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domingo, janeiro 09, 2022

 O leque de Oxum

 Um conto de Vasconcelos Maia 

Parte 1

Há vinte anos eu não via a Bahia. Em vinte anos mudara muito. Falsa ideia de “progresso” mu­tilara-a lamentavelmente. Aquilo que nas cidades históricas e artísticas é venerado e defendido com o sacrifício da vida humana, tinha sido mutilado em muitos de seus aspectos. Obras de arte desapareci­das, roubadas, barganhadas. Monumentos preciosos derrubados e esfarinhados. Jardins desarborizados. Praças descaracterizadas. A paisagem marítima po­luída por “invasões” de gente com problema de moradia. E a atmosfera colonial, tão rara no Brasil e tão tipicamente baiana, cedia a uma arquitetura falsamente funcional que o clima repudiava. As­sim também os seus costumes. As coisas mais pu­ras de seu povo sofriam adulteração em sua nobreza. E a inviolabilidade dos ritos negros, da religião, da dança, tinha-se quebrado.

Com saudosismo e confrangimento eu passeava pela cidade, reconstituindo, com amargura e cari­nho ruas e becos, ladeiras e “largos”, fontes e chafa­rizes, igrejas, parques e praias, o que existira com es­plendor e o que pobremente restava. Mas sobrara o Pelourinho e adjacências, as igrejas do Terreiro de Jesus, os fortes à beira-mar, alguns palácios e solares.

E resistindo também tenazmente às tentações da im­provisação e da chantagem ficaram quatro ou cinco “casas” de candomblé, de ritualística fiel, infensas às interferências exteriores. Uma dessas, era minha “casa”. Pois ainda rapaz, em minhas andanças nos caminhos musicados pelos atabaques, nela me fixa­ra, nela me integrara, nela fôra levantado “ogan”, confirmação que não se realizara devido a minha volta a São Paulo, à firma de que meu pai era prin­cipal acionista, às obrigações a que eu me iulgava indissoluvelmente ligado.

* * *

Debruçado na balaustrada da Praça Municipal, o olhar estendendo-se sabre os telhados escuros dos sobrados da cidade baixa, lembrava-me da Iyalorixá (Ìyálòrìṣà) a quem eu tomei a bênção, que pusera a mão na minha cabeça e que governava como uma rainha o seu vasto e poderoso axé (àṣẹ). Ainda estaria viva? Ainda era dona da barraquinha na Rampa do Mer­cado Modêlo? Donde eu estava, avistava o edifício do Mercado, a Rampa, o portinho coalhado de sa­veiros coloridos. Quem sabe se Mariana não conti­nuava ali, modesta e digna, atrás de seu balcão, lu­tando como qualquer trabalhador pelo seu sustento, cumprindo assim os desígnios de seu “orixá”, já que sua pureza e sua sobranceria não lhe permitiam viver da exploração de seu culto?

Desci o elevador.

Tapêtes de rosas, angélicas e gérberas, róseos, brancos e vermelhos tapêtes de perfumes. Pirâmides de abacaxis, mangas e cajus, de aromas fortes e do­ces. Caçuás de laranjas-de-umbigo, de laranjas-cravo, de limas-da-pérsia. Bancas de poemas populares, “troupes” de tocadores tocando e cantadores cantan­do, mendigos estendendo a mão, marinetes chegan­do e saindo, a Praça Cairu torcendo-se de filas que­rendo condução. As barraquinhas estendiam-se num primeiro plano de pintura primitiva, os mastros dos saveiros servindo de fundo contra um céu rutilante- mente azul. E gente entrando e saindo do Mercado, e, no ar, cheiros e côres, de gente, de frutas, de flo­res, de mar.

A “Tendinha de Oxum” continuava no mesmo ponto, apertada entre outras barracas, no sábado cheio de sol. As paredes de madeira, o tôldo de lona amarela, a pintura vermelha e branca, as letras cheias de bordadinhos. E colares de tôdas as côres, pulseiras de todos os feitios, figas de tôda sorte, con­tas de todos os “santos”, conchas e búzios, estrelas e cavalos-do-mar, “agogôs” e “exus” de ferro, “adjás”, paramentos, armas, símbolos e “os” da religião, “obis”. Garrafas douradas de azeite-de-dendê, fras­cos de pimenta-de-cheiro, de pimenta-malagueta, em verde, vermelho, amarelo. Emoldurada de cheiros e côres e formas, Mariana, cheia de compostura e dignidade. Era a mesma Mariana que eu deixara há vinte anos, apenas um pouco mais gorda e gi'i- salha. No rosto, a expressão intacta de autoridade, a luz enérgica dos olhos, a fôrça inteligente da testa e a bondade na bôca.

— Bênção, minha mãe!

Os olhos, vivos e jovens, a me fixarem penetran-temente, procurando socorro na memória, o rosto, por fim, iluminado pela surpresa:

— Entre, meu filho.

— Não mudou nada, minha mãe!

— Não sou filha de Oxum, ingrato?

— Ingrato? Obrigações na terra da gente, dever de ganhar dinheiro, de trabalhar duro, de não ficar para trás.

— Deus que lhe dê mais, meu filho.

— Não sei se quero mais, minha mãe... ou se adiante ter mais. . .

Sentei no caixão de querosene e ela esqueceu- se da freguesia. Reparei que, além dos adornos li- túrgicos que ela, como “ialorixá”, deveria permanentemente trazer consigo, rutilava de colares e pulseiras. E em vez de vestido simples, cobria-se de roupas vistosas, bata rendada, torço de sêda, colorida saia de cetim.

— Alguma “festa”?

— Não me está vendo a rigor?

— Lá na “roça”?

— Se fôsse em “casa” eu estaria aqui, homem? Estava, mas era recolhida, fazendo as “obrigações”. Hoje sou convidada, vou para festa dos “eguns”.

Era uma palavra mágica para mim. Minha imaginação enriqueceu-se, a memória retornou anos atrás. Acabadas as cerimônias aos “orixás”, saíamos da “roça”, vínhamos a pé, na estrada barrenta, em busca do bonde. Vínhamos aos bandos, pouco antes da meia-noite, “ogans”, “alabês”, “obás”, eu no meio. Recordava-me bem dos manacás desabrochando nos barrancos, dos graúdos jasmins-do-cabo es- palhando seu perfume e sua brancura pelas cercas, dos mansos cães que nos lambiam as pernas, das noites frementes de estrelas e das conversas que a noite provocava. Conversas de “eguns” que eu nunca vira, a cujas cerimônias não pudera assistir, aureoladas de histórias que me causavam arrepios.

— Será que desta vez?. . .

Não precisei acabar o pensamento:

— Claro que sim! Você não foi “suspenso” lá cm casa? Posso dizer, sem gabolice, que a festa é muito minha. Pedi uma graça a “Babá-Olukotum”, ele me fêz o favor de atender. Ofereci-lhe uma roupa e vou lhe pedir a presença. É um “babá” muito autoritário, orgulhoso e importante. Há trinta anos que não “desce”.

— O que Mariana pede que não se dá?

Ela sorriu, cheia de segurança, perguntou-me:

— Já almoçou?

— Ainda não.

— Por que não come logo? Daqui a pouco vai chegar meu pessoal. O saveiro não espera se o vento estiver bom.

* * *

Barraca com geladeira e anúncio de coca-cola do mulato chamado Teles, com sua irmã Candinha a servir uma misturinha côr-de rosa, enganadoramente inocente, saída duma garrafa encantada, batizada da de raizes amargas. Leve e cintilante, desceu em togo e sêda, macia, garganta a baixo. Sombra de tamarindeiro, brisa do mar, manchas de sol sôbre a mesa, ouro de banana madura em tabuleiros, facha­das de sobrados na frente, a igreja da Conceição da Praia erguendo-se nos blocos de mármore, as tôrres competindo com o casario subindo o morro. E ouro e sol, vermelhos e verdes, em pratos de louça lavada, no efó e no caruru, na moqueca de ostras e no xin- xim de galinha, incêndios de pimenta-malagueta, doçuras de refresco de caju.

Voltei à “Tendinha de Oxum” e à Mariana ro­deada da comitiva: seu filho Didi, servidor de “Os- sãe”, três “alabês”, mais cinco mulheres a beijar- lhe a mão: a “dagã” e a “ossi-dagã”, de sua idade, vestidas com o mesmo aparato embora sem igual quantidade de adornos. As outras eram “iaôs” de sua “casa”, uma de “Xangô”, outra de “Iansã”, a úl­tima de “Oxumarê”, tôdas vestidas a caráter, as co­res de seus “orixás” preponderando distintamente em seus trajes.

Mariana ergueu-se, fomos atrás. Um saveirinho em côres vivas, “Ninho do Oceano”, esperava- nos. Pôs-se em movimento. Passamos o Forte de São Marcelo, o quebra-mar e, ao largo, eu abarquei a silhueta da cidade, estendendo-se da ponta do Mon­te Serrate ao Farol da Barra. Pouco restava da ve­lha e magnífica construção dos portuguêses. A ver­dura desarrumada e luxuriante das encostas abria- se para edifícios pesados, sem graça. Blocos de cimento-armado, comuns e vulgares, substituíam os muito pessoais casarões coloniais ainda há poucos anos em pé. As tôrres das igrejas antes dominado­ras nos cabeços das colinas, quase tôdas estavam afo­gadas pelos saltos dos arranha-céus. Apenas intoca­da, a linha delicada e fascinante do bairro de Santo Antônio Além do Carmo.

