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segunda-feira, maio 28, 2012

O Jogo de Búzios e Ifá - parte 4 de 4


O oráculo no Candomblé

Não é possível falar sobre a prática real do Oráculo com búzios em Cuba ou Africa em relação aos seus desvios, que devem existir, mas, podemos abordar como ocorre no Brasil que é o que nos afeta de fato.

O Oráculo por excelência do Candomblé é o jogo de búzios, mas a forma de usá-los muda bastante. Como ele é feito somente pelo Babalorixá (Bàbálòrìṣà) e este é um elegun, um médium rodante,  existe sempre um enorme componente de mediunidade envolvido no processo. Pela falta de preparação dos sacerdotes para desempenhar a sua função, em função da proliferação de casas, na minha opinião (sem dados para comprovar), esse componente de mediunidade, hoje, deve representar a sua totalidade, ficando fora disso apenas poucas exceções.

Assim, desta forma, no dia a dia, os Búzios são usados muito mais através da vidência do olhador do que pela interpretação é feito pela chamada fala dos Orixá (Òrìṣà) que combina caídas de búzios com Orixá (òrìṣà) e não com Odù. 

Mesmo não sendo o jogo de búzios feito por Ifá, existe ainda a necessidade de uma formação e preparação para isso para que a sua interpretação seja feita usando as caídas e não um processo simples de adivinhação (vidência).

Antes, ninguém sabia o que era Ifá e muito menos Odù, entretanto todo mundo jogava búzios através de orixá e isso nunca foi um problema. Sempre era um Orixá (Òrìṣà) falando e as mensagens eram interpretadas e ditas pelo Babalorixá (Bàbálòrìṣà) através de um misto de vidência e configuração dos búzios.

Os 3 elementos principais do Jogo de Búzios no Candomblé são, a mediunidade do olhador (sempre vai estar presente), o orixá que esta falando através do arranjo dos búzios e as configurações dos búzios entre si e com objetos dentro do espaço do jogo. A estes pilares, se adicionam mais algumas particularidade relacionadas com o método adotado por cada pessoa.

Vejam, eu nao ignoro ou disrimino o uso da vidência. Mas na minha visão, no jogo de búzios, o primeiro componente é o conhecimento das formas de interpretar as caídas do búzios, seja pela quantidade, posição que caem e configurações. Esta é a forma dos Orixá (òrìṣà) se comunicarem e claro identificar que Orixá (òrìṣà) esta falando

O segundo componentes vem através da intuição que poderá dar vidência (visões) e sugestões ao olhador sobre a mensagem. Esta intuição também esta presente em Ifá. O Babalawo é iluminado pelo espirito de ELÁ.

O terceiro componente vem a ser a aurividência através do qual o  Babalorixá (Bàbálòrìṣà) ouve no seu ouvido informações sobre o consulente e mensagens. Sobre este terceiro pesa sem dúvda a origem de Umbanda de muitos sacerdotes. O ponto de atenção sobre este elemento é ele se transformar no componente principal do jogo. Também existe um problema quando o olhador não consegue distinguir se as informações que ele recebe são intuições legítimas de Orixá (òrìṣà) ou aurividência vinda de elementos estranhos que podem ajudá-lo como também enganá-lo.
Os olhadores mais famosos sem dúvida são aqueles que com poucas caídas contam para o consulente longas histórias sobre a vida deles. Mas, isso não e jogo de búzios é você estar consultando com um guia de umbanda.

Mas seguindo, o oráculo do Candomblé é e sempre foi um Oráculo de Orixá (Òrìṣà) e não um oráculo de Odù ou de Ifá. O Jogo de Búzios é a ferramenta básica de trabalho de um sacerdote de Orixá (Òrìṣà) na sua casa. O oráculo é a porta de entrada de qualquer pessoa no mundo sacro do Candomblé. Tudo a ser feito passa por um jogo de búzios.

Não pode existir um Babalorixá (Bàbálòrìṣà) que não tenha um oráculo na mão, porque uma casa não funciona sem um oráculo, ou pelo menos, não deveria funcionar. Toda a consulta ao divino é feita com ele e tudo deve ser feito consultando o divino. 

