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quinta-feira, agosto 29, 2019

A matriz religiosa afro-brasileira


Esse blog fala de Candomblé e Ifá mas existe um tema importante que é o que esta além do Candomblé no Brasil, o Candomblé não representa sozinho a matriz religiosa afro-brasileira.
O candomblé, como já é extensivamente explicado em outro texto deste BLOG, é um dos cultos de Orixá (òrìṣà) no Brasil. Ele é composto, na verdade não por uma unidade, mas sim por vários cultos distintos e estes tem raízes religiosas bem diferentes, isto é, cultos que representam matrizes religiosas originais distintas e por esta razão não deveriam ser nomeados juntos. Mas, aqui no Brasil, uma parte da diversidade religiosa afro-brasileira recebeu o nome comum de “Candomblé”.
Mas é importante estar atento para o fato de que nem tudo que faz parte da dita matriz religiosa afro-brasileira é Candomblé, existem várias outras tradições religiosas.
Uma pesquisa pelo google buscando explicações sobre o que é a matriz religiosa afro-brasileira vai retornar resultados decepcionantes. Seja na sempre irregular wikipedia ou fora dela, não existe um mínimo de explicação do que seja essa matriz.
Observem que, todo mundo que vai falar sobre cultos afro-brasileiros, usa essa expressão de religião de matriz africana ou matriz afro-brasileira, mas, pouca gente se detêm a entender sobre o que é isso, do que é composta essa matriz.
Eu encontrei textos muito ruins, pouco estruturados, bastante confusos para entender. Vi uns poucos trabalhos acadêmicos com igual baixa qualidade que mostra que a produção acadêmica no Brasil é risível e se dependermos de pesquisa acadêmica para nos entendermos melhor, não vamos saber quem a gente é.
Estou longe de ser o dono da verdade, mas, estou nessa religião ha muito tempo e pesquiso sobre ela também ha muito tempo. Sei reconhecer quando uma coisa escrita me traz identificação ou apenas confusão.
Baseado nisso e na minha preocupação de trazer informação religiosa sobre eu tema eu fiz este texto para tratar do assunto. É a minha visão.
A origem africana
Sobre religiosidade afro-brasileira, temos que lembrar que a África é um continente e falar de África como a gente fala é por princípio um grande erro.
Nós aqui, no Brasil, o tempo todo falamos de África sem ter a atenção de que estamos nos referindo a um enorme continente e não a um país.
Quando falamos de afro ou África estamos nos referindo a influência de um conjunto restrito de etnias da África central, a África das florestas. Mas a África é muito maior do que isso, existe a parte Saariana (Maghreb, Saara e vale do Nilo), a áfrica oriental, a meridional e a das savanas. Nós pensamos na África como um continente negro mas isso não é uma verdade, a gente olha a África subsaariana, a chamada África negra, como se ela fosse toda a África, mas não é.
E mais ainda, estamos falando de 2 pequenas regiões, que é o golfo da guiné (ou costa dos escravos) e congo-angola, que são as principais origens de pessoas escravizadas enviadas para o Brasil.
A África não é um continente homogêneo e muito menos negro, nós nos referimos aqui como se a África negra, a subsaariana, a África das florestas úmidas, resumisse tudo. Se fossemos ser corretos, ao falar de matriz religiosa afro-brasileira deveríamos incluir o judaísmo e o islamismo, porque eles estão ali em uma região que, apesar de não ser África, ela é próxima demais da África e longe demais da Ásia.
Assim, nossa matriz afro-brasileira está ligada a África negra, subsaariana, porém mais restrito ainda, estamos nos referindo ao golfo do Benin, ou costa dos escravos, um pedaço pequeno da África, porque foi desta área que vieram os grupos étnicos que vieram para o novo mundo, para o Brasil, através da diáspora negra, trazendo sua religião.
Observem que estou agora excluindo a região do congo-angola, porque apesar de numerosos e terem sidos os primeiros escravizados, esse grupo étnico não influenciou a matriz afro-brasileira.
Em termos culturais esse grupo étnico, em todos os lugares para onde foi levado no novo mundo, influenciou muito pouco a sociedade que o recebeu, o efeito foi o contrário, eles é que foram influenciados pela sociedade que os recebeu. Suas contribuições existem, claro, mas são pequenas.
As Nações
Até hoje essa matriz religiosa é referenciada pela unidade NAÇÃO, a maior parte das referências que encontrei traduz as religiões africanas como as Nações de Candomblé. Muitos se referem inclusive ao Candomblé como sendo o culto de Nação, mas, por que isso?
O que é o conceito de Nação?
Explicar isso é o mais importante para iniciarmos, porque não dá para nós falarmos modernamente de matriz religiosa afro-brasileira sem a gente desconstruir primeiro o conceito de “nação” que norteia a cabeça de todos e somente traz confusão a essa discussão.
Mais uma vez, por que? Simples, é um conceito absolutamente flexível e variável, não significando nada representativo.
A seguir vou descrever isso usando como base a análise de Luis Nicolaus Parés, em seu excelente livro “A Formação do Candomblé”, o texto é livre, com meu formato mas ele foi a fonte estruturada de informação.
O termo “nação” foi usado no século XVII e XVIII, pelos traficantes de escravos, missionários e outros grupos que trabalhavam na África com o comércio de pessoas escravizadas para designar os grupos populacionais africanos, não havia, contudo, por trás do uso deste termo, uma designação de uma organização civil formal, como um país ou reino, como estamos acostumados. Os europeus, bem mais organizados, encontravam naquelas regiões da África, da costa dos escravos, uma sociedade tribal na qual as pessoas viviam suas vidas sem se ocupar com questões “nacionais”.
O povo da costa, estava em um momento de tempo anterior aos europeus, que já tinham passado por aquilo, mas, naquele momento, século XVII, já se apresentavam lá como as nações que estamos acostumados a conhecer.
Dessa forma o conceito para o uso do termo “nação” era completamente aberto e amplo e designava grupos de pessoas da maneira mais ampla e flexível, porque dependia de quem olhava a coletividade.
A identidade coletiva na África era, em sua base, feita através de afiliação por parentesco e a certas chefias locais baseadas em instituições monárquicas, lembrando que o conceito de rei na África era bem variável e acessível, bem distinto do que conhecemos do modelo europeu. Muita gente podia ser rei, por algum tempo era um cargo quase que civil, as pessoas eram nomeadas rei.
A principal identidade das pessoas, naquele período e região, decorria, dessa forma, de vínculos de parentesco das corporações familiares que reconheciam entre eles uma ancestralidade comum.
Nesse formato, a atividade religiosa relacionada ao culto de determinados ancestrais ou de entidades espirituais era um veículo importante da identidade étnica ou comunitária.
