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sexta-feira, junho 21, 2019

CERIMÔNIA DE IMORI


A cerimônia de IMORI é uma das 2 liturgias da religião Yorùbá que se ajustam a necessidade que a sociedade tem de integrar a religião a ela, através das cerimônias sociais. Cada religião tem suas liturgias baseadas na sua teologia e dogmas, liturgias são cerimônias internas da religião, atos preparatórios, iniciáticos ou parte de atos iniciáticos que visam atuar sobre o indivíduo dentro do contexto de integração dele ao divino, a deus e o mundo supernatural que nos rodeia.
Uma liturgia é um ato formal da religião dentro do seu contexto e objetivo e visa dessa forma adicionar algo ao indivíduo, visa dar-lhe elementos do mundo supernatural ou integrar o indivíduo ao mundo supernatural. Estou aqui estendendo o conceito formal da palavra, que são atos do ofício religioso isso é claro e simples, mas por que executá-los?
A necessidade de execução de qualquer liturgia parte do entendimento que temos que ter que qualquer religião convive com a realidade da existência de um mundo natural, o que vivemos e um mundo supernatural, o que não vemos mas que cremos que ele exista. A religião, cada uma delas, estabelece que existe este mundo supernatural e o define e estrutura, além disso estabelece regras e forma de usá-lo e de nos integrarmos a ele.
O verdadeiro sentido de uma religião está na nossa integração com esse mundo supernatural. A grande diferença entre você dizer que acredita em um deus, em algum deus e fazer isso dentro de uma religião é que a religião tem dentro dela os instrumentos que ensinam os seus seguidores a interagir e se beneficiar do mundo supernatural. O grande benefício que a religião traz não é nos ligar a deus, isso é bobagem, o grande conhecimento que ela traz é ter dentro dela entre mais coisas o ensinamento de como interagimos como mundo supernatural.
Cada religião vê e define para nós esse mundo supernatural. Cada religião tem sua visão de como ele é, como funciona e como usamos suas energias, forças e elementos. Isso inclui o nosso papel no mundo natural, uma vez que todas elas colocam nossa existência no mundo natural como temporária e o mundo supernatural como permanente.
Alguns podem entender que esse modelo temporário-permanente é uma fuga das pessoas para ter uma perspectiva mais ampla para a própria existência, mas, não é isso o que veem todas as religiões. Teríamos então que entender que no mundo todo em todas as épocas as pessoas tiveram o mesmo impulso de desenvolver a mesma ideia o que seria isso sim, um delírio.
Cada religião tem uma proposta distinta para o ser humano e essa proposta é baseada no entendimento metafísico que ela traz. Na sua metafísica ela define o mundo supernatural, seus recursos, benefícios, usos, elementos, perigos e demais componentes. O seu núcleo é a crença que ela nos propõe para integração do físico e do metafísico. No seu ofício ela estabelece a forma como isso é feito.
Em função disso uma pessoa sem o suporte de uma religião entenderá deus apenas como uma ideia pessoal, uma parte de sua consciência de indivíduo que ele mesmo usa para se analisar ou se motivar. Sem a religião ele não terá acesso às liturgias que visam nos beneficiarmos do mundo supernatural para viver nossa vida.
Esta visão que estou passando se aplica a todas as religiões. As religiões têm sentido de existirem não para dizer quem é o deus e como ele é, elas são a forma de lidar com supernatural que esta contido na sua visão metafísica junto com o seu entendimento de deus. A explicação ingênua de que a religião estabelece o caminho para você chegar a deus se desfaz facilmente com a visão de que as pessoas não precisam dela para isso, basta entenderem e crerem nele, isso é óbvio. Contudo, essa é apenas isso mesmo, uma explicação simplória para o entendimento rápido. O contexto verdadeiro é que na religião esta contido a integração físico-metafísico.
Em função disso a dimensão litúrgica tem uma importância muito maior do que apenas atos formais. O que a pessoa pode é não ter o conhecimento real das liturgias e seus propósitos ou pode não ter acesso as liturgias para profundas da religião, mas elas não são formalismos decorativos. Uma grande diferença entre a religião Yorùbá e a católica é que a primeira é explicita em dar contato às pessoas as suas liturgias e ao uso do supernatural. Isso ocorre porque, faz parte da crença básica, que o supernatural existe para nos ajudar com nossa vida natural.
A Igreja católica já foi assim também no passado mas se afastou desse modelo na idade média, adotou outra linha. Hoje a religião Yorùbá e outras que adotam essa linha de beneficiar as pessoas com o supernatural e integrar ele a nossa vida são vistas como místicas e como voltadas para a magia, induzindo as pessoas a confundirem as religiões com as práticas seculares de magia que fazem uso do supernatural sem estar associado a nenhuma religião.
