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quinta-feira, abril 17, 2014

O Uso de tratados para estudar Ifá




É muito comum que neófitos e pessoas interessadas usem tratados de Ifá para estudar Ifá. Também é comum eu observar essas mesmas pessoas, que não fazem parte do culto, citarem Odùs e histórias de Odù, para mostrarem conhecimento e intimidade com o tema. Isso é um erro, apenas mostra que a pessoa não pertence ao culto e não entende dos instrumentos do culto.

Não tem nada mais bobo que essas pessoas que inserem nas suas conversas um pseudo conhecimento de Odù ou então aquelas frases perolares sobre Orí e como tudo é Orí (tudo o que a pessoa sabe fazer é repetir isso para não ter que falar aquilo o que não sabe).

Vamos com uma coisa de cada vez. Primeiro ao estudo de Ifá com tratados. Faz parte da tradição cubana escrever tudo sobre tudo. Muito diferente do candomblé onde o segredo do culto esta acima de tudo, talvez até em desmedido excesso porque muitos confundem segredo litúrgico com teologia. Os cubanos, por sua vez, escrevem e vendem tudo o que fazem, sempre foi assim. Iniciou com a confecção e comércio de libretas e chegou aos tratados e livros, em espanhol e inglês. Acredito que foi o ávido mercado americano que motivou isso.

Neste escopo também se situam os tratados de ifá, com a descrição do significado dos 256 odu e suas histórias. Eu nunca achei um material equivalente a um tratado cubano para a tradição nigeriana. Neste aspecto, como em inúmeros outros, a tradição religiosa do Brasil é muito próxima da nigeriana, onde ainda existe alguma tradição de manter o segredo, reserva e tradição oral (apesar de isso também estar sendo quebrado sistematicamente). Algum material pode ser obtido em trabalhos de antropólogos e no caso de ifá o que encontramos é a transcrição dos versos de Odù, mas nada se compara ao nível de detalhamento e exposição dos tratados cubanos.

Do seu lado, a tradição cubana se afastou completamente deste referencial de reserva do culto. Mais ainda, o afastamento foi também teológico e teogônico. Tanto o ifá cubano como a tradição de orixá se baseiam em uma teologia muito própria, uma criação cubana, fortemente influenciada pelo sincretismo católico, com interpretações particulares da teologia, histórias próprias e personagens próprios. Tudo isso desenvolvido na sua ilha. Houve uma influência tardia nesse processo de obras de antropólogos na metade do século passado para fechar lacunas que eles tinham, mas isso será tema de outro texto.

Cabe lembrar que os cubanos são normalmente muito grossos e agressivos em seu posicionamento quando tratam deste assunto de teologia e interpretação deles. Agindo desta maneira eles afastam qualquer pessoa que tenta dialogar com eles. Isso apenas reflete um enorme problema de autoestima que eles tem em relação a tradição deles versus as demais.
Mas este não é o tema aqui. A questão é que os cubanos tem tratados que documentam o ifá como eles praticam. Isso é muito bom, sem dúvida para quem esta no culto. Contudo estes tratados podem ser livremente comprados ou baixados na internet. Não é requerido nada, qualquer um tem acesso a tudo. Com isso, uma enorme quantidade de pessoas sem vinculo com o culto ou orientação passam a ter acesso a muita informação de Ifá. Essas pessoas passam então a estudar e citar o conteúdo desses documentos procurando mostrar conhecimento, entre outras coisas.

Mas deixando de lado este aspecto exibicionista, que existe mas não é o principal, em função da farta documentação, as pessoas que tem algum interesse, conseguem encontrar informações sobre Ifá e utilizam o que existe para estudar Ifá. Vamos lembrar que existe uma carência de obras que seja didáticas e explicativas, o que existe fartamente disponível são tratados que deveriam ser usados por um Babalawo. Acredito, até, que isso valoriza o estudo desses tratados, afinal a pessoa esta tendo acesso a informação "reservada".

O que essas pessoas não entendem é que aquilo que elas estão usando para estudar é apenas conhecimento bruto, sem real utilidade.

Os tratados não foram feitos para serem lidos em sequência, odu a odu. Tratados não foram feitos para ensinar Ifá a ninguém. A pessoa não aprende Ifá lendo tratado.Saber Odù a Odù não vai fazer a pessoa saber Ifá ou mesmo entender o culto e a religião. Não existe nos tratados uma história contínua a ser contada. O conhecimento contido nos tratados não é expresso desta forma.

Os Odù representam histórias e mensagens para todo o tipo de pessoa e situação. Um Odù vai dizer que o certo é uma coisa e outro pode dizer que o certo é o contrário. Cada um deles será adequado para uma situação e momento. O tratado não se equivale a uma bíblia. Alguns Odù contêm o que eu chamo de histórias estruturais, aquelas que de fato representam uma parte da teologia, mas, majoritariamente as histórias dos Odù são feitas para lidar com situações humanas, decisões e orientações para pessoas.