A cidade ou território de moradia e a língua eram também importantes fatores e denominações de identidades grupais na região do golfo da Guiné, África ocidental, existe um sistema de nomeação no qual os habitantes compartilham o mesmo nome da cidade, aliás como e outros lugares do mundo.
Por outro lado a identidade coletiva das sociedades era completamente multidimensional e a população não se identificava ou se apegava a nenhuma classificação específica. Um mesmo grupo, ao mesmo tempo, poderia ter mais de uma denominação assim como ao longo do tempo empregar ou aceitar outras que lhe dessem.
Voltando ao princípio a principal identidade de coletividade era com o vínculo ancestre comum ou religioso, aceita denominações externas não era nenhum problema ou mudava suas vidas.
Dessa maneira, critérios como grupo étnico, religião, território, língua e política podiam ser empregado indistintamente, seja pela conveniência do momento ou por que os classificava. Alianças políticas e dependência tributárias a certas monarquias configurava novas formas mais abrangentes de identidades nacionais.
Um outro formato era de um grupo classificar o outro, na verdade um grupo externo podia classificar um aglomerado de grupos de uma forma única porque não interessava analisar detalhes menores, foi como o que ocorreu com as denominações Jeje e Nago.
Posteriormente com o processo do tráfego de escravos, novas formas de “nacionalizar” as pessoas surgiram e usando critérios muito atípicos.
No século XVI, no Brasil, usava-se o termo “gentio da Guiné” ou “negro da Guiné” para se referenciar de forma genérica aos africanos. Segundo Parés, já na primeira metade do século XVII começaram a distinguir as várias “nações”. Uma citação militar indicava, no Recife, por exemplo, a presença de 4 nações: Minas, Ardas, Angolas e Crioulos, sendo que o quarto grupo de refere a descendentes de africanos nascidos no Brasil, como uma “nação”, que era assim, um conceito novo, distinto dos existentes na África e que mostra que essa designação de nação era completamente flexível.
Simplificando muito esta explicação, que poderia se alongar bastante, um critério relevante que foi usado para denominar os africanos aqui no Brasil, foi, veja bem, o de porto de origem do embarque de escravos. Assim Mina, Costa, Arda entre outros eram, na verdade, portos de embarque escravos. Isso criou o que podemos chamar de denominação metaétnica (externa) as populações e com o tempo de fundia com denominações étnicas de fato, criando novas identidades coletivas.
O forte de são João da Mina constituiu um importante centro de embarque de escravos de várias origens regionais e todos esses acabavam sendo chamados como “minas”. Escravos do reino de Benin e mesmo do Congo eram embarcados neste entreposto. Etnias como os Gãs de Accra, fante-anés de Elmina, hulas e uatchis junto com outros todos embarcaram pelos portos da região da mina e assim foram denominados. O termo “mina” designou uma extensa população embarcada em uma área que iniciava no castelo de São Jorge da Mina até a desembocadura do rio Niger.
Não vou me estender nesse assunto histórico e geográfico, bastante interessante por sinal, mas concluo com uma referência importante. O termo “mina” variava dependendo da região do Brasil, assim no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Maranhão você encontrava diferentes grupos étnicos com a mesma denominação “mina”.
Esse caso dos “minas” é apenas um, além dos crioulos, posso citar outras denominações de nações que eram metaétnicas, como os Malês e que nada servem para identificar as pessoas de fato, de onde elas vieram ou quem eram.
Dessa forma as denominações metaétnicas variavam em conteúdo dependendo da região e época. A criatividade e a flexibilidade fazia com que novas designações metaétinicas surgissem para nomear os mesmos grupos ou grupos diferentes baseados em fatores locais e políticos, fazendo com que a designação de “nação”, aqui no novo mundo nada tivesse de relação com a mesma coisa na África.
Assim, o meu ponto é, se “nação” não serve para identificar a origem de um grupo humano, ou seja, seus laços e cultura religiosa ou social, qual a utilidade de usarmos “nação” como uma referência para entendermos ou identificarmos elementos na matriz religiosa? No meu entender nenhuma.
Por essa razão minha opinião é que usar o termo “nação” é absolutamente inconclusivo, inadequado e impreciso para tratarmos com a matriz religiosa. A referência a “nação” é bastante confusa e complexa e apenas traz confusão ao tema.
Infelizmente as denominações coletivas baseadas em “nações”, não traduzem nada em relação a origem das populações ou mesmo sua identidade como povo, se é que podemos dizer que havia alguma.
O termo “nação” foi usado amplamente para coletivizar os africanos e um mesmo grupo pode ser encontrado em diferente forma de classificação, em diferentes “nações”. Os critérios de denominação, como porto de origem ou mesmo visão de conquistadores é completamente esdrúxulo e não traduz nada.
Dessa maneira, ao tratarmos aqui as tradições religiosas como “nações” estamos dando um passo para longe do entendimento, “nação” não nos ajudará a entender nada, pelo contrário traz mais confusão ao tema.
Eu recomendo uma leitura do livro do Parés para entender esse processo com mais detalhes e riqueza, está no capítulo I, mas o que interessa a este texto é o ponto inicial para minha explicação sobre a matriz religiosa afro-brasileira, de que temos que iniciar ignorando as denominações de nações africanas para poder entender essa matriz.
Tradições religiosas e não “nações”
Essa confusão de identidades, com o passar do tempo, no Brasil, acabaram-se consolidando. Várias formas de nominações de nações simplesmente acabaram ou deixaram de ser usadas, identidades étnicas foram colocadas em segundo plano e em desuso e tudo se consolidou basicamente em grupos religiosos.
Esse processo de extinção e consolidação apenas demonstram o que eu disse anteriormente, não tinham relevância nenhuma.
O que digo é que os diversos agrupamentos de denominações coletivas tratadas como “nações” foram sendo depuradas, eliminadas, consolidadas e o que restou dessa denominação “nação” foram na verdade os agrupamentos religiosos, ou seja, o que predominou foi a crença comum na religião e nas divindades que identificava essa religião.
Muitos casos de denominações de nações aqui no Brasil era por causa de uma casa específica, que em vez de ser nomeada como uma raiz de axé (àṣẹ́), era nomeada como uma “nação”. O Xambá e o Efon eram em princípio isso, na verdade uma raiz de axé (àṣẹ́) que, usava o Ketu como referência, mas que passou a ser denominada como uma nação, seja a casa original como as casas decendentes.
Longe de mim querer interferir ou deslegitimar essas “nações”, mas minha avaliação é essa e, como o meu interesse se concentra na matriz religiosa, digo que essa nomenclatura ou classificação de “nação” não pode ter nenhuma relação com a matriz religiosa.
Dessa forma as casas podem ser agrupar como quiser, pode chamar de axé (àṣẹ́) ou de “nação”, mas para análise e entendimento minha proposta é outra.
