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terça-feira, agosto 21, 2012

Serão os Orixá (Òrìṣà) elementos da natureza ?
NÃO! ELES NÃO SÃO!!

Este texto é um pouco extenso, mas trata de um assunto importante que principia o entendimento desta religião. Já cansei de ver gente incansavelmente falando bobagem de maneira que estou republicando uma nova versão revisada.

Não necessita ser nenhum expert na religião, mas podem encontrar alguns conceitos que não conhecem.

Eu sei que pouca gente consegue ler e entender o que lê, mas, façam um esforço. Eu acho um dos melhores textos que eu já fiz.

Existe um conceito generalizado que associa òrìṣà (orixá) a elementos da natureza no sentido literal (e não figurado) de dizer que òrìṣà (orixá) é um elemento da natureza . 
Esta, é uma bobagem que está sendo repetida milhares de vezes e que com isso acabou virando uma verdade para muitos. Estou aqui dando minha contribuição para acabar com isso, porque, depois de me debruçar sobre esse assunto, analisando referências teológicas e, mais ainda, versos de odù, eu tenho uma opinião completamente divergente e gostaria de apresentar aqui. 
Na minha conclusão este erro ocorre por diversos fatores. O principal é que é um sincretismo religioso, equivocado, entre religiões que não guardam semelhança. É uma forma equivocada de compara ou tornar equivalentes diferentes religiões feito por pessoas levianas. Por fim, e mais importante ainda, é uma parte do grande processo que houve, inclusive entre os ditos estudiosos, de desprezar a religião Yoruba e em função da dificuldade ou do preconceito para entendê-la de fato.
Então veja, Ṣàngó (Xango) é um eborá, um òrìṣà (orixá) divinizado e não um dos òrìṣà (orixá) originais assim, como ele poderia ser o fogo, o trovão ou um vulcão, que são elementos que existem desde o início dos tempos? O vento é ọya (óia) ? Mas ela também é divinizada, assim, o vento já existia antes dela ela, e ela não poderia ser o vento,uma força da natureza. Na nigéria a sua história esta associada com um Rio. Ọ̀un (Oxun) é uma irúnmalẹ̀ (irunmalé) um òrìà (orixá) original da criação e poderia sim estar ligada com a água, mas ser a agua? Jamais, ele esta na realidade intimamente ligada com outras qualidades. Por fim, sem exaurir o estoque de bobagens, as pessoas dizem que Ọ̀àlá (Oxalá) é o ar, por que? Nunca encontrei isso no versos de Odu. 

Essa visão  muito onírica dos òrìṣà (orixá), um sincretismo com a religião greco-romana e com religiões européias como a bruxaria tradicional, wicca, etc...

O preconceito é a raiz disso tudo. As pessoas não esperavam encontrar uma religião complexa junto a um povo simples, como os Yorubanos, assim, elas avaliaram superficialmente a religião e fizeram associações dela com outras que eles conheciam.

Essa ligação de uma divindade com os elementos da natureza existe em algumas tradições religiosas, muitas delas politeístas puras de fato, que não é o caso da religião Yoruba. A mim  parece mais uma forma de sincretizar a religião africana com formas politeístas e animistas seja por preguiça ou preconceito. 

Por esta razão, dizer que os òrìṣà (orixá) são as forças da natureza como eu canso de ouvir é o mesmo que dizer que Ṣàngó (Xango) é São Jerônimo, Ọya é Santa Barbara, Ògún é São jorge. É o mesmo que ouvir babalorixá explicando a vida e a reencarnação usando a doutrina espírita  Mas a seguir vou abordar isso em partes..


A ORIGEM DO SINCRETISMO

Podem acreditar que, não existe nada que eu tenha lido ou ouvido que remeta a ligação de òrìṣà (orixá) como sendo um elemento da natureza. Vou me explicar adiante, mas, na minha opinião isso se trata apenas de sincretismo mal feito com as tradições pagans da Europa em geral, incluindo a  Grécia onde o panteão dos deuses dessas tradições era associado com comportamente, especialidades e elementos.

Estas religiões politeístas tinham uma característica comum que era a de dedicar cada um dos seus deuses a uma especialidade. Isto era necessário porque os deuses representavam o mundo que viviam e, como nas tradições politeístas, não existe uma divindade maior que originou tudo, cada divindade ou deus tinha que ser responsável por um aspecto do universo. Assim a unidade era na verdade formada pelo conjunto de todos. 

O poder era dividido e não havia preponderância de uma divindade sobre a outra, como na natureza, uma coisa poderia fazer ou desfazer o que outra fez e o homem devia prestar algum tributo a todas se quizesse ter paz. Este é o modo da natureza, as forças se equilibram pela harmonia ou pelo conflito. Claro que a existência de cada deus estava associado a necessidade de alguém controlar alguma coisa e por isso a necessidade de muitos deuses. O sentido da palavra panteão, que é usado incorretamente para a religião Yoruba, é este, esta vasto conjunto de deuses controladores da ordem.