Os búzios, como um oráculo e comparado com Ifá, tem muitas vantagens. Eles são mais simples de aprender e podem indistintamente serem usados por homens e mulheres (seria impensável o candomblé ter um Oráculo que fosse apenas para homens). Além disso, os búzios  trazem uma densidade de informação muito maior. Não é um instrumento bom para trabalhar com Odú mas é um instrumento excelente para se dialogar com Orixá (Òrìṣà) e entender o problema e ajudar as pessoas.

Não é necessário o olhador ser um expoente da aurividência para ter um bom jogo. Pelo contrário, isso até prejudica porque o olhador vai ficar esperando "ouvir" o que precisa ao invés de concentar em dialogar com  os Orixá (Òrìṣà). Como sempre, lidar com níveis mais baixos de espíritualidade é muito mais simples do que com os níveis mais superiores.

O jogo de búzios usado em sua forma tradicional sempre funcionou e atendeu muito bem ao Candomblé. Isso era o Jogo de Búzios. Mas, em algum momento esta questão de Odù começou a aflorar e passou a ser um diferencial de status ou mercadológico dizer que se jogava búzios por Odù.

Sem dúvida, desdo o início do século passado com a introdução do método de Bangboxê no Candomblé, o uso dos búzios sofreu muitas variações no decorrer dos anos. A gente tem que considerar inicialmente o fator Umbanda. Um enorme contingente de pessoas que são do Candomblé já foram Pai de Santo de Umbanda (muitos escondem isso) e lá eles trabalhavam fortemente com vidência e mediunidade.

Essas pessoas tem a clarividência e aurividência muito aflorada. É possível que a totalidade deles não deixe de trabalhar com seus guias de Umbanda mesmo estando no Candomblé. Esta mediunidade muito presente e extensivamente praticada passou a exceder o nível normal de influência no oráculo. A mediunidade sempre vai estar sempre presente no jogo de búzios do Candomblé, mas, o que essas pessoas de Umbanda fizeram foi romper com o equilíbrio disso com os outros elementos. A pessoa não pode somente usar a sua mediunidade.

O outro fator foi a abertura do Candomblé. Nos últimos 20 anos o Candomblé passou por uma onda grande de novos entrantes, pessoas com mais formação escolar e cultural. Eles foram o motor de uma expansão do Candomblé como religião por opção, mas, também trouxeram um processo de reafricanização do Candomblé. Reafricanização em um sentido restrito, de resgatar elementos perdidos e não de mudar o Candomblé para a prática da África.

Assim, incluir Ifá no contexto do Candomblé passou a ser uma meta importante e isso veio através do uso de Odù. Mas, ocorreu de uma forma muito torta sem consistência e altamente esoterizado. O processo foi um erro porque faltava conhecimento real e um modelo de referência.

As pessoas dizem hoje que jogam por Odù, mas isso é ilusório, o método não esta correto. Usam 16 Búzios e dão nome de Odù para as caídas, mas, ainda, fazem uma associação preponderante entre a caída e um Orixá (òrìṣà). Esta continua a ser a informação mais importante. Em função do Orixá (òrìṣà) que está falando e do arquétipo do Orixá (òrìṣà), aquela caída ganha um significado.

Os 2 aspectos mais importantes nesta interpretação por Odù feita no Candomblé ainda são a mediunidade e o Orixá (òrìṣà). Existe, sim, um fator novo, de Odù, inserido na interpretação. Isto é feito usando basicamente um mesmo material, que é usado por todo mundo e que possivelmente é baseado no livro do Mapuil, com mais alguns elementos esotéricos e numerológicos. Com algumas poucas variações, a base que se usa é a mesma.

Neste material, ruim, tudo já esta interpretado sendo assim mais fácil de ser usada do que ter que interpretar na hora da consulta as histórias e mitos. Mas o material não guarda correlação com a abordagem de Ifá para analisar um Odù.

As pessoas atualmente se preocuparam em dizer, rapidamente, que estão interpretando por Odù, mas não se ocuparam de resgatar ou incluir os elementos fundamentais para uso de Odù em um oráculo. O primeiro elemento ignorado foram as histórias que foram substituídas pelas pré-interpretações.

