Pesquisar este blog

sábado, novembro 29, 2025

Oráculo — A suprema Fé na presença de deus

 

  Oráculo — A suprema Fé na presença de deus

A primeira questão que deve vir na cabeça de qualquer pessoa é: qual o sentido de um Oráculo em uma religião? Por que fazemos uma divinação?

Entendo que todos devem saber ou supor, o que é um oráculo: um instrumento que fala sobre sua vida e sobre pessoas e fatos que o cercam, sendo procurado para podermos entender o que ocorre conosco. Oráculos religiosos não preveem o futuro, eles lançam uma luz sobre o seu presente e as consequências do passado para que você possa construir um futuro melhor para você.

O mais tradicional e comum uso de divinação é por meio de videntes, estes estão espalhados por todos os lugares e devem atuar desde que a humanidade existe. Contudo, eles não representam a divinação no contexto religioso, existe uma diferença fundamental, no objetivo e nas mensagens, e o grupo dos videntes lança uma nuvem de obscuridade no sentido do uso religioso do oráculo.

Os videntes basicamente se utilizam de espíritos que estão no Aiye, o nosso mundo natural. Videntes falam com mortos. O oráculo religioso é destinado a comunicação com o Órun, o mundo espiritual superior.

O fato inegável é que existe o mundo no qual habitamos e existe um mundo espiritual que nos cerca e permeia. É este mundo espiritual que serve aos videntes. As religiões trazem para esse mundo espiritual um contexto mais elevado e menos mundano na nossa existência.

Sem dúvida, posso afirmar que, a existência dos videntes laicos (laico, é o que é não religioso) vulgariza o sentido do oráculo religioso. Dessa forma, a primeira coisa que temos que fazer é entender: por que uma religião tem um oráculo?

Os videntes sempre existiram no mundo. São pessoas com dons especiais que, com alguma precisão (muito relativa) os permitem ter conhecimento sobre a vida das pessoas que os procuram. Esta é uma capacidade que nasce com eles e sua prática não obrigatoriamente os liga a uma religião. Eles podem ter a sua religião, mas, a sua prática de vidência, é um dom pessoal que pode ser exercido sem qualquer contexto teológico.

Videntes se comunicam com o mundo espiritual que nos cerca, o supernatural, o qual é populado de espíritos e consegue transmitir às pessoas que os consultam mensagens e informações vindas dessa fonte. Mas as mensagens são informações que não estão associadas a uma ética religiosa ou a um uso dessas informações no contexto ético que a religião estabelece.

O contexto teológico e ético de um oráculo é aquele no qual as mensagens passadas aos consulentes estão alinhadas e transmitem valores oriundos da religião a que pertence o oráculo. Existe um filtro religioso baseado em valores e ética elevados. O olhador do oráculo deve se preocupar em transmitir mensagens e orientações que sejam previstas e alinhadas com a teologia de sua religião. Essas mensagens e informações cumprem o único objetivo de orientar a pessoa em sua jornada humana, na sua transformação em uma pessoa melhor e através disso, essa pessoa colherá os seus melhores resultados.

O oráculo religioso é um instrumento especial de deus para nos ajudar em nossa vida e não é orientado a prever o futuro ou desvendar fatos ocultos do presente e sim para contribuir com a nossa transformação pessoal. Ele nos mostra os passos errados que demos, suas consequências e como devemos corrigi-los com nosso próprio comportamento. Colateralmente, nos auxiliará na remoção de alguns tipos de obstáculos a esse processo. Mas essa última parte não é o objetivo de um oráculo religioso.

A falta do sentido religioso no trabalho dos videntes não os torna pior ou uma opção ruim. Pelo contrário, não existe correlação entre prática religiosa da divinação e qualidade de consulta. Videntes podem ser pessoas com dons extraordinários, que usados com ética e bom senso, podem se reverter em benefício para as pessoas que os consultam.

O uso do supernatural por meio da religião, incluindo o oráculo, é uma garantia de qualidade a isso ou, pelo menos, deveria o ser.  O mau uso do oráculo religioso é um problema maior do que o uso vulgar ou deletério dos videntes.

Estou ressaltando aqui é a divisão dos 2 tipos de divinação. Aquela feita em um contexto religioso, cuja forma de ser aplicada segue um propósito e ética pré-definidos e a divinação feita por videntes, que também servem às pessoas, mas não através dos mesmos objetivos primários com que uma religião faz isso.

Repito, o oráculo é um instrumento poderoso na religião, aproximando as pessoas de deus e materializando a sua atuação em nossa vida.