Para tornar as coisas mais complicadas, a igreja católica criou uma denominação genérica e sem nenhum significado real, de PAGAN, para qualquer outra religião que não fosse Abraamica, ou seja, que tivesse origem em Abraão o patriarca que gerou as correntes do Judaismo, cristianismo e islamismo. Estas 3 religiões competem pela posse do mesmo deus e tem a mesma origem. Os Judeus não reconhecem mais ninguém, afinal eles é que são os escolhidos. Os cristão que nasceram judeus, reconhecem uma das partes do judaismo que é o antigo testamento e por fim, os mulçumanos, os mais recentes, século VII, reconhecem tudo das anteriores, inclusive Jesus, mas não a trindade católica.

Dessa maneira ao longos dos últimos séculos, eles tem se matado, sempre em nome do mesmo deus sanguinolento, Jeová.

Para os Cristão, que dominaram o mundo à força da espada, aliás como também o fizeram os judeus no seu tempo, o que não era católico era Pagão. Eles só não tiveram coragem de chamar os Judeus de Pagãos, mas criaram o termo herético, para aqueles que divergissem da interpretação teológica oficial de Roma... Assim, pagão, não tem significado religioso, significa tudo o que não e católico.

Os abraamicos consideram o seu deus, Jeová, o único e defenestram qualquer outro tipo de manifestação religiosa. A partir do século XV a igreja católica baniu toda as praticas que mostrassem similaridades com simpatias, encantamentos e feitiços. A igreja medieval era totalmente esotérica, mas para se afastar disso eles baniram completamente essas
práticas, de modo a poderem a partir do século XV dominar os seus fiéis através do temor ao mal, ao diabo e a perseguição ao pecado. Estudiosos do aspecto do Mal na religião correlacionam o surgimento da força do diabo com a necessidade de um controle mais rigoroso da sociedade pela forma política, uma vez que, esse temor (ao diabo) e domínio (o pecado), não existiam anteriormente. Igualmente isso coincidiu com os papas-generais, guerreiros que literalmente com a espada na mão construíram a Igreja que conhecemos hoje. 


O próprio celibato, que não havia, dizem, foi devido a igreja passar a ter posses. Eles não queriam se envolver em disputas judiciais com esposas de padres, bispos e papas. Enfim, a força da reforma, de Lutero e Calvino, obrigou a igreja a mudar sua posição e adotar políticas mais ativas e restritivas ao seu clero.

No centro de todo este conflito ficaram as religiões de fato politeístas que tinham uma interpretação diferente da divindade e dos seus poderes. As correntes celtas e bruxaria tradicional viam a terra como centro de tudo. Assim a natureza era o sagrado e seus poderes eram invocados através de nomes que os traduziam. 

Os politeísmos clássicos não tinham a idéia de uma divindade superior. O poder era compartilhado e uma coisa influenciava a outra. A vida era mais simples e mais lúdica. esse mesmo tipo de religião ocorria em Roma e também na grécia. Assim duas coisas co-existiam, o politeísmo no qual o poder sobre a natureza era exercido por multiplas fontes e um grande número de deuses que traduziam esses poderes que eram a natureza em si. O uso da palavra Panteão esta assim associado não somente a um número grande de deuses mas também ao politeísmo. Essas religiões passaram a ser então a tradução da palavra paganismo.

A expansão européia para a Africa expôs os europeus, sufocados por séculos de opressão religiosa, a um novo conjunto de culturas e também de religiões. Os métodos científicos estavam longe de terem sido os mais  éticos, assim como os primeiros a irem para a Africa estava longe de serem os cultos e eruditos preocupados (mesmo que minimamente) em estudar, conhecer a verdade e respeitá-la. Os primeiros foram os comerciantes, que somente visavam o seu lucro e militares que apenas queriam impor sua vontade.

A interpretação e análise do que eles encontraram foi assim um misto de simplificação e sincretismo. Acredito que longe deles se preocuparem em entender de fato as culturas locais, a sua idéia de superioridade tornava todo o resto menos importante. Dessa maneira, aliado a incapacidade deles em se comunicarem livremente com os nativos, devido a lingua, a religião encontrada na Africa por similaridade de características grosseiras, foi associada ao que já encontravam no paganismo Europeu. Não houve uma preocupação de de fato se entender o que se encontrava.

Temos que reconhecer que métodos científicos e ética científica se hoje em já não são fáceis de serem encontrados, naquela época era muito, mas  muito mais difícil.

A religião Africana por sua vez não é simples. Estava longe de ter uma perfeita uniformidade ou mesmo estar pronta a se adaptar aos padrões classificatórios europeus. Assim, entre 2 opções básicas monoteísmo e politeísmo, sem muito pensar, foi considerada politeísta em vista da quantidade de Deuses encontrados. Sendo politeísta e considerando a natureza cheia de espíritos, tinha que ser similar as diversas correntes Pagans já existentes e conhecidas.

Mais recentemente esta questão tem sido revisitada e novas classificações tem sido criadas para se classificar culturas e religiões mais complexas, mas, para o povo comum pode ser que isso nunca chegue assim, a cultura dominante no mundo ocidental é a Abraamica e assim, ou você é monoteísta ou politeísta.