Escumas saltando da quilha veloz, o saveirinho deslizava àgilmente sôbre as ondas. Bôtos negros, de dorsos luzidios, dando cambalhotas na superfí­cie, bufando. Cardumes de tainhas, de agulhas, caçonetes e curimãs, vermelhos e guaricemas, águas- vivas como vitórias-régias, caravelas azuis, lindas como orquídeas. Martins-pescadores plainando asas sôbre as águas, as asas de enormes saveiros, bojudas e brancas, passando abertas, vindos do outro lado da baía, de engenhos perdidos, rios fundos, moendas e olarias distantes. Lá atrás, esfumada na lonjura, a cidade do Salvador brilhava ao sol.

O búzio na bôca do “mestre” ecoou pela praia deserta seu gemido sonoro, lancinante. Virgem e nívea, a terra povoou-se. Das cabanas entre os co­queiros saíam homens, mulheres, crianças, aos ban­dos, acenando. Era como se eu estivesse chegando a um novo mundo, antes vislumbrado em sonhos, sugerido em leituras. Coqueirais altíssimos colhiam e derramavam sombras até a linha dágua. Acaricia­dos nas sombras, sedentos, fomos servidos em caba­ças enfeitadas de fôlhas, por gente alegre e hospitaleira: enormes mangabas que se derretiam na bôca feito mel; cajus carnosos a transbordar suco dulcís­simo; pitangas vermelhas, sumarentas, frescas; sa­borosa água de côco verde.

• Mas isto é o paraíso! — exclamei para Didi.

Ele sorriu e disse:

• É somente a porta.

Com a vista, procurei o barracão das festas. Didi explicou:

• Ainda vamos andar um bocado. O culto aos “babás”, aos “eguns”, é diferente do dos “orixás”. As festas aos “orixás” são francamente públicas. As dos “eguns” são íntimas, fechadas. Se o barracão fôsse aqui na praia, toda a gente, moradores e vera­nistas, se acharia com o direito de entrar. Por isso o barracão fica no meio da ilha, isolado e escondido. Só vai lá quem tem “negócio”. . .

• Por que tanto segrêdo?

• Você vai ver. Não perde por esperar.



O leque de Oxum

Parte 2

A caravana engrossada de várias famílias do povoado pôs-se a caminho. Em fila indiana, vaga­rosa e compassada, deixamos o arruamento, entra­mos na trilha feita a facão. Vegetação rica nos ceicava, rebentando de fôrça e beleza. Coqueiros que iam ao céu, penachos voando nos espaços, cajueiros esparramando-se no chão, estercando as raízes com os próprios frutos, entontecendo o ar com a resina, resina misturada ao cheiro da terra, terra que vira­va em mangueiras, mangabeiras, araçàzeiros, explo­dindo de viço, de frutos graúdos e coloridos. Samam­baias derramavam-se dos galhos, parasitas agarradas nos troncos, pintadas de flôres exóticas. Lagoas ne­gras, misteriosas, adornadas de baronesas lilases. Fontes límpidas e claras, brotando água como se fôsse leite. Cascatinhas cristalinas escorregavam pe­las rochas escuras, desfazendo-se entre as pedras-de- fogo, rutilando ao sol. E do tope das colinas, pano­ramas estendiam-se, deslumbramentos de côr e de luz, verdes e roxos da vegetação, brancos e amare­los das praias, azuis, verdes e lilases do mar, azul- rei cromado no céu sem nuvem. Cantos, côres e vida pulavam em redor: rubros sangues-de-boi, ca­nários de ouro, alvinegras lavadeiras de Deus, car­deais de barrete purpúreo, bem-te-vis, sanhaços, azu­lões, periquitos e beija-flôres.

— Isto é de fato o paraíso — comentei comigo mesmo.

De repente, numa volta do caminho, na desci­da do último morro, a opulência cessava. Área dura e sêca, terra parda, poeirenta, vegetação baixa, rala, de espinhos. Raros dendêzeiros lutando por viver, um ou outro coqueiro entregue à morte, xiquexique humilhado no chão. Urubus pairavam em vôos bai­xos, anuns pretos pousados nos galhos pobres, petri­ficados. Vapores subiam do solo, o ar parado, aba­fado. Comecei a suar, aquela mudança doendo-me como uma agressão inesperada; e só melhorou com o milagre lá embaixo no vale, da gigantesca e verde­jante gameleira branca: “loko” — pensei emocio­nado, fazendo como os outros, levando os dedos, da terra à testa, num gesto de humildade.

O barracão estendia-se sob a proteção da árvore sagrada, paredes levantadas da própria terra, telhas também feitas da terra, inclinadas em duas águas. Alguém nos vira, com pouco juntava-se multidão na capoeira a nos esperar. Era a comitiva de um reino chegando a outro reino. Uma rainha recepcio­nada por um rei. Todos ajoelhavam-se à passagem de Mariana, beijavam sua mão que ela concedia como um favor — “Bênção, minha mãe”, “Bênção, minha mãe!” — rogos elevavam-se como o côro de uma cantiga, até a “ialorixá” encontrar-se com o “ojé-agbá”.

* * *

0 barracão era vasto e fechado como um con­vento, de enorme salão sem janela, centro do edifício ligado com o exterior por uma única porta. Dossel de sêda azul, enfeitado de veludos e cetins, cobrindo vários tronos ajaezados. À frente do dossel, rente à parede, um banco comprido onde descansavam os atabaques, os agogôs, uma cabaça. Contra a parede oposta, uma cadeira de braço, com o nome de Ma­riana. Um largo espaço vazio, cimentado, à dispo­sição dos “babás” — se surgissem. O resto, para os fundos, era dos crentes e assistentes: o lado esquer­do, bancos simples de madeira, sem encosto, para os homens; o lado direito, esteiras para as mulhe­res e crianças. E lá para dentro da construção, um labirinto de saletas e camarinhas, onde se hospeda­vam as famílias que chegavam. Já os preparativos da festa se ultimavam. Grupos faziam a derradeira refeição. Gamelas de barro eram servidas, moque­ca de peixe com forófia de dendê, e abará, acarajé, acaçá. Quartinhas de “aluá” quebravam os ardores da pimenta. Por fim, o cafèzinho quente, tempera­do com rapadura.

O sol se escondia, luxuosos lençóis de côres es­tiravam-se no céu, foguetões subiam aos espaços. Os “babás” iam ser chamados, os “eguns” poderiam derramar-se pela terra, a selva vibraria de sons e vi- sagens, ninguém se atrevesse a cruzar os seus ca­minhos. Toques de atabaques exigiam que todos en­trassem. A noite fechava-se sôbre a ilha. A escuri­dão cobria o barracão. As estrêlas projetavam-se com nitidez. Entrei também.

Fifós acesos espalhavam bruxuleante claridade, projetando sombras pelo chão, pelos cantos, pelo teto. Os atabaques tornaram a bater, desta vez com mais fôrça e ritmo. O “padê” iniciava-se. Mulheres vesti­das de branco, só branco, puseram-se a dançar em redor da vela acesa, movimento de pernas, braços, mãos, ancas e cabeça variando de acôrdo com o ritmo dos atabaques. Mulheres, mais de cinqüenta, de tor­ço, de bata, saia rodada, a pele negra ou mulata des­tacando-se das roupas alvas. Velhas, adultas, adoles­centes, gordas, magras, altas, baixas, dançavam com harmoniosa exatidão, graça e elegância. “Oh! Exu, mensageiro entre os homens e os deuses, prote- gei-nos com sua interferência, recomendai-nos aos

“eguns”; que êles desçam em paz, tolerantes e sá­bios; impedi as desavenças entre vossos servidores, propiciai alegria a todos e em particular a esta fes­ta feita com fé, amor, obediência.”

Terminado o “padê”, os atabaques calaram-se. As mulheres sentaram-se. Os alabês descansaram. Depois de pequeno intervalo começou uma ladainha vibrante, puxada pelo “eiedun”, respondida pelo coral dos homens e das mulheres. Era em dialeto africano, melodia em “kêto”, de variações e tonalida­des musicais embevecedoras. Os atabaques soavam fracamente, em segundo plano. Quando a ladainha se finou, ardente silêncio se fêz, a expectativa reinou, era uma coisa física e palpável, tão respeitosa e in­tocada que se ouvia lá fora o leve farfalhar da game- leira, o serrar dos grilos, o coaxo de sapos perdidos no brejo. No interior do barracão, entretanto, só o queimar das torcidas dos bibianos arranhava a quietude ansiosa. Eu olhava as duzentas pessoas acumuladas no salão, sem conforto nem trégua, vi­vendo religiosamente, perigosamente, aquêle mo­mento grave. E todos os olhares se fixavam na única porta para o exterior, a respiração de quatrocentos pulmões represada, os músculos e nervos esticados, retesos, à espera, à espera.

