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sábado, agosto 02, 2014

Entendendo mais o Brasil e a diversidade religiosa


O contexto afro-brasileiro


Não podemos falar de religião e candomblé sem esclarecer algumas coisas desse contexto afro-brasileiro que não ajudam a entender e ainda por cima atrapalham. A Diáspora negra trouxe para o Brasil uma salada de etnias e chamar isso tudo de africano, como se a África fosse um só país e um só povo é a pior ignorância que podemos cometer. É o mesmo que chamar de americanos os habitantes do Brasil, México, argentina, Estados Unidos, chile, etc….

Afro-brasileiro é uma expressão que para a pessoa que quer entender alguma coisa não diz nada. No meio de todos os povos que vieram para cá, haviam ate mesmos os Muçulmanos (os Malês), ou seja, pessoas que tinham uma religião abraâmica. Religião, classe social ou desenvolvimento humano não foram os fatores que determinaram a pessoa ou o povo ser traficado. Foi apenas uma questão de vencidos e vencedores.

O conceito de tradição religiosa não deve ser confundido com a expressão religião afro-brasileira ou religião de matriz africana. Enquanto a primeira tem significado prático e real as outras duas não contribuem com nada. As pessoas gostam muito de expressões, adjetivos e pleonasmos que tem pouco significado real. Recomendo a todos se fixarem no conceito que foi explicado de tradição religiosa e expurgar da sua mente esses outros dois.

Como existem muitos povos no continente africano essas expressões são genéricas demais e colocam no mesmo contexto coisas diferentes. Não se pode tratar a África, um enorme e diversificado continente, com diversos países, povos, culturas, etnias e religiões como uma coisa única.

Isso é um erro comum, resultado de ignorância e preconceito.

A pior expressão, entre as duas, sem dúvida, é essa de “matriz africana”. Acredito que o judaísmo, o islamismo e o catolicismo devem ser também enquadrados como de matriz africana, porque Egito, Arábia e oriente médio estão na África também.

Assim, qualificar uma religião como de matriz africana quer dizer o quê? Ou apenas existe a África oeste e subsahariana?

O rótulo afro-brasileira pode ser usado de forma mais comum, entretanto devemos atentar que é uma denominação genérica para indicar uma mistura, no contexto religioso não nos diz nada. Não coloquem tudo que é afro-brasileiro com o mesmo significado. É impossível colocar tudo o que se encaixa no rótulo afro-brasileiro no mesmo pacote, afinal o Brasil é grande e a África um continente.

Eu tenho certeza de que aqueles que já leram livros do Verger devem ter observado, sem entender ou dar atenção, a um mapa migratório, mostrando os fluxos de negro entre a África e o novo mundo. Esse mapa é para mostrar isso, a diversidade de etnias e consequentemente religiões e culturas que vieram para o Brasil e suas proporções demográficas. É isso o que configurou a nossa formação.

Por exemplo o grupo étnico Bantu, muito grande na África, também veio para o Brasil em grande número (foi inclusive o primeiro a vir) e não tem nenhum vínculo cultural ou religioso com o povo Yoruba. Estabeleceram-se fortemente no rio de janeiro e a macumba tem origem nele. Contudo, a macumba ou quimbanda, não existe mais, hoje faz parte do contexto da umbanda, assim como as influências do bantu se dispersaram ao longo do tempo, muito diferente do grupo Yoruba cuja influência cultural passou a traduzir a africanidade. Não da para colocar na mesma panela o bantu e o yoruba e falar de um como se estivesse falando do outro.

O Bantu, uma etnia africana auténtica, foi trazida em grande número para o novo mundo. Apesar disso, nao conquistou o mesmo status de relevância que os Yoruba conquistaram em nenhum lugar que conviveram juntos. Os Bantu estão muito associados com a prática de feitiçaria e incorporações. Em cuba geraram o Palo Mayombe, que existe até hoje como um culto autônomo. No Brasil eles foram antecedentes à Umbanda, formavam o que se chamava de quimbanda ou macumba. Tanto o Palo mayombe como a quimbanda são facilmente, e corretamente diga-se de passagem, identificadas com o que podemos chamar de feiticaria. A quimbanda se localizava na periferia do Rio de Janeiro, mas, não tinha qualquer vínculo com o culto de orixá ou vodum que existe no candomblé.

Com o surgimento da Umbanda em 1908, a quimbanda Bantu foi acabando como manifestação independente. A Umbanda, sendo uma religião brasileira nascida e desenvolvida no seio da sociedade nativa, era muito mais forte junto a população e extinguiu ou absorveu todas esses cultos pré-existentes. Análise deste processo é interessante mas não será feita aqui. Todos os cultos anteriores à umbanda foram incorporados e algumas de suas características foram absorvidas pela umbanda como um todo ou então gerando uma corrente específica dentro da umbanda.

