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domingo, fevereiro 24, 2019

A impossível migração da Umbanda para o Candomblé


Este título é feito desafiador de forma premeditada para que as pessoas acordem e reajam para esta tema bastante antigo no meio das religiões brasileiras.
Todos sabem que uma multidão migra da Umbanda para o Candomblé todos os anos como se isso fosse uma coisa simples ou possível. Essas migrações trazem na sua maior parte prejuízo prático para ambas religiões, porque são feitos da forma como as pessoas querem que seja feito.
O lugar-comum ha muitos anos é ouvir dirigentes e iniciados usando os mesmos argumentos de sempre, os quais falam com sua certeza ingênua ou de reconhecida cara de pau.
Quando, justamente provocados, diretamente ou participando de alguma discussão, sobre a manutenção do trabalho de Umbanda com Candomblé, eles repetem a ladainha: trabalhei anos com esses espíritos como posso agora abandoná-los? Não posso e assim continuo com eles.
As respostas para isso são bem simples:
1. Se gostava tanto deles e achava que eles úteis por que decidiu trocar de religião e ir para o Candomblé onde existe Orixá?
Se essas pessoas gostassem de fato delas não as teriam trocado pelo trabalho om orixá. O que elas esperam fazer com orixá que não poderiam fazer através dos guias de Umbanda?
Uma casa de Candomblé toca Xirê de Candomblé, não toca Umbanda. Candomblé não tem exu e pombo-gira bebendo, fumando e dando consulta.
Se o seu caboclo te ajudou tanto, porque ele não serve mais?
2. Não os abandona apenas por motivo comercial. Essas pessoas normalmente ganham dinheiro dando consultas e fazendo trabalho com os guias e no Candomblé, outra religião tudo é muito mais difícil, caro e demorado.
Não errarei errando nada se disser que todos que procuram o Candomblé estando na Umbanda o fazem por vaidade. Se Babalorixá ou Iyalorixá significa mais ostentação e poder do que a simples Umbanda.
Se você pensa desta mesma forma, lamento, pode ser a sua razão, mas não é a forma que outras pessoas veem esta questão. Esta forma de ver é como você justifica a sua ação, afinal você tem que se explicar e falar isso acima é ha muitos anos a única coisa a declarar.
Se a Umbanda era maravilhosa, se seu caboclo era maravilhoso e ajudou na sua vida, se seu exu te ajuda a ganhar dinheiro, então, simples, fique com eles!
A Umbanda é de fato ótima.
Quem não é ótimo são as pessoas que trocam anos de Umbanda por um título social de babalorixá ou Iyalorixá, trocam ela para poderem usar roupas espalhafatosas e cinematográficas, trocam ela para poderem ser recebidos como autoridade na casa de outros e receber os outros na sua, em uma corrente de troca de vaidades.
Não tem nada, nada mesmo que você vai fazer no Candomblé que não possa fazer na “umbandinha” no que diz respeito a ajudar pessoas.
O que todos tem que ter atenção é que a Umbanda é uma religião brasileira, não é afro-brasileira. Oops, não sabe disso? Simples, procure ler sobre a história a Umbanda, aliás procure entender a Umbanda, ai vai entender como que essa africanização entrou nela pela porta dos fundos ou do lado.
Qualquer pessoa minimamente informada, sincera e honesta sabe que:
  • Umbanda e Candomblé são religiões diferentes
  • O Candomblé não é uma continuidade da Umbanda
  • O Candomblé não é uma evolução natural para o médium de Umbanda
  • Não tem espaço para os guias de Umbanda no Candomblé
Por que eu digo que essa migração é impossível?
Primeiro porque falta sinceridade e honestidade nessa migração. Achou ofensivo isso? É de fato, mas, antes de me achincalhar, em qual grupo que você está no que trocou a Umbanda pelo Candomblé (não me importa o motivo) ou no que trouxe a Umbanda para o Candomblé porque você tem eterna gratidão com esses guias?
Se tiver no primeiro grupo então de fato esse texto não tem a ver com você.
A migração é impossível ou muito difícil por vários motivos, bem simples de entender:
A pessoa que decide sair da Umbanda para o Candomblé geralmente é dirigente de casa ou tem status de pessoa antiga na Umbanda, é muito raro os casos de noviços que decidem mudar.