Rumores esquisitos fizeram todos ainda mais tensos. Sôbre a leve agitação das fôlhas, dos sapos e dos grilos, ecoaram exclamações humanas, grunhidos inumanos, corridas súbitas, chicotadas, lamen­tos, gemidos. O “eiedun” ergueu-se e entoou vigoroso canto. Foi como o estouro de uma reprêsa. Ataba­ques rugiram e duzentas vozes retiniram, responden­do em côro. No atordoamento das vozes e dos to­ques reboantes, oito homens em grupo, oito titãs pu­laram de uma só vez para dentro da sala, batendo no chão varas longas e flexíveis:

• Bogbô mariwô delewô — bramia o “ojé lesé egum”.

• Rei! rei! rei! — respondiam os oito homens, tonitruantes.

• Etielerió! Etielerió! Etielerió! Ero!. . . Ero!... — cantavam as filhas mais velhas da seita.

• Iyá! Iyá! Iyá! Oôô!... — respondiam as demais.

Ainda bem não me refizera da surpresa com a entrada brusca dos “ojés”, outra maior assaltou-me: entre êles havia um que era branco de cabelos lou­ros, branco de olhos azuis.

Julgava-me preparado para tudo naquela noite, para tôdas as manifestações fantásticas de fé, de fa­natismo até o paroxismo. Jamais esperara encontrar num povoado de negros, entre os sacerdotes dum le­gítimo culto negro, um homem branco e louro, um estrangeiro europeu como “ojé” de “babá”, dançan­do, cantando, falando “kêto”.

À luz dos bibianos êle me parecia como um deus. E tinha a estampa de um deus, o rosto duma nobreza serena, os traços duma perfeição excepcio­nal, o corpo belo e vigoroso, as espáduas largas, cinlura (' quadris estreitos, braços possantes, músculos u ílor da pele fremindo e revelando-se a qualquer movimento.

Com a mesma subitaneidade que haviam sur­gido, cinco “ojés”, o branco inclusive, desaparece­ram porta afora. Ficaram três a guarnecer o salão. Um prolongado grito chegou aos meus ouvidos. O “eiedun” fêz um gesto. O mesmo silêncio de antes, opressivo e elétrico, reinou. Os “ojés” deixaram livre o caminho da porta e esperaram. Apertavam con­vulsivamente as varas que traziam. Suave farfalhar de sêdas aproximavam-se. Alguma coisa estava pres­tes a acontecer — pensava eu, sabiam todos, olhos arregalados, respiração suspensa, coração acelerado. E aconteceu. Uma figura estranhíssima — se é lí­cito chamar “aquilo” de figura — vinha chegando, mansamente, confiadamente. Passou pela porta sem se abaixar. E dentro da sala eu vi assombrado que sua altura ia até as vigas que sustentavam o telhado!

De humano só se via os pés, calçados com sapatos exóticos. E exótica roupagem cobria-o, mistura caó­tica de veludos, sêdas, cetins, bordados, espelhos, vidrilhos, contas, numa profusão indescritível de côres, de formas e reflexos. No silêncio de cemitério, cir­culou pelo espaço vazio deixado pelos “ojés”. Não parecia andar. Flutuava. Os atabaques voltaram a bramir: e o “babá” pôs-se a dançar com impres­sionante vigor e soberba masculinidade. Dançou muito. Sua energia parecia inesgotável. Finalmen­te parou. Os atabaques, obedientes, pararam. Man­samente como entrara o “babá” flutuou até o dossel,

sentou-se num trono e dali pôs-se a articular sons, para mim ininteligíveis, que o “eiedun” ou a “ialo­rixá” iam decifrando para todos ou, se era o caso, para cada pessoa em particular.

* * *

Depois dêste vieram mais sete “babás”. Até o “Babá-Olukotum” dignou-se a comparecer. Era o rei de todos e a todos suplantava em luxo e extra­vagância de roupas, na viril sobriedade de danças e extrema doçura ao falar. Há trinta anos não descia na Bahia. E estrondosas ovações o acolheram, fo­guetes estouraram no espaço, os atabaques, os ago­gôs, vibraram com furiosa alegria, todos se rojaram aos seus pés, tocando a testa no chão, suplicando sua bondade, sua magnanimidade, sua bênção:

— axé Babá!

Tôda a noite, tôda a madrugada, em conjunto ou isoladamente, os “babás” permaneceram em nos­sa companhia, dançando, conversando, resolvendo casos, dando conselhos judiciosos, reclamando coisas erradas, no meio de comovente adoração. Eu sentia, emocionado, a atmosfera de fé absoluta, mas sem angústia, sem sofrimento, uma fé plena de euforia. E sem pestanejar, sem cochilar, sentando, ajoelhan­do-se, ficando de pé, passamos doze horas seguidas, a atenção prêsa ao cerimonial. E só quando o sol nasceu, quando sua claridade penetrou pelas frestas do telhado, o último “babá” se foi.

Os “ojés” também se retiraram. “Rum”, “rumpi”, “lé”, emudeceram. O “eiedun” da “casa” re­colheu-se. Mariana também. Erguemo-nos. Saí com os outros para a luz do dia, espreguiçando os ossos que estalavam. Os caminhos molhados de se­reno ofereciam-se, puros e inocentes. Fui caminhan­do à toa, esticando os músculos cansados. Adiante axéi uma fontinha gelada, mergulhei a cabeça, la­vei o rosto. Galos cantavam muito distantes, um ou outro pássaro piava. Deitei-me no chão, a cabeça apoiada nas mãos, o olhar no céu que se tingia de rosas e amarelos. Meus pensamentos perdiam-se no tempo e no espaço em confusas reflexões sôbre os mistérios além de nós mesmos, nos desígnios das for­ças imponderáveis.

* * *





O leque de Oxum

Parte 3

Voltei repousado ao barracão. Na saleta reser­vada a Mariana, a “ialorixá” tinha pôsto a mesa. Cuscuz de tapioca, pamonha de puba, beijus, banana cozida. Agradeci-lhe seus favores, a viagem, a ilha, a festa, aquele gordo café.

— Bondade sua! — ela respondeu, esquivando- se aos elogios, com modéstia sincera. Agora você precisa dormir. Deve estar cansado. Já providenciei sua dormida.

Olhei em redor à cata duma esteira, rêde ou cama. Mariana surpreendeu meu olhar, tranqüi­lizou-me:

• Você vai dormir na beira da praia. Na casa de Undset.

• Undset? — e lembrei-me do “ojé” louro.

• Êle tem um coqueiral lá embaixo.

• Quem é êste homem?

• Um estrangeiro. Um sueco. Mora na ilha há muitos anos.

• Que coisa estranha!. . .

Ela sorriu:

• Que é estranho? Êle nada tem de estranho. É um homem como outro qualquer, como qualquer dêsses negros ou mulatos.

• Não, não é isso que quero dizer.. . — balbu­ciei temendo tê-la ofendido.

• Sei o que você quer dizer: achou estranho um homem louro, um branco legítimo, um europeu fazer parte de nossa religião, religião de africano, de negro.

Fiquei ainda mais constrangido pela observa­ção. Era exata. Procurei desculpar minha besteira. Mariana, porém, não se ofendera:

• Não se preocupe, meu filho. Eu também em seu lugar acharia isto muito estranho. E coisas real­mente estranhas contribuíram para Undset ser um dos nossos.

A conversa tomava rumo apaixonante. Mas não pude alimentá-la. Undset chegava. Mariana apre­sentou-nos. À luz do dia, nas circunstâncias nor­mais, vestido como eu, falando português, já não me parecia tão excepcional nem tão exótico. Mas pude reparar que êle não demonstrava o mínimo cansaço.

Como se seus nervos fôssem de aço. Conversaram os dois sôbre fatos da noite passada. Comia com apeti­te. Levantou-se, chamou-me. Saímos do barracão e retornamos à praia. Duma colina enveredamos por um atalho. Esbarramos numa cêrca viva de hi­biscos. Undset afastou a folhagem, me deu pas­sagem. Penetramos em seu coqueiral.

Acordei ao meio-dia. Fôra um sono como há mais de dez anos não experimentara: profundo, pe­sado, reparador. Levantei-me, saí do quarto, dei na varanda. Numa rêde, Undset estendia-se. Tentou levantar-se. Não o permiti.

• Que prefere agora? — perguntou-me. — Almoço ou banho?

O mar estendia-se pouco abaixo do coqueiral, muito manso, muito azul. O sol a pino levantava incêndios na água clara.

• Um banho antes, seria ideal.

• De mar, fonte ou cascata?

Era muito luxo para um paulista acostumado só a chuveiro:

• Primeiro, de mar. Depois tiraremos a sorte.

Ele já estava de calção. Vesti o meu. Fomos

para a praia. A areia fôfa, morna e fina acolheu- nos. Ficamos voluptuosamente derreados, gozando na carne a calidez do sol. Caímos nágua. Undset nadava como um peixe. Depois de algumas braça­das, parei ofegante, fiquei a apreciá-lo; fazia cir­cunvoluções, mergulhava, deslizava na superfície, identificado com o mar.

• Esta vida é engraçada — falei quando êle se deixou também ficar boiando, submerso até o pes­coço: minha profissão é corretagem de imóveis. Compro terrenos baldios, trabalho-os, lotei-os, en­cho-os de casas, edifícios, gente. Nunca, porém, co­meteria o crime de meter um trator nesta ilha, de transformar êste paraíso num inferno humano.

Undset sorriu alegremente:

• Também penso assim. Quando aqui che­guei meu entusiasmo foi igual ao seu.