Assim, como estamos tratando de religião, a minha opinião é que temos que abandonar a análise de “nações”, ou melhor não pautar qualquer análise da matriz religiosa pela correlação com “nações”.
O que resultou disso não foram “nações”, foram tradições religiosas.
Neste momento, não vou aqui, neste texto, explicar o que seja uma tradição religiosa, tenho um excelente texto para isso aqui no blog que pode ser consultado.
O que interessa a todos saberem é que o que começou com essas denominações multiétnicas terminou com a consolidação na verdade de tradições religiosas. A identificação dos grupos se fez pela identificação com uma raiz religiosa e com o culto a um conjunto de divindades, configurando a adesão a uma teogonia, teologia e liturgia.
As identidades étnicas familiares e linguísticas foram substituídas pela identidade religiosa criando um conceito de família religiosa ou “família do santo”, isso estabeleceu os africanos inicialmente como o “povo de santo”, ou o povo que se aglomerou e se uniu através da religião e dos seus santos, os orixás e voduns.
A questão da língua original, ou melhor dialeto, nunca teve nenhuma significância. Isso rapidamente acabou e o mito de que os negros na Bahia, por exemplo, falavam uma outra língua era apenas isso mesmo, um mito.
O que existia não eram dialetos, era apenas português misturado com um Yorùbá de terreiro, as vezes misturados com palavras de Jeje e angola, palavras usadas aleatórias que fazia parecer que essas pessoas sabiam falar uma outra língua. Não sabiam nada.
Nina Rodrigues descreve um evento muito interessante:
Tão conhecido é o fato da importância da língua nagô na Bahia que se tem chegado mesmo ao exagero. Quando em 1899 estiveram nesta cidade [Salvador] os missionários católicos que percorriam o Brasil angariando donativos para a catequese africana, foram eles aconselhados a dirigir-se à população de cor da cidade em língua nagô. O sermão pregado na igreja da Sé no dia 4 de janeiro teve completo insucesso, reunindo apenas alguns curiosos. [...] era um erro supor que entre nós se mantivesse na população crioula uma língua nagô tão pura que lhe permitisse entender o missionário; os que falam a língua antes se servem de um patois, abastardado, do português e de outras línguas africanas (NINA RODRIGUES, 1988, p. 132)10.
Outro panorama interessante é descrito pelo Jornalista João do Rio no seu livro As Religiões do Rio de Janeiro. Ele descreve o mundo dos cultos africanos no Rio no início do século XX e mostra um povo bastante desorganizado.
O ponto aqui é que, o que reuniu essas pessoas não teve nada a ver com suas etnias, aldeias ou língua. O que os reuniu foi a crença religiosa e ao adotar uma crença, uma tradição, eles se ajustavam ao formato que aquela tradição estabelecia.
O processo que os reuniu em tradições foi literalmente o mesmo que permitiu a essas tradições e casas acolherem o resto da população brasileira, de qualquer raça, que desejou adotar a religião. Esse ponto é importante porque empregar o termo Tradição Religiosa, separa a prática da religião que acabou sendo adotada por toda a sociedade do caráter étnico que muitas pessoas ainda dão para o Candomblé.
O Candomblé não está associado a nações africanas porque a ligação de nações e etnias é por demais fraca ou ausente. O Candomblé e demais tradições não pode ser o ponto de partida ou concentração para iniciativas que caráter etnocentrista, esse momento passou ou nunca existiu. A religião foi adotada pela sociedade e o que menos se vê hoje em dia em Candomblés são negros.
Esse comentário é para destacar que o que temos hoje é o Candomblé e demais tradições religiosas como parte da religiosidade geral do nosso povo. Negros são católicos e evangélicos como o restante da população. As religiões da matriz afro-brasileira, hoje, tem a mesma distribuição de pessoas por idade, cor e instrução que caracteriza nossa população em tudo que ela tem.
Raízes religiosas
Tudo isso que foi dito foram desconstruções necessárias para podermos tratar aqui da matriz religiosa afro-brasileira. Assim estou começando do princípio sem me preocupar com esse entulho confuso que existe hoje.
A primeira coisa a abordar é, o que é uma matriz religiosa afro-brasileira?
A matriz é a fusão resultante das religiões de origem africana, como eu especifico com origem no golfo de Benin, com a sociedade brasileira, resultando em cultos e práticas religiosas. É uma formação que preserva a origem religiosa original, mas, se configura para este povo, para esta sociedade, para a nossa história e inclui influências religiosas cruzadas, sincretismo, com outras religiões.
O conceito de preservar a origem e prática religiosa original, africana, é importante para o entendimento disso e não incorrermos em erros.
O meu conceito de sincretismo é mais amplo do que muitos atribuem, eu considero não só a influência do catolicismo (o sincretismo externo) como também, e principalmente, entre as raízes religiosas do golfo e seus diversos cultos. Esse na verdade é o maior sincretismo. Ambos os sincretismos são relevantes em escalas distintas e aqui temos um tema complicado.
Em algumas tradições religiosas o sincretismo externo não teve nenhuma relevância, por exemplo os Candomblés jeje e Yorùbá (Ketu). Foi adotado em um período e retirar ele não fez ou fará nenhuma diferença. Mas outras tradições foram muito influenciadas pelo sincretismo externo e isso faz parte de sua estrutura central, como por exemplo o Tambor da Mina.
Reagir ao sincretismo, desta forma, pode ser relevante para umas tradições e absolutamente inadequado para outras. Observem que estamos tratando aqui de tradições brasileiras e não de religiões originais africanas, não nos interessa de nenhum jeito como é a manifestação dessas religiões no Golfo do Benin, lá existe as tradições deles, não as nossas.
Desta forma é assim, aqui, nossas tradições religiosas, lá, as tradições deles, o que existe de comum é a raiz religiosa.
Não existe sentido em falarmos de uma matriz afro-brasileira se não entendermos e aceitarmos todos os processos de assimilação regional e cultural que são resultantes dessa formação. Uma matriz afro-brasileira não significa ter aqui no Brasil uma religião africana, significa ter uma religião afro-brasileira.
Pessoas que, hoje em dia, defendem africanismos não entendem o que seja uma matriz afro-brasileira e muito menos uma tradição religiosa. Estamos sendo invadidos por tradições estrangeiras, ou seja configurações feitas e adequadas a outros povos, mas, independente da origem deles, elas não são melhoras que as nossas, pelo contrário, são piores.
O que nos importa aqui é que nossas tradições derivam de raízes religiosas comuns.
Observe que a expressão matemática “matriz” revela um modelo de 2 dimensões no qual temos 2 tendências ou fontes, que se cruzam gerando uma resultante. No nosso caso temos as religiões cultos e no outro a sociedade brasileira, regionalizada, formando na interseção disso, as tradições religiosas.