Essas pessoas com casa, seguidores, status, clientes ou frequentadores não vai de jeito nenhum se conformar em entrar para uma casa de Candomblé onde ele durante 7 a 10 anos não será ninguém, será um subalterno.
Como ele fica com a comunidade dele? Como ele para o que está fazendo ha anos?
Não existe caminho no Candomblé para uma pessoa de Umbanda que seja dirigente virar dirigente no Candomblé. Como eu disse é outra religião tudo o que ele tem na Umbanda vira poeira. Ele era general e vira soldado.
Um noviço no Candomblé não vai poder manter sua casa de Umbanda funcionando. Se ele se inicia no Candomblé, tudo vai parar na Umbanda seja porque ele vai virar subordinado de alguém e esse alguém não vai permitir que ele como Iyawo mantenha uma casa de Umbanda, seja porque na condição de recém-iniciado ele deve se submeter a muitas restrições.
Sendo ou não dirigente, estar no Candomblé como Iyawo e continuar a trabalhar com guias de Umbanda não é certo e não deve ocorrer.
Um noviço tem em cima da cabeça dele uma tonelada de restrições, ao decidir se iniciar em Orixá ele abre mão do controle da vida espiritual dele e se submete ao dirigente da casa de Candomblé até cantar (atenção cantar, não é fazer) os seus 7 anos. Depois disso vira um mais velho e ai passa a ter liberdades.
A relação do Candomblé com seus frequentadores é a de controle absoluto.
Na Umbanda qualquer médium tem pouco controle e muita autonomia, claro que depende de casa para casa, mas não é da tradição da Umbanda submeter os médiuns a controles e regras como existe no Candomblé.
Essa é outra barreira, a pessoa era autônoma na Umbanda, vai para o Candomblé para ser controlado? Não poder fazer nada e ter que pedir tudo para outro?
Então, a pessoa vai para o Candomblé e nada disso ai ocorre? Então assim é fácil, no mundo da enganação tudo pode.
Ok, vamos lá sem muita agressividade.
Baseado em todos os motivos acima explicados, migrar da Umbanda para o Candomblé é bem complicado, você passa uma borracha na sua vida e começa outra. Muitas pessoas fizeram isso com sucesso, muita gente, mas muita gente mesmo de Candomblé já esteve na Umbanda.
Você tem que entender os seus motivos e começar de novo.
Quanto mais novo na Umbanda isso é mais fácil, quando menor sua posição hierárquica na Umbanda mais certo será esse processo.
A coisa não dá certo para as situações que eu descrevi.
Para finalizar quero fazer umas afirmações:
Não tem espaço no Candomblé para guias de Umbanda. Não tem espaço na liturgia e não espaço no local físico do Candomblé. No Candomblé tudo é dedicado a Orixá e tudo feito através de orixá.
Não tem condições de uma pessoa participar de uma casa de candomblé e participar de uma casa de Umbanda.
Não existe a condição de um dirigente tocar Candomblé no fim de semana e durante semana ele trabalhar com guias de Umbanda, isso não é casa de Candomblé. Não existe a pessoa tocar Candomblé em uma semana e na semana seguinte tocar Umbanda.
Ja vi pessoas que mantêm 2 casas separadas, 2 espaços físicos distintos e não ligados, uma casa de Umbanda e um terreiro de Candomblé. Se a pessoa faz isso com médiuns diferentes é até possível.
Já vi gente que tem casa de Candomblé e escolhe umas datas por ano para tocar Umbanda em homenagem a seus tempos de Umbanda, assim como casa de Candomblé que toca anualmente para caboclo. Se forem poucas datas de Umbanda isso será possível.
Qualquer uma dessas religiões exige dedicação, preparação e trabalho.
A prática de pessoas que tocam essas coisas simultaneamente é uma prática comercial, essas pessoas visam dinheiro, essa é minha opinião. Todos os casos que conheci eram porque a pessoa usava a Umbanda como fonte fiel de dinheiro e porque sabiam pouco de Candomblé. Quando você não conhece a religião, não tem as folhas, não tem o oráculo e não conhece a liturgia o que resta é apelar para a Umbanda.
Como disse já vi vários modelos de convivência e várias experiências de migração e é quase impossível escrever sobre isso sem arrumar alguma confusão, mas, essas coisas têm que ser ditas.
Se você é um curioso ou iniciante e está procurando uma casa tem que saber dessas coisas.


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