• A diferença — objetei — é que você o desco­briu antes de mim. Confesso-lhe que, pela primeira vez, sinto inveja de outro homem. Gostaria de mo­rar aqui, de viver esta vida. Em vez disso continuo a vegetar num apartamento rodeado de apartamen­tos por todos os lados.

• É preciso coragem para abdicar do conforto, do progresso. Sempre fui contra o progresso que nos afaste da natureza. Para mim, de certo modo, foi fácil a escolha. Aqui mesmo quero morrer, e, embo­ra nunca pense nisso com tristeza, já escolhi onde vou ser sepultado.

Subitamente mudou de conversa:

• Estou com uma fome danada. Vamos comer?

* * *

Construção simples, paredes de tijolos sôbre al­venaria de pedra bruta. Telhado em duas águas, beirais salientes, sombreando a varanda larga que

rodeava a casa. Uma sala, três quartos, biblioteca, banheiro, copa, cozinha, tudo bem grande, bem amplo, cheio de luz, varrido de vento. Janelas aber­tas, rêdes estendidas, cortinas de cordas, de fieiras de contas, mobília essencial, peças de vinhático e ja­carandá, sem rigor de estilo. Arcas e santuários, imagens católicas de sabor primitivo, um Gauguin e outro Van Gogh autênticos. No resto das paredes, emblemas de candomblé.

Tomamos duas cachacinhas puras, saímos em busca da fonte de água doce. Andamos sob coquei­ros. Galinhas ciscavam livres, saqués gemiam aos bandos, uma esquadrilha de pombos ficou a esvoa­çar em tôrno da cabeça de Undset. Tínhamos anda­do uns duzentos metros quando estaquei, agradàvel­mente surpreendido. O quadro ante meus olhos era maravilhoso. Primeiro destacava-se, florido e viçoso, o pé de acácia. Estava carregado de flôres e opulen­tos cachos dourados chegavam ao chão. No chão, de areia alva, abria-se o poço. Era muito fundo mas transparente. Refletia todo o ouro das flôres que se debruçavam em seu espelho. Formava um círculo irregular e alimentava-se do âmago da terra e de uma fonte de água límpida que, gôta a gôta, escor­ria pela folhagem densa e selvagem de parasitas. Os pingos caíam mansamente sem perturbar sua sere­nidade. Roseiras de pontudos espinhos, de rosas ru­bras explodindo de beleza, rodeavam a fonte. Uma pedra negra, lisa, luzidia, emergia perto da margem. E sôbre a pedra, faiscando ao sol, um leque amarelo, de ouro maciço.

• É aqui o banho doce? — inquiri, antegozan­do aquela pureza, aquele frescor.

• Não — disse Undset. — Há dois anos nin­guém toma banho nesta fonte.

• Algum tabu?

Êle não respondeu diretamente à minha per­gunta:

• É a fonte de Oxum — disse simples, sêca- mente.

* * *

“Batidas” de cachaça com limão, catuaba, pi­tanga. Salada de lagosta viva, arroz-de-auçá, va­tapá, moqueca de siri-mole, frigideira de camarão fresco, ein louça de Limoges, com talheres brasona­dos. Água de côco verde no próprio côco, um velho vinho branco em cristal Fratelli Vita. E mangas de Itaparica, abius, sapotis, melancias. Cumbucas de araçá, doce de caju. Sôbre a toalha imaculada, o jarro popular onde brotavam flôres silvestres. A negrinha nova, bonita e risonha servia-nos com per­feição.

Depois, a varanda de brisa gostosa, o cafèzinho, a cachacinha final. O abraço da rêde, o fumo puro do “Suerdieck”, os olhos perdendo-se no azul pro­fundo do céu tão próximo. O sangue mornando, a memória perdendo-se, as pálpebras quebrando-se, músculos evanescendo-se. E a rêde elevando-se por artes de mágica, negrinhas esbeltas de sorriso bran­co, mãos de carícias levando-me à fonte. Embaixo da chuva de acácias, dançavam negras delgadas, miravam-se na água, engrinaldavam-se de rosas, cantavam cantigas maviosas e doces. E do fundo do poço, tão longínqua, diáfana, subia Oxum que o arco-íris coroava. E as negrinhas cantavam, davam- se as mãos; em redor de Oxum, tôdas giravam. Sentada na pedra, Oxum se abanava, do fundo da fonte música evolava. Dos céus, entretanto, roncou o trovão. Oxum e as negras pararam, escutaram. Nuvens fecharam-se, raios rolaram. As negrinhas viraram rosas, de Oxum restou seu leque.

Eu estirava a mão para tocá-lo quando acordei, amparado por Undset:

— Você estava caindo da rêde. Cheguei a tempo de impedi-lo.

—- E também de impedir de roubar seu leque — observei.

Contei-lhe o sonho.

— Alguém já lhe falou da história da fonte e do leque? — perguntou-me.

— Não. Ninguém precisaria falar dêles para me impressionar. Sonharei com o que vi, a fonte, o poço e o leque, pelo resto da vida. Mas adoraria saber a causa real da presença do leque, um leque de ouro maciço naquela pedra sem que ninguém lente roubá-lo.

— A história real? Até quando podemos saber que as coisas são “reais”? Quanto à sua origem, ao seu aparecimento, não só intriga a você como a mim, como a todos os nativos da ilha



O leque de Oxum

Parte 4

ERA uma emprêsa gráfica, especializava-se em livros de arte. Êle, o irmão e o pai, dirigindo os operários, controlando máquinas, debruçados ansiosamente na impressora, aguardando as estampas, comparando-as, examinando-as, consumindo-se. “A Pintura Egípcia”, “A Pintura Etrusca”, “A Pintura Bizantina”, “História da Pintura Italiana”, “Os Criadores da Renascença”, “História da Pintura Moderna”, “Leonardo da Vinci”, “Rembrandt”, “Picasso”. Eram edições de luxo, belas e requintadas. Os melhores críticos da Europa prefaciavam-nas. As reproduções aproximavam-se quase milagrosamente dos originais. O negócio corria próspero. Veio, porém, a Segunda Guerra. A Suécia permaneceu neutra. Mas a emprêsa perdeu mercado, o consumo interno não compensava os gastos, a falência aproximou-se. O jovem Undset era antinazista por convicção, embarcou para a Inglaterra. Estêve em Dunquerque e participou do dia D. Sentiu a guerra na carne, na alma, no pensamento. Foi ferido, hospitalizado, morre-não-morre, escapou. A guerra, o hospital, expulsaram-no da Europa. Achava que não poderia viver mais na Europa, na Suécia, fazendo ginástica no ginásio, curvando-se sôbre a impressora, mandando nos operários, economizando dinheiro, medindo salários, obrigando horários, tempo para trabalho, para almoço, para raciocinar, para amar.

O mundo chamava-o. Depois do armistício atirou-se pelo mundo. Entregou ao irmão sua parte da indústria que de novo tomava fôlego. Viajou como piloto dum navio cargueiro. Foi assim que aportou na Bahia.

Os dez dias que o navio demorou-se no cais, fizeram-no decidir-se. A cidade do Salvador penetrou- lhe até a medula. O navio se foi, Undset ficou. A cidade tinha um sortilégio que o enfeitiçou. Encantado, descobria a cidade, engolfava-se em seu mistério. Era uma vida ociosa, deliciosa, boêmia. Noites nos cabarés, envolvido com mulheres, brigando com marinheiros, comendo sarapatéis nas Sete Portas. Noites vagabundando pelos labirintos do Pelourinho, com outras mulheres, subindo escadas gementes, bebendo e amando, purificando-se na primeira missa da igreja de São Francisco. Dias perambulando pela cidade, pelos seus becos e ladeiras, por suas praias, por suas ruínas, pelos seus trapiches. Dinheiro acabou, êle se arranjou nas Docas, na carga e descarga dos navios, comendo nas barracas do Mercado Modelo, dormindo nos molhes das pontes ou no quarto duma amiga reconhecida.

A carta veio sem êle esperar. Era do irmão que o chamava à Suécia. Conseguira equilibrar a firma. Undset negou-se. O irmão insistiu: se não queria continuar sócio, tinha direito a retirar sua parte.

E com um cheque que era uma fortuna, vinham os papéis do distrato. A primeira coisa que Undset fêz foi tão grande farra que ficou nos anais do Tabaris. A segunda, comprou um saveiro, pequeno, leve, ágil, veloz, de vela pena e fácil manejo. Então a baía de Todos os Santos passou a ser sua. Deixava seu destino ao sabor dos ventos. Os ventos, um dia, levaram- no a “Barro Vermelho”. O preço pedido pela pequena fazenda, êle o pagou sem regatear. Comprou também um grande saveiro de carga. Reformou a casa ao seu gôsto.

— E aqui sentei praça, como o povo costuma dizer. Como você vê, uma história banal, sem drama nem mistério. A história de um homem simples que por acaso realizou o seu mais caro sonho da juventude, identificando-se com a beleza da natureza, o amor com as mulheres e a paz entre os homens.

