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sábado, novembro 19, 2011

Um novo dicionário e a Apetebi

Para a meia dúzia que le este blog, eu me lamento por não estar publicando com a frequencia que gostaria, mas, às vezes a gente se ve enrolado com trabalho, família e atividades demais. A melhor metáfora é aquele antigo malabarista de circo, que ficava girando pratos e mais pratos em cima de umas varas. Pois é, às vezes, a gente deixa cair uns pratos porque tem pratos demais rodando.

Mas, como eu já disse o conteúdo vai serguir com Obí. Enquanto isso tem alguns assuntos mais amenos para tratar.

Acredito que alguns podem ficar curiosos com o título desta publicação, mas isto é apenas uma cronica, ou pretende ser. Não sou nenhum fã do estilo, mas, sempre quis escrever uma, apesar de limitado pela minha restrita capacidade literária. Contudo, quem não tenta não erra. 

Ha alguns dias fui prestigiar o lançamento de um dicionário Yoruba-Português de uma pessoa que tenho muito apreço, poderia escrever muito sobre ele mas isso seria lugar comum, assim José Beniste não precisa de louvores. Foi um dia complicado, uma sexta, cinco da tarde, Cinelândia, sem dúvida me deu um pouco de trabalho estar lá, mas, nada que um pouco de boa vontade não resolvesse.

Sobre o dicionário posso dizer que é uma obra magnífica, de referência.Tenho alguns dicionários Yoruba, todos Yoruba-Inglês, e eu os uso. Eu sou uma pessoa que busco entender o que eu leio, o que rezo e o que canto. Assim, aprendi Yoruba, por vários meses, com ele e depois parti para o meu voo solo de tentar entender o que falo. 

Sem querer desestimular os neófitos é um trabalho muito dificil. Não é como se faz em outras linguas que basta um dicionário do lado ou um tradutor on-line. Você tem que de fato aprender a estrutura da lingua, a gramática dela e principalmente a forma de usar. Só depois disso consegue fazer alguma coisa. 

O Yoruba tem estruturas complicadas e esse é o motivo desse monte de tradução lixo que tem por ai, como as que o Sr. T'ogun fez para o José Flavio nos 2 livros deles, O banquete do Rei e a Fogueira de Xango. As traduções são péssimas, aliás uma pessoa que diz que fala Yoruba jamais colocaria no nome esse "T", significando "de".

O motivo é simples, não existe essa estrutura de dizer que Fulano Ti Ogun. Isso não existe na lingua, basta dizer, Fulano Ogun, esta implícito que a pessoa é de Ogun. Dessa forma toda essa legião de Pais de Santo que não sabem o que falam,  o que catam e o que rezam, ainda colocam esse Ti no nome, registrando assim a sua ignorancia.

Pois é, não acreditem que esse pessoal de candomblé tem idéia do que canta. Não tem. Mal sabem repetir o que ouvem.

Mas o Beniste é uma pessoa dedicada. Conhece muito o Candomblé e se especializou na lingua. O Dicionário dele é um legado fundamental de uma pessoa que sabe profundamente o assunto. Foi feito com dedicação, carinho e conhecimento. Já o usei algumas vezes e ele torna os demais obsoletos, incluindo os feitos pelos Nigerianos.... porque o dele vai direto para o Português.

Mas, voltando a minha cronica, estava eu lá no lançamento do livro e tive que cumprir uma daquelas missões impossíveis. A pedido de um amigo fui eu entrar na fila de autógrafos para que o Beniste fizesse uma dedicatória para esse meu amigo, que não havia ido ao lançamento, e tinha me dado a incumbência de obter isso.

Caraca, programa de indio, daqueles com carteirinha da Funai e tudo o mais. Então, lá fui eu para dentro daquela fila, que apesar de pequena simplesmente não andava. Claro, na frente, junto a mesa dele, aquele bolo de gente que acha que esta acima dos demais que ordeiramente formaram uma fila. Contudo, eu estava investido de uma missão maior, se não pegasse aquela dedicatória teria outros problemas de consciência, se bem que, tenho que confessar, quase sucumbi a racionalidade e ido embora. Mas, se tivesse desistido não teria chegado à Apetebi...

Sim, nesses momentos ficam aqueles 2 diabinhos no ouvido da gente, como nos desenhos do Tom e Jerry que eu assistia nas matinês de domingo de manhã (sim gente, não parece, mas isso eu vivi..), ou então a versão mais moderna, que vi no Piratas do Caribe 3, se não me engano, com os 2 mini Jack Sparrow falando no ouvido dele.

No meu caso um dizia: "- mané vá embora, isso está ridículo, invente uma historia e acabe com essa tortura".  O outro dizia: "- Não! você se comprometeu a pegar isso, já esta aqui, então faça a sua parte, o que são esses minutos na sua vida!". E com esse conflito ficava eu imóvel, por dezenas de minutos sem que a fila avançasse um metro.