Dessa forma esqueçam a participação Bantu na formação da tradicao religiosa do candomblé. O Bantu se uniu a Umbanda com a qual tem muito mais identidade.

A umbanda por sua vez não é uma coisa única. Falar sobre a umbanda é bastante complexo, como também é qualquer tentativa de simplificar ou de não tratar como uma religião própria e complexa. Simplificações e maniqueísmo, como muitos gostam de fazer vão levar apenas a erros graves de entendimento.

A umbanda nao faz parte do conjunto religioso do candomblé. Não tem vinculo com nenhuma das 2 religiões que fazem parte deste contexto.

Como a umbanda é tipicamente sincrética e na sua história absorveu muitos cultos ou então sofreu influência de mais de uma religião, ela é formada por várias correntes doutrinarias e liturgicas diferentes. Todas guardam o nucleo ideológico e teológico comum da umbanda, mas, formatam a sua prática de forma diferente.

Mais de uma corrente da umbanda buscou elementos africanos, com intensidades diferentes e no caso do Rio de Janeiro, a maior parte delas adotou tambores, a linha de exu e nomes de divindades africanas em sincretismo com os santos católicos. Isso gerou uma aparente identificação dela com o candomblé e com a denominação de ser afro-brasileira. Essas duas coisas foram feitas por pessoas que não conheciam o candomblé e também a Umbanda.

Estou me alongando nessa explicação sobre umbanda mas ela é necessária. Antes de falar da religião do candomblé é necessário colocar as coisas nos seus lugares, e nesse lugar não cabem a umbanda e o candomblé juntos.

Mesmo a dita umbanda africanizada, nem antes e nem agora, entendeu direito os conceitos yoruba do candomblé. Se você se der ao trabalho de comprar em sebos livros antigos de umbanda, percebe fácilmente o que estou afirmando. Existem enganos e equívocos aos montes. Foram apenas copiados aspectos estéticos. Nem a teologia, nem a prática e nem as palavras eram entendidas.

A aproximação da umbanda foi, como expliquei com a etnia Bantu. Não foi com o grupo Yoruba ou Jeje que são quem formam de fato raiz do candomblé. Apesar de a umbanda ter adotado nomes de orixas Yorubas na sua prática esse uso é simbólico e não a aproxima da teologia Yoruba.

Esta proximidade é estética e não teológica. A doutrina central da umbanda é a caridade e doação, além da boa conduta moral e ética. Os vinculos com o catolicismk são muito grandes e fortes, se sobrepondo aos demais e distorcendo as teologias que absorveu ou sincretizou para acomodar a teologia católica.

A umbanda é uma religião brasileira, basicamente católica, que absorveu muitas correntes religiosas e religiões. Não existe uma unificação e as casas de umbanda seguem linhas diferentes. Existem algumas mais africanizadas, outras mais próximas aos espiritismo, outras mais ligadas a filosofias orientais e por ai vai.

Existiu uma corrente bastante africanizada da Umbanda chamada Omolokô. Seria uma mistura de umbanda e candomblé. Muitos chamavam de umbanda Omolokô outros apenas de Omolokô. Por muitos anos foi um adjetivo para denominar uma casa que misturava candomblé e Umbanda.

De adjetivo virou pejorativo, não se usa mais essa expressão. A umbanda Omolokô foi apenas uma formação de pessoas de origem Bantu que tiveram que aderir a Umbanda mas que reagiam a doutrina da Umbanda que era pregada na época, isso na década de 40, no século passado.

Essas pessoas fizeram uma mistura do bantu, da umbanda e de coisas do candomblé. O Omolokô não era Candomblé, apenas copiava. Não havia integridade teologica, apenas oportunismo. Como expliquei o grupo Bantu nao tinha qualquer relação com o grupo Yoruba ou Jeje.

De forma pejorativa a expressão Omolokô foi usada para qualificar aquilo que era de fato. Uma mistura religiosa, uma junção litúrgica, fruto de conveniência de uma pessoa que criou isso e que queria ter um culto próprio onde eke pudesse fazer o que quizesse.

Quando falamos de umbanda o assunto não é simples e não vou extender isso. Mas minha posição é essa, as explicações são no sentido de explicar que apesar de muitas pessoas incluirem a umbanda quando mencionam religiões afro-brasileiras, isso é um erro em todas as dimensões que podemos analisar.