem livre entre o céu e a terra e fez do útero feminino o caminho de passagem entre os dois lugares. Antes, a pelve de todos os animais, como nas plantas, ficava na testa e não era reconhecida nem respeitada, tanto nos animais quanto nos seres humanos. A pélvis, que era um organismo vivo no céu, foi para a divinação e foi aconselhada a fazer um sacrifício com um bode preto para Èşu e assim o fez. Depois disso, Èşu pediu à fêmea para abrir as pernas e extrair a pélvis de sua testa "e" posicionou-a entre as pernas. Ele então extraiu uma parte da pele do corpo do bode preto com o qual a pélvis fez o sacrifício para ele, e Esu usou-o para cobrir a pélvis em sua nova morada entre as pernas femininas.

Depois disso, Èşu foi para a fronteira do céu e da terra e bloqueou para sempre com escuridão total. Essa parte do sistema planetário se aproxima do que na mitologia grega é chamado de Erebus (Ìrònà). Foi Èşu quem o bloqueou permanentemente e ordenou que ao invés de manter os portões do céu permanentemente ocupados por viajantes vindos da terra para pedir filhos no céu, a partir de então, qualquer um, animais e humanos, que quisesse ter filhos deveria apelar para a pélvis, e o útero de todas as mulheres foi feito para simbolizar a escuridão e os mistérios de Erebus (Ìrònà). O período de gestação que uma fêmea leva para dar à luz um filhote também se aproxima do tempo que costumava levar para diferentes espécies da família animal viajarem de e para o céu para ter um filho.

Além disso, no Candomblé, temos um mito conhecido, no formato orixalizado, que reputa a Oxalá (Òṣàlá) a separação entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé. O mito a seguir está descrito por Prandi (Mitologia dos Orixás, pag. 514). Lembro que o processo de orixalização fez parte da diáspora em todos os lugares. As divindades Olódùmarè, Exú (Èṣù), Ori e Órunmila (Ọ̀rúnmìlà), bem como outros inrumolé (Irúnmọlẹ̀) não foram trazidos e toda a teologia e cosmogonia foi adaptada e identificada quase que somente por Orixá (Òrìṣà), que eram as divindades conhecidas. Em alguns lugares isso foi muito exagerado e mal feito, como em Cuba, onde eles criaram, praticamente, uma cosmogonia própria, visto que lá conceitos muito básicos da teologia, como Ori e Exú (Èṣù) entre outros, não existiam para eles. No Brasil isso ocorreu, também, mas em menor intensidade e mais focado em Olódùmarè que aqui era tratado como se fosse Oxalá (Òṣàlá), o Orixá (Òrìṣà) da criação. Aqui, os inrumolé (Irúnmọlẹ̀) eram conhecidos, mas, no dia a dia o papel deles era atribuído a um Orixá (Òrìṣà).

Essa situação de orixalização começou a ser corrigida a partir da década de 50 do século XX, com o acesso dos sacerdotes às obras de pesquisadores e antropólogos. Em cuba esse processo de africanização fez um efeito muito grande, uma vez que eles são uma pequena ilha, a comunicação mais fácil e conhecimento controlado por poucas pessoas, eles inseriram rapidamente as divindades que faltavam fazendo um certo estrago no todo (minha opinião), mas, hoje, se comportam como se sempre tivesse sido assim lá, bem no estilo cubano.

O mito a seguir, da separação do órun (Ọ̀run) e do Àiyé, é bem tradicional no Candomblé.