Em função disso a religião africana, no geral, mas principalmente e Candomblé, ganhou o cunho de paganismo e seus Deuses, tipicamente ancestres, viraram forças da natureza. Entretanto, não existe nada que de valor a isso. No caso do Brasil o kardecismo francês criou toda uma visão espiritual própria que se ligou a Umbanda. Como a Umbanda erroneamente (tão errada como usa nomes de santos para seus guias ela usa nome de Orixás do Candomblé. Ambos sem nenhuma relação) se ligou a Orixás, essa mistura confundiu as pessoas que se confrontaram com a visão distinta do Candomblé. 

O mal entendimento do Candomblé passou por essa associação e também por pessoas como Nina Rodrigues que nada sabiam de Candomblé e que passaram a escrever como se tivessem algum autoridade sobre o assunto.

Tudo isso acabou colocando as religiões não cristãs, no Brasil, em um mesmo saco, furado, de ideologia espírita.

O esoterismo europeu é fortemente influenciado pelos cultos ditos pagãos, como os celtas, stregheria e com o renascimento da bruxaria na forma da Wicca. Outro aspecto influente são as irmandades gnósticas como roza-cruzes, thelema e por ai vai. Tudo isso exerce forte influência sobre a nossa sociedade ao direcionar o entendimento do que seja não cristão ou esotérico.

Em função da lastimável e miserável formação religiosa dentro do Candomblé,  estes conceitos de força da natureza se estabeleceram dentro do próprio Candomblé. Os Babalorixá e Iyalorixás, apesar de terem a propriedade para falar, mas, sem qualquer capacitação passaram a repetir esses conceitos que lhes eram impingidos pela sociedade culta. 

Os que não gostam de ver eu dizer que a formação religiosa do Candomblé é deficiente devem observar que o acesso a mitos ou poemas de Ifa é restrito ou inexistente. O hábito de discutir teologia no Candomblé não existe. Você não consegue juntar 3 babalòrìṣà (babalorixá) sem que seja para eles rasgarem seda entre eles. Poucos estão dispostos a colocar em questão o que sabem ou o que pensam, exceto se for uma cátedra onde ele fala e outros ouvem. 

Essas pessoas normalmente não são preparadas para, falar em público, discutir suas teses, dirigir pessoas, lidar  com desafios verbais e até mesmo orientar o aprendizado de pessoas. São muitas vezes pessoas muito boas, agradáveis e com conhecimento das suas liturgias.

Existe uma dificuldade na formação de sucessores. Pior, as pessoas não se preparam e se capacitam para ter uma casa. Existe uma legião de pessoas com pouco ou nenhum acesso a conhecimento que mesmo  assim, sem legitimidade ou capacidade  abrem casas e passam a ser auto-titular de sacerdotes e representantes da religião.

É claro que essas pessoas, sem terem aprendidos com os seus mais velhos, tem que se virar com algo ou com o que tem. É neste campo que essas concepções idiotas florescem. O que mais vemos  é pai de santo, metido a besta, que responde perguntas usando os conceitos do kardecismo-espirita. Mas, afinal, eles vão dizer o que? Que não sabem?

É claro que a vertente conhecimento não é o forte do Candomblé. A vertente forte é a devocional, a fé. Para isso você não precisa saber o que é, você sente o que é e você também acredita porque sente e vê. A resposta mais comum para quando se pergunta uma coisa do tipo o que é o Candomblé ou o que é o òrìṣà (orixá) ou qualquer coisa de aspecto mais teológico será algo que começa com "eu amo meu òrìṣà (orixá)..." e por ai vai uma torrente de expressões de sentimento e fé. Isso reflete o que ela sabem, e elas sabem o que sentem.

Esse é o jeito pelo qual esse tipo de sincretismo é aceito e prolifera. Assim como os africanos fizeram no passado com os antropólogos, as pessoas sabem o que é, elas sentem o que é, e se esta definição, de elemento da natureza satisfaz o inquisidor, que o seja. Isso não impede entretanto que em espaços ou oportunidades como essa a gente possa visitar ou revisitar questões como essa, ou a reencarnação ou o conceito de nascimento e destino, as proibições, etc... evitando assim que da nossa própria boca saia coisas como o Karma.

É claro que saber ou não o que parece certo não faz uma pessoa fazer melhor um santo do que outro. àṣẹ (axé) e roncó é outra coisa, mas, não tem nada demais a gente poder tratar dos assuntos com outra base.


A questão do POLITEÍSMO e do MONOTEÍSMO

A gente pode voltar a essa discussão depois, mas, esta é uma discussão um pouco complicada porque é muito poluída por preconceitos.

Em termos de definição para uma religião ser politeísta não importa a quantidade de divindades e sim a qualidade delas e de sua relação. 

Em uma religião politeísta não existe uma divindade superior as demais, todas tem o mesmo poder e não existe assim uma força reguladora do conjunto.

O Candomblé, como outras, não é politeísta porque existe uma relação bem clara de hierarquia entre Olódùmarè e as demais divindades. Assim, possuir divindades, originais ou divinizadas não transforma uma religião em politeísta, senão, o catolicismo com seus santos e sua trindade também o seriam, mas ninguém ousa fazer isso.

