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sábado, setembro 10, 2011

A Grande bobagem sobre  o mito da cabaça

No Candomblé existe um conhecido mito, contado e repetido por muitos o qual o mundo seria uma grande cabaça na qual Oduduwa ficaria n parte debaixo e Oxala na parte de cima. Essa representação daria a ambos o domínio de partes diferentes do mundo assim como estabeleceria uma dualidade de existência entre ambos. Também traria uma idéia de equilíbrio e por fim estabelece que Oxala seria do genero masculino e Oduduwa do genero feminino.

Esse mito é bem comum e conhecido, mas, é uma grande bobagem. É um exemplo clássico de que a ignorança faz sombra na sabedoria e que as pessoas dessa religião nunca passam da primeira página quando leem algo, se é que leem, apesar de serem muitos expontâneas para falar mal de quem busca conhecimento.

Para esclarecer isso basta a recorrer a um texto muito antigo de Verger chamado "Etnografia religiosa e probidade científica"  publicado na revista Religião e Sociedade, n.8 em 1982.

O texto parece ter sido feito exclusivamente para criticar Juana Elbein, autora do livro "Os Nago e a Morte" que teve como mérito criar uma estrutura geral de amarração de elementos na religião, estabeleceu interpretação e análises próprias e enriqueceu o papel de do Orixá Esu na religião. Para Verger isso foi uma afronta. Ele não aceitou uma outra pessoa. academica. escrevendo sobre os Yoruba e muito menos trazendo infomações diferentes da dele.
Acredito que nessa briga todos tivessem um pouco de razão. Talvez Juana tenha sido criativa demais na sua interpreção e análise tendo avançado muito na criação de conceitos como também Verger se mordido de vaidade, mas essa briga não é o tema.

O tema é que na primeira parte do seu texto Verger faz uma análise muito boa da origem de distorções que ocorreram sobre a religião Yoruba.

Verger cita que A primeira referencia de informações sobre os Yoruba veio de Ajayi um nativo que foi rebatizado com o nome de Samuel Crowther, ele era nascido em Oyo e foi capturado e vendido como escravo quando tinha 11 anos. Ele foi liberto por ingleses no navio e como milhares de outros africanos levado para Serra Leoa.

Serra Leoa, como alguns devem saber foi o pais ou região que recebeu todos os escravos que os ingleses libertavam quando encontravam os navios negreiros.

Virou missionário protestante, edicando em Londres, voltou para a africa e publicou a primeira biblia em Yoruba. Publicou um vocabulario yoruba que continha nome de deuses. Em função de sua pouca idade e conhecimento da sua religião ele trocou o genero de orixás, chamando de deusas o que os yoruba chamavam de deuses.

Não houve intenção de dolo no trabalho de Crowther, Verger cita-o com uma das pessoa confiáveis, mas ele cometeu erros e isso é atribuido a ele estar citando coisas sobre as quais tinha vivida mas que o tempo pode tê-lo confundido.

A seguir TJ bowen, outro missionário, passou 6 anos nas terras youruba e publicou um dicionário, com mais informações sobre orixas.  Verger atribuia essa pessoa informações precisas e o cita como uma fonta digna de confiança.

Mais tarde o abade Pierre Bouche, outro missionário, passou 9 anos na Africa e publicou material que repetia os antecessores com algumas variações.

a confusão começa com o padre Noel Baudin, que esteve na Africa em terras não yoruba, usou o livro de Crowther para publicar um dicionário e um livro sobre os Yorubas, povo e região que ele não conheceu de fato. Pior ele desprezava o povo e sua cultura, Ele nunca teve interesse em preservar ou documentar nada. Soma-se o zelo missionário, a falta de ética  e a necessidade de se promover ocm um especialista em Africa.

por exemplo

"Os feiticeiros (Baudin, 1884b:86) são seres desprezíveis, mentirosos, preguiçosos, hipócritas, impudicos e refinados ladrões. Geralmente têm um aspecto sujo, vestimentas ridículas e esfarrapadas, e os que molham as mão em sangue humano têm um ar bestial, feroz e repugnante... Quanto aos deuses e deusas, com suas ridículas lendas, os grandes feiticeiros não acreditam neles... Os ídolos (ib: 89) modelados sobre o tipo mais feio de negro de lábios grossos, de nariz chato e de queixo retraído, são verdadeiras imagens de velhos macacos".

este era o estilo de Baudin 

A referencia a Odudua aparece pelo primeira vez por Crowther. Vou transcrever texto do Verger porque é bem claro:

O autor indica em rubricas separadas, por um lado, que "Oduá ou Oduduá (Crowther, op.cit.: 207) é uma deusa de Ifê, tida como a suprema deusa do mundo" e acrescenta que "o céu e a terra são duas grandes cabaças (ele queria dizer meias cabaças, igbá), que, uma vez fechadas (ou mais precisamente, colocadas uma sobre a outra, formando um recipiente fechado), não podem ser abertas (separadas)". Afirma ainda que havia "uma alusão à aparente concavidade do céu, que parece tocar a terra no horizonte". Por outro lado, indica que "Obatalá (é) a grande deusa iorubá, a artesã do corpo da matriz" (ib.: 228). Ao mesmo tempo, Orixalá é indicado como sendo "a grande deusa Obatalá" (ib.: 223).

