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terça-feira, maio 10, 2011

O conflito iniciado-iniciador

Quando estava escrevendo o texto anterior, sobre o controle da prática da religião e também depois em um comentário do Erik, surgiu a questão das competêcias não realizadas de iniciador e iniciado. No momento do texto eu me desviei dessa questão senão ficaria um texto enorme, um assunto sem fim, mas o comentário posterior deu uma motivação adicional para fazer alguns comentários estruturados e não somente replicar a postagem.

No caso do Candomblé existem 2 regras que estão sendo negligenciadas e que trazem a causa para muitos os problemas ligados à necessidade de controlar a prática sem ética da religião. O mundo é complexo e longe de mim querer simplificar essa questão a apenas isso, mas, é um componente importante, ou uma causa raiz poderosa.

A primeira regra que esta sendo negligenciada é a falta de legitimidade de pessoas que estão abrindo casas. A maior parte das pessoas que são "donos" de casas abertas no Candomblé e mesmo na Umbanda, são pessoas que não foram legitimadas pelo divino, pelo seu Orixá para ser um babalorixá ou Iyalorixá.  

São pessoas que trocaram de casa para dar obrigação com outro que "desse" ou "anunciasse" esse direito que ela não receberia ou recebeu na sua casa original. Além disso existe o caso de muitos que nem a isso se deram o trabalho (de fato não faz muita diferença mesmo) e simplesmente abriram suas casas se auto-proclamando babalorixá ou Iyalorixá.

Posso ainda citar um caso extremamete comum que afeta pessoas consideradas famosas, presentes em rádios, jornais e revistas do meio, que são as pessoas que nem iniciação fizeram. Saíram da Umbanda e foram "virando" do Candomblé e hoje se dizem e se comportam como se fossem de fato sacerdotes.

Claro que não estou comentado nenhuma novidade. E o objetivo desse texto não é ficar dando espaço a estas fofocas de beco, mas, apenas explicar o que e como isso acontece.

A formação no Candomblé é muito difícil e rígida. O correto é uma pessoa escolher com cuidado a casa onde vai se iniciar e escolher quem será o zelador do seu Orixá. Essa é a escolha de uma vida, ou melhor, deve ser a escolha de uma vida. Ninguém deve ser obrigado a tomar nenhuma decisão ou fazer uma escolha que não esteja completamente segura e confortável. 

Não deve haver pressa do iniciado ou pressão do iniciador para essa decisão. Este é um processo natural de escolha e não de falta de escolha.

Uma vez decidido a iniciação, a feitura, é um processo longo, caro e de muito sacrifício pessoal. Serão uns 35 dias dentro de uma casa, além de meses de preparação e 1 ano de dedicação ao que foi feito. O processo de feitura somente se encerra na obrigação de 1 ano e a vida religiosa obrigatoriamete ligada aquela casa por mais 6 anos.

A vida de um iniciado, um Iyawo, é muito difícil, muito dura. A pessoa abre mão de muitas facilidades e se submete a infindáveis regras. Mesmo depois de seu 1 ano, ser Iyawo é uma submissão à humildade. De fato a pessoa tem que nascer de novo após sua feitura, porque sua vida jamais será como antes. Seja por regras impostas seja pela própria mudança que a pessoa vai passar, do seu interior para o exterior.

Isso não é para qualquer um. Eu não consigo ver qualquer pessoa passando por todo esse processo com facilidade.

O período de Iyawo de um iniciado dura até seus 7 anos, mas, observe, não necessariamente de tempo cronológico. No Candomblé o tempo só é contado quando se "paga" os anos através de fazer as obrigações de 1, 3 e 7 anos.  Se você cumpre o período mas não faz a obrigação, os anos não são contados e o seu ciclo se encerra. De fato o que importa não é o tempo e sim a obrigação. O ciclo somente se encerra quando se faz a obrigação de 7 anos que somente pode ser realizada, no mínimo, 7 anos depois da feitura.

