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quarta-feira, agosto 06, 2014

A Composição do Candomblé


Este texto fez parte de uma maior recém publicado sobre a religião Yoruba e o Candomblé. Contudo eu fiz uma revisão significativa de algumas partes e já atualizei na postagem do texto integral.

Estou publicando aqui em separado para que as pessoas possam rever.


A composição do candomblé


Lamento pelos textos introdutórios extensos, mas, como disse no primeiro texto, falar de Candomblé dá mais trabalho, é necessário primeiro desconstruir alguns conceitos ou explicar outros. Assim não dá para falar de religião de Orixá no Brasil sem antes explicar o que é o Candomblé.

De forma simplificada podemos dizer que o Candomblé é uma tradição religiosa que representa a religião Yoruba no Brasil. Ela não é a única, existem outras tradições desta mesma religião. Além disso esta colocação inicial sobre o candomblé já não é muito precisa, como vocês verão mais adiante, contudo, preciso iniciar esta explicação com algumas simplificações para que o assunto possa ser entendido.

O candomblé é muito mais do que uma tradição religiosa.

Contudo para poder entender o que ele é de fato, é necessário falar um pouco mais dele. É importante que seja entendido que é impossível falar de candomblé como se fosse uma coisa única. Esse nome, candomblé, abrange várias correntes e divisões.

Candomblé é o nome que recebe um amplo conjunto de tradições religiosas e cultos que se desenvolveram no Brasil a partir da Bahia e foi trazido pelos povos, de algumas etnias africanas, que vieram para o Brasil durante o que foi chamado de a diáspora negra, povos estes originários da África ocidental. Este grande e diversificado conjunto cultural se agrupa, de fato, não em torno de uma única religião base, mas sim de 2 religiões, a do, grupo Yoruba, que eu já citei e a do grupo jeje do Dahomey. O candomblé é então formado até hoje por 2 religiões distintas e não somente uma, em função disto não é possivel tratar o candomblé como um todo, apenas em partes.

Pausa para respirar....

Chamo muito atenção para este primeiro aspecto de que, dentro do candomblé, termos DUAS religiões diferentes sendo representadas.

Nova pausa para que reflitam sobre este parágrafo...

Aqueles que não acharam essa informação importante devem repensar a sua relação com a religião. Religiões distintas implicam em um divino distinto, uma relação diferente entre as pessoas e o divino, finalidades diferentes para a existência das divindades, uma visão metafísica da vida diferente, um sentido distinto para a existencia humana e valores e ética diferentes.

Compliquei um pouco, sem dúvida mas aceitem que ninguém pode ter 2 religiões. A pessoa não pode ser catolico e budista ou induista e muçulmano ou messianico e evangélico. Religião implica em filosofias diferentes, não apenas em acreditar em deus. Esse conceito pode ser um pouco dificil para os cristãos que são uma religião majoritaria no ocidente e que tem 3 religiões muito parecidas disputando as pessoas entre si, que sao o judaismo, islamismo e cristianismo. Para eles é tudo muito igua mas quando saimos deste contexto de religioes irmãs e vamos para um contexto pluri-religioso de fato, não se pode dividir.

Veja então a dificuldade em tratarmos do candomblé que é citado como se fosse uma coisa só e que na verdade é composto de 2 religiões diferentes.

Meus textos sempre cobrem apenas uma dessas religiões, a religião Yoruba e 2 cultos desta religião. Isso é apenas uma parte do candomblé.

O contexto afro-brasileiro, por sua vez, é ainda mais amplo. O candomblé com toda a sua complexidade é apenas uma parte deste contexto, existem outras tradições que as pessoas podem, até, estar achando que é candomblé. Mas eu vou abordar isso em um próximo texto.

A religião Yoruba, que é uma das religiões que existem dentro do candomblé, se manifesta através de cultos distintos. O principal, mais importante e mais conhecido culto é o de Orixá. Existe ainda o culto de Egungun e o culto de Ifá. Os cultos são subdivisões da religião com especialização litúrgica, cada um desses citados se dedicam a divindades diferentes ou melhor entendendo a objetivos teológicos diferentes.