Em função de preconceito, conforme eu já me expliquei anteiormente, as religiões abraamicas tem esse interesse histórico em diminuir e marginalizar as demais religiões. Como eu já expliquei e estou apenas lembrando, todas as religiões que não são cristãs, são denominadas pagãs. Assim, eles, de forma ignorante, simplificam essa discussão a um modelo muito singelo. Tudo ou é monoteísta ou é politeísta, baseado no modelo de referência deles. Se é igual ao modelo deles, é monoteísta. Se é diferente então é politeísta. É o binário burro.

O maior problema ao tratar do assunto religião na sociedade é que o  preconceito domina essa a conversa toda a ponto de as pessoas que não gostam da abordagem cristã, elas mesmas, sem saber o que dizem, afirmam que  não fazem parte de uma religião monoteísta.

Claro, porque o modelo de escolha que é imposto deixa pouca margem para discutir. As religiões cristãs que querem dar prosseguimento ao preconceito histórico contra as outras correntes religiosas chamam todas as demais de politeísta. 

Isso não é correto. Mas também não é uma ofensa como essas pessoas querem afirmar. Sim, na visão delas, uma religião "boa" é a monoteísta. O politeísta não é colocado como um atributo e sim um defeito. 

Mas existe um outro aspecto também tão ruim quanto esse. A maior parte das pessoas, ignorantes no assunto, prefere aceitar sua religião ser chamada de seita e dizer que é politeísta. Duas coisas menores na visão dos cristãos.

Para os cristãos, seita é uma coisa menor um pedaço da religião verdadeira, e isto está correto uma vez que o termo nasceu do judaísmo onde as seitas são tradições que divergem da interpretação tradicional das suas escrituras.

Politeísmo remete ao velho testamento, quando os próprios judeus adoravam deuses zoomórficos, na forma de animais como o carneiro. Isso, para eles, era um episódio negro e assim poiteísmo é um pejorativo.

As pessoas do Candomblé devem entender que ao aceitarem serem chamados de seita ou de politeísta pelos cristãos não estão apenas sendo classificados erradamente. Estão sendo ofendidos e diminuídos.

Pessoas que pertencem a uma outra religião devem primeiro se informar para poderem primeiro entenderem a si mesmo e também poderem discutir com elementos de outras religiões, ao invés de aceitarem tacitamente rótulos inadequados, seja pelo aspecto que é um uso inadequado de conhecimento seja porque a finalidade é de fato ofender. Assim temos uma dupla ignorância.


AS SEMPRE CONTROVERSAS FONTES DE INFORMAÇÃO RELIGIOSA

Os antropólogos que estudaram a Africa ao longo do século passado e talvez do anterior se preocupavam muito mais com o aspecto da sociedade. Eles não tinham formação ou  formulação religiosa como um fim, mas, entendiam que não poderiam falar sobre o povo sem falar sobre a religião uma vez que uma coisa permeava a outra. 

É como hoje em dia a gente estudar um pais muçulmano. Não dá para falar da sociedade sem falar da religião. Contudo as enormes dificuldades de comunicação e a preocupação dos africanos estudados em agradar aqueles que os pagavam levaram a respostas e interpretações equivocadas. Os próprios yorubas foram em parte responsáveis pela visão errada que se criou da religião deles.

Posteriormente na medida em que africanos foram sendo educados na europa e tiveram acesso as ciências humanas e sociais e ao que foi escrito sobre eles, eles voltaram a Africa para fazer os seus próprios estudos. Idowu em seu livro "African Traditional Religion" descreve que houve 3 fases nos estudos sobre os africanos. 

A primeira, a da ignorância, a segunda, onde quem escreve já passa a respeitar que existe uma diferença cultural e que existe de fato uma cultura não conhecida mas comparável a deles no lado "nativo" e, a terceira, onde finalmente entram em cena os escritores africanos.

É claro que em vista da enorme fragmentação que existe na base de conhecimento sobre a religião africana existe muito pouco consenso. Existem muitas verdades, existem mentiras que de tanto serem repetidas viram verdades e é claro existe a competição pela autoria do conhecimento. Da mesma forma todos querem que sua verdade seja a certa. Assim, existe um grupo de autores teológicos que são muito questionados devido a sua origem cristã. São pessoas que se formaram padres e voltarem ao Continente para escrever sob sua religião natural.

Sobre eles temos que fazer algumas considerações. Primeiro julgar todos eles devido a sua origem como sem credibilidade é apenas preconceito. Mesmo aqui no Brasil, pessoas de origem pobre somente tinham no passado uma forma de estudar que era em colégios religiosos e até mesmo seguindo a carreira religiosa. 

O acesso a educação de qualidade era praticamente impossível. Da mesma forma eu considero que muitos africanos passaram pelo mesmo processo. A sua educação somente foi possível ao se transformarem em pastores. Quando tiveram a oportunidade se transformarem em acadêmicos. 

É muito comum que uma pessoa para se dedicar a estudar uma religião sob o aspecto teológico tenha passado inicialmente por uma educação cristã. Veja os antropólogos ocidentais majoritariamente deveriam ser cristãos. Mas, isso não pode significar que o que eles escrevem esteja comprometido ou não tenha valor.