Durante o período de Iyawo a pessoa não pode nada. Segue as regras e pouco aprende. Somente vai aprender o que observa, e isso exige discrição e interesse, ou o que participa sendo que sua participação nos ritos é muito restrita. O período de Iyawo é um período de sacrifício e de exercício da humildade. Eu admiro muito as pessoas que cumprem esses anos como devem ser.

Uma pessoa que entra em uma casa deve cumprir todo o seu período de Iyawo na mesma casa. Não se sai de uma casa para outra, dando uma obrigação com qualquer pessoa. As pessoas que fazem isso são ignorantes, ou devem ser de Umbanda, onde lá, na Umbanda não existe ligação enter o médium e a casa. No Candomblé, a feitura cria uma ligação eterna entre o iniciado e o iniciador, entre o Iyawo e o Babalorixá.  

Durante a feitura o axé da casa recebe o axé do iniciado e o iniciado recebe o axé da casa e do iniciador. No Ketu e nações que similares ou que o copiam essa ligação é viceral, mas isso já não é assim no Jeje porque o processo é diferente, contudo não sei nada de Jeje (o de verdade não essa coisa qualquer que temos aqui no Sudeste).

Não se tira "mão" de gente viva de nossa cabeça. O que uma pessoa faz pulando de uma casa para outra é emplilhar mão em sua cabeça e problemas também.

A primeira quebra de regra que tem ocorrido muito, são as pessoas que tomam decisões apressadas de se iniciar e mudam de casa.  A decisão foi apressada inadequadamente por zeladores despreparados ou pela própria pessoa que decide sem ter informação ou influenciada por informações falsas e erradas ou mesmo por vaidade. Um zelador preparado não deixar isso acontecer, mas, nesse caso já estamos falando do segundo problema.

Mas, a pessoa depois de se iniciar "descobre" de repente que não gosta do zelador, ou que acha a casa é longe ou feia, ou que as demais pessoas da casa são antipáticas e implicam com ela.  Assim, fazem o que acham normal nesse nosso mundo onde todo mundo pode tudo, vão embora para outra casa.

Errado.
Não é assim.  Se tivesse tido o mínimo de orientação iria aprender que isso não se faz, que não é o correto. Teria entendido de fato o que significa ser Iyawo ou o que significa a opção que fez de se iniciar em uma religião iniciática. Ela teria entendido o compromisso que estava assumindo e compreendendo de fato os vínculos eternos que iria estabelecer.

Todo mundo tem uma opinião, claro, baseado naquilo que aprendeu, que viu e viveu. A minha opinião é que uma vez feito esse vínculo ele esta estabelecido. Mudar de casa por um motivo fútil qualquer é apenas trazer problemas para sua vida. Existem motivos fortes que podem obrigar uma pessoa a sair de uma casa, principalmente ligados à relação da pessoa com o zelador e que teham origem em falhas de ética e caráter muito sérias.

Mas as pessoas mudam por motivos fúteis, por não entenderem o que é hierarquia, por não entenderem o que é humildade, por não entenderem que não estão ali para terem vontades. 

Se uma pessoa sai e vai para outra casa eu entenderia que o normal seria primeiro o zelador dessa casa que recebe procurar o da anterior para saber o que aconteceu lá.  Ele deveria apurar os motivos que levou aquela pessoa a abandonar o lugar que escolheu para ser iniciado e onde tanto sacrificios passou. Acho que a vaidade de ser escolhido em detrimento de outra, como se fosse um melhor, é apenas uma coisa que significa burrice, estupidez. Se você não sabe que motivos levaram aquela pessoa a sair da casa anterior como pode presumir que isso não vai ocorrer na sua e você seja o próximo da lista.

Isto além de mais inteligente chama-se ÉTICA e RESPEITO. Não só pelo outro babalorixá como também pela religião. Significa também SERIEDADE.

Garanto que a taxa de movimentação de pessoas entre casas seria muito menor se as pessoas adotassem isso e mais, se verificassem as credenciais da pessoa que estão recebendo, considerando como credenciais se a pessoa tem as obrigações e o tempo que diz ter.