Obatalá separa o Céu da Terra

No início não havia a proibição de se transitar entre o Céu e a Terra; A separação dos dois mundos foi fruto de uma transgressão, do rompimento de um trato entre os homens e Obatalá. Qualquer um podia passar livremente do Orum para o Aiê. Qualquer um podia ir sem constrangimento do Aiê para o Orum. Certa feita um casal sem filhos procurou Obatalá implorando que desse a eles o filho tão desejado. Obatalá disse que não, pois os humanos que no momento fabricava ainda não estavam prontos. Mas o casal insistiu e insistiu, até que Obatalá se deu por vencido. Sim, daria a criança aos pais, mas impunha uma condição: o menino deveria viver sempre no Aiê e jamais cruzar a fronteira do Orum. Sempre viveria na Terra, nunca poderia entrar no Céu. O casal concordou e foi-se embora. Como prometido, um belo dia nasceu a criança. Crescia forte e sadio o menino, mas ia ficando mais e mais curioso. Os pais viviam com medo de que o filho um dia tivesse curiosidade de visitar o Orum. Por isso escondiam dele a existência do Céu, morando num lugar bem distante de seus limites. Acontece que o pai tinha uma plantação que avançava para dentro do Orum. Sempre que ia trabalhar em sua roça, o pai saía dizendo que ia para outro lugar, temeroso de que o menino o acompanhasse. Mas o menino andava muito desconfiado. Fez um furo no saco de sementes que o pai levava para a roça e, seguindo a trilha das sementes que caíam no caminho, conseguiu finalmente chegar ao Céu. Ao entrar no Orum, foi imediatamente preso pelos soldados de Obatalá. Estava fascinado: tudo ali era diferente e miraculoso. Queria saber tudo, tudo perguntava. Os soldados o arrastavam para levá-lo a Obatalá e ele não entendia a razão de sua prisão. Esperneava, gritava, xingava os soldados. Brigou com os soldados, fez muito barulho, armou um escarcéu. Com o rebuliço, Obatalá veio saber o que estava acontece Reconheceu o menino que dera para o casal de velhos e ficou furioso com a quebra do tabu. O menino tinha entrado no Orum! Que atrevimento! Em sua fúria, Obatalá bateu no chão com seu báculo, ordenando a todos que acabassem com aquela confusão. Fez isso com tanta raiva que seu opaxorô atravessou os nove espaços do Orum. Quando Obatalá retirou de volta o báculo, tinha ficado uma rachadura no universo. Dessa rachadura surgiu o firmamento, separando o Aiê do Orum para sempre. Desde então, os orixás ficaram residindo no Orum

A seguinte versão deste mito está no excelente livro de José Beniste, Mitos Yorùbá.

O CONFLITO ENTRE O CÉU E A TERRA

Em tempos primordiais, os dois planos (o céu e a terra) não eram separados entre si — interligavam-se num ponto deno¬minado Akàsò. Tudo que os visitantes dos dois planos tinham a fazer era cruzar uma porta fronteiriça comandada pelo Oníbodè, o porteiro do espaço celestial. O céu era comandado por Àjàlórun ou Olódúmarè, e a terra por Àjàláiyé ou Onílè. Ambos eram grandes amigos e viviam em constante confraternização, até que uma grande disputa surgiu entre os dois.

Era costume preservar-se uma grande floresta para abrigar muitos animais. Depois se fazia uma grande queimada na esperança de encontrar ali os animais que interessavam a todos. Num desses acontecimentos, a floresta ardeu por muito tempo, mas nenhum animal saiu dela. Quando estava completamente queimada, Àjàláiyé e Àjàlórun entraram nela vasculhando as tocas dos animas, mas nada foi encontrado, exceto o Emò, um pequeno roedor do mato. Começaram a discutir sobre quem ficaria com ele. Àjàláiyé dizia que era o mais velho e por isso o Emò deveria ser dele. Àjàlórun não concordou, dizendo que ele é que era o mais velho. A discussão tornou-se violenta, o que fez Àjàlórun ficar furioso, largando tudo e voltando para o céu, que era a sua morada, não sem antes dizer que não demoraria muito e todos iriam saber quem era o mais velho dos dois.

O resultado foi que a chuva deixou de cair e o orvalho deixou de pingar; a colheita cessou e os rios secaram. As mulheres não mais engravidaram, os doentes se tornaram inseguros de sua cura, e a fome se alastrou. Quando todo mundo já não tinha mais paz, resolveu se reunir e sair em busca dos sacerdotes de Ifá para uma consulta a fim de saber o que fazer.

Realizou-se, então, um grande sacrifício, nele incluindo o Emò, o pivô da crise, como forma de reconhecimento definitivo da supremacia de Àjàlórun sobre todos os habitantes da Terra.