É claro que esse exercício de montar o que seria essa matriz pode ser feito por várias pessoas e com resultados diversos, eu cheguei ao meu purificando e estruturando conceitos, vamos a eles.
Tratando da primeira dimensão que é a religião, estamos tratando de uma influência religiosa que teve origem na região da áfrica central subsaariana, na verdade mais fortemente da África Ocidental e mais especificamente do Golfo do Benin. Essa é a origem das religiões que geraram tradições religiosas aqui no Brasil, a fonte do que estamos tratando disso é uma região bem específica, o Golfo do Benin.
Existe também uma outra área de origem de influência, bem menor, na África central, a África das florestas úmidas, uma origem baseada no povo Bantu, a maior etnia africana que na verdade é composta por outros sub-grupos e que trouxe para o Brasil a Quimbanda. O povo Bantu é muito numeroso na África, mas historicamente, quero dizer factualmente, esse grupo, através da diáspora negra, não influenciou culturalmente nenhum lugar para onde foi, diferente do grupo Yorùbá, que em todo lugar que se estabeleceu ele criou raízes e influenciou a sociedade.
Esse comentário é baseado em fatos e análises. Os Bantu e suas divisões foi a etnia das primeiras levas de pessoas escravizadas que foram enviadas ao novo mundo. Milhões vieram ao Brasil. Foi o primeiro grupo e mais numeroso.
Contudo, aqui no Brasil, como em todo lugar que foi, o grupo Bantu não gerou impacto social relevante em nenhum destino se comparado com o grupo Yorùbá que, para onde foi, criou marcas na sociedade, seja com cultura, arte, ou religião.
A influência religiosa do grupo Bantu no Brasil é de nenhuma a muito pobre. Os Bantu trouxeram o que foi chamado de Quimbanda, Quiumbanda, ou macumba. Ao longo do território brasileiro é creditado a eles a influência de outros cultos, como por exemplo o Terecô, mas, ha muito pouco ou nenhuma documentação sobre isso. Se ter documentação história ou antropológica ligados aos Yorùbá ou Jeje, que são grupos importantes, em relação aos Bantu é quase impossível.
O que posso afirmar que independente de alguns cultos em todo o Brasil terem ou não sido influenciados pelos Bantu, essas práticas todas se extinguiram, acabaram ou foram absorvidas pela Umbanda, mas, vejam absorvidas no sentido de terem sido substituídas e não que elas tenham mudado a Umbanda.
A história mostra que o primeiro núcleo de aglomeração semi-religioso eram os Calundus, que foram substituídos pelos Candomblés. Mas uma análise mais detalhada do processo de formação dos Calundus mostra um cenário diferente.
Os Calundus eram uma célula tipicamente familiar Foi um termo genérico utilizado para designar atividades religiosas de várias índoles, porém de origem africana, em oposição às práticas católicas ou ameríndias. Em bora as danças e tambores fizessem parte da atividade ritual, a sua funcionalidade era essencialmente terapêutica e oracular..” (luis Parés p. 115)
Como Parés analisa e eu concordo, isso era o núcleo do processo de feitiços, trocas, fetiches, elaboração de patuás e amuletos, uma relação de cliente-curandeiro-adivinho com pouco ou nenhum vínculo religioso.
Somente com a presença do povo da costa, os Yorùbá e Jeje, é que foram montadas as estruturas mais sofisticadas, com altares dedicados a divindades, sacrifícios e oferendas alimentícias que levou a uma prática religiosa de fato para outro patamar, com devoção e dedicação, que é a base da religiosidade africana de fato.
As atividades litúrgicas passam a ser orientadas para melhorar a vida das pessoas na terra, com ebós corretivos e propiciatórios, o uso da liturgia religiosa ganha um contexto de coletividade.
Este é o parâmetro que denota uma religiosidade de modo que o modelo Bantu não entre no meu contexto de matriz religiosa.
O grupo Bantu não trouxe uma religião. Certamente esse culto de Quimbanda poderia ser listado como parte da matriz afro-brasileira, independente da sua qualidade, mas, isso acabou, eles tiveram que virar Umbanda, para a infelicidade da Umbanda.
Dessa maneira não inclui o grupo Bantu na análise da matriz religiosa. Uma discussão poderia ser se, por causa da absorção a Umbanda não passaria a fazer parte da matriz religiosa.
Eu não incluo, porque, apesar de a Umbanda ter absorvido alguns aspectos alegóricos e estéticos como o uso de tambor e entidades chamadas de esquerda, isso tudo foi apenas aparência, o grupo Bantu não mudou em nada a prática de Umbanda, pelo contrário se adaptou e se alinhou com a prática da Umbanda.
O fato de algumas linhas de umbanda usarem tambores e nomes de orixá (Òrìṣà) não fez com que a linha doutrinária principal da Umbanda sofresse mudança, apenas adaptações alegóricas.
Dessa maneira, do grupo relevante para a matriz religiosa, os do golfo do Benin, vieram 2 religiões distintas, a do grupo Yorùbá e a do Grupo Jeje. Quando digo religião diferente é porque é isso mesmo, religiões distintas.
Não será tema deste texto explicar as diferenças entre essas raízes religiosas, não nego que seria um tema bastante interessante mostrar como elas se distinguem, mas, não desta vez. O que peço a todos é que entendam que, sim, são duas raízes religiosas distintas.
A matriz religiosa afro-brasileira é composta assim de tradições diferentes ligadas a essas 2 raízes religiosas separadas.
Essas raízes religiosas são distintas e convivem em áreas geograficamente próximas que poderia muitas pessoas insinuarem que na verdade seriam a mesma coisa, mas, isso não é verdade.
É claro que sendo próximos algum sincretismo e influências ocorreram mesmo na sua origem. Aqui no Brasil, com muito mais proximidade ainda, dentro da matriz, houve um processo de sincretismo interno onde cada uma dessas raízes e seus grupos influenciaram o outro. As pessoas comentam apenas o sincretismo externo, com o catolicismo, mas o mais importante foi o interno.
Somente quem conhece o tema comenta isso, o sincretismo interno e de fato é um aspecto muito especializado para interessar a leigos, porém, ambas as raízes religiosas adotaram aspectos da outra, seja na estrutura de liturgias como também em algumas características da teogonia.
Por exemplo, sem dúvida, a organização de um terreiro com multiplos orixá (Òrìṣà) é uma coisa que veio do Jeje, onde isso é comum, não sendo o modelo Yorùbá. A estrutura de iniciação do grupo Ketu sem dúvida nenhuma foi adotada por todos, é impossível termos tanta similaridade sem uma influência direta e assim vai.
Mas atenção a todos, apesar de aqui termos feito algumas fusões as religiões são de fatos distintas. Se você gastar um tempo para analisar e estudar essas 2 raízes religiosas vai poder dizer isso claramente. Sincretismos sempre podem, mesmo la no golfo, ocorrer mas são de fato raízes separadas.
