Pesquisar este blog

domingo, junho 02, 2013

 Teologia Yorùbá

O Cosmo Yoruba - Parte 10

Questionamentos a divindade suprema

Eu não posso deixar de citar que existem questionamentos sobre a supremacia de Olódùmarè no modelo Yorùbá. O modelo que eu descrevi até agora, de forma bem direta e afirmativa, é o modelo com o qual eu concordo. Li muitos autores, estudei e analisei o tema, não só sob o ponto de vista da divindade suprema, como também, em relação ao restante do contexto teológico, opondo este conceito ao o que eu encontro nos versos de Ifá, no conceito de destino e Ori e na atuação dos orixá (Òrìṣà).

Na minha visão, o que eu expus, e que não é meu como já disse, e sim o que eu aprendi de outros, este modelo de deus supremo esta alinhado com todo o resto da teogonia e teologia. Não adianta defendermos modelos que sejam “franksteins” teológicos, como os que agradam a um grupo motivados por interesses locais mas que simplesmente se desmontam quando se tenta colocar o conjunto “em pé”.


Tudo o que descrevi faz sentido, complementa e tem seguimento para o resta da teologia que aqui será descrita. Igualmente esta alinhado em causa e consequências com centenas de histórias e versos que pude tomar conhecimento em Ifá.


Olódùmarè é o deus supremo, mas, além disso representa o topo de um modelo de divino próprio, completo e independente de outras religiões, principalmente é bem distinto do modelo abraâmico, usado pelas 3 religiões.


Contudo, todos podem ter sua opinião. Muitos dos autores que pesquisei, sendo que esmagadoramente os africanos, entendem também Olódùmarè assim. Alguns os criticam por terem sidos educados no modelo abraâmico e assim estariam copiando ou ajudando a divulgar esse modelo e criando facilidades para um sincretismo. Outros que estariam apenas copiando autores anteriores.


Ressalto que o texto anterior não é copiado de nenhum lugar. Como disse, li, pesquisei e analisei e construí este modelo baseado no que entendi.


Vou comentar a seguir 2 referências, uma é Verger a outra é Wande Abimbola. Eu não tenho dúvida da relevância de qualquer posição desses senhores sobre o tema. Cada um dele tem objetivos diferentes.


Verger em algum momento, aparentemente, se insurgiu contra este modelo de divindade suprema. Nos livros mais conhecidos dele, Orixás e Nota sobre o culto de orixás e voduns, Olódùmarè é descrito da forma tradicional, como o deus supremo. Verger, como qualquer outra pessoa pode mudar de ideia ao descobrir coisas novas ou se aprofundar em um tema que já tinha analisado anteriormente e Verger escreveu um artigo, que inicia questionando a supremacia de Olódùmarè.


Este artigo, publicado na revista Odu, chama-se Yorùbá High God e foi lido por mim muitas vezes. É uma material interessante, mas, muito confuso e sem objetividade.


Em Yorùbá High God, Verger, aparentemente se debruça sobre o tema com um viés de questionamento. Podemos dividir o texto, claramente em partes, que parecem ter sido reunidas ou escritas em momentos diferentes. Mas essas partes não se unem ou complementam ou fazem isso porcamente. Verger inicia com uma abordagem etimológica do tema citando autores que escreveram bobagens e que se copiaram. Esse material foi um estudo separado que ele fez e que acaba figurando, enchendo páginas, de alguns artigos que ele escreveu. É uma abordagem muito boa que trouxe luz a muitas coisas.


Nessa análise ele mostra que os primórdios da literatura sobre o povo Yorùbá foi bastante prejudicado pela péssima qualidade de escritores, entre estudiosos amadores, mal preparados ou mesmo mal intencionados, muito material errado foi produzido originalmente e pelo efeito da cópia e transcrição, acabou sendo propagado como verdade, gerando materiais piores. Algumas dessas ideias erradas persistem até hoje.