Também, a pessoa que recebe um Iyawo deveria raspá-lo de novo e submetê-lo aos ebós e rituais da sua casa para estabelecer o vículo de axé. Não significa fazer uma pessoa de novo, porque não se nasce 2 vezes, mas, de internalizar a pessoa a nova casa trasformando-o em um igual.

Também se isso fosse adotado, mais ainda reduziria o número de pessoas que trocam de casas.

As pessoas tem que entender que a relação iniciado-iniciador é pautada pela paciência, respeito e continuidade.

Mas nesse ponto podemos também falar da segunda regra que é quebrada que é a de fazer babalorixá e iyalorixá pessoas que não receberam esse cargo, esse Oye. Não se enganem, ser um Babalorixá é para poucos. Muitos serão os iyawo, menos serão os sacerdotes, os egbon, e pouquíssimos serão os Babalorixá e Iyalorixá.
Ter uma cargo não é um decisão pessoal. Ter uma casa ou a sua própria casa não é fruto da sua vontade e disponibilidade de recursos. O divino, Olodumare e os orixás não são burros. Eles sabem as pessoas que tem condições de terem uma casa e iniciarem outros.

As pessoas ignoram isso, seja por desconhecimento ou safadeza mesmo. Elas acham que automaticamente quando ela completar os seus 7 anos elas vão receber o seu Deka e ter a sua própria casa onde poderão fazer o que quiserem.

Errado.

Não é assim. O cargo é dado pelo Orixá e o zelador não deve dar esse direito a quem não o recebeu do divino.

Mas as pessoas são imorais.  Elas pagam para receber esse direito. Elas pagam para recerem obrigações que não tem direito.  Quando percebem que não vão receber esse cargo na casa que estão elas saem da casa, vão para outra e para outra até achar um meliante que de o direito a elas ou finja que dá esse direito.

Algumas são mais práticas, elas simplesmente somem e aparecem com a casa aberta como se tivessem recebido. É muito comum a pessoa se iniciar em uma cidade e abrir casa na outra. Ou tem aquelas que viajam para dar obrigação e voltam com cargo.  Mais comum ainda são as pessoas que se dizem Iyalorixá e não tem nenhum parente de religião conhecido ou por perto.

O arsenal de imoralidades é imenso. A pessoa se move de obrigação em obrigação de lugar em lugar para apagar o seu rastro e história, aliás a história que não tem.

Raros são as pessoa que podem dizer que foram iyawo os 7 anos qie deveriam,  que fizeram todas as suas obrigações, que somente tiveram 1 zelador, que sabem dizer toda a sua ascendência e essa poder ser verificada, ou seja, de pessoas vivas e localizáveis que podem confirmar quem aquela pessoa é.

Lembro que somente depois que a pessoa fez 7 anos é que ela começa a aprender de fato. Somente quando virar um egbon ela  tera a oportunidade de participar de rituais que nunca viu e seu aprendizado ainda vai ser arrastar por anos. Ninguém sai babalorixá ou iyalorixá com 7 anos.

Isso tudo ai deveria ser o normal.  Mas não o é.  Por isso é que eu digo que respeito muito aquelas pessoas que cumprem o que é correto.

Assim uma das grandes fontes dos problemas que existem hoje o qual gente despreparada e sem conhecimento atua como se fosse uma zelador é porque as pessoas não fazem o que é o certo. Somente 1/100 das casas que existem deveriam existir.

Não pode existir uma religião de uma casa por pessoa!

Os conflitos iniciado-iniciado começam com a falta de preparo do iniciador e continuam com a falta de maturidade do iniciado. Os iniciadores deveriam recusar iniciações de pessoas que eles julgassem incapazes de cumprir os seus anos, de se relacionar com  colegas e de se relacionar com ele próprio.

Tenho certeza que as pessoas que tem cargo legítimo, recebido do orixá, sabem fazer isso. As despreparadas não sabem cuidar nem delas mesmas.