Você aprende medicina lendo bula de remédios? Você aprende medicina lendo dicionário de doenças? Se você não aprende medicina lendo isso não vai aprender Ifá também lendo tratado de Odù. O conhecimento necessário para Ifá vai além disso.O Babalawo sabe disso e sabe como usar este instrumento. Principalmente ele sabe que o importante são as histórias e não a parte interpretada. O curioso não entende nada disso e se debruça sobre um tratado como se fosse um livro.Se a pessoa tem interesse em entender o que é Ifá, não vai encontrar nada de útil em tratados. Ifá é apenas parte de uma religião. A pessoa deve se interessar pela religião em si, o todo, ai vai entender o papel de ifá nesta religião.

Dessa forma, terminando a primeira afirmação, tratados não são o meio para se estudar Ifá e muito, muito menos mesmo, conhecer a religião.

Indo para a segunda parte, quem faz isso e fica citando odu como se fossem salmos, passagens como se fosse a bíblia, não tem a menor ideia do que é Ifá. Não é assim, São muitas mensagens. Ifá é contextual. Para aquela pessoa naquele momento a mensagem é aquela e ainda tem que ser interpretada.

Não existe essa coisa de dizer que se tal coisa esta escrita em Ifá então é um dogma da religião. O Babalawo, de fato, sabe disso e não fica falando bobagens. Ele fala com quem precisa aquilo que a pessoa precisa. É claro que como conhecimento que ele tem dos Odù e histórias ele pode em algum momento observar uma situação com uma pessoa que o remete a um Odù ou história o qual ele acha que é útil para aquela pessoa naquela situação. Ai, então, ele pode citar a história como uma orientação a esta pessoa.

Mas, vejam, isso é direcionada, particularizado e ele usa isso com o seu conhecimento e exercendo o fato de ser um Babalawo. Pessoas que tem conhecimento e inteligência não ficam citando Ifá como pastores evangélicos citando a bíblia. Não se transcreve o conteúdo de Odù como se estivesse citando um salmo, não se usa a referência do Odù como se fosse um versículo. Isso é coisa de noviço.

Desta forma, esqueçam tratados. Se querem aprender Ifá aprendam sobre a religião e onde Ifá se insere no contexto de sua vida.

Se a pessoa se interessa pelo culto e quer se iniciar, isso é um longo caminho, mas longo mesmo, de pré destinação, vocação, prática, experiencia e estudo. Esse caminho não passa apenas por vontade e estudo. Em termos de estudos, a pessoa deve primeiro conhecer religião, sua teogonia e teologia. Deve entender o que é um orixá, na prática, sem teoria. Por fim vai se aprofundar especificamente em Ifá. Assim, em qualquer caso, se debruçar sobre um tratado de odu é a última coisa que se faz.

Se preocupe com a religião e com o significado dela para sua vida. Isso é que é o importante, dê valor a todos os cultos da religião, não tem culto curinga ou superior. Encontre o seu caminho na religião como uma foma de harmonizar sua vida e objetivos.

Existem pessoas que acham que Ifá contém e resume a religião. Não é verdade. Você pode encontrar em versos NIGERIANOS, algumas historias, na forma de versos que são estruturas da teologia, mas nem tudo está ali. Tem muita teologia e fundamentação por fora disso. Além disso acesso a versos é complicado, a maior parte da teologia vem da interpretação dos versos e de tradição oral que corre entre os membros, lembrando que não é habito de nigerianos, assim como dos brasileiros de documentar tudo o que sabem.

Existem também pessoas principalmente sociopatas, que acham que o Babalawo é o sacerdote supremo da religião e que esta acima de tudo. Essas pessoas pregam que tudo é ou passa por Ifá e que berço do Ifá é Cuba. Vejam, Ifá é importante nesta religião, assim como o é o culto de orixá. O culto de Ifá é um culto bem especializado da religião, o de orixá é bem mais amplo e útil para as pessoas na vida normal delas.

Entender Ifá não é entender toda a religião. Posso dizer com certeza que os Babalawo cubanos e os brasileiros, iniciados nesta tradição, e que somente apenderam a religião através desta tradição de Ifá, isto é, não tiveram contato com a religião através do candomblé ou de outro culto de orixá, são as pessoas que menos conhecem de teologia e teogonia da religião que eu conheço. Alguns conceitos deles chegam a ser primários. Não estou fazendo uma colocação pejorativa ou tendo como objetivo atacar ninguém. Isso é uma constatação de minhas observações, baseado em uma amostra restrita de pessoas que convivi pessoalmente e em redes sociais, claro, mas não deixa de ser uma amostra. O que quero exemplificar é que apesar dessas pessoas serem bons ou excelentes Babalawos, concentrarem no seu mundo de Ifá e tratados, não os ajudou com a religião como um todo.

Não sei como isso funciona no lado da tradição nigeriana, mas, ja vi videos, no youtube, de brasileiros desta tradição ou nessas rádios de web, que são péssimos, de chorar. Evidentemente, são pessoas que aprenderam a religião por um viés único e limitado. Não devemos esquecer que tudo é relativo, assim, essa minha avaliação de bom ou ruim é baseada no meu conhecimento, contudo, eu pelo menos tenho certeza que perco bastante tempo estudando teologia e teogonia.