O método de se fazer isso e o conteúdo revelam a intenção. Se não for assim temos que considerar que todas as obras de antropólogos são inválidas ou questionáveis uma vez que somente se fizermos uma investigação detalhada da vida pessoal dele poderemos desvendar suas intenções. 

Eu acho impossível ser assim e prefiro me ater ao conteúdo em si. Isso esta longe de ser um comodismo, ou simplificação ou ingenuidade, mas, temos que sair do outro lado e para isso eu presto atenção ao conteúdo e é claro à comparação do conteúdo. 

Em relação a outra crítica aos escritores africanos que é a de que eles estarem se re-escrevendo, ou sejam,  repetindo os anteriores. Um escreve uma coisa e os seguintes  repetem  o que este fez. Desta forma, críticos consideram que estamos tratando do mesmo conteúdo original equivocado e não da confirmação do conhecimento através de fontes diferentes. 

Eu lembro que isso é uma pratica de todo mundo. Todos usam a bibliografia como referência para não terem que refazer estudos e se alguém repete algo é porque concorda com aquela abordagem.

Se formos considerar isso um equívoco temos então que jogar tudo o que existe fora. No caso da cultura africana estamos diante de uma impossibilidade de re-estudo em vista de que, a cultura original deles foi destruída pelo escravagismo, por eles não terem língua escrita, pela morte dos que sabiam, etc.. Assim em determinados momentos a única forma é crer nos registro que foram feitos porque refazê-los é impossível.

Mesmo essa questão bem simples, como, o que é o òrìṣà (orixá), que todo mundo já deveria saber ou dizer se reverte em polêmica. É claro que qualquer um que seja de uma casa de Candomblé sabe o que é um òrìṣà (orixá), porque ele o vê nascer, ele o sente. Ai esta manifestado o aspecto sentimental e devocional. Essa é a parte fácil. 

O que nos é difícil é discutir questões filosóficas e teológicas com nós mesmo e com outros que não entendem nada e, pior, avançam com idiotices e preconceitos. Isso nos leva a sempre ficar isolados ou discutindo e rebatendo as mesmas coisas, que são o malefício, o sacrifício, etc..., questões menores porque não se discute o que é comum nas religiões que é a fé e o significado disso na nossa vida.

A ORIGEM DOS ORIXÁ (òrìṣà)

Eu vou fazer uma abordagem tradicional e minha referência é o texto do
Odù oxetuwa. Para não se ter dúvida eu carreguei o texto desse odù neste Blog.


Eu recomendo que seja lido, ele contêm inúmeros conceitos e fundamentos importantes. Este texto foi extraído originalmente do livro Os Nago e a Morte, mas, existe em outras obras. Essa é um versão que esta no Blog é completa com inserções de outras versões que eu li.

Neste odù fica claro que Olódùmarè criou o mundo, populou-o com os homens e enviou os òrìṣà (orixá) para poderem ajudar os homens na sua vida, na superação das dificuldades.

Eram 16 e havia somente uma mulher entre eles, Oxun, que representa o poder feminino original. Desta forma, se os òrìṣà (orixá) foram enviados para suportar os homens de calamidades naturais, não poderiam eles mesmos serem os próprios elementos da natureza, conforme a visão das religiões pagãs européias. Este odù estebelece uma distinção entre as divindades de Olódùmarè, suas funções e a natureza.

Na religião Yoruba existe um conceito bem básico que define 2 tipos de orixás. O primeiro grupo são os orixás originais, divindades da criação. Outros são ancestres divinizados, pessoas, homens, que ganharam muita importância e relevância junto ao povo de foram divinizados, se transformaram em Orixás.

Tomemos por exemplo as divindades femininas que tiveram uma origem comum somente em um Orixá,  Oxun a única que estava na criação. Oya que muitos consideram como sendo o  vento não poderia o sê-lo porque ela é claramente um ancestre divinizado, e o vento já existia antes dela. 

Oya (Ọya), bem como todas as divindades femininas são cultuadas e associadas com o elemento agua. Assim Oya esta ligada a Rio ògùn, òxun ao rio com seu nome, Yemanja a um rio, Olokun ao mar, as ajé são as que possuiam os 7 rios da terra na sua criação, iyewa também a agua e até Nana que nem é Yoruba. 

O elemento água, especialmente esta ligado a Oxun, é o único elemento que sozinho pode gerar e sustentar a vida e esta associado sempre a existência de vida. Tudo isso tem origem em Oxun. 

Se a água é um Orixá, qual ele será?  Não a água não é um orixá.

Ṣàngó (Xango) é dito ser o fogo, mas a real ligação dele com o fogo foi a capacidade que adquiriu de manipulá-lo, o que também foi feito por Ọya segundo um mito conhecido por todos no Candomblé. Ṣàngó (Xango) também esta associado com trovões e raios, sim, mas por manipulá-los porque ele é considerado a justiça de Olódùmarè, ou a sua ira, e joga os raios contra pessoas que de tão ruim que foram não merecem mais viver. Igualmente após a sua morte o mito diz que ele jogou raios contra as pessoas que diziam que ele tinha se enforcado.