As casas se identificam exclusivamente com uma religião e um tipo de culto, e este tem formato, liturgias e ritos diferenciados. Não existe possibilidade de uma casa se dedicar a mais de um culto ou raiz religiosa, quando essa regra é quebrada isto representa um erro e tenham atenção porque existem muitos mas muitos erros mesmo. Este texto não fala dos erros, fala do que é o certo, contudo, cuidado ao lidar com o dia a dia das pessoas e casas. Fala-se muita besteira e cometem-se muitos erros.

O culto de Orixá lida com os Orixás, o de Egungun com os ancestres falecidos e o de ifá se dedica apenas ao oráculo da religião.

Não se pode referenciar ao Candomblé como “um” candomblé. Quando alguém fala de candomblé, a primeira coisa que se deve entender é de “qual” candomblé se está falando.

Antigamente, esta diversidade levava as pessoas ao chamarem de candomblé de nações, porque haviam várias nações que eram representadas dentro dele. O conceito de nação é flexível e pode qualificar tanto o grupo religioso principal, como Yoruba e jeje, como também etnias que estabeleceram variações litúrgicas e ainda, reagrupamentos locais que também estabeleceram variações litúrgicas.

A tradição religiosa de candomblé é nomeada no singular apenas por razões históricas, de fato o termo unificado “Candomblé”, cuja origem etimológica não é conhecida, é somente uma simplificação muito grande e que leva as pessoas a suporem uma unidade religiosa que não existe.

O conjunto religioso formado pelo candomblé é de fato difícil para os brasileiros entenderem, mesmo para os seguidores, porque cada seguidor pertence a um microcosmo e não necessariamente conhece o todo, comumente conhece onde ele próprio está e alguma parte adicional.

No contexto brasileiro, além do candomblé, temos a umbanda, o espiritismo, o catimbó, o toré, o batuque, o xango, o tambor da mina e a casa da mina. Posso, ainda, estar esquecendo de alguém, visto o tamanho de nossa diversidade....

O espiritismo é de origem francesa e nada tem a ver com a África. A Umbanda, o Catimbó e o toré são brasileiros e nada tem a ver, também com a África. O Batuque no Sul e o Xango no Nordeste são tradições religiosas com origem Yoruba. O Tambor da mina e a casa da mina, no Norte são de Origem do Dahomey

Estas tradições, apesar de serem totalmente diferentes, aos olhos do leigo eles podem parecer que são todos uma coisa só ou que tem uma origem única ou mesmo que sejam Candomblé. Não são.

A verdade como eu mostro é que não tem nada em comum. O leigo certamente olha para esse conjunto, não o entende e chama isso tudo de afro-brasileiro ou de matriz africana, sem saber que, como eu disse, a África é um continente não um país e que neste conjunto encontramos ainda cultos brasileiros e ameríndios. Buscar semelhanças entre eles é insano e idiota.

As pessoas sempre buscam simplificação para superarem a sua preguiça ou ignorância, assim, em vez de entenderem a nossa riqueza cultural e religiosa fazem o pior, inventam algo que não existe usando explicações idiotas. Isso aumenta a confusão. Como um amigo falou, é muito fácil escrever sobre candomblé, você inventa o que quer e tem um monte de gente que ainda acredita. A mídia escrita e televisiva que é formada de 3% de jornalistas que tem neurônios, apenas torna isso pior chamando tudo que não é cristão de afro-brasileiro. Como já repeti inúmeras vezes o catolicismo é afro-brasileiro.

Eu imagino que os cubanos que estão vindo para o Brasil trazer o seu ifá e a reboque o lukumi que é a tradição de orixá deles, tem aumentado a confusão porque inserem um novo elemento neste “caldo”. Primeiro devemos lembrar que eles devem ter uma absurda dificuldade de entender o candomblé. A tradição deles, o lukumi, é unificado e tem inclusive uma regra de formato, todos fazem igual, ou com pequenas variações, afinal cuba é apenas uma pequena ilha. O candomblé é muito maior, rico, complexo e diversificado. Eles podem chegar aqui tentando traçar semelhanças entre o lukumi e o candomblé, mas falham, largamente, em entender uma coisa que está muito além do que eles podem entender.