Vamos entender que o supernatural existe com ou sem o entendimento das religiões e que cada uma estabelece um modelo do que seja esse supernatural. Não podemos dizer qual é o modelo certo ou mais correto. Sabemos através das religiões, todas elas, que existe um supernatural mas como ele é, isso ainda fica sem resposta. Nesse sentido sempre existiram pessoas que se utilizam dele mesmo não pertencendo ou em nome de alguma religião. Essas pessoas são os videntes, feiticeiros, magos, bruxas e outros grupos.
As cerimônias introdutórias
Quando um indivíduo nasce existem algumas cerimônias envolvidas na introdução dele à sociedade. Essas cerimônias podem ser meramente sociais como parte da cultura da sociedade ou fazerem parte da religião.
Cerimônia de Imori
Depois de pisar no mundo, através da cerimônia de Ikọswaye o ritual seguinte feito para a criança é o “conhecimento da cabeça” - IMORI, que deve ser idealmente realizado até o terceiro mês após o nascimento. “O objetivo desta cerimônia é conhecer a ”cabeça interior” - Ori inu, ou personalidade que o espírito ou alma trouxe para o mundo, de forma que os pais possam ajudar a criança a coordená-los. A medida que o tempo passa a cabeça interior domina a alma e os dois se tornam um, fundidos em uma personalidade unificada” (Drewal, Yorùbá ritual, p. 56).
Esta visão de integração descrita por Margareth Drewal no excelente livro Yorùbá Ritual, é muito interessante, são poucas palavras com muito conteúdo. Refletem a visão que lhe foi passada por um Bàbáláwo, Óxitóla (Ọ̀ṣit), e que para minha felicidade, vão ao encontro de algumas percepções anteriores e são mais uma peça no quebra-cabeça da complexa teologia Yorùbá.
O conceito de Ori inu é mais complexo e não vou abordar aqui, mas destaco algumas coisas importantes que vão ao encontro da minha percepção. No modelo Yorùbá vemos a presença do espírito ou alma, émi (Ẹ̀mí) para os Yorùbá, que é dada por Olódùmarè para todos nós. O émi (Ẹ̀mí) é a centelha de vida.
Nós nascemos através do emi (èémí), o sopro de vida, mas nossa personalidade de fato, a pessoa que somos se caracteriza pelo Ori inu e se incorpora depois. Na teologia Yorùbá são de fato momentos distintos. Um é nossa jornada na preparação do nascimento através da formação do Orí inu, que constitui quem somos e o que trouxemos para essa vida. O outro é o emi (èémí) dado por Olódùmarè ao corpo moldado. Na teologia Yorùbá são momentos bem distintos e a análise indicava que a junção disso era um momento separado. A descrição de Drewal vem a coroar esta interpretação
Como Drewal descreve o que aprendeu com o Bàbáláwo Óxitóla (Ọ̀ṣit), existe uma gradual integração do Ori inu com o espírito do corpo e que gradualmente o Ori inu domina o espírito e eles se tornam apenas um.
Essa proposta de modelo, que eu endosso, nos leva a várias afirmações. Por exemplo a questão de descendência, de quando ocorre a incorporação do descendente no corpo em gestação. Também permite entendermos melhor a questão de incorporação uma vez que separa em 2 entes a pessoa, o espírito que vem com o corpo e o Ori inu que se adiciona, o que dá espaço para entendermos que um outro poderia ser inserido nesse modelo de controle do espírito, justamente o que se apossa do elegun no ato de incorporação.
Também pode justificar certos problemas como altismo, quando poderíamos supor que esses dois entes, espírito e Ori inu, não se integram, e, ainda, outros estados mentais nos quais existe saúde física mas confusão mental.
Voltando ainda ao contexto, é nesse período inicial de vida em que as 2 cerimônias importantes do recém-nascido e somente nesse período podem ser realizadas. A razão está explicada pelo processo de junção do Ori inu com o espírito. Nos primeiros dias e nos primeiros meses o Ori inu ainda está mais ligado ao órun (Ọ̀rún) do que ao àiyé, ou seja, está ainda ligado ao supernatural estabelecendo uma ponte entre o natural e o supernatural. Por esta razão somente nesse período podemos realizar essas cerimônias uma vez que em período posterior elas perdem a razão por se tornarem ineficazes.
Para a execução do Imori, na noite anterior, fitas brancas e pretas devem ser colocadas em cada pulso, cotovelo, joelho, tornozelo e pescoço da criança, como um sinal para alertar o espírito para se preparar para o ritual.