Tenho que confessar que o número 1 quase me convenceu, mas, foi um "quase", fiquei eu lá estático na fila. Sem ter muito o que fazer já que alguns conhecidos ficaram bem atrás. Assim na minha missão fraternal, eu não pude deixar de ouvir uma animada conversa atrás de mim. Pois é, sem ter o que fazer não pude deixar prestar atenção na conversa deles e de notar que falavam sobre uma situação ocorrida com uma pessoa do Candomblé. Eu não estava atento a conversa deles desde o início, mas o termo Apetebi me despertou a atenção porque foi falado diversas vezes incorretamente, chamaram de IyaPetebi.

Eles comentavam uma situação ruim, na qual uma pessoa antiga do Candomblé, não sei se Iyalorixá, Ekeji ou Egbon (não deveria ser uma Iyalorixa...), havia passado, uma coisa   constrangedora. Entendi que ela havia se iniciado como Apetebi e, em determinada ocasião, provavelmente uma festa ou  fim de um Xirê (entendi que ela estava em um evento social ou em um Candomblé), ela foi se sentar a mesa quando um Babalawo presente se dirigiu a ela, rispidamente e disse que ela não poderia sentar na mesa que ele estava. Ele era um babalawo e ela como Apetebi não poderia ficar lá.

Segundo os que conversavam, a senhora botou o galho no saco e se submeteu aquela descompostura saindo da mesa. Eles comentaram que não achavam que aquela pessoa já velha e com tanto tempo de Orixá não deveria ter se submetido aquilo.

Não pude saber quem era ou com quem foi porque a conversa deles mudou de caminho e a fila finalmente andava, o que e tirou a atenção, naquele momento estava mais preocupado que mais um mal educado, se metesse à frente, mas o fato relatado me chateou muito e não dá para eu ficar calado, aqui, já que lá eu não me manifestei. 

Gente, isso é um absurdo!. Claro que posso entender que o Babalawo esta fazendo aquilo da mesma forma que muitos Babalorixás fazem com Iyawos por ai, certamente gente que tem pouco a agregar como pessoas humanas e que devem ter sido inferiorizadas, se sentindo menor na vida e que precisam disso para achar que são alguém.

Contudo uma pessoa de Candomblé, que tenha sido feita, que seja Iyalorixá, Egbon,  Ekeji ou até mesmo Iyawo não tem motivos para querer ser uma Apetebi. Isso é ridículo! essa pessoa esta regredindo na sua religião. Elas estão fazendo uma opção por uma coisa menor do que elas já são, estão se metendo em um culto diferente do culto delas, um culto masculino, para terem um função menor. Sim MENOR.

Qualquer Iyawo que tenha sido de fato iniciado, que tenha passado por tudo o que passou e que esteja cumprindo os seus anos com esforço e dignidade será sempre muito mais do que uma Apetebi. Ser de Ifá não me faz pensar diferente, porque a gente tem que dar valor ao que sabe.

Além disso estão dando espaço para que uma pessoa de fora da sua sociedade e cultura as trate mal. Acima de cargos idiotas existe o respeito a uma pessoa de Orixá com anos de idade e de feitura. Isso esta acima de tudo. 

Assim, é lastimável para o Candomblé, que senhoras ou iniciados estejam procurando um outro culto que não seja o seu culto de Orixá. Somente uma pessoa mal informada faria uma coisa dessa. Somente uma pessoa que não tenha o carinho  a atenção do seu babalorixá faria uma coisa dessas. 

Os Babalorixás e Iyalorixás devem estar atentos porque se isso ocorre com uma pessoa da sua casa é porque essas pessoas estão fracassando na sua missão como sacerdotes desse culto. Eles devem entender que são ninguém, que não são nada.O que justificaria uma pessoa sair do seu culto para ter uma função inferior e outro, uma função que exige muito menos esforço e sacrificio?

O Candomblé tem que prestar atenção nisso. Se já não bastasse essa ridícula mistura de Candomblé com Umbanda, essa coisa menor e errada que esta acontecendo com casas de Candomblé recebendo debaixo de suas cumieiras Exu e Pombo-Gira, ainda vai ser necessário aturar migração de elegun para Ifá?

Outro aspecto da conversa que mostra como as pessoas do Candomblé precisam ter atenção na sua própria religião, é que essas pessoas que estavam conversando usavam a palavra Iyapetebi.  Ou seja elas nem sabiam que a palavra certa era Apetebi e que não tem nada de Iya nesse cargo.

Assim eu não sabia o que era pior. Se a história de uma pessoa velha de idade e de orixá ser desrespeitada por um Cubano ou dessas pessoas chamarem ela de Iyapetebi.


Assim o Candomblé com essa legião de gente sem formação de candomblé, com pessoas que ocultam conhecimentos simples como se fossem fundamento e que ensinam coisas erradas, esta se afundando. Sim, afundando, quando permite que debaixo de uma cumieira de orixá trabalhem Exus e Pombo-giras. Esta se afundando quando não consegue entender o mínimo de um outro culto. 


Ocultar informação e conhecimento não vai melhorar o Candomblé. O que vai ajudar o Candomblé é as pessoas saberem mais,

Nesse momento, minha salvação foi que finalmente cheguei ao Beniste e consegui a dedicatória.

Apesar de não poder dar nomes aos bois, porque não os sei de fato, fica aqui minha indignação e alerta.