Ifá não existe sem histórias. Elas trazem a cultura oral com seus valores e ética. A interpretação das histórias em conjunto pelo olhador e pelo consulente são umas das formas do olhador compreender a pessoa e seus problemas. Não existe interpretação certa e as pessoas podem olhar a mesma história de forma diferente. Assim uma história é um elementos que traz muita informação ao olhador, mas, necessita da participação do consulente.

Igualmente se perdeu o o uso dos ìbò para poder interagir com o Orí do consulente. Minha opinião é que esse foi o pior aspecto da deterioração do uso do Jogo de Búzios no Candomblé. Deixou de ser um processo interativo, um processo que o consulente participa do oráculo para ser um processo no qual apenas o Babalorixá (Bàbálòrìṣà) fala e diz aquilo que quer, sem saber quando fala bobagem.

Além disso entra um novo elemento, a numerologia, também herdada da Umbanda e tem gente que inclusive faz Odù só com números, a partir de nome, de data de nascimento, etc... Aliás, não existe essa relação de Odù e número, isso foi um sincretismo. Dessa maneira não tem nenhuma utilidade fazer contas com nomes e data de nascimento e querer associar isso à pessoa. Inclusive é muito comum se usar a expressão de se determinar o Odù de nascimento através da data de nascimento. Isso é tão verdadeiro como se determinar a o Orixá (òrìṣà) da pessoa de acordo com o dia da semana em que ela nasce, ou seja, não existe isso.

O Odù de nascimento somente é determinado em Ifá até o 8 dia do nascimento e com a presença do recém-nascido. Depois disso nunca mais.

Dessa forma, elas dizem que jogam por Odù, mas ignoram 3 coisas muito básicas para se usar Odù. Primeiro usam muitos Odù para interpretar ao invés de um principal, segundo, não usam as histórias e terceiro não usam o Orí do consulente para as respostas, não usam os Ìbò. Eu inclusive já ouvi uma pessoa que diz que usa esse método dizer que os caminhos dos Odù é você determinar se o ebó vai ser na praia, no mato, na rua, na encruzilhada, etc...

Observem que, como eu disse no início, Ifá não é baseado em Orixá (Òrìṣà), é baseado em Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà), em Orí e no nosso destino. Eu considero que tão importante quanto Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) é Orí em uma consulta de oráculo. Não existe consulta de Ifá sem que o Orí participe diretamente nas respostas através dos Ìbò. Entretanto essa prática não existe mais no jogo de búzios, se existir é uma minoria, ou talvez raridade. É provável que o consulente nem pegue nos búzios antes de eles serem jogados para ele.

É impossível, você colocar 2 Babalorixá (Bàbálòrìṣà) interpretando o mesmo jogo, assim como é impossível um Bàbálòrìṣà chamar outro para ajudar ele no oráculo. Cada um só sabe ler o seu e não diz para o outro o que sabe ou o que não sabe.

Em Ifá é diferente, ou usando qualquer oráculo de Odù você pode colocar 16 Babaláwo interpretando o mesmo Odù, eles vão falar a mesma coisa e poderão discutir interpretações ou complementar as informações. É muito comum terem sempre 2 bàbáláwo em uma consulta, um ajudando o outro. Isso é possível porque eles estão tratando da mesma base de conhecimento e do mesmo processo.

Mas esse é o nosso caldo cultural e Ifá vem muito recentemente se adicionando.
A seguir em poucos itens os desvios do Jogo de Búzios que descaracterizaram a sua ligação com Ifá e o transformaram em uma “Jabuticaba”:
  • Números: existe uma paranoica ligação dos búzios com número. Isso não faz parte de Ifá, Odù não tem número nenhum associado e no máximo tem marcas gráficas. O uso de números é uma coisa externa à religião Yorùbá. É um sincretismo esotérico com numerologia.

    Neste contexto se inclui aquela cruz maldita feita com a data de nascimento. Aquilo não faz parte de Ifá. Também igualmente ridículo é determinar Odù usando o nome da pessoa. Primeiro se transforma o nome em um número e depois em um Odù. Isso não existe em Ifá.