O ritual é realizado no início do dia, de preferência.
Ele se inicia na frente da casa, com a oferenda de um pequeno sacrifício de bebida e dendê na capela dos Bàbáláwo ancestres (oju orere) e usando-se o Obi para determinar se foi aceito.
Os pais da criança trazem oferendas representando as 2 famílias.
O Bàbáláwo coloca as oferendas em cada lado do opon (Ọpọ́n Ifá), sendo que as oferendas do pai ficam no lado direito e da mãe no lado esquerdo. O Bàbáláwo abre a consulta a Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) e marca no opon (Ọpọ́n Ifá) o primeiro signo de ifá, ogbé méjì. Ele pegará a criança e tocará a cabeça no chão e depois no opon (Ọpọ́n Ifá), fazendo assim a introdução da cerimônia de Imori.
A seguir o Bàbáláwo exibirá a criança pedindo a benção das divindades e ancestres, pedindo a ajuda deles por toda a vida da criança. Ele espalhará um pouco de Gin sobre a criança para acordar o Ori inu e procederá então a rezar no opon (Ọpọ́n Ifá) os 16 Odù méjì.
A próxima etapa é jogar água no chão e dar para a criança beber e seguindo a ela, a mãe e o pai. Depois disso o mesmo é feito com o Gin.
A próxima etapa é feita com 2 gravetos finos e compridos que ficam em cada lado da família. Os gravetos do lado masculino (iṣẹmokunrin) devem ser de Akoko e o do lado feminino (iṣẹmonbirin) devem ser de uma árvore frutífera. O Bàbáláwo mistura o pó no opon (Ọpọ́n Ifá) com os gravetos e reza. Ele fala com os pequenos gravetos que o pai e a mãe foram abençoados com aquela criança. Se aquela criança veio da família paterna que Ifá diga para nós. Se veio da família materna que Ifá diga para nós, se veio de uma divindade, que ifá diga para nós.
Depois disse ele apresentará a criança a todos e rezará para ela desejando uma vida longa e feliz. Ele, em sequeência, toca então os gravetos nos ikins, na testa da criança e no chão e agita os gravetos no ar para cada uma das origens que ela poderá ter.
O Bàbáláwo sacará os ikins 3 vezes para cada um das 3 origens, definindo assim pelo Odù mais sênior qual a origem predominantes. Nesse ponto devemos destacar que o processo é complexo porque prevê que devem ser obtidos 3 Odù sênior em sequência para definir qual a origem correta.
Na sequência o Bàbáláwo deve determinar que divindade ou ancestre a criança representa. Durante este processo é esperado que a criança durma, mostrando que o espírito do ancestre ou divindade possuíram a criança. Se a criança não dorme isso significa que o Ori inu e o espírito não se harmonizaram. Tal como a criança ele, o Ori inu, esta amedrontado e ficará continuamente em confusão com a alma, não deixando a criança em paz.
O Bàbáláwo deve mais uma vez usar os ikins e os ibo com os 5 símbolos da sorte e do infortúnio para dizer quais serão os maiores problemas que ela enfrentará na vida.
Por fim, o Bàbáláwo deve preparar as folhas que certificam que a criança passou pelo ritual do IMORI. Este ritual também é chamado de Iwoye que é um nome genérico usado para qualquer cerimônia onde se obtêm um título.
Em 3 folhas devem ser colocados os elementos dos sacrifícios que foram oferecidos. O Bàbáláwo marcará no opon (pn ifá) Ifá os 16 signos principais de Ifá e depois de rezar para cada um deles jogara um pouco do pó nas folhas. Quando concluir ele esfregará um pouco do pó na cabeça da criança. Antes de fechar o pacote de folhas, ele tocará as folhas nos ikins, na testa da criança e na boca. O pacote de folhas será embrulhado usando as fitas que foram colocadas na criança à noite.
O pacote bem embrulhado é colocado em um prato branco no centro do opon (pn ifá) e será gira no sentido dos ponteiros do relógio e depois no sentido contrário. Girando em um sentido e depois no outro, o Bàbáláwo perguntará para a audiência se “a criança já chegou no mundo ou se a criança ainda não chegou no mundo”. Os pais devem responder que a criança já chegou ao mundo. Girando mais uma vez o prato o Bàbáláwo deve dizer que a criança deve aproveitar todas as coisas boas no mundo.
O pacote é colocado em uma cabaça e entregue para a mãe, o Bàbáláwo joga o pó no prato e é feita uma prece para que a criança tenha vida longa e prosperidade. O pó se torna a representação material da prece e pode ser usado para a mãe fazer banhos para a criança.



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