No mito da criação que todos conhecem a terra foi criada por Olódùmarè e só havia a agua. Ele deu a bolsa da existência contendo os elementos que seria plantados e depois espalhado para formar a terra. Depois de tudo criado, conforme o odù oxetuwa os òrìṣà (orixá) foram enviados para suportar a vida ensinando os homens a se relacionar com o divino.

Os elementos foram trazidos do Órun pelos Orixá da criação.

Assim sendo o que ocorre é que os òrìṣà (orixá) como representantes ou intermediários de Olódùmarè e os homens passaram a ter poderes sobre determinados elementos da natureza, que eles trouxeram, que vão desde a água a doenças, mas, isso na sua forma controlada e organizada e não na sua forma violenta. 

Uma coisa é ter controle sobre uma coisa na sua forma suave outra é ser ou ter controle total. Assim por mais que se faça uma oferenda um furacão, um tsunami, um terremoto e uma seca não poderão ser evitados. Essa é uma manifestação descontrolada da força da natureza, os òrìṣà (orixá) ajudará os homens a se prevenir ou superar as consequências disso.

Isto esta descrito no texto do Odu Oxétuwa e coloca um ponto final nesta relação.


VISÃO RESUMIDA DO COSMO YORUBA

Rapidamente vou passar o cosmo Yoruba. Eu acredito que esta leitura rápida dará visibilidade de que estamos tratando de uma religião complexa, com conceitos positivos, muito longe da visão idiota que se tem através dos cristãos.

Os òrìṣà (orixá) são parte de um conjunto de divindades e não todo o conjunto. De fato são um conjunto menor. Nós que os cultuamos acabamos nos concentrando neles mas não podemos ignorar todo o restante do cosmo. Antes de tudo devemos nos lembrar que uma religião explica o mundo que vivemos e também o sentido de nossa vida, através de uma visão metafísica e composta com muitos elementos religiosos. É o contraponto da ciência, na qual tudo tem uma explicação determinística e racional. Além disso, na ciência, qualquer coisa é um fenômeno que pode ser sintetizado em equações e em previsibilidade (estatística). 

Em um mundo onde não havia ciência era a religião é quem explicava ao homem o sentido de sua existência e também tudo o de bom e ruim que lhe acontece. Aquilo que o homem não entendia de forma natural ou não percebia a razão, a religião de alguma maneira um contexto. Claro que não havia explicação para tudo. A religião se preocupa apenas com o que é importante para nós.

Em um mundo onde temos religião e ciência, o cosmo religioso se foca naquilo que nos faz bem, que nos direciona e que se eleva acima do entendimento racional. Um boa religião não se preocupa com a ciência. É a ciência que se preocupa em competir com ela.

No Cosmo Yoruba, como em outras religiões, temos um sistema metafísico que suporta toda a existência, assim as primeiras forças que se destacam são Olódùmarè e Èṣù (Exu). 

Olódùmarè é o criador de tudo, fonte da existencia, designador dos destinos e quem julga nossa vida. Èṣù (Exu) representa mais de uma coisa. A primeira é o axé. Èṣù (Exu) é considerado o transportador do axé, o movimento a força que põe a vida em ação. Além disso ele é o policial de Olódùmarè e da religião, é uma força neutra acima do bem e do mal que se encarrega de verificar que tudo seja feito certo e que o àṣẹ (axé) das oferendas façam o seu efeito. 

Também pune com o destino não evitado aqueles que falham no cumprimento de sua obrigação. Ele não é a favor ou contra ninguém.

A terceira força é Ọ̀rúnmìlà (Orunmila), porque ele é o mensageiro de Olódùmarè e dos òrìṣà (orixá). É Ọ̀rúnmìlà (Orunmila) que estabelece a comunicação entre o divino e o físico.

Depois temos outros grupos mais conectados:
  • Ori - que é um conceito complexo e traduz nossa vida
  • os ancestrais, a base de toda essa religião e que representam a sequencia da vida na terra.
  • Os òrìṣà (orixá)
  • Os espiritos
  • Ajé que são um elemento regulador da existencia evitando que tudo seja bem demais ou ruim demais. De fato um espírito que pode ser utilizado para o bem ou para o mal representando assim a ação dos homens.
  • os ajogun que são as coisas ruins (a morte, a guerra, a perda, a
    doença, a paralisia, a feitiçaria, as maldições, os problemas...
Os yoruba acreditam que tudo que é grande ou significativo é um espírito, assim uma montanha tem um espírito em si, uma arvore, como o iroko, é um espirito, um grande lago tem um espirito nele, o vento tem vários espiritos (nenhum é oya...) esta é a forma como os yoruba explicavam o mundo onde viviam, assim os espíritos estão presentes em tudo e torna o mundo um elemento vivo. 

Este tipo figura de representação é o que pode gerar essa relação com os elementos da natureza, mas observe, não são òrìṣà (orixá), são espiritos, e são associados com tudo como uma forma de os yoruba traduzirem as reações do mundo que os envolve.