  • Histórias: São o elementos mais básico de Ifá, uma cultura Oral. Não existe Ifá sem versos. No Candomblé, o Jogo de Búzios, abandonou as histórias associadas aos Odù. Ninguém sabe e nem procura saber quais são.

    No Dillogun cubano essas histórias são muito bem organizadas e colecionadas.

    As pessoas, atualmente, nem mesmo procuram saber os mitos históricos associados aos Orixá, que não fazem parte de Ifá e sim do próprio culto de Orixá, e que são importantíssimos na transmissão dos valores da religião.

    As pessoas se orgulham de dizer que o Candomblé é uma tradição oral. Mas, só fazem isso para justificar a sua preguiça ou incapacidade de estudar e ler. Tradição oral é obter os conhecimentos nas estórias.

    No jogo de búzios, as histórias foram substituidas por significados. Para cada Odú foram pré-estabelecidos significados e o máximo que a pessoa aprende são esses significados pré-interpretados. Não existe interação entre o olhador e o consulente na análise das histórias e nem as explicações dos valores morais da religião.

  • Nomes de Odù: confusos. O eerindinlogun é Ifá, feito com os 16 Odù méjì. Esta ´a definição principal. Desta maneira os nomes de odù tem que ser os mesmos de Ifá. Os nomes usados no jogo de búzios variam e incluem nomes de omon odù (ofun karan, obeogunda) e outros que não existem (alaafia (?), ejilaxeborá).

  • Não se usa os Ìbò: a maior parte das pessoas nem sabe o que é. Sem o uso de Ibô acabou a interação entre o olhador e o Ori do consulente. O Olhador responde o que a sua mediunidade indica.

    Igualmente acabou com isso a seleção das oferendas e ebós usando o oráculo. Ao invés de usar o Ibô para determinar o que será feito, o olhador de forma arbitrária e questionável, diz e detalha o que vai ser feito.

  • Arquétipo de Orixá: Pela falta de conhecimento do que é Odù, e de sua interpretação, ocorreu um processo simples e direto de associar búzios a um número, este a um odu e por fim (o que interessa mesmo) este a um orixá. O que importa é este orixá. Pelo arquétipo do Orixá a pessoa diz o problema da pessoa ou a quem deve recorrer para solucionar.

  • Orientação de Odù: Abandonado. No Jogo de Búzios não se determina se o Odù esta em Ire ou Ibi e isso é muito básico em Ifá. Depois de determinar o Odù a primeira coisa que fazemos e saber sua orientação e intensidade. Isso é parte da interpretação. No jogo de búzios isso não é feito.

    Sem a determina a orientação também não existe a determinação de qual o tipo de Ire e Ibi. Novamente, o olhador fala o que sua mediunidade indica.

  • Uso de objetos: É muito comum usar objetos colocados na peneira para traduzir significados. Este é um aspecto animista que não faz parte de Ifá e muito menos do eerindinlogun.

  • Quantidade de caídas: Em ifá usa-se uma sequencia de 4 Odù para se interpretar o problema e a solução para o consulente. Esta sequencia se inicia com o Odù principal que traz o problema. Seguem os seus testemunhos, que trazem o detalhamento e que indicam o que deve ser feito, complementando o significado do primeiro, nunca substituindo. Estes Odù.foram usados para se determinar o seu estado (2 deles) e podem ainda ser complementados pela sombra ou um odu feito com partes de outros. Cada Odù tem seu signifcado nisso e utilidade, complementando o principal.

    No Candomblé muitos até fazem as 4 caídas, mas, a forma de utilizar cada uma delas não é clara. O motivo das 4 caídas é o mesmo de Ifá, mas, foi mantida apenas as quantidade de caídas sem o seu significado, porque não se determina o estado do Odù.

    Vejam, dizer que tem um oráculo com Odù que não se determina a orientação e o tipo de influência, é o mesmo que não ter um oráculo de Odù. Só essa razão estrutural já seria o bastante para dizer que o Jogo de Búzios não tem nenhuma relação com Odù.