Como a oferenda deveria ser levada para o òrun, Esü tomou a iniciativa de fazer soar o seu gongo, convocando todos os pássaros, demais animais e as pessoas da região, reunindo-os no palácio de Àjàláiyé. Um dos pássaros escolhidos para a tarefa se de¬parou com a oferenda e, olhando para o céu, recusou a empreitada. Um outro pássaro surgiu diante de todos, arrebatou a oferenda e alçou vôo, ganhando altura. Não demorou muito, desistiu, retor¬nando extenuado. Mais outro pássaro foi chamado e se disse capaz de realizar a tarefa. Não demorou muito e retornou ao sentir as asas doerem. A seguir foi a vez da águia, que, tomada de fúria, jactou-se de que levaria a oferenda até o céu em instantes. Todos ficaram esperançosos de que a águia seria bem-sucedida e começaram a cantar. Não demorou muito, ela retornou dizendo-se cansada.

Um pouco distante, apreciando os acontecimentos, estava Igún, o abutre. Silenciosamente, ele foi se aproximando e se ofereceu para levar a oferenda. Os sábios, em princípio, não aceitaram, pois o abutre era visto como uma ave sombria devido a sua aparência desajeitada, e por isso duvidaram de sua capa¬cidade. Mas não tiveram outra saída senão concordar, pois todos já haviam tentado e ninguém havia conseguido.

O abutre começou a ajeitar a oferenda em suas costas e, como sua mãe estava doente quando ele saiu de casa, perguntou quem poderia ajudá-la enquanto ele conduzia a oferenda ao céu. Todos os habitantes responderam a uma só voz que cuidariam dela. Mas, tão logo o abutre desapareceu no espaço, sua mãe morreu, já que ninguém lhe dera importância.

Quando o abutre chegou ao portão que dava ligação com o céu, bateu repetidamente na porta. O porteiro perguntou quem era e o abutre se identificou, expondo-lhe a sua missão. O portão foi aberto e o abutre chegou diante de Àjàlórun, prostrando-se imediatamente no chão em sinal de profundo respeito. E disse: “Àjàláiyé me enviou aqui para vos saudar e dizer-lhe que, desde que houve a briga, a Terra ficou mergulhada em confusão. A chuva deixou de cair e todos estão aflitos com a seca. Pede também que expresse a sua completa submissão e que vos aceita como seu superior.

Então, Àjàlórum balançou a cabeça repetidamente e deu uma sonora gargalhada. Levou o abutre para os fundos de seu palácio e mandou que arrancasse três pequenas cabaças, mas somente aquelas que permanecessem em silêncio, evitando as que pe¬dissem para ser colhidas. Em seguida, foi instruído para que, quando transpusesse o portão, quebrasse uma cabaça; quando atingisse o meio do caminho, quebrasse a segunda cabaça; e quando já estivesse perto do solo quebrasse a terceira cabaça.

E assim tudo foi feito, de forma que, quando o abutre estava se aproximando da Terra, a chuvarada começou. Chovia tanto que os rios transbordaram e as pessoas se esconderam dentro de suas casas. O abutre, todo molhado, não conseguiu distinguir as coisas devido ao aguaceiro. Começou a entrar nas casas dos outros pedindo guarida. Mas todos lhe negavam, e mais, desfe¬riam-lhe uma pancada na cabeça. De tanto ser espancado naquele dia, a cabeça do abutre ficou pelada até hoje. Não tendo outra saída, foi empoleirar-se no alto da árvore de Irókò e cobriu-se com as próprias asas até o romper do dia.

Antes de raiar o dia, o abutre sentiu fome. Olhou à sua frente e viu um grande corpo inchado; começou a comê-lo sem saber que era o corpo de sua própria mãe, que não havia merecido, por parte do povo, um tratamento decente quando morrera, tendo sido jogada no lixo.

Quando o dia clareou totalmente e os habitantes da Terra avistaram o abutre, começaram a saudá-lo: “Bem-vindo, bem- vindo...”, mas o abutre foi dizendo que, antes de saudá-lo, eles deveriam dizer-lhe onde haviam colocado a sua mãe. E responderam: “Você não havia nem chegado no céu quando sua mãe morreu. E como não sabíamos onde você queria que ela fosse enterrada, e também porque ela cheirava muito mal, arrastamos o seu corpo até ali, ao ar livre.” O abutre, chegando até o local indicado, viu que fora o cadáver de sua mãe que ele havia devorado. E exclamou: “Então é assim que é a Terra? Pois eu lhes digo, de hoje em diante, a criança que não tiver provado de as mãe jamais será ítil na terra. E a partir desse dia, os filhos recém-nascidos passaram a sugar o leite materno

Sem querer ser extensivo e entediante, em Ifá encontramos também alguns versos descrevendo a mesma coisa, Olódùmarè chama de volta os Orixá (Òrìṣà) ao órun (Ọ̀run), não vou transcrevê-los aqui, apenas afirmo a sua existência, de modo que essa separação não é uma coisa da diáspora ou do Candomblé é um componente da religião.