Devemos lembrar que um dos maiores legados do Verger não foi exatamente ajudar a construir uma teologia da esta religião, mas sim, ir na África e conhecer os lugares e sociedades descritas em trabalhos existentes e através disso ele trouxe a verdade, a informação real, destruindo teses erradas e desmistificando a cultura Yorùbá.


Mas a seguir dessa análise, Verger desenvolve a tese de que existe historicamente uma proximidade muito grande dos Yorùbá com o islamismo, presente nos países vizinhos, e com o cristianismo através dos colonizadores europeus e que, a visão de ter um deus supremo, poderia ter vindo desta influência. Ele chega a citar que em algum momento a pergunta sobre uma divindade suprema não tinha resposta e que era necessário explicar o que ela seria para se obter uma resposta positiva.


Nesse ponto, ainda, ele toca uma coisa que foi abordada por outros autores, que é o fato de que muitas vezes os nativos confirmavam o que lhes era perguntado somente para satisfazer quem perguntava e continuar a ser remunerado pelas respostas. Isso é verdade, mas deve ser usado com cuidado porque pode apenas ser usado para envenenar ideias e pesquisas legítimas.


Verger encerra os seus questionamentos sem apresentar nenhuma conclusão ou opinião. Como sempre faz, eles desfila a nossos olhos uma séries de argumentos sem se comprometer com nenhum deles ou acreditar e qualquer um deles.


Sobre esses questionamentos algumas coisas podem ser ditas. A parte relativa a etimologia é muito bem feita mas afeta de forma pontual alguns conceitos e ideias. Ele voltou a esse tema, ou iniciou este tema, não sei, em outro artigo chamado Etimologia religiosa Yorùbá e probidade científica, e, de fato, a sua pesquisa serve para explicar a origem de alguns erros que foram se espalhando. Um dos principais e mais embaraçosos erros foi o caso de Oduduwa, que na tradição Cubana de Lukumi é tratada como uma divindade ligado ao negro, à morte e isso foi devido a um erro gigantesco existente em um livro muito ruim.


Pois é, os cubanos leram o livro errado e criaram um culto baseado em uma figura e relação que não existe na religião. Existem centenas de caminhos de iniciação para Oduduwa e mesmo no Ifá Cubano existe uma cerimonia para isso, sendo que eles estão tratando de uma coisa que não existe! Nunca existiu! Se isso tivesse vindo de pessoas escravizadas não seria tão errado. Só pode ter vindo de leitura de livro... o que é muito embaraçoso para os Lukumi, não?


Em relação a influência de outras religiões, de fato, isso é uma possibilidade. Verger não afirma e nem pode afirmar nada em relação a isso. Eu me interesso por religiões e muitas religiões de lugares completamente diferentes tem uma estrutura metafísica muito similar. Não se trata de coincidência e sim de que podemos acreditar que as religiões tratam do mesmo divino com interpretações diferentes. Dessa maneira a sua similaridade.


Encontrar uma divindade suprema na religião Yorùbá e na religião Abraâmica não é uma surpresa. Dizer que uma influenciou a outra e trouxe para dentro dela um conceito inexistente é uma possibilidade, claro, mas uma tese que não pode ser provada e isso é muito ruim.


A tese de que eu coloco de que as religiões, ao longo de toda a face da terra e da humanidade, intemporalmente, tem estruturas similares é uma tese que pode ser comprovada. Dessa forma a primeira tese, da influência, passa ser apenas uma fofoca irresponsável se você não tem como provar.


O próprio Verger em seu artigo relaciona os portugueses e outros europeus como os que primeiro fizeram a associação de Olódùmarè com uma divindade suprema ou pela busca de uma divindade suprema.


Também considero natural você ter alguma dificuldade em uma religião para buscar um conceito que uma outra têm uma vez que os locais nunca haviam pensado daquela forma. Assim, perguntar diretamente qual a sua divindade suprema, pode não ter resposta e pode exigir que o pesquisador entenda sem preconceitos o que que esta estudando para que este possa ter suas conclusões e posteriormente confirmá-las sem expor ao entrevista o que espera ouvir. Isso é o método científico ético.