    Após esta sequencia estruturada, em Ifá pode se iniciar uma outra respondendo a questionamentos do consulente, através do seu Ori e usando os Ibô. Assim a quantidade de interações desta fase não estruturada é indefinida, mas, a fase relativa ao Odù se encerra com a determinação completa do seu estado.

  • Determinação do Ebó: Em Ifá a determinação do Ebó para pelo Ori do consulente. É um processo interativo usando o Ibô. Existem um conjunto de opções e detalhamento disso. No jogo de búzios o olhador normalmente termina a sua consulta dizendo o que vai ser feito, ou então ele faz uma caída, olha para ela e sai passando o que fazer.

    Dificilmente ele passa por um processo interativo de escolha. O próprio processo de selecionar o que vai ser feito usa critérios pouco objetivos onde um Odù que não fez parte de nenhuma das 4 caídas pode receber um Ebó porque apareceu em sub-formações de búzios.

    O que liga um Ebó a um odu é geralmente a quantidade de elementos. Assim, de novo a neurose da numerologia influencia o jogo de búzios, como se Exu fosse contar o número de coisas para saber qual o Odù.

    A maior parte das pessoas faz a escolha do Ebó estritamente ligado a um Orixá. Assim, eles definem como ebó uma comida votiva ligada ao Orixá que ele entendeu que falou no jogo. Como expliquei a quantidade de búzios determina o Orixá e assim a saída é então oferecer uma coisa para este Orixá. 

     

Conclusão sobre eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) e Ifá

 

Eu não tenho como objetivo ser panfletário para nenhum lado. Me interessa de fato a verdade, os fatos e os fundamentos. Para poder dar essas explicações colocando a minha opinião sobre esse assunto eu tenho me dedicado a muito tempo a essa questão, sempre buscando novos argumentos e novas formas de ver isso.

Eu considero que owó eyo merindinlogun (owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún) é para ser usado para trabalhar em Ifá, com Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà), Odù e Orí. Isso poder ser feito usando somente os Odù Méjì como também com os 256 Odù, dependendo da preparação do olhador. Claro que falar em interpretar 256 Odù com búzios é uma coisa polêmica, mas, os cubanos já o fazem. Lá eles sõ não chamam de omon odù, chamam de odù composto, mas é a mesma coisa.

Contudo o instrumento jogo de búzios jamais vai ser equivalente ao Ikin ou Opele. O conjunto de informações que ele lida são menores, mas, não deixam de ser a verdade. Isso esta explicado das histórias e também na prática.

Para fazer isso, usar os búzios para interpretar Odù - owó eyo merindinlogun (owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún) - é necessária um aprendizado adicional, que não é o mesmo de Ifá, é parte do aprendizado de Ifá, como disse Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà), no mito, mas que requer adquirir conhecimento novo e treinamento.

O resgate das histórias da origem do owó eyo merindinlogun (owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún) deixa clara que esta capacidade foi dada ao Orixá (Òrìṣà) óxun (ọ̀ṣùn) e que esta divindade não é um Bàbáláwo e nem poderá ser. Isto quer dizer que qualquer pessoa do culto de Orixá (Òrìṣà), através deste Orixá (Òrìṣà) poderá receber a mesma capacidade de manipular o oráculo recebido através de Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) e com o axé (aṣẹ́) de Olódùmarè, mas não será equivalente a um Bàbáláwo.

Ao Bàbáláwo é reservado um oráculo com uma capacidade mais profunda da análise da vida e ao destino das pessoas. Aos seguidores de Orixá (Òrìṣà) é reservado um oráculo com a mesma verdade, mas um aprendizado mais simplificado, adequado a complexidade de seu culto e dia a dia. Também é reservado ao owó eyo merindinlogun (owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún) a capacidade de tratar dos assunto do culto de Orixá (Òrìṣà).

Pessoas de Orixá (Òrìṣà) não precisam procurar em Ifá o seu oráculo. Precisam procurar este axé (aṣẹ́) em óxun (ọ̀ṣùn), no seu próprio culto. Deixo fora deste texto a polêmica levantada nos versos se Salako no qual determinados Orixá (Òrìṣà) não teriam acesso a esta oráculo.