Para aprofundar a questão da divisão dimensional entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé eu tenho que mostrar os versos de Ogbè Ògúndá sobre Orí, além de incluir uma longa descrição do processo do ciclo de nascimento. Não vou fazer isso nesse momento, este abordagem de Orí será feita quando eu tratar da construção de individualidade, peço esta licença e vou apenas explicar isso e sugiro aos leitores buscarem essas informações.

O processo de nascimento no Àiyé é longo e repleto de protocolos. Quando uma alma no órun (Ọ̀run) decide vir ao Àiyé, ela deverá seguir um protocolo de preparação para isso que têm como um dos passos importantes, a entrevista com Olódùmarè, na qual ela obterá de Olódùmarè os recursos de axé (àṣẹ) para cumprir seus objetivos de vida. Esta entrevista é testemunhada por Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) e por Elenini. Após isso mais etapas para ela escolher seu caráter e seu Orí na casa de Àjàlá e por fim Oxalá (Òṣàlá) moldará seu corpo.

Tudo isso não será finalizado sem antes esta alma passar por Oníbodé o porteiro do órun (Ọ̀run) e obter dele a permissão para sua viagem ao Àiyé. É ele que determina quem pode sair do órun (Ọ̀run) e quem e quando você pode retornar ao órun (Ọ̀run). A data de retorno fixada para a volta, antecipadamente com Olódùmarè e com Oníbodé é um elemento básico na religião. Tudo isso está fartamente documentado em versos e mitos.

A ida para o Àiyé é longa e o nascimento é apenas através do útero na mulher, que como está documentado no Odù osá (Ọ̀sá) Méjì foi quem recebeu a capacidade de dar passagem entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé de Olódùmarè. Não existe outra maneira de surgir na dimensão Àiyé, vindo do órun (Ọ̀run) que não seja por esse processo através do útero.

Considero pacificado o pensamento que o órun (Ọ̀run) e o Àiyé são instâncias dimensionais diferentes, que não existe tráfego livre entre essas instâncias, que o tráfego passa pela vontade de Olódùmarè, que como está documentado no verso de Ogbè Ògúndá, estabelece um rito de nascimento que passa por ele (a entrevista de Olódùmarè que está em Ìwòrì Méjì ) e que o tráfego entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé têm um controlador, uma divindade Oníbodé, que é subordinada a Olódùmarè.

Não temos relato em versos de divindades indo e vindo ao Àiyé, muito menos os Orixá (Òrìṣà), que são os ministros de Olódùmarè destacados a cuidar da humanidade e que poderiam ter esse privilégio. Não tem.

A presença dos Orixá (Òrìṣà) ocorre através das pessoas que são preparadas para isso, por iniciações, feitas para despertar isso, sendo que a essência do Orixá (Òrìṣà) já existe na pessoa antes do seu nascimento, a pessoa no Àiyé e o Orixá (Òrìṣà) no órun (Ọ̀run), já são ligados. A iniciação não cria o Orixá (Òrìṣà) na pessoa, apenas desperta uma energia, uma essência, que a pessoa já veio ao mundo com ela, a essência do próprio Orixá (Òrìṣà) fazendo parte dela.

Chamo a atenção para isso.

Todo o culto de Orixá (Òrìṣà) é baseado na separação dimensional do órun (Ọ̀run) e do Àiyé e que o Orixá (Òrìṣà) precisa de um elégùn preparado para que ele possa se materializar no Àiyé. Não existe libre trânsito, se esse trânsito de almas entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé existir então temos que jogar todo o culto de Orixá (Òrìṣà) fora.

Antes de fechar esta conclusão destaco o texto a seguir retirado de Cuoco (pag. 634) que explica a necessidade de um elégùn.