Por uma questão de hábito ou correlação podiam até mesmo receber oferendas, uma vez que os òrìṣà (orixá) as recebiam, mas não me recordo de ter lido uma só linha de odù onde um desses espíritos recebesse algo.  Os odù nos relacionam com os òrìṣà (orixá) e na proteção contra os ajogun e ajé. Assim, conforme meu entendimento esses espíritos não são parte do culto principal da religião, fazem parte do entendimento do mundo por um povo agrário e sem ciência, mas estão longe de representarem um panteão de deuses.

Àjẹ́ (Ajé) é uma parte chave nesse quebra-cabeça. Sua existência explica a ação do mal ou do bem na sua forma mais direta. É o mal de uma pessoa contra outra e elas, conforme em todos os odù onde aparecem, passam por cima dos òrìṣà (orixá) e desta forma de sua proteção explicando porque mesmo uma pessoa devota e portadora do àṣẹ (axé) do seu orixá será afetado pela ação da Àjẹ́ (Ajé) que são provocadas por outros serem humanos. 

Para entender  Àjẹ́ (Ajé) eu recomendo ler, com calma, Verger. 

Os ajogun representam as piores forças da natureza ou a consequencia delas na sua forma mais bruta. São apaziguados com oferendas e desta forma através de Èṣù (Exu) e também são forças superiores a proteção dos òrìṣà (orixá).

Os òrìṣà (orixá) são divindades criadas e enviadas por Olódùmarè para nos proteger. 

Definir o que é um òrìṣà (orixá) seria como definir o que é um anjo. No nosso caso òrìṣà (orixá) é a representação de Olódùmarè na terra e os òrìṣà (orixá) possuem forças e propriedades designadas por esse. 

Eles se dividem em 2 grupos, os primordiais criados por Olódùmarè e os ancestres divinizados. Aos òrìṣà (orixá) cabe a assistência e proteção aos homens e conforme mito também conhecido, quando houve a separação do orun e do aiye eles não mais puderam transitar livremente entre os 2 mundos. Para isso teriam que contar com uma pessoa. o elegun. que seria preparado para ser essa ponte.Sem um elegun não temos òrìṣà (orixá), de forma que, onde não existem homens não existirá a divindade.

Assim os òrìṣà (orixá), sendo eles primordiais ou não, são manifestações reais do divino, eles se fazem presente junto de nós e são representados nos mitos e odù atuando como pessoas, sujeitos as mesmas coisas que qualquer um se sujeita. 

Devemos lembrar que essas estórias são metáforas e não expressão da realidade. É através delas que entendemos como nos comportar, que exemplos seguir, as consequencias de atos ruins, etc..

Ori, òrìṣà (orixá) e Émi (alma) representam a presença do divino em nossas vidas, nos orientado e protegendo, não sendo superiores a forças maiores do mundo que nos cerca, mas, sendo de uma forma muito vísivel para nós o exemplo de como devemos ser. 

Os òrìṣà (orixá) são a manifestação humana do divino, a mais próxima e a mais palpável que nos faz sentir protegidos, ouvidos e assistido por Olódùmarè. Eles são então parte de nosso ori, parte de nossa essência. Todos temos dentro de nós uma parte de  Olódùmarè, uma parte de nosso Orixá e uma parte de nossa ancestralidade.  Toda pessoa esta ligada a um Orixá.

O Orixá que se manifesta na terra, através da incorporação, é o nosso orixá. Um elegun é uma pessoa preparada para que o seu próprio Orixá se manifeste. 

Sem um iniciado o òrìṣà (orixá) não se manifesta no aiye (terra), o sacerdote feito é a ponte entre o aiye e o orun é a ligação do homem com o divino, não só para aquela pessoa mas para todas que a cercam, assim a feitura e a participação ativa na religião tem um sentido muito maior do que a própria satisfação pessoal. Os elegun são a presença do òrìṣà (orixá) na vida da terra e enquanto existirem elegun, enquanto existirem babalawo o divino estará junto da humanidade na forma dos òrìṣà (orixá).

Se os òrìṣà (orixá) fossem as forças da natureza então eles já estariam aqui e não seria necessária essa ponte qe representa o elegun

O pessoal da Umbanda, sempre muito confuso com tudo, e os Lukumi (cubanos, também muito confusos) são os primeiros a dizerem que os elegun não incorporam um òrìṣà (orixá), porque sendo eles elementos da natureza teriam uma força tremenda e assim uma pessoa, um elegun, não poderia os incorporar. 

Concordo com essa visão. Por isso que no Candomblé a gente sabe que o Orixá não é um elemento da natureza. Porque se fosse não seria necessário um elegun, nós não poderíamos ter dentro de nós o Orixá (como parte do Ori) e muito menos um elegun poderia incorporá-lo.

Por isso que, de acordo com o cosmo Yoruba, esta visão esta errada.

No Candomblé os elegun de fato incorpora o òrìṣà (orixá), ou sua energia como se queira. Desta feita para seguir com esse entendimento temos que desconsiderar que òrìṣà (orixá) sejam os elementos da natureza e sim divindades que tem o controle sobre alguns elementos.

Espero que os Babalorixás parem então de repetir essa bobagem.

Na concepção da religião, os òrìṣà (orixá) tem estreita ligação com os homens e não são forças desconectadas de nós. O cosmo yoruba não é muito simples mas o òrìṣà (orixá) tem um papel estreito com a raça humana e isso esta no nosso dia a dia e também nos textos de odù. A gente que vive isso todo o dia sabe o que e como é um òrìṣà (orixá). 