Undset calou-se, balançava-se na rêde, o charuto prêso aos dentes. Eu lhe havia pedido para contar como chegara até a Bahia. E ouvi-o com inusitado interêsse, procurando recompor, apesar de seu laconismo e modéstia, como realmente teria sido a sua vida, perigosa e aventurosa, que êle dizia banal, sem drama ou mistério. A tarde quebrava-se, e, do mar, a brisa soprava mais forte. A maré baixava, a praia tornava-se mais larga, mais alva, como um lençol bem lavado, estirado a secar. Ao longe, as outras ilhas da baía recortavam-se no firmamento. Diversos foguetes espoucaram. A cozinheira, mãe da jovem que nos servira, aproximou-se:

— Nós já vamos, seu Undset.

Êle respondeu:

— Diga ao pessoal que subirei já.

A mulher saiu. Undset jogou fora a baga do charuto:

— Vamos subir? A festa recomeçará daqui a uma hora.

Eu não sabia da repetição da festa:

— Por quantas noites se prolongará?

— Desta vez, cinco. Apenas.

— “Apenas”?

— Está surpreendido?

— Desde que cheguei não paro de surpreender-me.

— Às vêzes, a festa se estende por quinze noites.

— Quinze noites? Seguidas? Dançando, cantando, tocando, emocionando-se, sem dormir, sem poder sequer cochilar?

— É a regra.

— Que energia possui esta gente!

— E considere que todos têm obrigações diárias: são saveiristas, simples marinheiros, pescadores, trabalhadores noutras fazendas, quitandeiros. . . E as mulheres têm de lavar, cozinhar, cuidar das crianças. . .

Undset começou a fechar portas e janelas.

— Por que tanto cuidado? — indaguei. — Ladrões?

— Não há ladrões aqui — respondeu. — São as tempestades. Caem às vêzes sem que as esperemos e estragam tudo.

* * *

Saímos de casa, tomamos o caminho do barracão. Pedi-lhe para passarmos pela fonte de Oxum. O perfume das rosas maduras, com a suavidade do crepúsculo, enchia o ar. Pétalas de acácia haviam tombado sôbre a água espelhante e a enfeitara de ouro. O poço tão limpo pela manhã, tão transparente, ganharia impenetráveis tons de veludo azul. Sôbre a pedra que luzia, continuava ali, desafiando minha imaginação, enchendo minha cabeça de fantasia, símbolo de mistério e de amor, o leque gracioso da deusa das fontes.

* * *

Depois que comprara o coqueiral, dera duro no trabalho. Estava quase em abandono, tinha muito o que fazer. Empregara dois homens. Com êles, consertara cêrcas, limpara o terreno do mato daninho, curara coqueiros doentes. Aprendeu a subir pelos longos caules com o auxílio dum cinturão de corda; e êle próprio, facão na mão, podava folhas, derrubava côcos. No correr das cêrcas plantara os hibiscos, cujas flores finas, róseas ou vermelhas, subiam a colina. Organizara a horta. E, no pomar, revivescera tudo, acrescentara outros enxertos. Mesmo depois de reorganizar a fazendinha, sempre estava à frente do serviço. Amava o trabalho violento e através do trabalho afastava a moleza espiritual e a degenerescência física.

Também êle próprio ia vender o côco recolhido. Enchia o saveiro grande, tomava o leme e, com os dois empregados cuidando das velas e do cordame, embicava para Água de Meninos ou o Mercado Modelo. Logo achava comprador. Com o dinheiro no bôlso tomava uns goles na barraca do Teles, comia as moquecas de Arlinda ou Maria de São Pedro, dava um giro pelas ladeiras, pelas igrejas da cidade, visitava livrarias, gastava o resto do tempo visitando mulheres.

Ao retornar à “sua” ilha, imergia no trabalho, em leituras noturnas, esportes. Nadava e mergulhava como um peixe. Caçava quando tinha notícia de alguma capivara destruindo plantações, de alguma paca entocada no mato. Mas preferia a pesca, não só pela emoção, como também pela maior intimidade do mar e pelo pretexto de vagabundar em seu saveirinho pelas ilhas vizinhas. E explorava os rios, grandes ou pequenos, que desembocavam na baía de Todos os Santos.

* * *

Passamos sua cêrca. Começamos a subir o morro. Undset ia falando, sem grandiloqüência, naturalmente, enquanto andava. Às vêzes interrompia- se, parava, receando incomodar-me, como se sua vida não me interessasse. Mas eu continuava a provocá-lo.

— Outro fato que vai surpreendê-lo — disse- me, pousando a mão sôbre meu ombro, — apesar de tôda a identificação com a terra, não admitia intimidades com o povo daqui. Entenda-me: não era preconceito racial ou social. Era uma maneira de defender meu isolamento. Dava-me bem com todos. Mas superficialmente. Nas coisas neutras, impessoais, eu os servia como êles poderiam me servir. Vivíamos, aliás como até hoje, no maior respeito mútuo. Mas houve um choque. Provocado por sua religião.

— Não diga! — exclamei.

— Eu já tinha ouvido, ocasionalmente, da bôca de alguns dêles, quando viajávamos juntos, de casos dos “eguns”. Achava pitoresca e mesmo linda, sua adoração pelos “babás”. De certo modo divertia-me com a fertilidade de suas imaginações e com o primitivismo de suas crenças. Não pensei contudo que viesse sentir-me incomodado por elas. Aconteceu a primeira festa. Os preparativos não deixaram de despertar minha curiosidade. Saveiros chegavam cheios de gente. Caravanas desciam na praia, de roupas vistosas, subiam a colina. À noite, os atabaques entraram em ação. Dez noites seguidas, do crepúsculo à aurora, os atabaques rugiam com pequenos intervalos. Você pode imaginar o meu desespêro? A direção do vento, com o desaparecimento do sol, muda completamente. E o vento trazia o toque bárbaro, trazia-o até minha casa, até dentro de meu quarto, soltava-o em meus ouvidos, com furor, sem piedade. Compreendi então por que o dono do coqueiral vendera-no tão rapidamente. O paraíso que eu julgara ter encontrado não passava dum inferno. Estava quebrado o encanto de seu intocado silêncio. Remoendo minha decepção, atormentado pelo fracasso, saí no saveirinho em busca doutro lugar. Mas em nenhuma dessas ilhas encontrei as qualidades da minha. Resolvi aceitar a situação. Consolou-me o fato de ser curto o período de festa. Com o correr do tempo a elas me acostumei como me habituara com as tempestades.

* * *





O leque de Oxum

Parte 5

Havíamos chegado, Undset e eu, a uma cascata vaporosa. A água muito fina escorregava num leito de seixos brilhantes e despencava aos nossos pés como uma cauda de noiva, umedecendo-nos a roupa e o rosto. Undset estendeu a mão como se fôsse uma concha: bebeu. Sentamo-nos sôbre um tôco de coqueiro caído. Fiz-lhe uma observação um tanto indiscreta:

— Você fala apaixonadamente de mulheres. No entanto, não vi mulheres em sua casa a não ser aquela negrinha. . .

— Nunca faltaram em minha casa — respondeu êle sem se perturbar. Havia mulheres até demais. De dois anos para cá há uma lembrança muito forte, muito viva a impedir que outras se sucedam. Quanto à negrinha que tanto o sensibilizou é apenas uma copeira. Não mais do que isso.

Amava as mulheres como a tôdas as coisas belas e deliciosas da vida. Mas detestava compromissos

de ordem sentimental. Além disso as mulheres eram ameaças à sua tranqüilidade. Como só as queria para o enlêvo dos sentidos, não lhe foi difícil resolver o problema.

— Em suas idas à Capital?

— Isso foi apenas no começo.

— Com as nativas?

— Como você viu, como a que trabalha em casa, há por aqui mulheres, negras ou mulatas, realmente apetecíveis. Mas sempre evitei-as. Esta gente tem um incômodo conceito moral sôbre o assunto. Um passo em falso redundaria em desagradáveis exigências de casamento, de amigamento. De qualquer modo, compromissos pelo resto da vida. ..

Quando ia à Capital, depois de noitadas com música, dança e champanha, êle fazia-lhes a proposta. Geralmente elas acediam, não só pelo ganho que o sueco oferecia como pela aventura em vista e pela beleza viril de Undset. Se alguma chegou a amá-lo de verdade, êle não procurou nem se interessou em sabê-lo. Não queria amor em seu sentido mais profundo e afetivo, mas a satisfação física, o gôzo do sexo, dos olhos, da bôca, das mãos. Jamais enganou alguma. Na ocasião de realizar a proposta era como se o fizesse a uma artista para o que êle considerava uma arte. Na ilha, tratava-as com o máximo de cortesia. Proporcionava-lhes atrações esportivas, passeios pitorescos. Às vêzes a separação levava lágrimas aos olhos delas. Undset, porém, contornava a constrangedora situação com excessos de delicadeza e sempre as conservava como amigas. Quando não eram as profissionais do Tabaris, naquele tempo cheio de mulheres bonitas, eram artistas que por êle se desgarravam das companhias de revista, eram bailarinas de algum “show” em evidência ou, no verão, algumas senhoras chiques que vinham para as águas de Itaparica.

Podia ser cínica e egoísta tal atitude. Mas não deixava de ser sábia, infensa ao perigo dos compromissos legais.

Foi uma dessas mulheres que o conduziu, sem o prever, ao destino que êle jamais supusera.