Considerando a raiz religiosa a divisão das tradições é a seguinte:
Raiz religiosa JEJE:
  1. Tambor-de-mina (MA, PA)
  2. Candomblé Jeje (BA, RJ)
Raiz religiosa Yorùbá
  1. Xangô ou Nagô (PE)
  2. Culto egungun (BA)
  3. Candomblé Ketu (BA, RJ, SP)
  4. Culto de Ifá (RJ, SP)
  5. Batuque (RS)
Eu recorri a algumas fontes formais para não cometer muitos enganos e achei uma boa variação, o que mostra que, de fato esse é um assunto que merece ser abordado. Não existem um consenso muito fácil no assunto.
Eu usei o bom sendo, a pesquisa complementar e a minha vivência para me posicionar aqui nesse texto.
O que é fácil de ver é que todo mundo fala de boca cheia e existe pouca ou nenhuma precisão sobre o que estão falando. Matriz religiosa afro-brasileira virou um daqueles adjetivos para descrever qualquer coisa que você não quer se dar o trabalho de aprender ou entender.
Não estou preocupado com as reclamações e contestações sobre essa lista. Faça a sua. Eu fui muito cuidadoso ao montar a essa aí. Tive o cuidado de excluir tradições que já estão extintas, vou comentar sobre elas no final.
O assunto tem um emaranhado de subdivisões e pouca clareza para ser abordado, é muito fácil gerar complexidade e confusão sobre o tema.
Cultos religiosos
Observem com atenção que minha abordagem ao tema da matriz religiosa é através da proposição de um modelo novo, estruturado e que abandona a abordagem atual e confusa das “nações”.
Nesse sentido, falamos da origem africana, falamos das 2 raízes religiosas e o próximo nível para falarmos, descendo na hierarquia comuns as 2 raízes religiosas é sobre os cultos religiosos.
Observem que até agora não falamos das tradições religiosas (ex “nações”), das raízes de axé (àṣẹ́) e das casas. O que falamos de tradições religiosas foi para desconstruir o modelo baseado na referência de “nação”.
O segundo nível de divisão e que é comum a todas as tradições é a ligação com o tipo de culto religioso. Apesar de estarmos lidando com tradições bem distintas, e raízes religiosas distintas, esta é uma divisão significativa quando tratamos de religiões complexas.
Os cultos religiosos para o grupo Yorùbá podem ser Orixá (Òrìṣà), Egungun e Ifá. Para o grupo JeJe também existiria a mesma estrutura iniciando pelo culto aos Vodum (que é o equivalente ao orixá (Òrìṣà)), mas os equivalentes ou similares aos demais cultos (egungun e Ifá) não estão presentes no Brasil.



O principal grupo de ambas as raízes é o culto de orixá (Òrìṣà) e Vodun, que representa o grupo de divindades principais que estão mais envolvidas com o ser humano, seu dia a dia, sua vida e família. Ambas as religiões são baseadas no culto de orixá (Òrìṣà) e Vodum, os demais cultos têm funções complementares ou específicas.
No grupo Yorùbá temos a tradição religiosa do culto de egunguns. Esse culto teve origem bem localizada na Bahia, ilha de Itaparica, foi trazida tardiamente (século XX) mas está estabelecida, tem origem real no povo Yorùbá e papel na religião e tem casas em outros lugares do Brasil além da Bahia.
A tradição de Egungun está ao lado da tradição de Orixá (Òrìṣà) mas é independente do culto de orixá (Òrìṣà). Tudo é interligado pela teogonia da religião, mas, são independentes.
O culto de Ifá faz ou fará parte deste contexto. É similar ao culto de Egungun nesse aspecto. Ele foi introduzido bem mais tardiamente (fim do século XX, praticamente início do XXI), está se estabelecendo a partir do Rio de Janeiro e São Paulo e é uma tradição muito nova ainda, está em formação no Brasil. O que temos são práticas importadas de Cuba de do Golfo do Benin, muito pouca ou nenhuma nacionalização, uma prática voltada para o comércio e nenhuma integração com os cultos de orixá (Òrìṣà).
Dessa maneira ainda não temos uma tradição de Ifá própria, brasileira, que se adicionará a nossa matriz religiosa afro-brasileira. No momento, temos, temporariamente, o culto de Ifá sendo representado por 2 tradições estrangeiras distintas, uma vinda de Cuba e outra vinda do Golfo do Benin.
Essas tradições são externas, estrangeiras, não fazem parte de nossa matriz. O culto que elas estabelecerem no Brasil, o Ifá brasileiro é que fará parte da matriz.
Na raiz do Jeje também existem cultos similares aos Yorùbá, existe o Fá que é equivalente ao Ifá e tem um culto similar ao de Egungun, mas, desconheço que ambos tenham vindo para o Brasil, no caso do Jeje o que veio para o Brasil foi apenas o culto de Vodun.
Assim, encerrando mais um nível, temos que entender que no topo da hierarquia vem a raiz religiosa e depois o culto. Essas 2 classificações são comuns a tudo o que vem abaixo que será justamente a tradição e as casas.
Tradições religiosas
O próximo degrau de especialização na matriz são as tradições, como já citei essa denominação substitui o uso da expressão “nação” porque essa última não tem nenhum significado específico e pode passar uma impressão que está ligado a fatores étnicos que não tem representatividade na denominação de “nação”. Como explicado longamente, pode ter ou não, é aleatório.
Lembro, mais uma vez, minha posição de que o uso de termo “nação” é absolutamente inadequado. O termo que deve ser usado para nomear os elementos é o de Tradição Religiosa. É o termo correto e significa de fato o que une as pessoas em torno de sua prática.
Ressaltando, as tradições religiosas são o encontro da religião e culto religioso vindo da África, das regiões de designei, com o povo, a cultura, a história e o próprio sincretismo intra-religioso e inter-religioso.
A tradição é a adaptação de uma religião e culto a nossa dimensão como sociedade e isso significa que, em um país continental como o nosso que diversas tradições religiosas foram formadas, cada uma delas adaptando a fonte original a região, cultura e história do lugar onde floresceu.
Como eu explico em meu texto sobre tradições religiosas elas são estruturas principais de uma religião, representam uma melhoria da religião com a sua adequação ao local de estabelecimento. Uma tradição religiosa é uma estrutura rica em valores e cultura.
A minha lista das tradições religiosas que fazem parte da matriz afro-brasileira é:
  • Candomblé Jeje
  • Candomblé Ketu
  • Xangô ou Nagô
  • Batuque
  • Tambor-de-mina
  • Culto egungun
  • Culto de Ifá
Essa lista é contemporânea e curta, mas pode variar, muita gente faz essa lista, na maior parte das vezes umas copiando as outras sem ao menos analisar ou estudar o que estão colocando. Em muitos casos traz sinônimos e também tradições que já não existem mais. O mais comum é vocês encontrarem tradições que não fazem parte da matriz africana ou outras que já não tem prática ativa.