As pessoas não podem sempre associar a prática da divinação somente ao contexto religioso afro-brasileiro, por exemplo, porque a prática da vidência existe de forma independente. Oráculos existem em muitas religiões, não somente nas de origem afro-brasileira. Os videntes existem e trabalham de forma independente de uma religião. Como citei, muitos terão sua própria religião e podem deixar isso explícito no seu local de trabalho, mas a sua prática não implica necessariamente no uso do contexto religioso.

Igualmente, as pessoas não podem associar a prática comum da vidência à divinação em uma religião. Os métodos às vezes podem ser similares na aparência, mas o conteúdo e contexto são distintos. Claro que a finalidade de uma divinação é sempre a mesma, seja no âmbito sacro ou laico, as pessoas procuram ajuda e orientação.

A minha insistência nesse ponto aqui, da dualidade de oráculos, deve-se ao fato de que o charlatanismo existe em todos os segmentos e atividades da sociedade, do mecânico de automóvel ao religioso. Onde existir gente necessitando de soluções e disposta a pagar para resolver os problemas que tem ou que criou, existirão pessoas para se usar disso.

É impossível afirmar que o charlatanismo está associado à prática da vidência e à virtude da prática da divinação religiosa. Seria muito simples e ingênuo estabelecermos um modelo maniqueísta. Não é assim no mundo real.

Assim, vamos nos fixar no ponto mais simples, o qual é o de entender que temos a divinação religiosa e também temos os videntes laicos ou destinados aos assuntos mundanos. Ao ver um oráculo, nunca o associe a uma religião e também entenda que aquele instrumento comum muitas vezes pode estar servindo a propósitos elevados em uma religião.

O oráculo existe como parte de muitas religiões, eu posso até mesmo especular que sua existência em uma religião, deve ser a situação normal, a regra, e a exceção, o anormal, é a religião não possuir um oráculo.

Os oráculos nas religiões nos permitem dialogar diretamente com o divino através de suas divindades. A divinação será empregada quando necessitamos da intervenção do divino em nossa vida e essa ajuda poderá ser feita por meio de perguntas e respostas diretas. Vamos exemplificar isso mais extensivamente adiante, mas, a base do oráculo está na fé de que o divino nos assiste.

O fato é que o modelo mais exótico é o de uma religião que não permite que seus seguidores tenham contato e orientação do divino, ou seja, que não tenha um oráculo. Isto é a exceção e não a regra. A razão de minha afirmação é porque tem que ser um exercício de fé cega, uma pessoa participar de uma religião que não lhe traz nenhum retorno do divino que ele cultua e acredita.

Se a pessoa basicamente tem que acreditar, rezar, adorar e esperar o retorno incerto disso, subjetivamente e muito sutil, isso é fé cega. A fé, neste caso, tem que ser baseada em uma crença unilateral de que o divino o assiste e que tudo o que ocorre com ele é o que deveria ser e também já é o melhor possível.

Todos devem perceber que estou descrevendo o modelo cristão. Sim, fé cega e nenhuma forma de interação com o divino. Notem que não se trata aqui de crer ou não que existe um divino, um deus e suas divindades auxiliares, mas de participar de uma religião na qual, o que você tem que fazer é, somente, crer nele e rezar. Não existe, dentro a religião, uma troca com deus que não seja somente a crença que você tem nele e desta forma, uma dedicação unilateral. Não existe retorno disso, um retorno formal ou previsível.

Esta tese já foi explorada por filósofos e críticos. Voltaire, que não gostava do cristianismo, escreveu o livro “O Cândido” onde coloca em sua história as contradições da relação da igreja com a sociedade. Na figura de Pangloss, o mestre de filosofia de Cândido (o personagem principal). Pangloss, expressava que tudo o que existia ou que acontecia era o que de melhor poderia haver. O mundo que tínhamos era o melhor que poderia existir e na nossa vida tudo já era o de melhor possível.

Este conceito de fé absoluta, expressado pelo personagem Pangloss, refletia uma das teses dogmáticas do cristianismo, a de que não poderia se aceitar que deus, Javé, não nos desse o melhor ou que deus permitisse algum mal sobre nós. Essa teologia foi estabelecida por Agostinho de Ipona.

Esta tese foi ridicularizada em todo o livro de Voltaire com os personagens passando pelas situações mais esdrúxulas e terríveis e Pangloss repetindo sempre o mesmo.

Mas, de fato, o cristianismo, possivelmente a maior religião do mundo, tem esse paradigma, de que o mal não pode vir de deus. Para poder fazer isso valer, é inventado o impossível para justificar o injustificável, tudo fruto de uma concepção teológica equivocada.