* * *

Undset, dentro do saveiro, distante da praia, jogava madeira e ferro velho para enriquecer seu pesqueiro. Ela esquiava no mar tranqüilo puxada a cem quilômetros por uma lancha de corrida; fingiu acidente. Undset socorreu-a e levou-a, com a companheira que guiava a lancha, até sua casa. Ela lhe confessou o propósito do acidente e a excitante curiosidade que êle despertava nas veranistas de Itaparica. Os três almoçaram juntos, juntos passaram a tarde e tôda uma noite agitada, imaginativa e ardente. Na manhã seguinte, a companheira se foi, Lúcia ficou. Ficou o resto da semana e o resto dos três meses de veraneio, à exceção dos sábados, domingos e feriados, quando o marido largava as diretorias comerciais e vinha desintoxicar-se em Itaparica. Perto de findar o veraneio, Lícia surpreendera movimento anormal no povoado. Saveiros embandeirados despejando gente vinda de várias direções que se encaminhava a pé para o interior da ilha. Negros e mulatos com roupas de cerimônia, cantando e tocando. Homens, mulheres e crianças expandindo-se de alegria e felicidade. Cheia de curiosidade, Lícia perguntou-lhes a origem daquilo. Apesar de baiana, nunca tinha ido a um candomblé. Insistiu para Undset levá-la.

* * *

Não conhecia as regras do ritual: só depois das nove horas pôs-se a caminho. Passou a cêrca da fazenda. Não chovia; mas nuvens pesadas cobriam as estréias. A atmosfera estava quente e para os lados do mar, no horizonte manchado pela massa das outras ilhas, clarões de relâmpagos iluminavam o céu. Há muito que os atabaques soavam. Seus toques se tornavam cada vez mais nítidos à medida que Undset e Lícia aproximavam-se. A escuridão tornava a caminhada difícil. E muitas vêzes êle teve de carregar a amiga. O calor e o exercício inundavam seu corpo de suor. O barracão estava bem próximo. O rugido dos atabaques entrava em seus ouvidos. Se de longe, refugiado no quarto, êle se sentia atormentado, agora, tão perto, no escuro, com tanto calor, o barulho começou a causar-lhe mal- estar. O barracão surgiu aos seus olhos. Fiapos de claridade saíam das telhas. Respirou quase aliviado. Ia descendo um degrau quando, no meio da trilha,

surgiu uma “coisa”. Não só êle enxergara. As unhas de I ácia enterram-se em seu braço:

— Undset, veja!

Não era ser humano nem a êle se parecia. Não era tampouco bicho, nada que tivesse visto até então. Lembrou-se das histórias que ouvira no barco, nas travessias sem vento. Lícia aconchegava-se ao seu corpo como se nêle quisesse penetrar, proteger-se. Abraçou-a. Ficou expectante, parado onde estava, sem mêdo consciente mas também sem coragem de iniciativa. A “coisa” também não se mexia. Não fôssem grunhidos roucos, palavras ininteligíveis, que dali saíam, Undset juraria ser alguma nuvem tocando o chão. Ocorreu-lhe que poderia ser também algum guardião, uma sentinela a barrar a passagem aos intrusos. Falou-lhe em português. Nenhuma resposta. Disse algumas palavras de “kêto”, que aprendera. Não distinguiu senão os mesmos grunhidos. Lícia pediu-lhe para avançar. O mêdo dava-lhe uma excitação anormal. Undset segurou-a pela mão e precedeu-a. Deu apenas dois passos. A “coisa” em sua frente mexera-se e crescia, ficou redonda, uma bola enorme. O suor frio deu banho em Undset. A mão da amiga crispara-se a dêle. O sueco procurava convencer-se de que ainda não tinha mêdo. A “coisa” parara. Mas continuava a rolar sôbre si mesma, girando em seu próprio eixo.

— Voltemos, Undset.

Lícia tremia, estava vencida. Undset quis voltar. Ao virar o corpo, estremeceu também. Outra forma fantástica cortava-lhes a volta. Era comprida e chata, lâmina de vidro fôsco, tão alta quanto um coqueiro. Aí, Undset teve a convicção do mêdo. Mêdo que não o envergonhava, que se assemelhava ao pasmo diante do desconhecido, do imponderável. Lícia se enroscava em seu corpo querendo nêle esconder- se. Undset procurou guardar o pouco de serenidade que lhe restava. A todo pulmão gritou o nome de um de seus empregados que sabia “ojé” da seita. Receou que o barulho dos atabaques tivesse afogado seu chamado. Ouviu, porém, chicotadas no chão, viu os “eguns” afastarem-se, lenta, renitentemente, para dentro do mato. Um homem de torso nu, vara na mão, surgiu das trevas.

* * *

Levantamos do tronco do coqueiro caído e lentamente penetramos num bosque de cajueiros. O forte odor de resina me invadia as narinas. Cajus gordos e maduros, vermelhos e amarelos, ofereciam-se nos galhos. Passarinhos e ondas de insetos os assaltavam com gula.

— Foi a visão dêsses “eguns” que o converteu? — perguntei.

— Não, mas me fêz levar a sério aquilo que até então considerava pilhéria. O “ojé” que nos socorreu introduziu-nos no barracão. Daí por diante, as sensações que Lícia e eu experimentamos foram de encantamento. Aquilo era completamente novo

para mim e para ela — nós, que nos julgávamos conhecedores de tôdas as emoções humanas.

* * *

Voltaram no dia seguinte. Desta vez chegaram antes do crepúsculo. Entraram aos primeiros chamados dos atabaques. Ocuparam os lugares que lhes foram designados, Undset no banco, em meio dos homens, Lícia sentada numa esteira, entre as mulheres. O “padê” começou. As mulheres, à exceção de Lícia, ergueram-se, puseram-se a dançar, homenageando Exu. Os atabaques tocavam em surdina, as mulheres cantavam baixinho. Seus pés descalços arranhavam o chão, completavam a música. Undset prestou atenção e conseguiu distinguir os toques. Sentiu prazer nisso. E, interpretados pelos movimentos das mulheres a dançar, os atabaques já não lhe pareciam monótonos nem desesperadores. Poucos bibianos acesos, pouca claridade no salão. Mas dava para Undset compreender os detalhes. Bandeirolas de papel de sêda enfeitando o teto, o dossel com os tronos paramentados, a atenção das crianças, o respeito absoluto de todos, a plasticidade dos “alabês”, a atitude de comando do “eiedun”, o círculo móvel das mulheres que dançavam. Uma a uma, elas emergiam da escuridão e Undset ficou a reparar nas características, nas feições, no jeito de cada. Olhava seus rostos, olhava seus corpos, olhava seus pés, as roupas e enfeites. De repente, Undset parou. A luz do fifó focalizara uma mulher lindíssima. Era negra, alta, esplêndida. Era uma beleza inesperada. Submergiu na escuridão. Undset deixou escapar o ar que prendera nos pulmões. Esperou ansiosamente que ela desse a volta, aparecesse de novo sob o foco da luz. Quando isto se deu, sentiu-se tomado de alegria e angústia. Havia majestade congênita na mulher. Dançava com leveza e graça, garbo e dignidade. Os olhos de Undset nela se grudaram, buscavam-na na escuridão, extasiavam-se quando o foco de luz clareava-a. Vestia-se de branco como as outras, saia rodada, engomada, bata rendada. Mesmo assim, escondida num mundo de anáguas, êle adivinhava a perfeição de seu corpo, graças à esbeltez de suas espáduas, à cintura que se afinava, aos tornozelos elegantes. E rosto oval, duma nobreza de expressão que denunciava ascendência de sangue real. E traços firmes, de integridade absoluta, integridade que não era só física, manava da alma. A bôca, a mais bela bôca que Undset já vira, tinha indefinível, atraente ar de superioridade e desdém. Só se lembrava de ter tido emoção semelhante aos dezoito anos. Seu sangue fluía, refluía à flor da pele, inchava em suas veias. Perturbou-se, desviou a vista, encontrou a de Lícia. Leve expressão de malícia brilhava nos olhos e no sorriso da amiga. Lícia percebera o que se passava com Undset. Mas não podia entendê-lo.

* * *

Tentou por todos os meios reagir aos sentimentos que o invadiram. Ao nascer do sol foi para a praia dos protestos de Lícia, não voltou às lestas subseqüentes. Não precisou dizer-lhe a causa. Iícia conhecia seus princípios de independência e paz e a ameaça que agora pairava sôbre êles. Ela própria lhe confessara, ao sair da festa:

— Nunca vi mulher tão impressionantemente

bela!

Sabia também que seu romance com Undset acabara. E quando a amiga da lancha veio trazer- lhe uma carta do marido, aproveitou a ocasião para ir-se. Undset ficou sozinho. E com êle, a aflição, a angústia. Empenhou-se em trabalhos exaustivos. Nada adiantou. A negra não lhe saía da cabeça. Frêmitos dum desejo dificilmente contido fustigavam-no sem piedade. À noite, os toques de atabaque chegavam num convite permanente. Seu sofrimento piorava.

* * *

— Você há de pensar que pouco me custaria aproximar-me dela. Pelo menos poderia ter tentado. Pensei nisso também. As mulheres não tinham segredos para mim. Aquela, porém, me intimidava. Havia qualquer coisa nela de distante e soberano, de frio e superior, que tolhia meu ímpeto. Conversei com minha cozinheira. Descobri o que lhe dava tanta dignidade. Não era uma simples “iaô”. Ao contrário, era importante “ialorixá” e sua “casa” tinha grande prestígio entre as demais. Estava ligada, portanto, a deveres sagrados, além de qualquer sentimento estritamente pessoal.