O lukumi pode ser comparado, no máximo a um pequeno pedaço do candomblé, uma nação, como o Omolokô ou ao Angola que mistura religião Yoruba com Bantu, ou como a gente diz, candomblé com umbanda. O lukumi é uma mistura muito grande da origem yoruba com o bantu e o catolicismo. Não da para comparar com o candomblé. O que eles fazem é o mesmo que as pessoas de umbanda fazem ao tentar explicar ou entender o candomblé em função do que eles conhecem. Nem os umbandistas entendem o candomblé nem os cubanos, e ambos acham que sabem tudo e de fato nada sabem de nada.

Além da questão das nações, que criou inicialmente diversidade, o candomblé foi responsável por um processo de profundo de transformação da própria religião Yoruba, processo este que está sendo absorvido pela própria tradição africana. Na terra Yoruba, a religião e os cultos eram regionalizados e muito mais especializados, sendo agrupados em aldeias, cidades e famílias. Além disso as próprias divindades eram elementos de agregação. Enquanto no Brasil nós tivemos uma especialização em 3 cultos, na terra Yoruba, o culto era segmentado por divindade.

No Brasil, a estrutura Yoruba original era impossível de ser refletida. O modelo família, clã, aldeia e região era inviável devido a situação de escravos que as pessoas viviam aqui. O candomblé criou a figura do terreiro como ponto de união e substituição disso tudo, incluindo uma unificação litúrgica uma vez que um terreiro inclui, aqui, o culto a todos os orixás. O terreiro substituiu a família, o clã, a aldeia e o templo. A figura do terreiro reconstitui na tradição religiosa da Diáspora os elementos perdidos da sociedade Yoruba e sua constituição, no formato que tomou, foi um pilar importante na religião, mantendo melhor os vínculos teológicos originais do candomblé com a religião Yoruba.

Os lukumi de cuba, não tem o elemento terreiro ou mesmo egbe e isso explica bastante o distanciamento deles e a atitude agressiva que alguns grupos cubanos e de pessoas iniciadas por cubanos, tem tomados em relação a tradição Yoruba. A única explicação que eu encontro para a forma agressiva como cubanos de lukumi ou ifá se dirigem aos nigerianos ou seguidores da tradição Yoruba é, ou a necessidade de se justificarem no mercado religioso (de jogos, ebós e iniciações) ou um problema de autoestima por eles se acharem menores ou diferentes. Reconheço que não sei a causa, apenas posso imaginar.

Lamento os comentários que alguns podem não gostar. Não pretendo comentar sobre o Lukumi, Cuba é uma ilha pouco mais que o estado do Rio de Janeiro e com uma população equivalente. É impossível a gente querer comparar a riqueza cultural que temo no Brasil com uma ilha e população tão pequena.

Voltando ao candomblé, os 2 principais grupos religiosos presentes no candomblé são o Yoruba e o Jeje, cada um deles representa uma base religiosa distinta. Elas possuem similaridades, algumas ligações ou coisas em comum mas não são a mesma religião.

As diversas nações formam subdivisões do candomblé e pertencentes a uma dessas 2 religiões. Algumas pessoas podem estar notando, e estranhando, que não menciono o Angola no mesmo nível que o Yoruba ou jeje. Ele não está neste nível. O angola é uma nação de Candomblé, como as demais que serão citadas. O angola deveria pertencer ao grupo bantu e este grupo não tem uma base religiosa equivalente aos Yoruba ou Jeje. Eles são similares a umbanda, onde deveriam estar. O que ocorreu foi que, pessoas da bantu copiaram o modelo Yoruba, fizeram adaptações linguísticas e inventaram uma nação para eles, mais especificamente uma nação para uma religião que na áfrica nunca tiveram. Isso não os desmerece como uma tradição religiosa Yoruba. Mas eles são um grupo étnico que adotou a religião Yoruba e criou uma tradição própria para a etnia deles.