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sexta-feira, agosto 09, 2013



 A FALSA CERIMÔNIA DE OBA ORIATÉ


(não existe nenhuma que seja verdadeira...)

Como brasileiro e oriundo do Candomblé eu tenho inúmeros reparos e observações a fazer em relação a prática do Ifá cubano carregando a variante Lukumi aqui no Brasil, mas, o tema não merece nenhuma insistência ou direcionamento de minha parte. Minhas posições críticas surgem naturalmente nos textos que são publicados. Contudo, alguns assuntos podem sim merecer um tratamento mais especial. Este é o caso da distribuição dos Oba Oriaté que é feita aqui no Brasil, como aliás em outros lugares.

No meu restrito conhecimento de lukumi, todo ele oriundo apenas de conversas com pessoas do culto Lukumi, nunca me permitiu compreender a possibilidade e o sentido da distribuição de cargos de Oriaté para brasileiros que se aventuram no Ifá Cubano. Eu ouvi algumas explicações, mas, não aceito nem mesmos as ponderações das razões, e vejam que eu perguntei diretamente sobre isso.

Na minha visão o Oriaté é um cargo que um Olorisha atinge com a maturidade, conhecimento e experiência. É requerido notável saber para uma pessoa ser um Oriaté. Um Oriaté, na minha visão é aquela pessoa que conduz todas as liturgias e desta forma domina toda a sua tradição religiosa. Eu havia entendido que haviam 2 tipos de sacerdotes, os babalorisha e os Oriaté, sendo que apenas os segundo tinham o completo domínio da liturgia. Entendi que você podia ser um Babalorisha, ter seus afilhados e requisitar o suporte de um Oriaté toda vez que necessitasse.

É um modelo distinto do usado no Candomblé, mas, um modelo possível, tanto que eles fazem assim lá e esse modelo também se repete no Ifá Cubano, onde você pode ser padrinho de uma pessoa sem ter ainda o direito de fazer isso sozinho, você "aluga" isso.

Este meu entendimento, contudo, é contrariado pelo fato de, algumas pessoas, que nada sabem a fundo de Lukumi terem ganho esse cargo aqui, no Brasil, sem prática, neófitos de fato e ainda mais através de Ifá!

Bom, sem saber o que falar eu ficava na minha. ...

Mas, nas últimas semanas, por acaso tive acesso a um livro escrito por um Cubano no qual ele critica justamente a mesma coisa que eu criticava, a distribuição a troco de dinheiro de cargos de Oriaté. Claro que continuo sendo uma pessoa de pouco conhecimento em Lukumi, mas, fiquei satisfeito por saber que não sou idiota, porque consegui entender o que me explicaram antes.

Dessa maneira faço uma tradução livre de um trecho do livro de Miguel Ramos, chamado Obì agbón: lukumi divination with coconut, que pode ser facilmente comprado em edição digital na loja kindle da amazon.com. Eu gostei do livro e recomendo para quem quer conhecer o uso de cocos como oráculo.

Eu sei que o Sr. Miguel Ramos não é por assim dizer uma pessoa muito bem conceituada, em alguns aspectos. É um típico comerciante de liturgias, como os muito que nós mesmos temos aqui aqui no Brasil vindo de Cuba. Mas, enfim, a parte dessas cubanices dele, que não são muito diferentes das nossas, ele é um acadêmico, é Lukumi e uma pessoa que produz conteúdo Lukumi.

O que importa não é o que ele faz e sim o conteúdo que ele gera que, sendo dele mesmo ou copiado de outros não faz diferença se o que retrata é real. A questão de autoria, não me interessa, o que importa é o conteúdo ser consistente, lembrando sempre que, como estamos falando todos da mesma religião, falar de conteúdo original é bem difícil.

O trecho que vou destacar a seguir e comentar, não é nenhum conteúdo especial, está no prefácio do livro, de forma que é então uma mensagem do autor que vou ajudar a passar.


Aqueles que não gostarem, principalmente os que receberam o cargo de Oba oriaté aqui no Brasil ou que estão dando esses cargos, peço que direcionem suas reclamações para o Sr. Miguel “Willie” Ramos, o autor do livro, que é quem escreveu isso, eu apenas estou reproduzindo.

“... Para ser uma Iyá ou babalorisha, um Oriaté ou um Babalawo, o indivíduo deve ter Odus específicos na sua ordenação (iniciação) Itá, que determinam que isto é possível e acima de tido isto ser sancionado pelos Orisha. Na religião Lukumi, status, títulos e hierarquia são baseados em um Odù, e em muito rituais, Iyalorisha, Babalorishas, Oriatés e de muitas formas os Babalawos são nascidos, eles não são feitos ou forçados for ego, vaidade e outros fatores.