* * *

As festas acabaram-se. As comitivas desceram. Quando a de Matilde chegou à praia, Undset adiantou-se, falou-lhe:

— Será que nos encontraremos de novo?

Reparava que à luz do dia, banhada de sol, era

ainda mais linda. Os detalhes de seu rosto eram perfeitos. Um sorriso muito leve entreabriu-lhe os lábios:

— Quem sabe?

Foi rápido o olhar que fixou em Undset. Foi um olhar, porém, que lhe penetrou no fundo do ser. A mão que lhe estendeu não era macia nem fria. Como faziam os outros homens com as outras mulheres, Undset carregou-a, entrou nágua, colocou-a na pôpa do saveiro. Ela se foi sem se voltar, erecta, muito séria, rodeada por sua côrte, o sol nascente iluminando-a como a uma deusa.



O leque de Oxum

Parte 6

O seu pequeno mundo de paz, beleza e tranqüilidade, até então preservado com tenacidade, ruiu. Tudo em redor apequenava-se, perdia o valor, como se estivesse incompleto. As mulheres com quem tentou enganar-se pareciam-lhe vulgares, tolas, sem gôsto. Procurava em tôdas aquela dignidade congênita e não a encontrava. Sonhava com Matilde dançando, tôda de branco, leve e elegante, consciente de seu pôsto e, por isso mesmo, fora, muito fora de seu alcance. O contato da mão áspera c quente, a profundidade de seu olhar negro, tinham-no marcado indelèvelmente. E lhe doía. Numa madrugada desamarrou o saveiro de vela pena e singrou para o Mercado. Tomou um carro que o levou ao fim de Brotas. Depois de várias paradas e informações, chegou ao seu destino. Empurrou a porteira duma roça, mergulhou numa floresta de jaqueiras, cajàzeiras, mangueiras. Uma estradinha limpa levou-o a uma clareira. Passou por “loke”, rodeado de velas acesas, tigelas com comida e azeite, quartinhas contendo água. Um carneiro tinha sido imolado. Sua cabeça jazia entre duas raí-zes salientes, seu sangue misturando-se, ensopando a terra. Pequenas cabanas de sopapo, pintadas de várias côres, rodeavam o barracão fechado. Tudo estava silencioso e deserto, menos uma casinha amarela atrás do barracão. Sentada no batente da porta, uma menina chupava roletes de cana. À aproximação de Undset, ergueu-se e entrou. Reapareceu com uma velha gorda que vestia saia vermelha, blusa branca, colares e pulseiras vermelhas e brancas. Não pareceu surpreender-se à sua chegada. Não perguntou quem era nem o que desejava. Não deu boas-vindas, não estendeu a mão. Os olhos não o encaravam. Quando Undset perguntou por Matilde, a velha disse apenas que entrasse. Ofereceu-lhe uma cadeira e foi seu único gesto de delicadeza. Undset

sentou-se, esperou. A menina voltou ao batente e aos roletes. A velha sentara-se diante dêle, calada, uma expressão de inequívoca tristeza, de grande pesar, a tingir-lhe o rosto. Undset começou a sentir-se constrangido. Outras mulheres, velhas ou maduras, entravam ou saíam de vários quartos, passavam silenciosas, fitavam Undset com hostilidade, desapareciam. O sueco sentia-se agressivamente indesejado. Já se enchia de impaciência quando Matilde apareceu. Perfume de folhas silvestres exalava de seu corpo. Calçava sandálias brancas, vestia ampla saia de cetim amarelo. Sôbre os ombros, deixando entrever a nudez dos seios soltos, uma bata de rendas finas. Vários colares, assim como pulseiras, onde preponderavam amarelo e âmbar, rodeavam seu pescoço e os punhos. Duas escravas de ouro pendiam de suas orelhas. Os cabelos, penteados rentes à cabeça, formavam meticuloso coque na nuca.

Undset levantou-se, mudo, mirando-a apaixonadamente. Ela permaneceu no umbral da porta, também muda, os olhos no chão, as mãos no regaço.

— Não pude deixar de vir — disse êle por fim, como se estivesse desculpando-se dum crime.

— Já o esperava — sussurrou ela, quase para si mesma.

* * *

Já o esperava — e tempos depois êle veio a saber por que. Soube também a causa de seu olhar medroso na praia quando a carregara para o saveiro.

Soube u significação da tristeza e da animosidade das mulheres de sua “casa”. “Filha de Oxum”, Matilda no recesso de seu “peji”, jogava os “obis”.

— Alafia! — exclamava quando a sorte lhe era benéfica.

Mas seu rosto ensombreceu. Via uma Oxum muito feliz, rodeada de sua côrte, servida por suas escravas, morando num palácio sem igual. Suas irmãs visitavam-na, suas filhas adoravam-na, suas servas idolatravam-na. E os “orixás” abençoavam seu reino, ela inteiramente entregue ao sacerdócio. De repente um furacão a preveni-la, Iansã tentando salvá-la, Xangô enfurecido, jogando raios em seu “axé”, ela sem escutar os “avisos”. Um estrangeiro louro, tão diferente dos seus “ogans” afastando furacão, aparando os raios no peito, levando-a pelos caminhos do amor.

Esperava-o, seu destino estava, de nascença, ligado ao dêle. “Ifá” jamais a enganara. Sabia também que a vida lhe seria curta se o seguisse. Que “Xangô” expulsá-la-ia da vida se se fôsse com êle. Mas sabia também — e isso quem lhe dizia era seu próprio coração — que fôrça nenhuma, humana ou sobrenatural, a impediria de segui-lo.

Não partiu logo, porém. Os sagrados deveres de zeladora de sua “casa”, de “mãe” espiritual de muitas “filhas”, de instrutora de muitas noviças, de guardiã dos segredos e mistérios de seu rito, fizeram-na vacilar e lutar, sofrer e macerar-se. Procurou resistir. Mas Undset passara a viver em Salvador. E em todos os crepúsculos vinha cortejar sua deusa.

Trazia-lhe flôres e doces, peixe e incenso, sêdas e cetins, jóias e perfumes, frutas e búzios, cumulando-a de gentilezas, galanteios e palavras de amor. Esta constância serviu-lhe também de iniciação no candomblé de “orixás”. Assistia a tôdas as festas, “Xangô” e “Omolu”, “Oxosse” e “Oxalá”, “Iansã”, “Ogum”, “Iemanjá”, “Oxum”. Penetrava na essência dos espetáculos, compreendia pouco a pouco a linguagem dos instrumentos musicais, dos cânticos, das danças. Aprendia os valores das homenagens e o poder de cada “orixá”. Ouvia as suas lendas. Percebia o requinte espiritual daquela côrte aparentemente pagã e bárbara, e teve a convicção de que estava bebendo uma civilização consistente, caracterizada e forte.

Matilde lhe ensinava o dialeto africano, toques, cantigas e histórias. Sentia-se num mundo extraordinariamente agitado e colorido, cheio de preceitos, fundamentos e quizilas. Por isso compreendia o combate travado no espírito da amada. Juntos, os dois tudo fizeram para acalmar os caprichos e os ciúmes de Xangô. Undset ofereceu-se para casar com Matilde sem tirá-la de seu “axé”. Ela viveria metade do ano em “Barro Vermelho” e em Brotas todo o tempo do seu ciclo de “obrigações” e “festas”. Mas de nada adiantaram penitências, preces, sacrifícios, “despachos” e “boris”. Xangô não recebera Exu, ignorara as imolações de galos, bodes e carneiros, tapara os ouvidos a todos os rogos. Queria sua Oxum inteira sem repartir com estrangeiros. Queria sua Oxum só para si. Queria sua renúncia absoluta.

Vencida, Matilde entregou o mando a sua “dagã”. E quase às escondidas, como se tivesse corrida pelos “orixás” do terreiro, saiu da roça, refugiou-se no carro que Undset trouxera.

* * *

Barco amarelo, vermelho, côr de Oxum, côr de Xangô. Bandeiras de papel, amarradas em cordão, do mastro à pôpa, estiradas em festa. Peles de carneiro, colchão de pétalas, brancas-de-neve, leito de amor. Noite de lua, quarto crescente, chuva de lua caindo ao mar. O céu prateado, inundado de estréias, no fundo das águas. Peixes-voadores, brilhando no espaço, tombando no mar, levantando incêndios. “Caravelas”, “arraias”, fosforescências nas ondas, Iemanjá guardando sua irmã trânsfuga da ira dos irmãos. Lanternas vermelhas, velas enfunadas, saveiros cruzando. Barco amarelo, vermelho, balouçando nas ondas, ao sabor das correntes. A deusa nua, pétalas esmagadas, luar prateando sua pele negra. Noite aspirando gemidos de dor, o vento levando suspiros de gôzo, Iemanjá recebendo, de Oxum jubilosa, vermelho sôbre branco, imaculada rosa.