Eu avaliei diversas listas encontrando muita coisa inadequada, com esses problemas que listei. As tradições que eu não conhecia eu me aprofundei um pouco mais para poder entender minimamente do que se tratavam e nessa avaliação eu eliminei várias simplificando essa lista.
Seria uma longa discussão sobre o que não esta nessa lista e porque, vou colocar isso no final com o nível de detalhe que for possível.
Cada uma das tradições listadas merecia uma longa explicação sobre como é e que origem teve, particularmente falar sobre as tradições do Jeje a partir do Maranhão seria importante em vista da característica especial que originou a criação da casa das minas, bem diferente da tradição Jeje a partir do Recôncavo Baiano, mas, não é para este texto aqui.
Observem que o Candomblé é apenas uma parte disso, claro que denomina 2 grupos importantes e numerosos, mas, nem tudo nessa matriz é Candomblé. No norte e nordeste temos 3 tradições diferentes e mais a casa das minas que não vou incluir porque ela não tem futuro. O Xambá já foi descrito de forma separada e era uma tradição religiosa de Pernambuco, mas é considerado extinto, vou abordar os erros das listas no final no texto.
O Candomblé, possivelmente a mais conhecida tradição afro-brasileira, deve ser entendida primeiro a partir de suas 2 tradições, A tradição Jeje e a tradição Yorùbá. Ambas tem subdivisões. O Batuque do sul, por exemplo, tem umas 3 ou 4 subdivisões.
No caso do Candomblé Ketu sei que vou atrair a antipatia de muitos ao nomeá-lo a tradição principal, porque existe de fato uma corrente que critica a “ketunização” das casas e que o Ketu teria acabado com as demais “nações”. Na verdade é que a tradição religiosa é o Ketu mesmo, mas como já disse as casas podem ser nomear como quiserem.
Eu não tenho muita informação sobre as demais, esse assunto de tradições religiosas é amplo demais e documentado de menos. É muita informação dispersa. Como vocês vão entender, seguindo o texto, o importante é entender as bases dessa matriz. O detalhamento de cada tradição é também um processo muito rico em informação mas requer aprofundamento em cada uma delas e esse não é meu interesse com este texto.
As tradições são organizadas pelos cultos, cada tradição pertence a uma raiz e a um culto. Se você encontrar uma tradição que misture isso, raiz religiosa e culto, ignore. Tem muita coisa sem sentido, misturada e inventada.
Relembrando a tradição religiosa é o principal denominador dentro dessa religião, é o mais importante, acima dela estão conceitos religiosos (e desta forma menos conhecidos) e abaixo dela estão as casas de forma que a tradição religiosa é o classificador mais conhecido e comum.
Como já citei uma tradição é uma evolução da religião, uma melhoria, uma especialização. Ela traz a religião e principalmente sua prática para a população local. Uma tradição implica em adaptações de conceitos religiosos como teologia e teogonia, mas principalmente liturgia, os ritos.
A tradição organiza a forma como a religião se manifesta não só no Brasil, mas na região que a criou e dessa forma tem características regionais e sincretismo de vários tipos. A tradição abraça o povo e a sociedade.
Minha lista de tradições de religiões da matriz afro-brasileira, considerando a distribuição geográfica é:
No norte:
  1. Tambor-de-mina (MA, PA)
No nordeste:
  1. Xangô ou Nagô (PE)
  2. Culto egungun (BA)
No sudeste
  1. Candomblé Jeje (BA, RJ)
  2. Candomblé Ketu (BA, RJ, SP)
  3. Culto de Ifá (RJ, SP)
No sul:
  1. Batuque (RS)


O uso do estado é apenas uma referência, algumas dessas tradições tem um alcance nacional.
As casas
Abaixo das tradições temos um contexto bem amplo e com mais de um nível de agrupamento. Sinceramente é bastante confuso e eu não posso aqui, facilmente, generalizar.

 



Cada uma dessas tradições traz algumas divisões internas, que são formas de se classificar e agrupar as casas pelo tipo de rito que adotam. Como eu disse cada tradição já é uma especialização de várias coisas, inclusive de ritos e formatos de prática. Contudo, dentro de uma tradição ainda podemos encontrar sub-grupos.
Não consigo nesse momento, ainda listar todos esses sub-grupos, eu vou buscar informações e possivelmente faça uma outra versão deste texto. Mas, não detalhar isso aqui não traz nenhum problema. O que devemos entender é que as tradições têm grupos internos que aglomeram as casas.
Abaixo desses sub-grupos encontramos uma forma de organizar importante bastante comum a todas as tradições que são as raízes de Axé, que são as casas matrizes que organizaram a prática das tradições no Brasil.
Assim, explicando melhor, cada tradição, tem um nível de agrupamento em sub-grupos e abaixo deles tem as casas matrizes e abaixo delas as casas descendentes. O que não detalharei são esses sub-grupos que ficam entre a tradição e as casas matrizes.
O conceito de casa matriz, ou raiz de axé (àṣẹ́) ou simplesmente axé (àṣẹ́), é importante e bem simples. Em cada tradição existiram um conjunto de casas matrizes de onde as demais casas derivaram.
Isso faz parte de um conceito comum, muito importante, que é o da linhagem e filiação. Esse conceito é uma referência à origem africana e se reflete em tudo, nas pessoas e nas casas. Dessa maneira, casas seguem uma descendência formal e as pessoas também seguem uma descendência de uma linhagem do que é chamada família espiritual.
Esta característica de família e principalmente linhagem é uma questão cultural que vem tanto pela raiz Yorùbá como pela raiz Jeje, é uma parte da cultura do povo que se reflete na religião. A religião, assim como a vida deles é (ou era) extremamente familiar, como qualquer religião reflete valores da sociedade que a criou essas religiões africanas do golfo da Guiné (ou Benin, é a mesma coisa).
A família espiritual substituiu aqui no novo mundo a família biológica na prática da religião, as pessoas ganharam novos laços familiares através da religião, de foma que esses novos laços ganham muita importância na vida das pessoas. Todo mundo descende de alguém e carrega essa sua descendência para sempre. Nessa religião as pessoas sempre estão ligadas a uma linhagem e devem a essa linhagem o respeito às tradições.
Estas são religiões iniciáticas e pessoas uma vez iniciadas mantêm os vínculos com seu iniciador para sempre. A iniciação é a entrada da pessoa em uma linhagem de família espiritual, não é algo que se compra.