Gostaria de lembrar também que alguns Orixá (Òrìṣà) são considerados Bàbáláwo por natureza e isso adiciona um pouco de complexidade a esta conversa. Por exemplo Oxumare e Xango (Ṣàngó). O Bàbáláwo, no seu livro Yoruba Theology and tradition, quando comenta sobre os instrumentos de Ìbò cita que um Édun (pedra de raio) jamais poderia ser utilizada por um Bàbáláwo para representar uma pergunta a Xango (Ṣàngó), porque “.. isto seria equivalente a usar um babalawo para inquiri um outro babalawo no mesmo opon. Xango é um babalawo.”

Mas, é necessário aprender como se faz isso, testar a pessoa para saber se ela possui este axé (aṣẹ́) ou mesmo prepará-la para isso. No Candomblé todo axé (aṣẹ́) é ou pode ser transmitido, como o conhecimento.

Um Babalorixá (Bàbálòrìṣà) não tem que pensar que precisa virar um Bàbáláwo para poder ter um bom oráculo. Ele pode em primeiro lugar usar o seu jogo de búzios como o faz, desde que tenha aprendido de fato a Jogar Búzios no Candomblé, com Orixá, e não um jogo trazido da Umbanda baseado em vidência. Em segundo, se ele quer alinhar o seu jogo de búzios com Ifá ele vai precisar aprender como se usa búzios com Ifá.
Vai ter que ter muito cuidado com isso, porque Bàbáláwo aprendem a usar Ifá com instrumentos de Ifá. Bàbáláwo cubanos nem podem pegar em búzios, assim, tomem muito cuidado com quem vão se meter.

Mas adquirir o novo conhecimento pode esbarrar no comodismo de não querer estudar uma coisa que se pode fazer por mediunidade ou mesmo na dificuldade de buscar esse conhecimento. Pode-se também levar a em uma casa a tarefa do oráculo ser dividida com outra pessoa uma vez que nada garante que o Babalorixá (Bàbálòrìṣà) vai ter esse axé (aṣẹ́). Isso não diminui ninguém. 

Os Babalorixá (Bàbálòrìṣà) tem que dar valor às pessoas que tem para que elas fiquem na sua casa, uma casa grande e forte. Eles tem que considerar que sua tarefa é muito maior do que se perder em detalhes ou querer achar que pode saber tudo melhor que todo mundo. A sua liderança jamais será abalada se ele compartilhar funções na sua casa e se ele tiver outra pessoa para dividir o oráculo. Pelo contrário ele será muito mais forte.

Como eu disse, Ifá traz um novo paradigma para o Candomblé. Possivelmente um paradigma saudável.

Infelizmente o fato de não termos tido Ifá na história do Candomblé permitiu que os Babalorixá (Bàbálòrìṣà) adotassem a forma que lhes convinha sem ter nenhum modelo de referência para questioná-los.

Eu tenho razões para supor que o método de Bangboxe era aderente ao método de Ifá e que isso foi perdido, sendo os seus mecanismos substituídos gradualmente pela mediunidade ou por essa coisa sem sentido que é a numerologia.

Hoje em dia temos uma nova opção com o estabelecimento em bases perenes do culto de Ifá no Brasil, mas não tem ajudado a atitude de muita gente de Ifá. Seja os nativos que entram no culto e se acham o próprio Deus, ou no mínimo acima do resto dos mortais, sejam de cubanos que vem com suas bases Ifá-lukumi sejam os africanos que vem, sei lá com que.

Esse é mais um desafio que o Candomblé esta faceando. A sua primazia na posse de um Oráculo esta definitivamente com os dias contados e o culto de Ifá irá de forma definitiva tomar para si, como tem feito, a propriedade de ter o verdadeiro oráculo de Ifá em detrimento a forma oracular pouco estruturada que usa o mesmo nome no Candomblé.

Acho mais, este novo modelo de referência vai fazer com que a forma como o jogo de búzios existe hoje se transforme, ou resgatando sua natureza inicial ou migrando de fato para um oráculo integrado a Ifá e acabar essa prática das pessoas se enganeram  dizendo que o que fazem é jogar búzios por Odù.