Elégùn

Um orixá é um elemento puro, uma força da natureza e ase, que é uma energia que só se torna visível quando o orixá possui os humanos e se torna um deles. A pessoa que o orixá escolheu possuir é chamada de "elegun", aquela que obteve o privilégio de ser "montada" pelo orixá. Em Yorubaland, os pais de uma criança recém-nascida geralmente consultam um Bàbáláwo para determinar o destino da criança. Nesse momento, o orixá-chefe da criança é certificado e ele se torna um futuro elégùn. Por volta dos sete anos de idade, a criança receberá cuidados espirituais de um padre guardião, que pertence ao mesmo orixá da criança. Isso é feito para que a criança viva na atmosfera de seu Orixá (Òrìṣà) designado.

Por meio da possessão, os corpos dos devotos tornam-se veículos que permitem aos orixás retornar à terra para serem saudados, participarem de ritos cerimoniais, bem como receberem sacrifícios e serem capacitados a se comunicarem diretamente com aqueles que os evocaram. Na terra Yorùbá, o termo Iyawoorisa é frequentemente dado a um elégùn, que significa "esposa do orixá" (Iyawo). Este termo é usado para referir-se a homens e mulheres e não representa uma ideia de união nem de posse carnal, mas sim de subordinação e dependência. Normalmente é realizada uma cerimônia de consagração de um novo elégùn. O noviço, deve suportar um longo ritual de iniciação de seu orixá. Um lugar sagrado especial para a iniciação é estabelecido e o futuro elégùn deve ir lá alguns dias antes do início das cerimônias, a fim de atender aos preparativos. O novato então viverá em um local privado que deve ser próximo ao "igbo iku" (a floresta da morte), que é o local onde as cerimônias acontecerão. Apesar do nome, este local não é uma floresta real, mas sim um cômodo simples de uma casa ou qualquer outro cômodo vazio. A permanência do noviço no igbo iku representa a passagem ao Órun (Ọ̀run) infinito, entre a existência antiga e profana do noviço e a nova que será consagrada ao seu orixá. O noviço é então submetido a ingerir infusões feitas com folhas e raízes sagradas, que irão reforçar a ligação entre ele e seu futuro Orixá (Òrìṣà) . Essas infusões, que contêm ase, o poder do Orixá (Òrìṣà), têm um efeito influente na mente do novato ou contribuir para levá-lo a um estado de entorpecimento e sugestão, o que o torna um ser dócil, pronto para a iniciação e para receber seu orixá. Uma vez que o processo de iniciação é concluído, o novato renasce como um elégùn. Da ai em diante, seus sentidos serão constantemente aprimorados e poderão ser: avaliados durante os rituais de adoração. Um elégùn é mais vulnerável à possessão de um orixá durante cerimônias religiosas onde tambores, cantos e danças criam uma atmosfera carregada de axé (àṣẹ) que permite que o orixá adorado monte em seu corpo. No estado de transe, o elégùn se torna um orixá e é adorado por outros devotos, que oferecem sacrifícios e o saúdam. Por sua vez, o evocado Orixá (Òrìṣà) oferece orientação aos devotos através do elégùn.

O culto de Orixá (Òrìṣà), oferece aos associados, crentes, o contato com o Orixá (Òrìṣà) e com a religiosidade e para isso é necessária a preparação dos elégùn para que o Orixá (Òrìṣà) se faça presente no Àiyé. Não se trata, esta, de uma religião contemplativa, mas uma religião de ação e reação, de circulação de axé (àṣẹ) e neste sentido é o Orixá (Òrìṣà) o ministro de Olódùmarè é quem traz isso para as pessoas.

Para que a religião possa ser praticada é necessária a presença do Orixá (Òrìṣà), repito esta não é uma religião de contemplação e de fé cega, não guiamos nossa vida por proibições e medos, sem Orixá (Òrìṣà) não tem religião e é necessário o Orixá (Òrìṣà) presente para vermos e tocarmos. Não temos que ficar imaginando um Orixá (Òrìṣà) ele se apresenta. O supernatural, o divino não é uma fantasia na nossa cabeça.

Para que esta religião ocorra é necessária a presença do Orixá (Òrìṣà) e isso será feito através da iniciação e da preparação do elégùn, que é a cabeceira da ponte entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé. O elégùn é quem estabelece a ligação com o Orixá (Òrìṣà) que está no órun (Ọ̀run), atenção, no órun (Ọ̀run) separado do Àiyé, dimensionalmente distintos. A via que liga o órun (Ọ̀run) e o Àiyé será o egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) e isto veremos mais adiante.