* * *

Amou-a como a verdadeira espôsa. Não só na lua de mel. Todo o tempo com ela vivido, serviu-a, dignificou-a, no que era apaixonadamente retribuído. Não tinha a fragilidade das mulheres comuns. Nem sua fácil coqueteria. Às sensações novas, vibrava com um prazer telúrico. Undset comparava-a a uma árvore sôlta na natureza, esplêndida e sadia, imune aos ventos e às tempestades. Tornou-se sua companheira ideal, tanto em casa, quando era dócil e meiga, como nas aventuras, nas caçadas, nas pescarias, quando demonstrava coragem, sangue-frio, energia. Nadava e mergulhava tão bem quanto êle. E se era dona dos mistérios dos céus, participava igualmente da beleza do mar. Entretanto, se na selva ou no mar, integrava-se perfeitamente, sofria de timidez e inibição perto das fontes, dos lagos, dos regatos e das cascatas. Se uma caça procurasse refúgio perto dum dêsses lugares, Matilde desistiria de persegui-la. Para banho doce só utilizava o banheiro da casa, nunca as fontes e cascatas que abundavam em redor. E virava a cara se passava perto duma lagoa, evitava caminhos que passassem por cima dos rios.

* * *

Um ano correu assim, num alumbramento de amor, Undset dedicando-se inteiramente a Matilde, ela também absolutamente dêle. Até que houve a primeira festa dos “babás” depois da união dos dois. À chegada do pessoal da Bahia, da comitiva de sua ex-“casa”, Matilde escondeu-se. Não apareceu à visita que lhe quiseram fazer, não recebeu sua substituta. Metida numa toca, chorava. Quando ia anoitecendo, voltou para casa. Undset nada lhe disse. Estavam à mesa quando o primeiro atabaque soou. Ela parou o garfo no ar, desceu lentamente a mão que o segurava, deixou-o ao lado do prato. Observando-a disfarçadamente, Undset reparou no aperto de seus maxilares, na tensão dos músculos de seu pescoço. Acabou de tomar o cafèzinho como se nada houvesse, levantou-se, chamou-a para um passeio. Ela afastou-se em sentido contrário ao vento, levou Undset para longe, até onde não pudessem ouvir os toques chamando os “eguns”. Deitaram-se ao abrigo duma canoa virada e ela se lhe entregou com selvagem lascívia. Voltaram quando o sol se erguia.

* * *

Na noite seguinte e nas outras treze noites, os atabaques não pararam. Undset conseguiu distraí- la alguns dias. Nos outros, foi impossível. Seu olhar tornou-se quase desesperado. Undset chamava-a, ela não o ouvia. Entrava no quarto, deitava-se e ficava de olhos abertos, escutando. Undset deitava-se também, deixava-a com sua dor, com sua luta. Mantinha-se entretanto alerta. Quando os toques dos atabaques recrudesciam, êle sentia, no escuro, as vibrações repercutirem no corpo de sua mulher. Ela só vinha a adormecer, exausta, quando o sol invadia o quarto.

* * *

Com o ciclo das festas acabou-se a tranqüilidade dos dois. Matilde perdia o controle sôbre si mesma.

Nas noites mais angustiantes ela erguia-se da cama e precipitava-se para fora. Punha-se a correr cegamente pelo coqueiral, batendo-se nos troncos, escorregando nas raízes, tropeçando nas pedras. Alcançava a praia, continuava a correr até tombar de cansaço, aos soluços. Undset, que trotava silenciosamente em seu encalço, chegava, levantava-se nos braços, trazia-a para casa se a aurora estava prestes a raiar ou metia-a no saveiro, rumando para fora de alcance dos atabaques se a noite ainda demorasse. Com febre alta, em delírio, ela soltava palavras em português e em “kêto”, que Undset ia juntando e compreendendo, cheio de apreensão, palavras que falavam num Xangô furioso exigindo, pura e íntegra, sua Oxum de volta.

Quando as festas terminavam, Matilde serenava, tornava-se de novo inteiramente de Undset. Êle procurava então convencê-la de que sua dúvida não passava de auto-sugestão, levando-a a falar, acreditando que isto contribuísse para afastá-la de seu passado mítico. Matilde não se esquivava. Reconhecia que a presença de seu pessoal trazia à tona tudo aquilo que ela quisera sufocar, que preterira pelo que ela julgava mais forte. Sabia agora ser inútil matar o que estava ainda vivo em seu sangue e em seu espírito; que continuaria até sua morte. Mas os atabaques agitavam seus pensamentos, conseguiam vencer seu raciocínio, trazendo para dentro da casa, na intimidade do quarto, a dançar em sua volta, suas irmãs de santo, suas “filhas” e seus “ogans”. Mais do que luta mental, era também um envolvimento físico, a criticá-la, a censurá-la, a amaldiçoá-la. Suportava quando podia, estòicamente a flagelação. Sentia-se no dever de enfrentá-la. Enquanto não surgia Oxum, podia combater com forças iguais. O seu pessoal era de carne e de sangue, ela lhe respondia com argumentos de amor. Mas quando sua Oxum “montava-a”, quando ela era a própria Oxum materializada, aparecia Xangô a chamá-la, resplandecente e implacável.

— Os “obis” não mentem, Undset. “Ifá” não engana. Estou marcada, não me deixe só, não me abandone.

* * *

Avistamos o barracão. O sol morria do outro lado e botava sangue pela boca. Céu e nuvens empastavam-se de vermelho e púrpura. Cigarras azucrinavam o ar. Mosquitos noturnos zuniam em nossos ouvidos. Os primeiros toques de atabaque soaram indecisos, espaçados, como o afinamento duma orquestra. Paramos sob a gameleira branca, gozando o último cigarro daquela noite.

— Três anos passaram-se — continuou Undset. — Uma noite, depois do jantar, demos longo passeio pela praia. Uma paz intocada reinava na ilha. As ondas, muito leves, desfaziam-se sem ruído aos nossos pés. Era uma dessas noites sem nuvens, sem lua, em que as estrêlas brilham sozinhas, destacam-se com todo o fulgor. Um silêncio quase absoluto nos rodeava. Do outro lado da baía, a cidade do Salvador estendia-se nítida e bela, banhada de luzes. Matilde ficou a olhá-la como se seu olhar pudesse ser uma ponte:

— Hoje é o dia do “Petê de Oxum”. Como estará a festa, em Brotas?

Voltamos e nos recolhemos. A brisa refrescava o quarto. A maré enchia e sua música nos embalava. Adormeci, mergulhando num sono profundo, sem sonho nem susto. Nada havia para temer. Matilde já adormecera em meus braços e nenhum ruído estranho perturbava a ilha. Dormi muitas horas. Acordei com estalos de trovões dentro do quarto. Relâmpagos acendiam-se contra a parede. E a chuva copiosa encharcava a cama. O vento acicatava o mar e os penachos dos coqueiros. O barulho do mar e da folhagem abatia-se com fragor sôbre a casa. Levantei-me dum salto, atirei-me às janelas. Ao voltar para o leito, dei por falta de Matilde. Julguei que tinha acordado e, como eu, estivesse fechando as outras dependências. Chamei-a. Não veio resposta. Procurei-a pela casa tôda. Não a encontrei. Estranhei sua ausência: naqueles dias não havia festa dos “eguns”. Contudo corri para a praia. A chuva abundante encharcava-me até os ossos, penetrava-me nos olhos, mas os relâmpagos facilitaram a busca. Matilde não estava na praia. Um raio coriscou no espaço e precipitou-se no pomar. Suas predições acudiram-me à cabeça. Um violento arrepio, que não era nem de febre, nem de frio, correu-me no corpo. Saí pelos fundos, corri em direção à fonte mais próxima. À fonte de Oxum. Um relâmpago fosforejou e enxerguei-a. Vagava entre os coqueiros como se estivesse sendo arrastada.

— Matilde! — gritei o mais alto que pude.

Meu grito foi esmagado por outro raio que fuzilou um coqueiro. O caule gigantesco tombou ardendo em minha frente, barrando meu caminho, como se tivesse caído para impedir meu caminho.

— Matilde! Matilde! — eu gritava sem cessar.

Os trovões retumbavam como eu jamais ouvira.

A chuva era uma só cascata. Meus pés chapinhavam na areia escorregadia, afundavam como se mãos dentro da terra os puxassem. Mesmo assim consegui chegar à fonte. Na pedra, elevava-se uma claridade estranha, fosforescente, a lembrar a forma de uma mulher, uma mulher que chamava. Aquele clarão me ofuscou e me fêz parar. Pregado ao chão, percebi Matilde entrar no poço, sua imagem confundir-se, fundir-se na outra. E então a luz dourada se esvaiu, a fonte tornou-se escura como antes, os relâmpagos apagaram-se, os trovões calaram-se, a chuva amainou e o silêncio ficou no ar. Meu corpo, que parecia amarrado a correntes pesadas, obedeceu então ao meu mando. Arrastei-me, entrei nágua, mergulhei repetidas vêzes no escuro sem que minhas mãos tocassem em ser humano. Manhã cedo é que vi, frio e dourado sôbre a pedra, o leque de Oxum.

Undset calou-se, jogou a baga de cigarro no chão, apagou-a com a ponta do pé. Os atabaques começaram a tocar, chamando para o salão os que ainda estavam no sereno. Foguetes subiram, espoucaram no espaço, anunciando que os “babás” seriam de novo chamados. A selva ia sacudir-se de sons e assombrações, os “eguns” poderiam descer à terra. Mas não me atemorizariam. Senti profundamente que estava no “caminho” dêles e seu “encanto” também me penetrara para sempre.

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