A ausência de um oráculo, uma forma direta de se comunicar e receber orientações de deus, coloca os cristãos em uma situação muito extrema. Eles têm um divino no qual creem, mas não obtêm deste divino qualquer tipo de orientação e ajuda que já não esteja escrita no seu livro sacro, a Bíblia. Tudo que está ali, já escrito, há mais de 1.500 anos, é todo o retorno que eles têm do divino para suas vidas. O padre é a pessoa que pode aconselhá-los baseado no que aprendeu da interpretação do livro sacro.

Assim, eles devem acreditar cegamente que as suas vidas são as melhores possíveis e que lhes cabe rezar e adorar o seu deus para ele continuar assim, silenciosa e distantemente, os ajudando. Eles devem crer, sob pena de estarem cometendo uma heresia, que deus sempre lhes dá o melhor possível, sem qualquer obrigação ou possibilidade de orientações adicionais.

Estou tornando extremos os meus comentários, não no sentido de distorcer os fatos, mas sim, deixar claro o que esta situação significa na prática. O uso da religião cristã como uma referência de contraponto é para facilitar o entendimento do porquê de uma religião ter um oráculo, já que esta religião é bem conhecida de todos, sempre é uma referência na mente de todos e não tem nenhum oráculo.

Na verdade, na minha opinião, são os católicos que deveriam justificar por que não existe um oráculo na religião deles e não eu explicar por que existe um oráculo na religião dos Orixás (Òrìà).

O oráculo na religião é um instrumento para a presença de deus na vida das pessoas. É ele que faz o divino presente e não distante. É o oráculo que responde à nossa fé e que dá elementos para podermos ser bem-sucedidos nesta vida.

A fé, nessa religião dos orixás (Òrìà), se baseia na presença contínua do divino na vida de seus crentes, na interação contínua de deus com eles e na certeza de suas intervenções e orientações individuais. O crente nos Orixás (Òrìà) vive com eles, se dedica a essa crença, segue orientações de vida e também se submete a regras. Contudo, junto essa sua demonstração de Fé ele recebe dos Orixás (Òrìà) e de Olódúmarè.

Desta forma, quando sentimos que precisamos de uma ajuda para nossa vida; quando entendemos que algo está errado e que não conseguimos com nossos recursos resolver o que fazer; quando não entendemos o que ocorre conosco ou qual o melhor caminho a tomar; temos o recurso de recorrer à nossa religião, e, usando o oráculo, pedir a ajuda de deus para nossa vida.

É muito importante observar que, esta religião não submete os homens ao divino. Não vivemos aqui de favor e não temos que prestar homenagens e oferendas para podermos viver em paz. Não existe submissão ou dependência. Vivemos com a ajuda do divino e não para o divino.

O oráculo resume essa fé de uma forma extraordinária e por isso é um dos símbolos maiores da religião dos Orixás (Òrìà).

O oráculo significa a Fé do crente de que ele não está sozinho, o qual é cuidado e acompanhado por seu Orixá (Òrìà) e sua divindade pessoal. Revela que o divino intervém ativamente e individualizadamente na sua vida. Revela que a Fé nisso está acima de tudo e que ele acredita e segue as orientações que o oráculo traz para ele. Revela que ele acredita que as mudanças na sua vida ocorrida após essa consulta advêm da intervenção do Orixá (Òrìà) na sua vida.

Esta não é uma religião que tem um deus distante e a Fé dos seus crentes deve se basear na esperança de que ele o esteja ouvindo e na observação de sinais sutis de sua presença. Deus não existe somente porque os sacerdotes bradam para multidões palavras genéricas, repetidas à exaustão, deus existe e nós sentimos a presença dele.

Quando a gente entende o oráculo na religião como parte deste processo de troca e de efetiva assistência da religião na nossa vida, não só como orientações e valores, mas, também, com orientações diretas no momento que precisamos, nós passamos a não compreender como pode existir uma religião sem oráculo.

O processo do Oráculo resume a Fé da religião. Quem acredita no oráculo acredita em tudo o que a religião lhe oferece. O oráculo representa o compromisso da religião com nossa felicidade nesta vida que estamos vivendo. Representa o comprometimento da religião com o nosso sucesso e felicidade.

Como podemos acreditar que deus quer o melhor para nós, que quer o nosso bem se não temos um oráculo para nos ajudar e orientar quando precisamos?

Nenhum comentário:

Postar um comentário