Seguindo nossa explicação, no caso da tradição religiosa do Candomblé Ketu encontraremos no nível de raiz de axé (àṣẹ́) a casa do Apo Afonjá, a casa Branca, O Gantois, a casa de Oxumarê e dezenas de outras tão importantes ou menos importantes mas que são casas matrizes que deram origem a outras casas e assim sucessivamente.
Observe que, normalmente, na tradição no Ketu uma casa deve estar ligada a uma dessas grandes casas, mas, existem outras raízes menores que geraram linhagens. O mesmo se repete no grupo Jeje por exemplo.
Encerrando a explicação da matriz, já que chegamos às casas, é importante lembrar que essa organização das casas em linhagens e descendência é o que determina o formato da prática da religião na casa. É uma regra nesta religião que a casa siga o entendimento e os ritos baseados em que tradição ela pertence e qual raiz de axé (àṣẹ́) ela pertence. Uma casa não deve a seu bel prazer mudar seus ritos, o dirigente da casa deve obediência à sua linhagem nesse aspecto.
Assim, se você for em uma casa do axé (àṣẹ́) Oxumarê, deverá encontrar essa casa seguindo as práticas, calendários e liturgias da casa matriz. É assim que isso funciona.
Dessa maneira aqueles que entendem o que estou dizendo aqui, acreditem que abaixo da tradição o que é relevante são as raízes de axé (àṣẹ́). Essa classificação é a que tem mais sentido e a que reflete de fato como as casas se organizam na prática, na vida real. Raiz de axé (àṣẹ́) é uma denominação mais real e precisa do que o uso do termo “nação”. Assim a combinação de Tradição + raiz de axé (àṣẹ́), no contexto da matriz religiosa é a melhor representação para a estrutura das casas.
A vinculação de uma casa a sua raiz de axé (àṣẹ́) e tradição é muito importante, é o fator de identidade religiosa. O contrário disso são pessoas que se iniciam e abandonam suas linhagens, trocam de tradições, adicionam iniciadores e relações com outras raizes de axé (àṣẹ́). Isso existe demais e não é o correto na religião. Casas depois de aberta não trocam de tradição, não trocam de culto e não trocam de raiz religiosa. Para fazer isso a pessoa deveria começar tudo de novo, recomeçar toda a sua formação religiosa.
Mas não é isso o que ocorre. Pessoas trocam suas linhagens e religião como se tivessem trocando de roupa. Não se ligue a esse tipo de casa.
Lembro que o que falei até agora em termos de casas reflete o culto de Orixá (Òrìṣà) e Vodun. Mas temos os demais cultos da raiz religiosa Yorùbá.
Para o caso de Egungun eu desconheço divisões, não tenho essa informação, mas, certamente estará presente a raiz de axé (àṣẹ́).
Para o Ifá brasileiro não existe divisões ainda, o que temos aqui são cultos estrangeiros de 2 origens distintas, os cubanos e os africanos, mas, esses são cultos estrangeiros, eles não fazem parte da matriz afro-brasileira.
Assim, hoje em dia, se você quer entender o Ifá deve entender que podemos ver 3 sub-grupos, o Ifá cubano, o Ifá Nigeriano e já iniciando o Ifá brasileiro.
Dentro do Ifá cubano temos o agrupamento em famílias de Ifá que são similares às raízes de axé (àṣẹ́), mas os vínculos são bastante tênues, os cubanos não trazem ou estão interessados em estabelecer esses vínculos de família espiritual e para o caso dos nigerianos a coisa deve ser igualmente ruim.
Afora a baixa qualidade da relação espiritual que existe na tradição cubana, onde, não existe nem mesmo o conceito de “terreiro” ou casa espiritual todos esses estrangeiros estão aqui interessados apenas em ganhar dinheiro.
O que fará parte da matriz afro-brasileira será o Ifá brasileiro, quando ele estiver estabelecido e, para ele se estabelecer como parte da matriz, vai ter que ser internalizado pelos brasileiros adotando nossa sociedade e cultura. Não podemos considerar esses cultos estrangeiros de cubanos e africanos como parte de nossa sociedade e muito menos como parte da matriz religiosa.
A matriz religiosa se atualiza com coisas novas e com a saída das velhas, ela está viva, mas estrangeiros não fazem parte disso. Pode ser que no futuro tenhamos um Ifá com 2 divisões, não podemos dizer isso ainda.
Conclusões
Essas são as explicações necessárias para o entendimento da matriz religiosa-afro brasileira.
Quando ela, a matriz é mencionada, normalmente é uma referência ao nível mais elevado dessa cadeia, a tradição. Muitas vezes é uma referência também a um dos sub-grupos dentro de uma tradição (o nível que não detalhei aqui devido à diversidade).
O que todos devem entender é o que está acima disso e abaixo disso. Falar de matriz entrando pelo meio, pela tradição ou por um dos sub-grupos limita muito o entendimento do todo. Claro que o que tem acima é apenas um agrupamento conceitual mas é importante para entender o conjunto.
Entender como se organiza a religião abaixo da tradição evita bastante confusão, observe que a partir desse ponto a coisa ganha bastante complexidade porque reflete o que eu disse no início do agrupamento através dos grupos metaétnicos, lembram?
Sim, essa foi a razão de eu ter usado muito tempo para abordar isso e explicar a complexidade criada através desses critérios variáveis e pouco estruturados de agrupamento. O que ocorre aqui na religião quando analisamos essa primeira camada de grupos (ou sub-grupos) dentro de cada tradição é isso, uma confusão de denominações feitas sem um critério definido ou fixo. Entender as coisas assim é impossível.
Isso é a causa dessa confusão toda em torno da matriz religiosa e o motivo de eu ter isolado essa complexidade nesse nível de sub-grupos dentro de uma tradição. Dessa maneira, temos um nível hierárquico de confusão e que não é muito importante, o que é importante é você chegar à raiz de axé (àṣẹ́) que é quem gera as linhagens de casa.
Nesse momento eu isolo essa confusão assim. Não é muito ortodoxo mas é prático. Lembro que são muitas tradições e eu teria que entrar em cada uma delas para entender esses sub-grupos, assim, prefiro não fazer isso. Minha opção é dizer que ele existe e que abaixo disso tem as raízes de axé (àṣẹ́) que é uma coisa comum a todos.
Finalizando a matriz religiosa afro-brasileira é isso que expliquei, o resultado das religiões trazidas do golfo do guiné com a cultura e história brasileira. A sua variedade é explicada pelos fatores que eu detalhei.
Lembro que uma coisa ou melhor uma casa só esta correta se ela tem uma relação unívoca com essa hierarquia, assim, não será uma casa correta se tiver relação com orixá (Òrìṣà) e Umbanda, não será correta se na mesma casa você tiver orixá (Òrìṣà) e Ifá, ou orixá (Òrìṣà) e Egungun.