Assim, traduzir Olódùmarè como a divindade suprema pode requerer explicação e interpretação uma vez que o conceito daquela forma não tinha essa relevância para os locais. A conclusão de que Olódùmarè é equivalente a uma divindade suprema de outras religiões terá que ser, sempre uma ilação do pesquisador e não do pesquisado.


A gente vê isso o tempo todo em várias áreas de conhecimento, principalmente quando olha a sociedade e a cultura, incluindo a religião. Devemos encarar isso com naturalidade. A pratica de buscar associar o que aprendemos de novo aos modelos que já conhecemos é corrente e ao mesmo tempo válida e perigosa. Pode nos induzir ao erro ou a criar figuras pré concebidas que depois teremos dificuldade para desfazer.


Dessa forma, perguntar para os Yorùbá qual é a divindade suprema deles, é completamente idiota, assim como deduzir que essa ideia não existia e que foi copiada do modelo abraâmico pelos europeus os muçulmanos vizinhos é igualmente idiota. Considerando que provar é impossível sem um trabalho muito grande, é preferível nem levantar isso.


Após essa fase de questionamentos, sem conclusões, Verger explica a visão da divindade suprema Yorùbá, como um deus distante e não presente no dia a dia, mas se esquece de explicar o motivo disso. Aborda também longa e inutilmente a questão do nome e por fim aborda a questão do conceito de axé (aṣẹ́), esse sim o mais importante para se entender a divindade suprema, sem contudo se aprofundar ou concluir nada.


Eu vejo esse texto em 2 partes, em uma ele questiona e na segunda ele da argumentos ou informações a favor. Assim, como disse no início, parece ser um questionamento, mas, é muito confuso.


Na sua tradicional abordagem, Verger relata fatores pró e contra, fontes e contradições dessas fontes, sem contudo se posicionar, analisar, consolidar ou propor nada. Ele decidiu passar como a pessoa que conheceu o povo Yorùbá e o descreveu e também como o crítico do que se escreveu sobre o povo, baseado no que aprendeu junto ao povo. Mas, pessoas fazem referência a esse material como um contraponto, lamento, não é.


Ao ler esse artigo a gente entende porque Verger se insurgiu tão forte contra a Juana Elbein e seu livro os Nago e a morte. A Juana ousou analisar e propor modelos a partir das informações que obteve.


Outro que, recentemente, questiona a divindade é Wande Abimbola. Suas posições são tardias em relação ao seu posicionamento inicial e ele faz isso mais veladamente. Como disse as pessoas podem mudar de opinião sobre o que já concordaram, vale sempre a ultima posição. A motivação de Abimbola parece ser mais um ataque a Idowu e também ao seu interesse de posicionar Ọ̀rúnmìlà como sendo ela própria a divindade suprema.


Abimbola para não se expor colocou o seu filho, Kola, para contrariar isso e escrever contra Idowu.


Kola Abimbola fez isso em um livro bobo e igualmente ele usa argumentos bobos para contradizer Idowu. Ele se fixa em interpretações subjetivas de palavras Yorùbá, discordando de interpretações que Idowu fez, não discute teogonia. É apenas um capítulo idiota, com pouca inteligência e muita mesquinharia.


Eu pessoalmente ouvi Abimbola aqui no Brasil usando para classificar a religião Yorùbá com as mesmas palavras que Idowu sugeriu. Idowu em seu livro African Traditional Religion (p.136) sugere que a religião Yorùbá seja classificada como um “monoteísmo implícito” ou um “monoteísmo difuso”, as mesmas palavras usadas por Abimbola em discurso na UERJ no congresso Orixá World.


Assim, as posições de Abimbola através da voz de seu filho, e não dele, são bobas, não acrescentam nada ao tema.




ESTE MATERIAL ENCERRA A ABORDAGEM SOBRE OLODUMARE. A SEGUIR O CONCEITO MAIS IMPORTANTE DESTA RELIGIÃO O AXÉ.