** é interessante observar que os Lukumi tem uma aproximação muito séria com Ifá lá e usam Ifá de uma forma integrada, levando a sério a questão de Odù. Isso é diferente aqui no Candomblé e por isso que muitas pessoas se impressionam com eles. Odù e Ifá viraram um sinônimo de sofisticação e por eles se expressarem assim impressionam os menos informados *** 


O que faz esse problema ser mais sombrio é que muitos poucos tem o treinamento adequado para exercer o ofício que eles tão obsessivamente imploram e frequentemente praticam sem nenhum profissionalismo, ética ou conhecimento, que são partes intrínsecas e indispensáveis destas hierarquias e status. Esses fanáticos jamais entendem, ou possivelmente não se preocupam, que eles estão colocando a vida de outras pessoas em risco.

Podem me chamar de pessimista se você quiser, mas hoje nós estamos debaixo de um desafio de uma grande desastre e sofrimento...


...A religião Lukumi foi capaz de sobreviver a inúmeros obstáculos que a confrontaram devido aos nós que a própria comunidade sofre. Conhecimento, respeito e senso de propósito foram os princípios de resistência e continuidade que permitiram a unidade do coletivo mesmo nos momentos onde o individualismo prevaleceu em todos os níveis. Orientação foi um elemento importante. Cada classe de sacerdotes aprendeu sobre suas funções sacerdotais por causa da estrutura que havia em volta deles, de casas e mais velhos que os pressionavam. Olorishas foram ensinados pelos seus mais velhos e foram focados no seu propósito que era o de reconhecer a importância dos Orisha e na pratica de uma religião.
O aprendizado começava de baixo. Os olorishas começavam tirando penas de aves, limpando o chão e sujando suas mãos nos trabalhos mais duros e cansativos. Uma vez ordenados eles continuavam seu caminho do fim da fila, ascendendo, demonstrando respeito pelos mais velhos, ganhando conhecimento e respeito. Somente o verdadeiro interesse, dedicação e humildades eram recompensados e tudo se transformava em amor a sua religião.

Oriatés foram selecionados e treinados por seus mentores, um reconhecido Oriaté. Por longos anos. Os candidatos trabalhavam junto com um Oriaté mais velho e ficavam por longas horas com trabalho duro e pressão. Quando esse Oriaté mais velhor entendia que o aprendiz estava maduro ele seria “iniciado”. Esta “iniciação” era basicamente a apresentação do novo ORIATÉ para a comunidade, quando o candidato deveria fazer um Itá na frente de todos e depois ser julgado pela própria comunidade se ele já estava apto.

** Notem que o entendimento deles não é distinto do nosso para o processo de aprendizado **

Ao contrário do que se faz atualmente, não existe nenhum outro processo para se tornar um ORIATÉ. O ORIATÉ é o produto de aprendizado e treinamento e demonstração pública da capacidade e habilidade de fazer o seu ofício. Não existe nenhuma cerimonia ou ritual de iniciação.
….
No Brasil, Ifá e os Babalawo estão extintos desde o fim do século XIX. Babalawos Nigerianos começaram a influenciar o Brasil depois de 1960 quando muitos viajaram para ensinar Yorùbá em universidades. Este processo iniciou uma Africanização tardia do Candomblé no Brasil. Depois os próprio Babalawo Cubanos vieram para o Brasil e introduziram a variante cubana. No Brasil, os Babalawo cubanos estão causando uma divisão devido a introdução de novos rituais de Ifá que não tem lugar na tradição e na região, como é o caso da FALSA CERIMÔNIA DE ORIATÉ.


Candidatos que não são considerados dignos para serem iniciados em Ifá e principalmente sacerdotes homosexuais, são orientados através de uma divinação de Ifá que devem receber o cargo de OBÁ ORIATÉ e assim pagam e são submetidos a essa FALSA CERIMÔNIA que não tem lugar no Lukumi...”


Eu destaquei apenas algumas partes do texto. O relato é mais rico em detalhes em substantivos e também adjetivos. Quem quiser ter acesso ao conteúdo integral que é bem esclarecedor deve procurar o livro na AMAZON.COM.

O autor explica que em um momento de Cuba, pessoas que haviam sido deportadas voltam a ilha e iniciam esse processo não tradicional de criar cerimônias que não existem e vender o que não deveria ser vendido. O fluxo entre os EUA e Cuba permitiu que essas pessoas buscassem conhecimento ou legitimassem um comércio de coisas que não eram adequadas pela tradição da ilha.

O mesmo ocorreu aqui no Brasil com a vinda de cubanos e Nigerianos. Ambos fazem aqui coisas que não fazem dentro de suas tradições. Idiotas são aqueles que não procuram sabem o que é certo e compram coisas que são ilegítimas.

Dentro dessa ilegitimidade, segundo Miguel Ramos está a criação de uma FALSA CERIMÔNIA de Obá Oriaté, criada apenas para tirar dinheiro de incautos. Ele também comenta que essa função, de Oriaté não tem lugar no Candomblé. Essas pessoas não são reconhecidas no Candomblé como sacerdotes. 





Chamo a atenção para o aspecto que o autor destacou que não existe cerimônia verdadeira de Oba Oriaté, todas são falsas.

Aqueles que se sentirem atingidos pelos comentários, lamento, procurem o Miguel Ramos. Esse Blog não tinha posição sobre o assunto, mas, visto ao exposto entende que o Miguel Ramos deve estar correto