Entender a casa depois de entender essa estrutura da matriz religiosa afro-brasileira facilita muito fazer uma avaliação dela. A gente que está dentro da religião usa esse conhecimento para fazer nossas avaliações e dizer que uma coisa esta certa ou errada. Um dos primeiros critérios que a gente usa nas nossas avaliações e julgamentos é esse posicionamento na matriz.
Como eu disse relações unívocas e o que é isso. Isso significa que uma casa somente esta ligada a uma coisa. Ela não pode ser de Ketu e Jeje, ela não pode ter ligações laterais e ser também de Umbanda e Ifá, etc…
Isso é o certo. Em relação aos estrangeiros eles aqui fazem o que querem.
Os estrangeiros trouxeram o culto de orixá (Òrìṣà) através da RTY e da Santeria, trouxeram o seu Ifá, trouxeram, o Palo cubano e outros, quem sabe. Mas isso ai não é brasileiro, não é parte de nossa matriz. Isso é estrangeiro, não nos pertence.
O que não faz parte da matriz religiosa afro-brasileira
Tudo aqui é bem conceitual, claro, mas, classificar alguma coisa de religião de matriz africana é um erro bem comum e idiota.
Primeiro chamar de matriz africana é burrice, a matriz é afro-brasileira, união da religião africana com a cultura brasileira. Essa é a primeira negação que faço, não use isso.
Vamos a outros comentários adicionais no sentido de estabelecer umas negações.
Fazendo referência ao que vi na internet, eles ERRADAMENTE relacionam os seguintes cultos aos Bantus:
  • Candomblé de Caboclo
  • Xambá
  • Catimbó
  • Pajelança
  • Toré
  • Umbanda
  • Cabula
  • terecô
  • Quimbanda
  • Quiumbanda
  • Omolokô
  • Terecô
  • Candomblé de angola
Essa lista ai é um absurdo, eles basicamente não conseguem relacionar a Jeje e Yorùbá e ai ligam aos Bantus.
Vamos la, Candomblé de Caboclo já está extinto, não era Candomblé e não tinha vínculo com Orixá (Òrìṣà), não tinha ritos de Candomblé. Era um culto precursor da Umbanda, os guias eram caboclos e estes acabaram se localizando na Umbanda mesmo. Ele lidava com o que se chama de “encantados” espíritos do Brasil.
O Xambá estava associado a uma casa em Pernanbuco, de Maria de Oyá. Era derivado do Ketu, se estabeleceu no Recife e em um período muito conturbado da história da religião afro-brasileira, primeira metade do século XX, a casa se fundiu com caraterísticas regionais e se distanciou de sua origem.
Isso é comum nas casas, o dirigente se inicia mas perde contato com a raiz e acaba fazendo a sua. Apesar de o Xambá, ser chamado de “nação”, sua história mostra que isso foi posterior a criação de sua casa matriz, mas a sua regionalização traz características de uma tradição. Contudo o Xambá acabou e pode também se enquadrar facilmente como uma raiz de axé (àṣẹ́) sob o ponto de vista de religião.
O Efon é outro caso desse, ganhou o status de “nação” mas é uma descendência de uma casa e como no Xambá o título nação bem posterior. Creio que o Xambá tem muito mais característica de uma tradição do que o Efon.
O Terecô é uma variação do tambor da mina, que se originou na região de Codó no Maranhão e era uma mistura do tambor com o culto dos encantados. Vi alguns trabalhos sobre ele e virou tudo Umbanda misturada com Tambor. Sob o ponto de vista de religião não tem relevância isolada ou identidade, tanto que foi apenas uma onda que passou.
O Cabula era da Bahia, era um culto de misturava muitas coisas, tantas que é até difícil explicar. Acabou sendo absorvida pela Umbanda.
Quimbanda e quiumbanda são a mesma coisa, é tudo macumba bantu que acabou, a Umbanda absorveu.
O omolokô, no Rio de Janeiro, era uma mistura de Umbanda e Candomblé, uma coisa criada e sem origem histórica e por isso mesmo, como eu disse acabou. A pessoa tinha uma origem na quimbanda Bantu mas queria fazer qualquer coisa que tivesse vontade, no Rio virou sinônimo de bagunça, apesar de uns poucos defenderem como uma coisa original. Acabou porque ninguém quer ser chamado de omolokô, o Candomblé de Angola assumiu a maluquice.
Por fim, tenho que mencionar o conhecido Candomblé de Angola. O Candomblé de Angola foi uma invenção dos Bantus aqui no Brasil do fim do século XIX. Eles viam os Candomblé de Ketu e Jeje e não tinham nada equivalente, assim inventaram o Candomblé deles copiando o que os outros faziam, inventando divindades e usando a língua deles. Certamente a origem foram os calundus. Hoje em dia ele substituiu o Omolokô no show de horrores que fazem com a religião afro-brasileira misturada com Umbanda.
O Catimbó, Pajelança, Toré e Jarê são cultos ameríndios brasileiros, altamente influenciados pelo catolicismo e sem qualquer vínculo com a África.
A Umbanda é uma religião brasileira, ela não faz parte do contexto afro-brasileiro. Essa não é apenas uma afirmação minha é a história da Umbanda que mostra isso e qualquer pessoa que conheça o assunto sabe disso.
A Umbanda é altamente sincrética e com o passar de muitos anos ela absorveu alguns cultos afros que acabaram desaparecendo. Todo o grupo Bantu que promovia a Quimbanda ou a Macumba acabou, sua prática foi superada pela Umbanda.
Esse grupo Bantu, de prática religiosa bem pobre e objetiva voltada para a troca de favores e mercantilização desta atividade eram os feiticeiros. Uma parte se travestiu de culto de Orixá (Òrìṣà) e virou o Omolokô. Outro, a maioria se transformou em casas de Umbanda, assim se autodeclarando.
Foi esse grupo que ao ser duramente digerido pela Umbanda trouxe a africanização do formato da Umbanda e essa africanização estética faz as pessoas pensarem que a Umbanda seja parte do contexto afro-brasileiro. Não é, mesmo tendo incorporado alguns elementos africanos, como os tambores, a Umbanda é um culto e religião distinta e brasileira.
As pessoas têm o mau hábito de associar tudo o que não faz parte do grupo do golfo do Benin como sendo Bantu e isso é bobagem.
Na wikipedia encontramos referência a outras cultos como sendo afro-brasileiros:
  • Encantaria
  • Jurema de terreiros
  • Jurema sagrada
Encantaria, jurema de terreiro e jurema sagrada, são sinônimos para a mesma coisa é tudo Catimbó.
A minha lista de custos ameríndios é:
  • Catimbó
  • Toré
  • Jarê
Todos eles trabalham com encantados, são altamente sincretizados com o catolicismos, tem traços de espiritismo kardecista e alegorias irrelevantes de cultos africanos.
Eu não conheço a citada pajelança, para mim isso é um ritual e não um culto.

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