Se o órun (Ọ̀run) e o Àiyé estivessem ligados energeticamente ou dimensionalmente, então bastaria o Orixá (Òrìṣà) estalar os dedos e aparecer aqui no Àiyé, nós veríamos uma imagem dele e não de um elégùn montado. Poderia ainda fazer uma entrada mais dramática, saindo de dentro de uma garrafa, como uma nuvem de fumaça colorida. Podia inclusive falar com a gente a partir do órun (Ọ̀run), imagina todo mundo em um terreiro e aquela voz soando nas nossas cabeças, tipo deus em filmes de Hollywood.

Se não é nada disso que ocorre então órun (Ọ̀run) e Àiyé estão separados.

E mais, lembro da existência dos fantasmas, almas que se perdem quando morrem e ficam vagando pelo Àiyé. Isso jamais ocorreria, as almas estariam o tempo todo indo e vindo.

Para nossa vinda ao Àiyé, está pacificado também, que o único caminho é o útero da mulher. Este é o portal. Um novo corpo é criado no Àiyé, energeticamente ligado a essa dimensão e o útero é o que faz a passagem do espírito entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé. A questão do útero é extremamente importante na mulher. No Odù Òfún Méjì está a descrição de que Olódùmarè deu a Odù a mítica esposa de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) o poder total sobre o axé (àṣẹ), que é a energia de Olódùmarè. Foi Odù a mulher, que recebe de Olódùmarè o poder supremo que é representado pela cabaça. Todos os Orixá (Òrìṣà) da criação, conforme descrito no Odù oxé (Ọ̀ṣẹ́) Òtúwá eram masculinos, eles tinham a ação, mas, somente Odù foi a mãe, a que recebeu o poder de gerar vida. Ela traz na mão na sua vinda ao Àiyé a cabaça da criação, na verdade, o útero dado por Olódùmarè para ela ser a mãe da humanidade. Esta questão do útero, de Odù de Óba (Ọba) Àiyé e Ìyá Nlá estão explicados no Odù Òfún Méjì.

O útero é o repositório do axé (àṣẹ) e por isso mesmo a mulher e não o homem é o elégùn preferencial. Mesmo o Bàbáláwo recebe o seu poder, o seu axé (àṣẹ) da mulher. A fonte de poder do Bàbáláwo é o Igbádú, que é necessário para ele se tornar um Bàbáláwo. O Igbádù é a representação do útero da mulher e isso é lhe dado pela própria Odù, conforme verso existente em osá (Ọ̀sá) Méjì. Sem isso o poder do Bàbáláwo não se manifesta, foi o útero de Odù na cabaça que dá o poder ao Bàbáláwo.

O Bàbáláwo é um sacerdote que trabalha continuamente com a ligação órun (Ọ̀run) – Àiyé e seus 2 únicos instrumentos para isso são o ópon Ifá (Ọpọ́n Ifá) ifá, uma representação do Àiyé e um portal energético para o órun (Ọ̀run) e o Igbádù.

Digo mais, afirmo que o modelo de um órun (Ọ̀run) e um Àiyé ligados tornaria impossível a vida no Àiyé. Um dos elementos importantes na vinda para uma nova vida, conforme descrito por Ibie e por Salami, de maneira um pouco diferente, mas, com o mesmo significado, como está no Odù Ìrsòsùn Méjì, é que ao vir para o Àiyé nós perdemos o contato e a lembrança de memórias, somos um livro em branco, deixamos o órun (Ọ̀run) para trás.

Mesmo o nosso Énikeji (Ẹnìkéjì), nossa divindade pessoal, a divindade mais importante para nós, nosso anjo-da-guarda não tem contato com a gente aqui! Ele somente se comunica de forma bastante restrita através do oráculo de Ifá e sua atuação não é no Àiyé e sim no órun (Ọ̀run), junto as divindades que tem a capacidade de vir ao Àiyé, que são os Orixá (Òrìṣà) e Egúngún.

Sem esse isolamento seria impossível viver uma nova vida, assim como seria impossível viver se ficarmos sendo continuamente importunados por espíritos do órun (Ọ̀run) que nos conhecem. Salami cria a figura da árvore do esquecimento para estabelecer esse processo de esquecimento.

Qualquer outra religião, séria, no mundo, que prevê o renascimento de uma alma também tem o mesmo processo de esquecimento e isolamento.



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