Nós também sabemos o que é a natureza e não temos como confundir um Orixá com a natureza. Um Babalorixá teria então que dizer que ele esta fazendo a "agua" na casa dele. ou fazendo o "fogo". Como todos sabemos que ele não esta fazendo então, Orixá é Orixá.

Na forma que eu vejo os òrìṣà (orixá) dentro da concepção metafísica da religião, eles são a ligação do divino com o homem, são reais e não concepções abstratas e inatingíveis, mas fazem parte da ordenação divina e representam a ação de forças que são superiores a nós, o divino, na assistência a nossa vida, seja pela nossa saúde, pela nossa prosperidade como pela nossa proteção. Não são absolutos mas são a parte mais significativa para nós no equilíbrio das forças que dominam o nosso mundo e dia a dia.


FINALIZANDO

Para quem chegou até aqui, como eu disse e repeti várias vezes a religião é composta de elementos muito importantes, alguns intangíveis como o iwa pele e o nosso destino, outros lembrados mais indiretamente atualmente que é a ancestralidade. Este ultimo se perde um pouco devido a que nem todos de uma mesma família seguem a religião e uma casa de santo esta longe de representar uma família espiritual, mas, mesmo que a gente não se lembre a ancestralidade é uma das bases da nossa vida.

A religião que a gente adota é complexa em parte porque existem de fato conceitos pouco claros, na origem, ou que se tornaram complexo devido a junção aqui no Brasil de várias correntes religiosas e regionais distintas. 

Infelizmente só recentemente surge um esforço de teologizar a religião e mesmo este esbarra na polêmica e no preconceito. Outras correntes religiosas, as cristãs contam com linhas filosóficas que procuram aprofundar as questões teológicas e sua interpretação. Infelizmente esta religião aqui não contou com isso na Africa e no novo mundo esbarra em uma babel pior ainda. 

Eu acho que não cabe discutir liturgias, mas, não podemos em função disso nos abster de discutir todo o resto independente de sabermos ou não as respostas.

... sem querer ser chato, mas enfatizando, assim, na formo que eu vejo o cosmo yoruba,  baseado em textos de odù que eu consegui ler até hoje, em mitos que eu li ou ouvi ao longo de anos, o òrìṣà (orixá) não faz parte da ordenação das forças naturais do mundo em que vivemos. Este ordenamento é atribuído a Olódùmarè que como o deus distante (ou tornado distante) faz com que a natureza e o mundo funcione.

Os òrìṣà (orixá) conforme aparecem nas histórias e explicitamente no odù óxéotuwa e Ogbe Meji, são os braços e mãos de Olódùmarè no aiye. Sofrem aqui com os mesmos fonomenos naturais que sofremos e não demonstram nunca controlar a natureza. 

Eles primariamente são a sua ligação do divino com nós, para nos ajudar e proteger. Nosso ori é feito com nosso òrìṣà (orixá). Os òrìṣà (orixá) surgem em todas as histórias  representando papéis comuns como se fossem pessoas comuns, com as mesmas perfeições e imperfeições que temos de modo a que possamos nos espelhar e entender o conhecimento que passam. 

São também a instância direta, junto com o ori e a ancestralidade, que recorremos para resolver nossos problemas, ligados ao nosso sucesso na nossa vida como a necessidade de termos saúde, de termos família, mulher, filhos, oportunidades, trabalho, dinheiro e podermos com nossa prosperidade darmos seguinto a nossa vida e atingir o destino que estabelecemos antes de iniciar essa nova encarnação.

Como braços e mãos de Olódùmarè os òrìṣà (orixá), conforme eu comentei no início disso tudo, alguns deles tem algum controle sobre elementos da natureza. Mas como elementos podemos considerar um todo, de vegetais, minerais, doenças, até fenômenos da natureza, e estes sao usados não de uma forma reguladora, mas como instrumentos de sua necessidade e ação em exercer a sua missão junto a nós.

Eu não consigo ver um òrìṣà (orixá) sem o mesmo estar relacionado com nossa vida, ficando longe do significado que tem os deuses naturais das tradições europeias e greco-romanas (não tenho conhecimento suficiente para citar outras).

O entendimento da metafísica desse cosmo deve passar pela lembrança que temos vários entidades e espiritos além dos òrìṣà (orixá). Este conjunto esta longe de ser perfeito e complementar, existem coisas que parecem redundantes ou que não são complemente racionais, mas, como sabemos é um povo muito simples, agrário e que não teve unidade, continuidade e pensamento filosófico próprio para poder explorar e documentar cada faceta da rica cultura e religião.

Por todos os argumentos que longamente descrevi a introdução desta visão de Orixá elemento da natureza não se adapta a religião Yoruba. Foi colocada por estrangeiros. A Religião Yoruba tem poucos elementos ligando a religião e a natureza. Sol, lua e estrelas nem fazem parte de mitos.

A religião é complexa, mas, o povo é bem mais simples. Os estranhos é que tem preguiça de aprender, preferem inventar.