Assim, fica claro como Verger ciya a confusão de crowther sobre o genero dos deuses, assim como surge aqui a referência ao mundo na forma de uma cabaça, mas em nenhum momento Crowther, por mais confuso que fosse coloca Oxala e Oduduwa dentro dela.

Bowen, o que escreveu depois um outro dicionário Yoruba,  adiciona mais informações a isso:

"Oduduá é o universo, está localizado em Ifé" e "Obatalá é tido como o primeiro, a maior coisa já criada. Outros, entretanto, afirmam que ele não é nada mais do que um antigo rei iorubá. Sua mulher é Iyangba, a mãe que recebe, representada acariciando uma criança".

Verger adiciona dizendo que Iya Ngba é na verdade uma referência a Iyami osoronga, a grande feiticera dos Yoruba. O Abada Bouche adiciona confusão a isso fazendo uma relação da iyangba com a virgem maria.... 

A confusão se inicia mais ainda com o Pe. Baudin, que sem saber nada dos Yoruba, junta Iyangba com Oduduwa, transformando as 2 divindades em uma só. E mais junta Oxala nisso e coloca os 2 dentro da cabaça do mundo descrita por Crowther.

No original de Veger:

... para completar essa embrulhada, intromete ousadamente Obatalá (Orixalá) no meio das duas meias cabaças descritas por Crowther, as quais viram uma cabaça única, munida de uma tampa. Completa esse "sutil ponto de vista" com uma estranha lenda (Baudin, 1884 b: 89) onde "Obatalá e Oduduá" estavam no princípio estreitamente apertados e como que encerrados numa grande cabaça - Obatalá no alto, sob a tampa, e Oduduá embaixo, afundados nas águas, envolvidos em profundas trevas, com a noite, o medo e a fome correndo em todas as direções... Oduduá ficou feia e cega em conseqüência de uma briga doméstica na qual Obatalá lhe arrancou os olhos para obrigá-la a ficar quieta.

Assim essa bobagem que existe no candomblé colocando Oduduwa como feminina e oxala como masculino e dentro de uma cabaça, é uma idiotice originada de uma pessoa que não sabia sobre o que estava escrevendo, pior só tinha interesse em desinformar.

Pessoas aqui no Brasil e autores usaram os livros dessas pessoas para transmitirem isso como verdades. As pessoas aqui compraram essas histórias gerando distorções sobre a religião e pior se fundamentando em bobagem e mentiras.

Assim uma sucessão de pessoas que não conheciam o assunto que escreviam e que foram repetindo e também usando criatividade sobre o que liam gerou uma massa de desinformação sobre a religião Yoruba, que no nosso tema gira em torno do mito da Cabaça. Quem aqui não conheçe esse figura da cabaça?

Baudin fez ainda mais confusão gerando uma dualidade inextistente entre Oxala e Oduduwa e transformando Oduduwa em um orixá do gênero feminino.

Assim essas são 2 tolices que são repetidas por Babalorixás e Iyalorixás por muitos anos, o mito da cabaça e Oduduwa sendo Feminino. Verger desde 1982 já havia corrigido isso. É impressionante como as pessoas gostam de citar Verger sem nem ao menos ter lido.

É possível que parte da raiva de Verger sobre Juana foi justamente ela ter seguido esse mesmo caminho, interpretando informações ruins, copiando coisas erradas e pior gerando interpretações e análises por sua conta.

O texto original de Verger deve ser lido, tem muito mais informações do que eu transcrevi aqui.

A Sorte do Candomblé é que não fazemos o Orixá Oduduwa, senão o nível de besteira seria enorme. Azar dos Lukumi cubanos, que não só compraram as mesmas histórias como ainda fazem Oduduwa como Orixá e ainda, atribuem a ela a cor negra e outras coisas sinistras. 
Este sim é um assunto que mereceria uma análise, porque como pode uma tradição de disapora se apoiar em uma besteira inventada e criar Orixá e pior LITURGIA a partir disso.

Verger explica onde surgiu a ligação errada de Oduduwa com a cor negra, na verdade uma invenção ridícula, mas, não é o tema aqui, os Lukumi que se preocupem com isso.